29 novembro 2011

O mediano desempenho do futebol pernambucano

Vencedores sem brilho
Luciano Siqueira

Publicado no Blog Algomais

Comentar futebol não é fácil, pois é praticamente impossível formular uma opinião isenta de emoção. Já fui desses para quem o melhor time do mundo era o seu, ainda que as evidências revelassem o contrário. Chegava até a experimentar uma boa dose de revolta porque fulano ou sicrano – poxa, um talento a ser reconhecido! – não era lembrado para a seleção brasileira.

Aos poucos fui me dando conta de que, nessa matéria, a fronteira entre a razão e o ridículo é nanométrica. Bastava escutar as polêmicas gigantescas travadas entre alvirrubros, rubro-negros e tricolores na calçada do Bar Savoy.

O tempo passou, a militância fez-se razão de vida, tornei-me pai... e foi-se pelo ralo o interesse cotidiano pelo futebol. Sequer me dispus a trocar uma tarde de domingo com a família por um bom clássico pernambucano. A seleção brasileira quase que só acompanho na Copa do Mundo e não dou a mínima para esses amistosos caça níqueis que equipes montadas ao sabor das circunstâncias – e dos interesses dos grandes patrocinadores – fazem de contas que são a canarinha e enfrentam Gabão, Nova Zelândia, Emirados Árabes, Costa Rica e que tais.

Isso tudo é para dizer que, mesmo sem a autoridade de quem frequenta os estádios – ou as arenas, como si diz hoje – anoto que a temporada se encerra com uma tripla vitória pernambucana: o Santa Cruz pulou da quarta divisão para a terceira; Náutico e Sport voltaram à primeira. Sem brilho.

Vitória é vitória, e pronto. Quem quiser que ponha gosto ruim. Na política, então, atribui-se a Agamenon a assertiva de que feio é perder – ou seja, vale vencer de qualquer jeito.

É que o Santa Cruz, a despeito do apoio de sua vibrante e generosa torcida, enfrentou muito dificuldade para ultrapassar concorrentes que, sem nenhum preconceito, não têm nenhuma tradição em competições nacionais, como os modestos Alecrim e o homônimo tricolor, ambos de minha terra, Natal. E outros tantos que sequer guardamos o nome. Mais de 60 mil torcedores no Arruda e um parto para que o gol salvador fizesse a galera explodir. Às vezes nem isso.

O Náutico passou ao grupo de elite por sua relativa regularidade, em comparação com concorrentes que percorreram trajetória em gangorra. Tanto que fez festa após perder para o inexpressivo Boa Esporte, beneficiado pelo fracasso de concorrentes. E o Sport foi salvo quando já respirava por aparelhos. Fez uma série de surpreendentes vitórias consecutivas, é verdade; mas teve o empurrão de outros, como o Vitória, da Bahia, que se deixou derrotar dentro de casa com dois gols nos dois últimos minutos de uma partida considerada ganha.

E os rubro-negros, todo mundo viu, refletiu sua caminhada claudicante e inexpressiva na substituição de técnicos, na formação de um elenco tão caro quanto incompetente. Chegou aonde chegou quase por milagre.

Sou do tempo em que os clubes locais armavam times de primeira a partir da prata da casa e da região. Gente que ia em toda bola dividida, vestia a camisa de verdade e interagia com a torcida como se todos estivessem, efetivamente, na luta. Seria possível voltar ao esquema de antes, ou temos mesmo é que formar equipes com a mescla de ex-craques em fim de carreira (com todo respeito) e desconhecidos do interior de São Paulo aqui apresentados como supostos futuros Ronaldinhos?

Dois velhos heróis alvirrubros, da fase gloriosa do hexa, me confidenciaram certa vez que perderam a tesão e quase não vão aos estádios – porque, segundo eles, “o torcedor é o último a saber”.

28 novembro 2011

Por amor ao Capibaribe, um museu na internet

Foto: Tuca Siqueira

Um museu para você conhecer, amar e defender o rio
Alexandre Ramos

. Museu Capibaribe abriu suas portas para visitação. Mas, não se assuste caso não encontrar um quadro pendurado na parede ou uma escultura sobre um pilar. Afinal, nele não há paredes nem chão. Mas é possível você apreciar a beleza que brota do rio Capibaribe, através fotos, textos e vídeos. O logradouro é o “www”. Por isso, este é um museu que pode ser visitado de qualquer lugar do mundo e a todo instante, ao mesmo tempo.
. Entre no barco e navegue pelos salões temáticos (o trabalho, a dor, o afeto), conheça “Um rio de gente”, faça uma parada em cada uma das cidades banhadas pelo Capibaribe e seja você também o timoneiro desta embarcação. Nele há um lugar reservado para expor as suas ideias, poesias, fotos, textos e qualquer obra que tenha o rio Capibaribe como tema.
. Museu Digital do Capibaribe http://www.museucapibaribe.com/ foi inaugurado no dia 24 de novembro de 2011 (Dia do Rio), na reunião do Comitê do Capibaribe. Visite, divulgue e participe.

27 novembro 2011

Nas palavras de Chico

A sugestão de domingo é da amiga Diva, nos versos de Chico: “Não chore ainda não, que eu tenho uma razão/Pra você não chorar...”.

26 novembro 2011

Clarice sempre sábia

A dica de sábado é de Clarice Lispector: “Que ninguém se engane, só se consegue a simplicidade através de muito trabalho.”

Uma crônica descontraída no Jornal da Besta Fubana

A gratidão dos bichos e os riscos da clonagem
Luciano Siqueira

Publicado no Jornal da Besta Fubana

Posso estar dizendo uma grande bobagem, fruto da minha absoluta ignorância no assunto: - os bichos também sentem gratidão, assim como podem ser ingratos.

Dia desses, vi um urubu que seguia o dono por toda parte na pequena cidade do interior de Minas Gerais, se não me engano, com um jeitão de protetor. No trabalho, no bar da esquina, na praça – estava ele ali, ora pousado sobre um poste, ora no chão, sempre por perto.

Conta-se que, recém-nascido, o urubu foi salvo de um incêndio pelo seu dono. Daí a relação de gratidão eterna entre a ave e o benfeitor.

Agora fico sabendo que os chineses clonaram um porco salvo de um terremoto. O animal ganhou notoriedade em 2008 após ter ficado um mês embaixo de escombros após tremor na província de Sichuan. Talvez após observação atenta, descobriram nele atributos pouco comuns que lhe dão um status diferenciado. Daí ter sido escolhido para a clonagem. Zhu Jiangqiang, nome do dito cujo, deu origem a seis réplicas idênticas produzidas a partir do seu DNA. Ele tem cinco anos de idade, equivalentes a sessenta anos de um de nós humanos.

Tudo bem. Supondo que o porco chinês, à semelhança do urubu brasileiro, alimente em seu ser um profundo sentimento de gratidão pelos que o salvaram do terremoto, surge uma pergunta inevitável: os seis outros “Zhu” dele clonados herdaram o mesmo sentimento?

Juro que não é falta de assunto. O que me inspira ao abrir tão relevante debate é a perspectiva do futuro, tendo como base a percepção de que essa coisa de clonagem vai avançar muito, como têm avançado de modo espetacular os demais ramos da ciência. Logo, não demorará muito nossos descendentes poderão ser replicados e numa mesma família – por exemplo -, se o sentimento passar de réplica a réplica, podemos ter quatro ou cinco jovens absolutamente tomados de amor por uma mesma namorada, ou réplica, e assim por diante.

Imagine o sujeito que, por uma razão ou outra, tenha que se mudar para outro continente sem poder levar consigo a namorada, ou vice versa. “– Fique triste não, meu bem, vou deixar com você um dos meus clones, que tem tudo de mim e dará conta do recado.”

Ou então o tumulto causado pelo interesse coletivo de clones apaixonados pela mesma pessoa, razão reconhecida e permitida em lei para a superação da monogamia por uma espécie de poligamia “natural”, própria da comunidade de clones. “– Um novo paradigma, senhores, resultado do progresso científico”, dirá um juiz da Vara da Família.

Donde se pode concluir que, por uma questão de bom senso, é bom ir devagar com o andor nessa história de clonar humanos. Ou não?

25 novembro 2011

Distorções do desenvolvimento

Crescendo, porém ainda muito desigual
Luciano Siqueira

Publicado no Portal Brasil 247

O Brasil retomou um rumo do crescimento desde o período Lula. Mesmo a redução, pelo ministério da Fazenda, da estimativa atual de 4,5% de crescimento para um patamar entre 3,5% e 4% de crescimento do PIB este ano é estimuladora, no ambiente de crise global e de ameaças externas à nossa economia. Algo que deve ser comemorado; com um pé atrás, entretanto.

É que não basta crescer. É preciso distribuir renda, elevar e conferir solidez à massa salarial. Pois o País cresceu a taxas das mais elevadas do mundo por cerca de cinco décadas, até os fatídicos anos setenta, e no entanto acumulou uma dívida social absurda, expressa no mapa das desigualdades montado a partir de estatísticas, como as do IBGE, e de estudos qualificados como os realizados pelo IPEA.

Agora mesmo o IBGE (com base no Censo 2010) registra que cerca de 50% da população sobreviveu com uma renda mensal de até R$ 375, menos do que o salário mínimo então vigente, de R$ 510. E tendo como referência o rendimento médio mensal domiciliar verifica-se uma distância abissal entre os 10% dos brasileiros com os rendimentos mais elevados, em torno de R$ 9.501, em contraste com as famílias mais pobres, sobrevivendo com apenas R$ 225 por mês.

As desigualdades mostram-se contundentes sob todos os ângulos em que se examinem os dados do Censo: 44,5% do total de rendimentos do País são monopolizados pelos 10% mais ricos, enquanto no outro extremo, os 10% mais pobres detêm apenas 1,1% dos rendimentos anuais. O rebatimento regional disso mostra que as regiões Norte e a Nordeste são as que ostentam menor número de trabalhadores com renda acima desse valor, com 2,6% e 3,1% respectivamente, bem aquém das percentagens do Sudeste (6,7%), do Sul (6,1%) e Centro-Oeste (7,3%).

A superação desse cenário demanda transformações de natureza estrutural, para além das políticas públicas de curto prazo. Pressupõe a realização de reformas a um só tempo imprescindíveis e politicamente desafiadoras, uma vez que dependem de uma consciência social avançada fruto de luta ampla e renhida – a agrária, a tributária, a urbana, a educacional, a dos meios de comunicação e a política.

Um exemplo: a reforma tributária progressiva, que inverta a ordem vigente levando a que os mais ricos e que detêm grandes fortunas efetivamente recolham impostos, enquanto os que ganham pouco paguem pouco e os que ganham quase nada sejam isentos. Hoje os detentores do capital usam de muitos artifícios para driblar o fisco, enquanto a grande massa de assalariados é condenada ao recolhimento compulsório.

Por isso a superação das desigualdades rima com desenvolvimento soberano, democrático e verdadeiramente progressista.

24 novembro 2011

Caótico atualizado

Caótico é o blog do competentíssimo e caráter nota 1000 jornalista Inácio França. Veja
o que há para ler no Caótico (http://www.caotico.com.br/)?
• Concluindo uma série de leituras de textos jornalísticos, o Caótico enveredou pelos campos minados do Vietnã e da Itália invadida pelos aliados com os correspondentes de guerra José Hamilton Ribeiro e Rubem Braga, na coletânea A arte da reportagem. A complexidade e o lirismo de mãos dadas nos textos densos e belos de Eliane Brum, em O olho da rua.
• Flávia Suassuna propõe uma discussão sobre o Enem que vai além do raso discurso midiático e do histerismo das redes sociais.
• Laércio Portela recorda os 40 anos do assassinato de Pier Paolo Pasolini, na praia de Óstia.
• Samarone Lima descobre a poetisa polonesa Wislawa Szymborska (como minha professora de russo era polonesa, me arrisco a sugerir a pronúncia Vislava Tchimbôrska) e seus poemas para ler em silêncio (clique aqui para ler mais).

Onde reside a fortaleza do PCdoB

Dois pilares de um partido que não se enverga
Luciano Siqueira

Publicado no portal Vermelho http://www.vermelho.org.br/  

Na história institucional brasileira são frequentes os casos em que um partido político sofre ataques e não resiste. Não apenas pela dimensão da agressão sofrida, mas sobretudo pela carência de musculatura sólida e hígida, teórica e política. A maioria permaneceu na cena política por um lapso de tempo conjuntural, não mais do que isso. Outros se perderam no redemoinho da luta teórica, incapazes de compreender que a realidade sofre constante mutação, trazendo à luz novas questões que a teoria há que responder. Por sectarismo ou fragilidade ideológica, sucumbiram ou mudaram de conteúdo e cor.

O Partido Comunista do Brasil, que fará 90 anos em 2012, sofreu imensas provações ao longo de sua trajetória – atacado pela repressão policial, muitas vezes; e envolto em tumultuoso episódio político-ideológico que lhe subtraiu momentaneamente princípios, programa, denominação e sentido estratégico, levando a que 100 quadros dissidentes o reorganizassem em 1962.

Em 1987, a propósito dos 25 anos da reorganização, João Amazonas publicou no jornal A Classe Operária notável síntese da natureza revolucionária inquebrantável do PCdoB no artigo “Por que o Partido venceu”. Dentre os fatores amealhados por ele, a fidelidade à teoria marxista-leninista, a ligação estreita com os trabalhadores e o povo e a capacidade de se orientar taticamente nas mais diversas situações. Isto como produto da capacidade do coletivo militante, orientado pelo seu centro dirigente, cumprir as determinações do seu Programa e do seu Estatuto – ambos atualizados e renovados para dar conta dos novos fenômenos no mundo e no Brasil.

Não é sem razão, portanto, que no cataclismo do final dos 50 e início dos 60 o Programa e o Estatuto estiveram na alça de mira dos que tentaram mudar a natureza do Partido.

Também não é sem razão que na atualidade, a par dos ataques sem fundamento desferidos contra um gestor público competente e idôneo – o ex-ministro Orlando Silva – vieram à tona, mais uma vez, na grande mídia, afirmações distorcidas sobre o Programa Socialista – assinalado por alguns, irresponsavelmente, como inviável nas condições do Brasil -, e sobre o Estatuto, tentando nele identificar normas que impingem a militantes comunistas ocupantes de postos em governos a obrigatoriedade de colocar supostos interesses partidários menores acima dos deveres assumidos para com o Estado. O que seria, nesse caso, segundo os detratores, a convalidação do mal uso de recursos públicos. Um imenso e grosseiro absurdo!

Porém por mais rasteiras que sejam as acusações, não cabe nenhuma ilusão de que a pena dos acusadores é bem instruída e tem alvo definido: chamuscar, aos olhos de militantes e aliados, esses dois pilares que dão força e vida ao Partido, em qualquer circunstância – o Programa e o Estatuto.

Daí porque, passada a primeira avalanche da atual guerra aberta contra o PCdoB, olha-se em torno e verifica-se que não há escombros a registrar; há, sim, uma organização mais unida, mais autoconfiante, mais determinada a cumprir seu papel histórico - porque atenta e ativa na defesa dos princípios e da linha política constantes no Estatuto e no Programa.

Ponto para o povo brasileiro, que terá sempre nesse partido uma fonte de orientação que o levará a grandiosas vitórias na luta por sua emancipação.

20 novembro 2011

A palavra poética de Tom

A sugestão de domingo é de Tom Jobim: “Vem de mansinho à brisa e me diz/É impossível ser feliz sozinho...”

Boa noite, Sophia de Mello Breyner Andresen

Liberdade

Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.

19 novembro 2011

Sempre em dia, disciplinadamente

. Aos que têm a paciência de ler a minha coluna semanal no portal Vermelho, que assino interruptamente há 9 anos, sempre às quintas feiras, esclareço que jamais falhei: envio o texto na quarta-feira, portanto com a antecedência necessária. Disciplinadamente.
. Inclusive quando em viagem fora do País: da China, da Euroipa, da África e de países vizinhos nossos na América do Sul.
. Mas de vez em quando o meu texto é publicado na sexta ou, como aconteceu hoje, no sábado. Por falha da redação do portal.

Superbactérias que nos ameaçam

Ciência Hoje Online:
O problema da resistência a antibióticos
. O surgimento de bactérias resistentes a quase todas as drogas antimicrobianas desafia a medicina. O artigo de capa da CH de novembro fala sobre as principais superbactérias, responsáveis por um número crescente de infecções e mortes em todo o mundo.
. Nas últimas décadas, o mundo tem testemunhado uma grande proliferação de bactérias patogênicas, envolvidas em uma variedade de doenças, que apresentam resistência a múltiplos antibióticos.
. O termo superbactérias, muito usado atualmente, refere-se a bactérias que acumularam vários genes determinantes de resistência, a ponto de se tornarem refratárias a praticamente todos os antimicrobianos utilizados nos tratamentos médicos, deixando clínicos e cirurgiões sem muitas opções para combater as infecções.
. Sem dúvida, um dos mais importantes fatores envolvidos na proliferação de superbactérias é a ampla utilização de antibióticos no ambiente hospitalar, na população extra-hospitalar (comunitária) e na agropecuária.
. Leia a matéria na íntegra http://migre.me/6bVit

Saber amar

A dica de sábado pé do amigo Marcus: "Quem ama não mima, enriquece."

17 novembro 2011

História: 17 de novembro de 1889

O imperador em caricatura de Rafael Bordalo Pinheiro
Reclamando que não pode ser tratado como "negro fugido", Pedro de Bragança, imperador deposto pelos republicanos, embarca na corveta Paraíba rumo ao exílio na França. (Vermelho http://www.vermelho.org.br/).

Sinais de novo tempo de lutas

Lá e cá um novo ciclo de lutas em perspectiva
Luciano Siqueira

Publicado no portal Vermelho www.vermelho.org.br

Em debates de que tenho participado nos últimos dias, a lembrança da previsão de João Amazonas, para quem o século XXI seria de “luzes e sombras. A princípio, mais de sombras do que de luzes; porém da segunda década em diante, um novo ciclo de transformações provavelmente acontecerá mundo afora”. Isto porque, analisava o dirigente comunista, seria impossível aos povos suportarem indefinidamente as consequências das políticas neoliberais então vigentes.

Pois bem. O que ocorre hoje na Europa, envolvendo os países da chamada Zona do Euro (e também nos EUA), em meio à segunda fase de agudização da crise global (iniciada em 2008), prenuncia o tempo de luzes a que se referia Amazonas. No EUA, faliu a estratégia de reconfiguração da dominação norte-americana sobre a economia mundial, com o estouro da bolha especulativa. A economia faz água e o governo Obama não encontra mecanismos capazes de retomar a produção e a oferta de postos de trabalho. Recorre às investidas bélicas na Ásia como forma de incrementar sua indústria armamentista, repetindo o figurino dos antecessores.

Na Europa, se em 2008, com a quebra de grandes bancos, seguradoras e grandes empresas envolvidas em operações especulativas de derivativos, os Estados puderam injetar trilhões de dólares na tentativa de salvá-los, agora a insolvência acomete os próprios Estados, que os bancos não poderão socorrer. Alemanha e França, líderes econômicos da Comunidade Europeia, já sofrem pesadamente o ônus de patrocinarem o socorro de países endividados, como a Itália, a Espanha e a Grécia. Mais: todas as medidas adotadas e previstas trazem a marca da recessão econômica, da regressão de direitos e do desemprego.

Uma onda de lutas operárias e populares, sinalizada em manifestações recentes, será questão de tempo. Certamente virá, ultrapassando os limites de sindicatos burocratizados e partidos de esquerda atônitos diante da crise.

Cá no Brasil o quadro é outro. Ainda fazendo uso de nossas potencialidades, apostamos em investimentos públicos em infraestrutura, no incentivo à produção e ao crédito e na manutenção de níveis razoáveis de emprego. Entretanto, o crescimento da massa salarial dos trabalhadores não acompanha em proporção satisfatória a curva ascendente dos lucros. Mesmo em regiões como o Nordeste, em que o crescimento do valor real do salário mínimo tem sido decisivo para a inclusão de milhões ao mercado de consumo, não se pode dizer que os que vivem do trabalho estejam bem aquinhoados.

Centrais sindicais, como CUT, Força Sindical e CTB, têm tentado colocar na agenda política a voz dos trabalhadores, através de demonstrações de rua.

Exemplo emblemático é o Complexo Portuário e Industrial de Suape, na Região Metropolitana do Recife, que concentra a maior parte dos grandes empreendimentos produtivos que alavancam o crescimento econômico de Pernambuco a taxas mais elevadas do que o conjunto do País. Ali os trabalhadores são submetidos a condições inóspitas e percebem salários bem abaixo do que pagam as empresas em relação a sua matrizes em outras regiões, do País e de fora – o que tem motivado manifestações ainda localizadas, porem expressivas, de operários que desejam melhor tratamento, a quase totalidade, neste caso, a margem de sindicatos burocratizados e passivos.

As situações são distintas, mas tanto lá fora como cá entre nós, gesta-se um novo ciclo de lutas operárias e populares.

Na posse da reitora Cláudia Sansil

. Agora à tarde, solenidade de posse da reitora Cláudia Sansil, do Instituto Federal de Pernambuco.
. Na minha breve fala, destaque para o papel do do IFPE na formação e capacitação de recursos humanos face demandas do ciclo de crescimento econômico atual.
. Reitor cessante, Sérgio Gaudêncio, fez balanço de sua rica gestão; reitora Cláudia, em discurso permeado de citações poéticas, marcou compromissos políticos precisos.

16 novembro 2011

Para capilarizar o encanto, a transformação e a magia
Luciano Siqueira

Publicado no Blog da Revista Algomais

A cultura como duplo vetor – da expressão do modo de agir, pensar, sentir, sofrer, amar e lutar de nossa gente; e do desenvolvimento econômico com inclusão social. Uma verdade factual que se consolida tanto mais quanto se multiplicam as boas práticas em matéria de política cultural.

Mas as coisas nunca são fáceis. O orçamento destinado à cultura é sempre diminuto, nas três esferas federativas do poder público. Por isso, muitas iniciativas comprovadamente vitoriosas alcançam uma cobertura muito aquém do desejável.

Nesse sentido, a deputada Jandira Feghalli (PCdoB-RJ), que preside da Frente Parlamentar Mista em Defesa da Cultura no Congresso Nacional, conseguiu aprovar, por unanimidade, na Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados, emenda ao Plano Plurianual (PPA) de 2012 a 2015 que proporciona a manutenção e a criação de mil novos Pontos de Cultura pelos próximos quatro anos. Os Pontos de Cultura integram o Programa Cultura Viva, do Ministério da Cultura, que desde 2005 viabilizou o trabalho remunerado para mais de 8 milhões de trabalhadores distribuídos em 4 mil organizações culturais em todo o país.

Jandira Feghalli, ao justificar a sua emenda, aponta uma insuficiência do PPA, na versão encaminhada ao Congresso pelo governo: ainda que tenha contemplado o programa Cultura Viva – que inclui projetos como os Pontos de Cultura, Pontos de Mídia Livre, Cultura Digital – falta assegurar recursos para a manutenção e ampliação dos atuais Pontos de Cultura.

A emenda aparentemente de abrangência limitada, tem, entretanto, um significado importante. Os Pontos de Cultura são entidades reconhecidas e apoiadas financeira e institucionalmente pelo Ministro da Cultura, que realizam ações de impacto sociocultural, em suas comunidades. Segundo o MinC, em abril de 2010, 2,5 mil pontos de cultura atuavam em 1.122 cidades brasileiras.

Chama a atenção na experiência dos Pontos de Cultura a flexibilidade operacional, uma vez que não seguem um modelo rígido quanto às instalações físicas necessárias ao seu funcionamento, nem quanto a conteúdos, programação e atividade. Podem ser instalados em uma casa, ou em um grande centro cultural. “A partir desse Ponto – orienta o MinC -, desencadeia-se um processo orgânico agregando novos agentes e parceiros e identificando novos pontos de apoio: a escola mais próxima, o salão da igreja, a sede da sociedade amigos do bairro, ou mesmo a garagem de algum voluntário.”

No dizer do ex-presidente Lula, “espaços permanentes de experimentação, encanto, transformação e magia.”

Portanto, uma experiência de capilarização de iniciativas genuinamente populares que merece, sim, ser fortalecida.

Quem tem medo do debate na Frente Popular?

Seria um simples arranjo se não suportasse o debate
Luciano Siqueira

Publicado no Blog da Folha

Se é democrática, implica debate; se é forte e pretende ser duradoura, suporta a divergência. A Frente Popular de Pernambuco é tudo isso e mais: vitoriosa, conduzindo um projeto de desenvolvimento do estado que, sintonizado com os novos rumos trilhados pelo Brasil, alcança o patamar de verdadeira revolução em nossa matriz produtiva, projetando em futuro mediato a triplicação do PIB e semeando, desde já, importantes mudanças no perfil das classes sociais. E – sempre é bom salientar – reelegeu o governador Eduardo Campos com mais de 82 por cento dos votos válidos, impondo ao outrora todo poderoso adversário, senador Jarbas Vasconcelos, uma derrota desmoralizante.

Ora, uma coalizão partidária ampla e de base social majoritária não pode se sentir ameaçada por discrepâncias táticas momentâneas, nem pela explicitação – legítima e compreensível – de pretensões deste ou daquele partido tendo em vista o pleito de 2012. Seria um simples arranjo e não uma frente. Até porque – nunca é demais frisar – as eleições municipais são por natureza conflitivas, pois põem em causa o poder local. E na maioria dos municípios é praticamente inevitável que partidos aliados em plano estadual e nacional enfrentem a disputa entre si, em âmbito local.

Isto posto, ninguém desconhece que a peleja na capital é o epicentro dos preparativos de todos os partidos – da situação e da oposição – para voos mais ousados em 2014. E é claro que à Frente Popular cabe o desafio de vencer na capital, não apenas para consolidar sua força no estado, como para evitar que a oposição combalida e anêmica de ideias recupere esse bastião.

Então, sendo a capital assim tão estrategicamente decisiva, vale almejar a unidade dos dezesseis partidos da coalizão governista em torno de uma candidatura única. Mas o caminho para se construir essa alternativa não é tão simples, ou cartesiano, como alguns aparentemente desejam. A começar pelo fato de que o partido hegemônico – o PT – tem dado indicações publicas, mediante declarações de alguns dos seus quadros mais influentes, de que ainda precisa de tempo para resolver se reapresenta o atual prefeito, João da Costa, ou escolhe outro nome.

Nesse cenário, e bem antes da fase pré-eleitoral propriamente dita (quando os partidos sentarão à mesa para debater e decidir), nada mais natural que alguns partidos façam conjecturas e ensaiem alternativas táticas, reflexos de discrepâncias que não se deve esconder, e sim tratar através do diálogo.

A resultante será, sem dúvida, a celebração da unidade em termos mais elevados e, por conseguinte, a fortalecimento da Frente Popular, que pode e deve seguir acumulando vitórias eleitorais e administrativas.

Bom dia, Cida Pedrosa

elipse
finco a chuva
entre tuas pernas
e espanto o estio

da pele fogem relâmpagos
da boca saltam trovões
nos olhos pairam coriscos
e um céu sertanejo

sulco a terra
neste plano horizontal
levemente oblíquo

caminho abissal
semeadura de contas
folhagem

teu verso coruscante
aflige ensandece espanta

o inverno se faz
em uma tempestade
quadrada
ao amor é dada
a calha

ah! quem sabe agora
o orvalho se move
e nos devolve as espigas
que colhemos durante a noite

14 novembro 2011

Uma visão da crise

No Vermelho, por Eduardo Bomfim:
Poder global, crise e conflitos

Os recentes acontecimentos internacionais confirmam que estamos vivenciando uma profunda crise global do capitalismo. Mas essa não é somente mais uma crise global do capitalismo como outras, recentemente.

As suas particularidades estão merecendo a devida atenção dos economistas, cientistas sociais e militantes políticos porque há algo de muito grave nos fatos em desenvolvimento.

As tormentas financeiras que estão sacudindo os Estados Unidos e a Europa estão provocando uma onda de descontentamento popular crescente onde se questiona o próprio sistema advindo da chamada nova ordem mundial, exigindo uma reflexão crítica do capitalismo. E, além do mais, ampliam-se os sinais de crise política.

Na Itália, o primeiro-ministro Sílvio Berlusconi, uma reedição da ópera bufa, foi até agora mantido no poder pelos Estados Unidos, França e Grã- Bretanha e deverá renunciar para que surjam alternativas à direita, menos desgastadas, que implementem ajustes fiscais neoliberais sempre conduzindo os italianos ao abismo.

A Espanha patina sem saídas concretas para o desastre econômico em que foi metida.

Já o povo grego foi sustado pela Comunidade Europeia e os EUA de votar em referendo se desejava ou não a forca no próprio pescoço.

Em todos esses episódios tem sido decisiva a presença do complexo militar-industrial-midiático hegemônico sob o comando norte-americano que tem sustentado militarmente, ideologicamente, toda espécie de intervenção armada, cinismo, desinformação e brutalidade.

Por outro lado há uma tendência de deslocamento estrutural de poder econômico e geopolítico no cenário mundial cujos atores principais são Brasil, Rússia, Índia, África do Sul, com maior ênfase na China.

Mas que não vem se processando pacificamente porque são cada vez maiores os conflitos de interesses e a resistência imperial norte-americana contra uma nova realidade global multipolar em persistente concretização.

Por exemplo, os Estados Unidos tem sabotado o Brasil em suas iniciativas de integração com as demais nações sul-americanas, como a rodovia bioceânica, do Atlântico ao Pacífico, entre o Porto de Santos e os de Arica e Iquique no Chile.

Intensificou através de campanha cultural e midiática a propaganda de uma sociedade fragmentada, multiculturalista, entre nós. Além de tentar boicotar o avanço da consciência política e mobilização da juventude brasileira.

13 novembro 2011

Sob o impulso da emoção

A sugestão de domingo é da amiga Lia: “Se é o que você sente, pise fundo, vá em frente e deixe para entender com o passar do tempo.”

12 novembro 2011

Bom dia Bertolt Brecht

Louvor do revolucionário

Quando a opressão aumenta
Muitos se desencorajam
Mas a coragem dele cresce.
Ele organiza a luta
Pelo tostão do salário, pela água do chá
E pelo poder no Estado.
Pergunta à propriedade:
Donde vens tu?
Pergunta às opiniões:
A quem aproveitais?

Onde quer que todos calem
Ali falará ele
E onde reina a opressão e se fala do Destino
Ele nomeará os nomes.

Onde se senta à mesa
Senta-se a insatisfação à mesa
A comida estraga-se
E reconhece-se que o quarto é acanhado.

Pra onde quer que o expulsem, para lá
Vai a revolta, e donde é escorraçado
Fica ainda lá o desassossego.

Crédito: estímulo cauteloso

. Informa a Agência Brasil que o Banco Central (BC) afrouxou parte das medidas de contenção do crédito anunciadas no fim do ano passado. Os empréstimos de curto prazo a pessoas físicas tiveram as exigências diminuídas. Para as operações de longo prazo, no entanto, as restrições aumentaram.
. As mudanças ocorreram por meio dos requisitos mínimos para o cálculo do patrimônio de referência exigido (PRE), espécie de capital mínimo que as instituições financeiras são obrigadas a manter para fazer frente aos empréstimos. As novas regras afetam o crédito consignado, o crédito direto ao consumidor (CDC) e a aquisição de veículos com garantia de alienação fiduciária, quando o automóvel pode ser tomado de volta em caso de inadimplência.
. Pelas regras antigas, o fator de ponderação do risco (FPR), usado no cálculo do capital mínimo para esse tipo de operações era de 75% ou 100% quando o prazo é de até 36 meses, dependendo do caso. Agora, esses limites serão aplicados em operações de até 60 meses para o crédito consignado e para a aquisição de veículos e de 36 meses, para o CDC. As mudanças, na prática, reduzem o capital mínimo exigido para essas operações.
. Os financiamentos de mais de 60 meses tiveram o capital mínimo aumentado. O FPR, que era 75%, 100% ou 150%, dependendo do tipo de operação, subiu para 300% para o crédito consignado e o CDC e passou para 150%, no caso de aquisição de veículos.
. Em comunicado, o BC informou que a revisão dos fatores de ponderação não prejudica as medidas prudenciais decididas em dezembro de 2010. “Esses ajustes estão inseridos no processo de aprimoramento das normas e estão alinhados às demais ações de caráter prudencial estabelecidas pelo Conselho Monetário Nacional e pelo Banco Central”, destacou a nota.

Belezas do mar na internet

Ciência Hoje Online:
Banco de imagens criado por pesquisadores da USP reúne fotos e vídeos da vida marinha para uso e compartilhamento gratuito.
. Imagens dos mais simples e microscópicos e também dos maiores e mais complexos seres marinhos estão disponíveis para visualização e download no Cifonauta, nova página do Centro de Biologia Marinha da Universidade de São Paulo (CEBIMar/USP) na internet.
. O banco de imagens criado pelos biólogos Álvaro Migotto e Bruno Vellutini reúne mais de 11 mil fotos e 270 vídeos de 300 espécies de animais, plantas e protozoários marinhos.
. Todas as imagens são fruto de pesquisas feitas na instituição e trazem informações como classificação taxonômica, estágio de vida e hábitat de cada organismo apresentado.
Leia a matéria na íntegra http://migre.me/68xdX 

O critério da verdade

Dica de sábado: A prática é o critério da verdade. E o tempo se encarrega de revela-la por inteiro – dirimindo dúvidas e incompreensões.

Orlando Silva e o exercício da calúnia pela Veja

No Blog de Luis Nassif, ex-repórter da Veja, Folha de S. Paulo, entre outros
CARTA DE ORLANDO SILVA PARA JORGE BASTOS MORENO
"Vivi um tsunami político"
O ex-ministro Orlando Silva enviou uma carta para o nosso querido coleguinha Jorge Bastos Moreno. Leia a íntegra abaixo:

Caro Jorge Bastos Moreno,

Vivi um tsunami político, mas continuei observando o comportamento de instituições e personalidades. Alguns se distinguiram com a coragem de não aderir pura e simplesmente a uma onda. Encontrar solidariedade em quem me conhece seria natural, o que surpreendeu foram posições de alguns intelectuais, artistas, atletas, gente simples do povo e até de parlamentares de oposição

Entre jornalistas não foi diferente. Houve quem sugerisse apurar fatos, valorizar o contraditório e não tratar denuncia como prova. A maneira isenta como você se posicionou nesse processo, com as responsabilidades que você possui, me faz lhe dirigir essa carta. E vou tentar fazê-la chegar a outras pessoas e profissionais. Ela é dirigida a você e a muitos outros.

Como disse, nas últimas semanas, vivi um pesadelo. Tudo começou com a reportagem numa revista semanal que eu imaginava ser apenas mais um ataque político, o que, infelizmente, é rotina em nosso País. Eu estava a caminho de Guadalajara, México, para representar o governo na abertura dos Jogos Panamericanos, onde o Brasil tinha a maior delegação da história numa competição internacional e que contou com grande o apoio do Ministério do Esporte.

Fiquei perplexo com a informação de que a tal revista iria publicar uma acusação de que eu teria recebido dinheiro indevidamente. Era sexta-feira à noite e a publicação sairia no sábado.

Estou acostumado com luta política, com crítica, divergência ideológica, ataques à gestão, antipatia pessoal, insatisfação com estilo...tudo isso eu sempre compreendi. Mas, mentir!? Inventar uma história para atacar a honra de uma pessoa e de um Partido!? Imaginava que luta política tivesse limites, afinal, até na guerra há limites. Estava enganado. A partir de uma farsa, foi organizada uma verdadeira campanha para me derrubar.

Observem: uma revista fez uma reportagem, com direito a chamada na capa, com base em fatos que simplesmente não existiram. Ultrapassamos o limite do absurdo!

E quem eram os porta-vozes das mentiras? Dois personagens da crônica policial de Brasília. Gente que está sendo processada por iniciativas do Ministério que eu dirigia, e de quem exigimos a devolução de dinheiro publico desviado.

Insisto, veja o absurdo: um sujeito foi flagrado desviando dinheiro público...eu determino que seja feita uma investigação...ao final determino que o dinheiro público seja devolvido...o ladrão inventa uma história...uma revista publica a farsa, sem existir nenhuma prova... os meios de comunicação reproduzem a história sem provas e pronto! A mentira ganha ares de "verdade". E começa a campanha "derruba-ministro".

Neguei a acusação, com veemência. Desde o primeiro momento, afirmei não haver provas, porque simplesmente se tratava de uma mentira. Nunca ocorreu o fato relatado pelos bandidos. Os dias passavam, eu reafirmava que se tratava de uma farsa, e, pasmo, acompanhava a maioria dos meios de comunicação endossando a versão dos bandidos, como se fosse dispensável provar o absurdo que diziam. Bastava acusar.

Passado praticamente um mês eu reafirmo minha primeira manifestação: não houve, não há e não haverá provas, porque a denuncia contra mim não passa de fantasia.

A trama montada serviu para atrair o interesse da população, que olha a política com desconfiança. Mas seria necessário outro passo. Seria necessária "uma prova" para desestabilizar minha liderança no Ministério do Esporte. Uma cruzada foi estabelecida por jornalistas que estavam em busca da tal "prova" ou, como alguns gostam de dizer, da "bala de prata" para derrubar o Ministro.

Eu poderia comentar cada uma das centenas de matérias publicadas nas ultimas semanas. Todos os contratos e convênios do Ministério foram revirados. Tudo foi investigado. Diariamente, dezenas de perguntas chegavam das redações da imprensa e nossa assessoria tinha prazos mínimos para responder. E o que é pior, pouco interessavam as nossas respostas, elas eram ignoradas. As matérias já estavam prontas.

Na gestão pública, assim como na gestão de qualquer instituição ou mesmo na vida privada, erros podem ser cometidos. Ninguém está imune a eles. O desafio é identificá-los e corrigi-los. Se observarmos minha trajetória e a de minha equipe à frente do Ministério do Esporte, por cinco anos, veremos muitas conquistas. Mas houve erros e atuamos para saná-los. Cumprimos sempre nossa obrigação.

O foco da trama se voltou para convênios com Organizações Não-Governamentais, as chamadas ONG's. Vale dizer que existem ONG's e ONG's, assim como existem governos e governos. Alguns são mais competentes, outros trabalham de forma mais correta. Quem tem má intenção, nunca chega anunciando: "olha...estou mal intencionado...meus objetivos são sórdidos!" Daí a necessidade de acompanhar, fiscalizar o cumprimento do que foi estabelecido. É o que fazíamos.

Quem se baseou apenas no noticiário, deve imaginar, por exemplo, que o programa Segundo Tempo ocorre apenas em parceria com ONG's. Mas, pasmem, no dia que sai do governo, mais de 90% do Segundo Tempo era fruto de parceria com entes públicos. E quem puder ler os relatórios das auditorias feitas, constatará a evolução ano a ano deste Programa.

Outra coisa inacreditável. As reportagens omitiam algo fundamental: o Ministério do Esporte aumentou a fiscalização, o que permitiu identificar erros e tomar as devidas providências administrativas. Deram ares de escândalo ao trabalho de acompanhamento e fiscalização que realizávamos. Isso serviu para criar instabilidade política e atacar meu trabalho na Pasta.

Nenhuma prova demonstra benefício ao PCdoB por meio dessas entidades. Mas a acusação tem objetivo político, atacar um Partido que tem 90 anos de história e é limpo. Insisto: divergências políticas e ideológicas fazem parte do jogo, mas acusações falsas...ameaçam a democracia.

Na ausência de provas, o que fazer? A saída foi inventar algo que parecesse razoável: a filiação partidária de alguns gestores públicos. De repente, ser filiado a um partido, no caso ao PCdoB, virou "prova de crime". Se o Ministro é do PCdoB, não se pode admitir que um secretário da área seja também. O mesmo vale para entidades. Não se admite que qualquer filiado ao Partido participe de entidade. Isso não é democrático. Os partidos políticos são livres e as pessoas têm direito de se organizar como lhes convier.

Quem nomeia secretario é prefeito e governador legitimamente eleito.

Os principais meios de comunicação e muitos jornalistas se comportaram como uma manada. É como ataque especulativo na bolsa de valores. O objetivo: desestabilizar e derrubar o Ministro. E isso foi conseguido. A receita é assim. Primeiro, cria-se um ambiente de escândalo, para comover a opinião pública. Segundo, ataca-se a gestão – de que forma? Ignorando tudo de positivo feito, apontando qualquer erro e superdimensionando-o para desmoralizar o trabalho realizado. Terceiro, pressiona-se o governo, utilizando todas as ferramentas da política, inclusive contradições internas, para alcançar o objetivo.

E se ainda não for o bastante para atingir o que se pretende, lança-se mão de uma reserva no arsenal de guerra contra a honra alheia: ataques à família.

Aqui tivemos um capítulo à parte. Comprar um terreno de R$370 mil, único bem que possuo, com cheque registrado em escritura e construir uma casa de 110 metros quadrados, virou escândalo. Não interessa que numa família as pessoas tenham suas atividades profissionais e suas relações. No afã de alcançar seus objetivos, para alguns vale tudo, até golpes baixos. Poderia dar outros exemplos, mas fico por aqui. O que eles queriam era me desestabilizar emocionalmente e me fazer jogar a toalha.

Durante todo o processo procurei manter a serenidade, não perder a razão, apesar de ataques tão baixos.

Ofereci a abertura de minha vida: sigilos fiscal, bancário, telefônico e de correspondência. Desmontei a farsa contra mim na Câmara dos Deputados e no Senado Federal. Propus a apuração dos fatos publicados pela Comissão de Ética Publica, pelo Ministério Publico e pela Polícia Federal. Foi minha a iniciativa e tentaram inverter a ordem, como se eu tentasse encobrir algo.

Hoje, inauguramos no Brasil uma Inquisição moderna, não interessa a análise racional de processos. O editorial de um jornalão paulista foi ao âmago da questão: "não importam as provas, não importa o processo, a acusação basta". É uma versão atual da famosa frase "às favas com os escrúpulos". O mau jornalismo pode instituir verdadeiros tribunais de exceção, que realizam julgamentos sumários.

Houve tempo em que nossos companheiros eram perseguidos, presos, torturados e até assassinados. Hoje, o método utilizado é a execração pública, o linchamento político, o apedrejamento moral sem que se dê direito de defesa. E, depois, a mídia age como se nada tivesse acontecido, e passa a buscar uma nova presa. Nesses dias, não saiu do meu pensamento episódios como o de Ibsen Pinheiro e da Escola Base.

Ao fim do processo, depois de uma conversa com a Presidenta da Republica, saí do governo.

Percebi interesses contrariados operando nas sombras. Triste, percebi gente de comunicação ser instrumentalizada e dar pouca relevância a fatos e informações. Não se pretendia esclarecer nada, apenas disputar como numa gincana, quem chega ao objetivo primeiro. A quem seria atribuída a queda de um ministro. Como na canção “Faroeste Caboclo”, a “via-crucis virou circo e eu estava ali”.

Talvez eu tenha incomodado interesses políticos e econômicos. Fui pedra no sapato de alguns. Fui vítima da luta política.

A realidade é que saí do governo de cabeça erguida. Pela porta da frente, apesar do massacre vivido. Em minha ultima manifestação, no Palácio do Planalto, disse, olhando nos olhos da Presidenta da República: sou inocente!

Num tempo de inversão de valores, tenho eu que provar minha inocência. E assim o farei.

Serei sempre grato ao carinho e a confiança que recebi de milhares de pessoas, algumas bem próximas, outras que sequer conhecia. É incrível a quantidade de pessoas que se aproximam de mim e diz: acredito em você! A todos, reafirmo: não traí e nunca trairei a confiança de cada um de vocês.

Serei sempre grato ao carinho e dedicação de minha equipe no Ministério do Esporte e de meus companheiros de governo.

Sigo lutando pelos meus ideais. Acredito no Brasil. Volto para São Paulo, para a mesma casa que meus amigos conhecem. Volto para a militância política por um País cada dia mais justo e democrático. Isso é o que me dá felicidade. E é muito bom estar mais perto dos amigos e dos companheiros. E de lá retomo minha trajetória política. A verdade vencerá!

Orlando Silva
Brasília, novembro de 2011

11 novembro 2011

A palavra certeira de Jomard Muniz de Britto

AUGUSTO por ele mesmo DE CAMPOS
Jomard Muniz de Britto

A nossa utopia tem raízes
no CONSTRUTIVISMO russo e na Bauhaus.
Um RACIONALISMO SENSÍVEL que visava à
clareza de idéias, tanto estéticas quanto sociais.
Em suma, a nossa posição, como poetas e
pintores, não era de remar a favor do vento,
mas, ao contrário, CONTRA A MARÉ,
beneficiados pela distensão democrática
do pós-guerra e pelo novo surto industrial
que repercutia na difusão da cultura.
PODE UM POETA VIVER DE SUA POESIA?
Ingressei na carreira de Procurador do Estado
por concurso público, em 1962.
Num quadro de injusta distribuição social,
como o nosso, em que o lucro e o mercado
são os motores da vida, os POETAS são
os SEM-TERRA culturais.
Foi a relação estrutural e sintática
entre as palavras que os concretos
buscaram modificar, adotando uma nova
sintaxe gráfico-espacial e antecipando
as fulminantes articulações que as novas
tecnologias iriam propiciar, algumas
décadas depois, entre o VERBAL e o
NÃO-VERBAL, o espacial e o temporal.
Há sempre gente interessante fazendo
poesia interessante, à margem da
maioria de gente desinteressante que
faz poesia desinteressante.
Não acredito - é óbvio - que toda poesia
deva virar concreta ou experimental
para ser válida. Mas o ECLETISMO
predominante nas novas gerações
NÃO ME ENTUSIASMA.
Parece-me uma solução FÁCIL DEMAIS,
e a POESIA É UMA ARTE DIFÍCIL.
Persigo a poesia sob o signo dessa
ESTÉTICA de RECUSAS, que me leva
a uma produção relativamente pequena.
Tento compensar-me dialogando com os
poetas que admiro através das traduções
e "intraduções", que ocupam 2/3 da
minha atividade poética.
Não me cabe dizer qual foi o LEGADO
da POESIA CONCRETA.
As novas gerações que nos sucederam
é que devem dizê-lo.
PULSAR. POESIA É RISCO.
Transcriações. SEM SAÍDA.
- Fragmentos retirados da Revista
POESIA SEMPRE. Ano 12. Nº 19.
Dezembro 2004.
Pela transcrição e maiúsculas,
Jomard Muniz de Britto, in Balada Literária,
SP/ 2011

10 novembro 2011

Uma experiência literária alternativa

. O zine literário SAMSARA existe há quase 11 anos (dezembro 2000), criado dentro da efervescência cultural de Peixinhos-Olinda, na época em que Anita Presbitero e outras pessoas colaboraram com a Biblioteca Multicultural Nascedouro de Peixinhos - Movimento Boca do Lixo (Olinda-PE).
. Segundo seus organizadores, O SAMSARA tem o intuito de valorizar e estimular jovens escritores que têm dificuldade de expor seus escritos em uma discriminadora panelinha literária existente há anos em Pernambuco, além de apoiar e divulgar textos literários. Portanto, o Samsara veio com essa sede de ajudar, de divulgar, de ser um meio de comunicação literária.
. Pela internet você pode participar enviando poesias, crônicas, contos (pequenos):
e.mail: samsara.literario.zine@gmail.com
MSN: samsaraliterario@hotmail.com
Comunidade no Orkut http://www.orkut.com.br/Main#C

09 novembro 2011

Trabalho infantil em discussão

De Juliana Fonseca, por e-mail, sobre o meu artigo Trabalho infantil no lado oposto da inclusão (veja mais abaixo postagem anterior):

. É uma dor saber da condição de vida daqueles que são conhecidos como o "futuro do País". Incluo a seu texto àquelas crianças que trabalham no sinal. Fico muito triste porque sei que muitas têm casas, mas seus pais são tão ignorantes que se expõem por trocados ao invés de cuidar melhor da esperança que seus filhos representam dentro de uma escola. A tristeza é ainda maior porque estes pecam por ignorância, mas àqueles que dirigem o Copom pecam por falta de solidariedade, de igualdade e fraternidade. Eles conhecem o problema, têm a chance de modificar a realidade, mas pouco se faz. Ainda vivemos à obediência de quem detém o grande capital. "Manda quem pode!" A saída é sim a redução dos juros e um grandioso investimento na educação. Criança tem que está na escola, se possível de modo integral. Até para se afastar da televisão que pouco tem a ensinar. E principalmente para levarem à luz do saber para casa, dividindo com a família. Devemos ter orgulho de nossos professores, de nossos assuntos curriculares, de nossos esportes... De nossa escola.
. Por outro lado, eu me conforto em saber que mesmo a lentos passos estamos mudando. Nunca perdi a esperança de um País mais justo e o Lula de certa forma deu força a essa ideia porque vi e vivo um Pernambuco completamente diferente daquele há 10 anos atrás. Deposito na Dilma, considerando o próprio discurso de posse, a continuidade das conquistas e a firmeza com que tratou à educação.

História: 9 de novembro de 1988

O Exército invade a CSN, Volta Redonda, RJ, ocupada por 8 mil metalúrgicos em greve, e mata 3 deles; a greve continua até 23/11. (Vermelho http://www.vermelho.org.br/).

Fator teórico-programático na construção partidária

Como se consolida um partido político?
Luciano Siqueira


Este é um tema de certo modo frequente na mídia e em círculos acadêmicos: o dos partidos políticos no Brasil, submetidos a variáveis históricas e atuais que, no todo, têm contribuído para que, aqui, diferentemente de outros países, inclusive nossos vizinhos argentinos e uruguaios, mas sobretudo na Europa, predomine a instabilidade e a tênue vinculação com compromissos programáticos.

Há que se considerar como pano de fundo do fenômeno, no caso do Brasil, a sinuosa a acidentada construção da República, que em pouco mais de cem anos sofreu o agravo restritivo de nada menos que dezoito intervenções militares – sempre na contramão da democracia. A prática democrática continuada é condição sine qua non de experiências partidárias longevas e consistentes, "em tempo de paz", à margem de epsiódios revolucionários.

Mas há uma variávels que pesam decisivamente, situadas nos próprios partidos, em grande medida independentemente de circunstâncias conjunturais: a base teórica e ideológica, os compromissos de classe, a capacidade de construir um pensamento político próprio e de se manter atado à sua base social – mesmo nos mais duros períodos de interdição legal e perseguição policial.

O PCdoB é o exemplo mais marcante, nesse sentido, na história institucional brasileira. Às vésperas de completar noventa anos de existência ininterrupta, amplia e diversifica sua inserção nas mais diversas instâncias e frentes de combate na sociedade – nas esferas institucional, social, teórica e científica – e avança na fortificação de sua matriz teórico-ideológica e política. Nesse intuito, uma iniciativa inédita acaba de ser lançada, a publicação “Estudos Estratégicos”, no dizer do secretário nacional de Organização do Partido, Walter Sorrentino, “uma verdadeira injeção na veia dos quadros”.

Isto porque, segundo Sorrentino, esta é uma necessidade decorrente das “responsabilidades ampliadas do PCdoB perante a nação, e a extensão de suas fileiras militantes bem como da estrutura de quadros, a complexidade crescente da construção partidária, (que) demandam instrumentos que possibilitem organizar a ingente luta pela ampliação e aprofundamento de conhecimentos e pensamento crítico”.

O foco são os quadros de responsabilidades nacionais, instados a estudarem em profundidade temas relacionados com os desafios do desenvolvimento do Brasil, à luz do Programa Socialista, e questões teóricas de fronteira, que dizem respeito ao próprio evolver da teoria marxista-leninista.

Vale anotar que tal iniciativa, apesar da sua ousada dimensão e do seu ineditismo, se insere tão natural quanto o nascer de um novo dia numa gama de realizações cotidianas deste partido que se renova aos noventa anos, capaz de arrostar os mais desmedidos desafios – a exemplo da contraofensiva que ora enceta contra a campanha difamatória que lhe move a grande mídia reacionária – e de avançar sempre.

Evolução dos primatas

Ciência Hoje Online:
Da solidão à sociedade
. Pesquisa sugere nova versão para evolução social dos primatas, segundo a qual nossos ancestrais teriam deixado a vida solitária para viver em grupos como forma de adaptação à mudança de seus hábitos noturnos para diurnos.
. O homem é um animal social, mas não foi sempre assim com seus ancestrais. Muitas teorias tentam explicar o motivo pelo qual os primatas deixaram a vida solitária para formarem grupos. Agora, uma pesquisa das universidades de Oxford, na Inglaterra, e Auckland, na Nova Zelândia, usa métodos estatísticos para sugerir que o primeiro passo na direção das sociedades se deu quando os grandes primatas (Hominidae) mudaram seus hábitos noturnos para diurnos, há 52 milhões de anos.
. Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores se debruçaram sobre as árvores genealógicas de 217 espécies de primatas. Por meio de um método de análise estatística e com base nos dados já conhecidos sobre o comportamento de uma parte dessas espécies, eles geraram modelos para determinar quais cenários eram mais prováveis.
. As lacunas deixadas pelas espécies cujo modo de vida é ainda desconhecido foram preenchidas com diferentes possibilidades – como vida solitária, em grupo de machos e fêmeas, em casal e em harém.
. O modelo de evolução social que se mostrou mais plausível indicou que os primatas fizeram a transição da vida solitária diretamente para os grandes grupos e, depois, há cerca de 16 milhões de anos, para modelos mais complexos como a vida em casal ou em harém.

Dramático subproduto das desigualdades sociais

Trabalho infantil no lado oposto da inclusão
Luciano Siqueira

Publicado no Blog de Jamildo (Jornal do Commercio Online)

De plantão na emergência de hospital público pode-se falar tudo, menos de rotina. Pelo menos pelos hospitais por onde andei desde ainda estudante, passando pela residência médica. Tem de tudo. Inclusive dolorosos episódios envolvendo crianças acidentadas no trabalho.

Nunca me esqueço de uma garota que atendi na emergência do Hospital João Murilo, em Vitória de Santo Antão, que aguentou a sutura a cru – porque o anestésico já não funcionava devido ao tempo da lesão – de um tendão de uma das mãos, que cortara no eito da cana. Uma lagrima sequer, apesar da dor, tal a sua intimidade com as condições adversas de existência.

Agora se divulgam novos números acerca de acidentes de trabalho envolvendo crianças e adolescentes – em contraponto à expressiva ampliação da inclusão de cerca de 30 milhões de brasileiros ao sistema produtivo, desde os dois governos sucessivos de Lula. Ou seja, esse mal revoltante – o trabalho infantil – está longe de ser erradicado em nosso país.

A Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho (Fundacentro) tem se ocupado do assunto. E mesmo constatando subnotificação em nossa rede de saúde, anota dados preocupantes: em média três menores de até 17 anos se acidentaram por dia trabalhando no Brasil nos últimos dois anos e meio; 37 morreram no trabalho.

São diversas as situações e os agravos à saúde registrados, que vão do distúrbio osteomuscular (DORT) por esforço repetitivo à mutilação parcial. Muitos casos se dão devido à exposição indevida a agentes químicos, que comprometem irreversivelmente a saúde e encurta a sobrevida.

O PETI (Programa de Erradicação do Trabalho Infantil), que realiza um conjunto de ações visando à retirada de crianças e adolescentes de até 16 anos das práticas de trabalho infantil, exceto na condição de aprendiz a partir de 14 anos, tem se ampliado e melhorado de desempenho, mas alcança cobertura ainda limitada – pouco mais de mais de 820 mil crianças afastadas do trabalho em cerca de 3,5 mil municípios. Tem sentido assistencial e procura remediar o problema, muito pouco o previne.

A prevenção só é possível com a elevação do patamar de desenvolvimento econômico em moldes que distribuam renda e valorizem o trabalho. Isto porque em geral as crianças vão precocemente à labuta, ao invés de frequentarem a escola, justamente pela necessidade de reforçar a renda de famílias submetidas à condição de extrema pobreza.

Bem que os senhores todo-poderosos que se reúnem no Copom (Conselho de Política Monetária do Banco Central) pensassem nisso quando arbitram o valor da taxa básica de juros, a Selic, compreendendo que a sua redução contribui para o incremento da produção e do emprego – e, em grande medida, para a diminuição do trabalho infantil.

Institucionalidade partidária e ação política

Hoje, 18h, a Comissão Política Municipal do PCdoB no Recife se reúne para monitorar a implementação das decisões tomadas em reunião plenária da direção municipal, sábado último. Com foco nos preparativos do Partido para as eleições de 2012 e no impulso às lutas sociais.

08 novembro 2011

Enio vê a crise na Europa

Charge de Enio Lins na Gazeta de Alagoas

Pequenas e micros: um estímulo necessário

. Informa a Agência Brasil que o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho, espera por “ampliação significativa” do crédito da instituição para pequenas e médias empresas este ano. A expectativa é que esse segmento seja responsável por cerca de 36% dos desembolsos do banco este ano.
. Segundo o BNDES, foi liberado o volume recorde de R$ 36,2 bilhões até setembro deste ano para micro, pequenas e médias empresas, com alta de 8% na comparação com igual período de 2010. O total de desembolsos do banco ficou em R$ 91,8 bilhões no período.
. De acordo com Coutinho, uma das ferramentas importantes para as pequenas e médias empresas é o Cartão BNDES, com desembolsos de R$ 5,2 bilhões de janeiro a setembro deste ano. A expectativa para o ano é chegar a R$ 7,5 bilhões. “Outra preocupação relevante é a distribuição regional dos recursos do BNDES”, disse Coutinho, em audiência pública na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado.
. Segundo Coutinho, a concentração da liberação de recursos para a Região Sudeste começou a ser revista. De acordo com ele, houve aumento da participação do Norte, Nordeste e Sul do país nos desembolsos de recursos dos bancos.
. Apesar da expectativa de aumento da liberação de recursos para as micro, pequenas e médias empresas, Coutinho disse que em 2011 houve redução dos desembolsos totais do banco, comparado com anos anteriores. Isso aconteceu porque o banco atuou com mais força no período da crise financeira internacional, iniciada em 2008, quando houve redução do crédito de bancos estrangeiros. Em 2011, segundo Coutinho, houve a decisão da direção do banco coordenada com área econômica do governo para moderar o ritmo de desembolsos.
. De janeiro a setembro, os desembolsos da instituição (R$ 91,8 bilhões) foram 28% menores que o total liberado no mesmo período do ano passado, R$ 128 bilhões.
. O presidente do BNDES defendeu ainda o sistema financeiro composto de bancos públicos eficientes e instituições privadas, o que gera capacidade diferenciada para enfrentar crises. “As economias que têm sistema misto de crédito público e privado têm configuração econômica superior em termos de capacidade de enfrentar crise”, disse.

Gesto de afirmação do Brasil na cena internacional

Rio+20: qual sustentabilidade?
Luciano Siqueira

Para o Blog da Revista Algomais

Um momento de afirmação da posição brasileira no concerto internacional: a Rio+20, que se realizará em junho do ano vindouro. É o que sugerem as linhas gerais do documento enviado à ONU pelo governo brasileiro, preparatório da Conferência.

Duas afirmações centrais lastreiam o texto: 1) o desenvolvimento sustentável implica necessariamente erradicação da pobreza e inclusão social; 2) a questão energética deve ocupar o centro do debate.

Em grande medida isto quer dizer que o Brasil não se submete às pressões externas, movidas, sobretudo pelos EUA e pela União Europeia – que no fundamental dilapidaram seus recursos naturais – no sentido de nos impor obstáculos ao desenvolvimento sob o disfarce da preservação ambiental. Sim, é preciso defender a vida no Planeta, precisamente possibilitando que milhões deixem a situação de penúria em que se encontram e sejam incluídos no processo produtivo. Fora disso, resta a falsa preservação, à custa do sofrimento dos mais pobres e dos condenados a viver sob condições inferiores à linha da pobreza.

Quanto à questão energética, poucos países no mundo hoje têm tanta autoridade quanto o Brasil para falar do assunto. Estamos na linha de frente da diversificação da matriz energética. Por isso queremos que se debata essa verdade insofismável de que não há desenvolvimento sem geração de energia.

Não se trata de escamotear nossos problemas nesses dois aspectos, o do combate à pobreza e o do uso de fontes de energia para sustentar o crescimento econômico. Trata-se, sim, de encará-los de frente; e de concitar os países presentes ao conclave a reverem posições importantes sobre o assunto. Basta que se olhe para o modo como os EUA e a Europa enfrentam os impasses da segunda fase de agudização da crise econômica e financeira global, neste instante. O conjunto das medidas adotadas, não sem agudo conflito social e político, procura preservar os interesses do setor rentista em detrimento dos que vivem do trabalho, empurrando-os para o desemprego e para a perda de direitos sociais básicos. Equacionar a estratosférica dívida pública dos Estados da zona do euro (e dos EUA) à custa do emprego e da produção dá num beco sem saída, como bem advertiu a presidenta Dilma em recente reunião do G20.

Assim, o documento enviado à ONU sugere, com propriedade, a instituição de uma 'bolsa verde global', através de que seriam garantidos aos que vivem na miséria renda mínima, segurança alimentar, moradia digna e acesso à água.

Além disso, se adotaria um sistema de compras governamentais e de oferta de crédito para estimular as boas práticas das empresas na relação com o meio ambiente.

A Conferência não tem poder decisório, mas pode ser emblemática do ponto de vista político, inserindo-se no ambiente geral de transição em curso da ordem mundial unipolar, hegemonizada pelos EUA, para uma nova ordem, multipolar, em que os desafios da Humanidade possam ser encarados sob prisma efetivamente progressista.

Três elementos novos na conduta do PCdoB face 2012

Em busca da sintonia fina entre partidos aliados
Luciano Siqueira

Publicado no Blog da Folha

O repouso é relativo, o movimento é absoluto, ensina a dialética – essa representação teórica da vida como ela é. Na política isso é tão verdadeiro quanto em todas as demais esferas da vida social.

A tradição política mineira, que tem na paciência e na habilidade algumas de suas marcas reconhecidas, recomenda pensar que a política é como nuvem: você a vê numa determinada posição e no instante seguinte já está noutra.

Esse introito, em tom sério e ao mesmo tempo descontraído, o faço para mencionar três elementos novos no modo como om PCdoB – partido que presido no Recife – analisa o quadro político-eleitoral em formação, tendo em vista o pleito de 2012. Isto conforme resolução adotada pelo pleno de sua direção municipal, sábado último.

Primeiro, com a ressalva de que é preciso evitar a contaminação da gestão atual pelo debate antecipado em torno de alianças eleitorais, há que se reconhecer que o tema já é foco das atenções de todos os partidos – da Frente Popular e da oposição. Não há como tapar os ouvidos, nem fechar os olhos para essa realidade.

Segundo, neste instante, digamos, que antecipa o período pré-eleitoral propriamente dito (vésperas das Convenções partidárias, que ocorrerão em junho do ano que vem), têm sido recorrentes manifestações públicas de alguns partidos coligados no sentido de que desejam colocar à mesa quadros de suas fileiras para a consideração dos demais, inclusive para encabeçar uma possível chapa unitária. Isto quer dizer que, como especulação, os que assim se pronunciam sugerem que necessariamente não tem que ser um quadro do PT, o prefeito João da Costa ou outro, o candidato a prefeito.

Agregada a essa conjectura, vem também implícita a hipótese de mais de uma candidatura do campo governista.

Nos termos em que a questão tem sido abordada, nada demais. Sequer o PT pode se sentir incomodado, uma vez que o caráter democrático da coalizão governista há que absorver como legítima toda e qualquer especulação. O debate haverá de esclarecer pontos de vista, dirimir dúvidas e eventuais discrepâncias, levando a convergência de propósitos a um patamar mais avançado.

Importa, sim, perseverar no objetivo comum de prosseguir o ciclo de transformações que se operam na cidade desde a primeira gestão do prefeito João Paulo, iniciada em 2001.

Terceiro, o PCdoB – sem deixar de lado a cautela e o equilíbrio que presidem sua conduta no interior da Frente Popular – busca o diálogo imediato com todos os partidos coligados para examinar as várias conjecturas trazidas à tona. Uma atitude proativa em favor da unidade, condição necessária ao êxito eleitoral em outubro de 2012.

07 novembro 2011

No Blog da Folha, a resolução do Comitê Municipal do PCdoB no Recife

Blog da Folha:
PCdoB aprova resolução que defende o início dos diálogos com partidos da Frente e reafirma apoio à PCR

Manter a unidade da Frente Popular no Recife através do diálogo amplo e propositivo
Resolução da Reunião Plenária do Comitê Municipal do PCdoB

O PCdoB, fiel aliado do PT, aprovou uma resolução em sua 12ª Conferência Municipal, concluída ontem (5), que, entre os tópicos, avisa que iniciará, de imediato, o diálogo com os partidos que integram a Frente Popular em Pernambuco. As conversas, de acordo com o documento, têm o objetivo de avaliar o atual cenário político. O documento chega após o conturbado fim do prazo de mudanças partidárias e de domicílio de votação - como exige a legislação eleitoral -, que causou estremecimentos na aliança das principais agremiações do Estado.

Todos os tópicos descriminados na resolução corroboram com o posicionamento do presidente estadual da legenda, o deputado estadual Luciano Siqueira. Em recentes declarações e artigos publicados na Imprensa, o dirigente comunista considera como legítima as movimentações dos partidos com vistas em fortalecer a coalizão, de olho em 2012. Contudo, o parlamentar condena a antecipação do debate eleitoral.

Logo no início do documento, o PCdoB reafirma o compromisso em dar prosseguimento ao "ciclo de transformações", iniciadas na gestão do ex-prefeito João Paulo, "em consonância com as mudanças que se operam em Pernambuco". Os comunistas ressaltam que as "mudanças" implicam em "na união de propósitos e de ação entre os partidos coligados, assim como na elevação do nível de atividade dos movimentos sociais presentes na cena local".

Em um dos pontos, o PCdoB reitera o compromisso de apoio com a Prefeitura do Recife (PCR), comandada hoje pelo prefeito João da Costa (PT), e defende que a gestão "não pode nem deve se deixar contaminar pelo debate eleitoral". Para isso, os comunistas cobram posicionamento dos demais partidos para 'poupar' a administração municipal do foco das discussões e para não antecipar o debate eleitoral, a quase um ano do próximo pleito.

O documento, que contém seis tópicos, conclui considerando válida o lançamento de uma candidatura única no campo governista, desde que seja acordada com todas as legendas da Frente. Caso contrário, a resolução admite "outras hipóteses táticas" e na defesa do início imediato do diálogo com os partidos aliados para fazer uma avaliação "sobre o cenário em evolução".
*
Veja abaixo, em postagem anterior, a íntegra da Resolução do PCdoB.

Bom dia, Audísio Costa

O tempo

Pousa a ave a cantar
Com seu canto encantar
Passa o vento
Passa o tempo
Vai-se luz
Fica o escuro
Mas sempre o tempo passa
Sem parar
Sem se cansar
Muitos lutam o dia todo
Sem tempo pra ver o tempo
Que passa sem esperar
Quem pensa que está acordado
Ou mesmo em pleno sono
Quando fica sem pensar
Pode o sonho ser tão belo
Que não se deseja acordar
Mas na verdade é o tempo
Que não para de passar
Que nos deixa desafios
Que temos de enfrentar
Com coragem e ousadia
Sem perder a esperança
Nos que estão noutro lugar.

Bibliotecas comunitárias, um exemplo

Mutirão da biblioteca
Carminha Bandeira

Publicado na Interpoética

Há aproximadamente duas semanas teve início o mutirão de construção da Biblioteca Comunitária Caranguejo Tabaiares (BCCT). Essa biblioteca já tem mais de cinco anos e surgiu da iniciativa de um grupo de moradores da comunidade Caranguejo Tabaiares, que fica na Ilha do Retiro, próxima ao SEBRAE, ao Sport Club do Recife e à Universidade de Pernambuco.

O envolvimento dos jovens da comunidade com o projeto da biblioteca é o ponto alto de sua sustentabilidade, mas eles também contam com o apoio de outras instâncias locais, como o Grupo dos Idosos (coordenador por Cleonice, conhecida por Nice) com quem mantém uma firme parceria a Associação de Moradores e o Centro Publico de Economia Popular e Solidária “Maria Luzinete Costa”.

O forte senso de organização, solidariedade e espírito coletivo de seu coordenador Reginaldo Pereira é responsável pela mobilização de várias entidades que colaboram com a BCCT. Além das entidades citadas acima, situadas no seu entorno, a biblioteca conta ainda com a contribuição do ETAPAS, SEBRAE, FCAP, da FAFIRE, da Fundação de Cultura Cidade do Recife, do Programa Manuel Bandeira, do Programa Pernambuco Lendo, Companhia Criativa e outras. E com a solidariedade de uma Rede de Amigos, cujos integrantes ajudam com serviços e às vezes com pequenas contribuições financeiras.

Desde 2007 a BCCT integra a Rede de Bibliotecas Comunitárias do Recife (Releituras) que tem apoio financeiro e assessoria pedagógica do Instituto C&A (Programa Prazer em Ler)

A biblioteca funciona nos três turnos e atende diariamente aproximadamente 50 crianças. Além de Reginaldo, mais oito jovens atuam na biblioteca desempenhando as tarefas de mediação de leitura, auxiliar administrativo e atualização do blog. São Ana Paula, Jadilson, Janaina, Jully, Leninha, Mayara, Rayane, e Rodolfo.

Uma das ações importantes realizadas pela biblioteca é o atendimento às crianças da Escola Municipal Santa Edwiges, que fica na circunvizinhança, através do Programa Mais Educação (MEC). Existe um convênio formal entre MEC/Escola e a biblioteca, firmado através de acordo que estabelece o atendimento a um número determinado de crianças que não desenvolveram adequadamente as competências básicas de leitura e escrita, conforme os sistemas de avaliação nacional, estadual e municipal.

As crianças são atendidas no contra turno escolar, para participar de leitura de textos literários, ouvir histórias e escrever, buscando superar as lacunas relativas ao processo de alfabetização, muito comuns em ambientes cujas famílias ainda não se apropriaram da cultura letrada.

Somando os recursos oriundos desse convênio, com os do projeto do Instituto C&A, com algumas bolsas disponibilizadas pelo Programa Manuel Bandeira de Formação de Leitores, os jovens transformam o total numa espécie de bolsa auxilio BCCT e fazem uma redistribuição per capita que chega a aproximadamente a 50% do salário mínimo. Isso não é regular e em alguns meses, especialmente em janeiro e julho, por causa das férias, eles não contam com os recursos do Programa Mais Educação, o que provoca uma míngua na bolsa, que prejudica e às vezes impossibilita esse compartilhamento.

Curiosamente nesses dois meses, os jovens realizam uma atividade programática da maior importância – a Semana do Conto de Histórias – que na verdade é uma quinzena e tem como objetivo oferecer um programa intenso de leitura e linguagens, a aproximadamente 150 crianças diariamente (nos três turnos) como uma alternativa de ocupação sadia nas férias. Além do envolvimento direto dos 09 jovens, eles mobilizam o dobro disso de voluntários da comunidade que se envolvem com a atividade, além de contar com a participação também voluntária de poetas, contadores de histórias, escritores, músicos , cordelistas, entre outros.

A precariedade do espaço onde atualmente funciona a BCCT fez com que esses jovens da BCCT, com apoio de Nice, do Clube de Idosos, partissem para a construção de uma nova sede que deverá abrigar as duas instituições. Ou seja, a coordenação do Clube de Idosos propôs derrubar um barraco onde funcionava a sua sede (o que já foi realizado) e dar início à construção de um novo espaço, mais amplo e com melhor estrutura. No que se refere à assessoria técnica da construção, estão contando com a ajuda de engenheiros e arquitetos ligados à UPE.

A nova construção terá um piso térreo, a ser destinado ao Clube dos Idosos; e o primeiro piso, onde funcionará a BCCT. Isso porque a casa onde atualmente funciona a biblioteca se tornou muito pequena para abrigar mais de cinco mil livros que hoje constitui o acervo da biblioteca. Não existe mais espaço para estantes e para a recepção de novos livros. Além disso, a casa não oferece condições adequadas de atendimento aos usuários, que no momento, são majoritariamente crianças e adolescentes. E o aluguel representa um custo adicional, para quem sobrevive com recursos tão minguados.

Todos estão convidados a participarem do mutirão de construção da nova sede da BCCT / Grupo dos Idosos, contribuindo com serviços, materiais de construção e doação financeira. Quem quiser entrar nessa ciranda pode fazer contato com a BCCT nos telefones 8785-9536 ou 3077-2535. Ou acessar o blog http:// bibliotecacomunitariact.blogspot.com/ construcabccteciuv.blogspot.com

Além disso pode participar do Fórum em Defesa do Livro, da leitura e das bibliotecas, para ampliar o debate sobre o papel fundamental das bibliotecas numa política publica de leitura. O fórum conta com a representação de várias instâncias governamentais e da sociedade civil, mas é muito bem vinda a participação dos gestores, conselheiros de educação e cultura e dos representantes da Câmara Municipal e à Assembléia Legislativa.

Um dos entraves enfrentados no momento neste fórum é saber como avançar na execução de um projeto de lei que já foi votado e sancionado há praticamente dois anos e não se sabe o que está impedindo a operacionalidade. A lei contempla ações em parceria entre estado e sociedade civil enfatizando o aprendizado de uma gestão compartilhada e democrática, na perspectiva das redes.

Diante de um trabalho tão importante, conduzido por jovens que sobrevivem no limite da linha de pobreza e abrem, com esforços próprios, caminhos para a inserção no mundo da leitura, escrita e informação, perguntamos por que é tão difícil para os gestores estabelecerem políticas que:

• Valorizem as bibliotecas como ambientes de acesso à informação e disseminação da cultura letrada?
• Apóiem as bibliotecas comunitárias, criando um fundo voltado para a renovação permanente de acervo e melhoria das instalações, envolvendo o desenvolvimento de concepção de ambientes adequados?
• Criem uma modalidade de bolsa, para jovens agentes de leitura das comunidades?
• Fortaleçam a Universidade apoiando cursos de formação de mediadores de leitura e orientações técnicas à catalogação e informatização de acervos e incentivo ao sistema de empréstimos e circulação dos livros entre as famílias?

06 novembro 2011

PCdoB no Recife abrirá diálogo imediato com todos os partidos da Frente Popular

MANTER A UNIDADE DA FRENTE POPULAR NO RECIFE
ATRAVÉS DO DIÁLOGO AMPLO E PROPOSITIVO
Resolução da Reunião Plenária do Comitê Municipal do PCdoB

O Comitê Municipal do PCdoB, eleito na 12ª. Conferência Municipal recém-realizada, reunido em sessão plenária adota a seguinte resolução acerca do atual quadro político-eleitoral do Recife.

1. O PCdoB reafirma a compreensão de que prosseguir o ciclo de transformações em curso desde a primeira gestão do prefeito João Paulo, a partir de 2001, mantém-se como objetivo central da Frente Popular, em consonância com as mudanças que se operam em Pernambuco.

2. Tal objetivo implica necessariamente na união de propósitos e de ação entre os partidos coligados, assim como na elevação do nível de atividade dos movimentos sociais presentes na cena local. Requer também o debate amplo envolvendo os mais diversos segmentos da sociedade acerca da natureza do desenvolvimento econômico em curso, sob a ótica da distribuição de renda, da valorização do trabalho e da sustentabilidade econômica e ambiental.

3. O PCdoB, que teve participação relevante na eleição do prefeito João da Costa, em 2008, aprova o programa de governo e tem presença ativa na administração, insiste na necessidade de aprimoramento dos procedimentos políticos e administrativos, no interior do governo e da coalizão partidária, visando a conquistar maior capacidade operativa e a dar mais consistência à unidade e à coesão das forças coligadas – fatores decisivos para a satisfação das necessidades e dos anseios da população, a consolidação da atual correlação de forças favorável e à vitória eleitoral em 2012.

4. A gestão administrativa não pode nem deve se deixar contaminar pelo debate eleitoral. Todos os partidos que a apoiam devem zelar para que assim seja. Não obstante, as eleições de outubro vindouro já ocupam lugar de destaque na cena política, ainda que não se tenha instalado o período pré-eleitoral propriamente dito, que antecede as Convenções partidárias (que devem acontecer em junho). Todos os partidos já se dedicam ao assunto, especulando inclusive sobre variadas alternativas táticas.

5. Na presente situação, o PCdoB considera que continua válida a proposição de uma candidatura única a prefeito, porém leva na devida conta as manifestações de partidos aliados sobre que partido possa vir a encabeçar a chapa unitária e sobre outras hipóteses táticas.

6. Nesse sentido, a Comissão Política – órgão executivo do Comitê Municipal – iniciará de imediato diálogo com os demais partidos da Frente Popular sobre o cenário em evolução.

Recife, 5 de novembro de 2011
O Comitê Municipal do PCdoB

Em reunião plenária, o PCdoB do Recife manifesta solidariedade a Orlando Silva

MOÇÃO DE SOLIDARIEDADE AO CAMARADA ORLANDO SILVA, EM DEFESA DO PCdoB

O Comitê Municipal, reunido em sessão plenária e interpretando o sentimento unânime da militância comunista no município, manifesta a mais irrestrita solidariedade e a plena e inquebrantável confiança no camarada Orlando Silva, ex-ministro do Esporte.

Orlando Silva tem sido alvo de torpe campanha difamatória movida por parte da grande mídia, que acoberta e representa poderosos interesses conservadores descontentes com os rumos atuais do País, sob o governo Dilma Rousseff, que procura atingir através da tentativa de enfraquecer o papel relevante do Partido Comunista do Brasil na cena política nacional.

Defender a honra pessoal e o caráter revolucionário da militância do camarada Orlando Silva é defender o Partido Comunista do Brasil, destacamento avançado dos trabalhadores e do povo brasileiro, que em quase nove décadas de existência ininterrupta tem se pautado pela coerência com seus princípios fundantes, pela fidelidade à causa do povo e por inquestionável rigor no exercício da gestão pública.

Os comunistas recifenses estão empenhados na ação política e organizativa consequente, com renovado ânimo na luta para colocar o PCdoB à altura dos seus ingentes desafios.

Recife, 5 de novembro de 2011
O Comitê Municipal do PCdoB

A ousadia nossa de cada dia

Sugestão de domingo: Não espere a luz do dia para decidir. As mais importantes conquistas acontecem quando a coragem vence a dúvida.

05 novembro 2011

O poeta sabe o que diz

A dica de sábado é de Tom Jobim: “Fundamental é mesmo o amor/É impossível ser feliz sozinho...”.

04 novembro 2011

A relação do escritor com a biblioteca e o livro

Memória de livros e bibliotecas
Ronaldo Correia de Brito

Publicado no Terra Magazine

A lembrança mais remota que tenho de bibliotecas vem associada a caixotes e malas. Numa caixa de madeira, mamãe levou para a casa do sertão dos Inhamuns, onde nasci, o pequeno acervo de professora primária, depois de se casar com um rapaz que fora seu aluno temporão. A preciosa carga compunha-se de algumas antologias, gramáticas, volumes de aritmética, geografia e história, e do livro que marcou profundamente minha vida: A História Sagrada, uma seleta de textos do Antigo e Novo Testamento.

Os livros eram objetos tão raros nesse mundo sertanejo, medievalmente fora do tempo, que um parente rico incluiu entre os bens de partilha do testamento uma minúscula biblioteca de noventa volumes. Hoje, com o dinheiro apurado na venda de um único boi, das centenas que ele deixava, afora as terras e outros rebanhos, seria possível comprar dezenas de livros. Naquele tempo, os objetos de papel impresso davam respeito e distinção, criavam uma aura de sabedoria e nobreza em torno dos seus afortunados donos.

Não falarei das bibliotecas humanas, embora não deixe de mencionar os homens e mulheres que guardavam na memória centenas de narrativas da tradição oral e costumavam contá-las para platéias deslumbradas, geralmente crianças. Plantados em suas casas, no fundo de uma oficina ou quintal, ou então viajando pelo mundo, pernoitando em engenhos e fazendas, esses guardiões da memória se assemelhavam aos personagens que em outras culturas foram responsáveis pela criação e divulgação de contos, poemas e epopéias mais tarde fixados em livros como Mahabharata, Ramayana, Epopéia de Gilgamesh, Ilíada, Odisséia e várias narrativas bíblicas.

Falemos das bibliotecas em malas. Também essas exerciam grande fascínio sobre mim, mas deslumbravam, sobretudo, as pessoas humildes moradoras do campo. Nos dias de feira, era comum assistir-se o espetáculo de um vendedor pondo uma lona ou uma esteira de palha no chão, espalhando sobre ela dezenas de livrinhos impressos nas tipografias, em papel barato de jornal, com capas ilustradas por xilogravuras. Tratava-se dos folhetos de cordel ou versos de feira, como também eram chamados.

Para atrair compradores, o vendedor punha alguma coisa extravagante no meio dos cordéis: um tatu, uma serpente, a caveira de um jumento... Formado o círculo de curiosos, ele anunciava os títulos das obras, geralmente com um subtítulo: "Não deixe de comprar O amor de um estudante ou o poder da inteligência; O mundo pegando fogo por causa da corrupção; Vida, Tragédia e morte de Juscelino Kubistchek; O sofrimento do povo no golpe da carestia; Os homens voadores da Terra até a Lua; A filha do bandoleiro; Peleja de Serrador e Carneiro"... Depois escolhia o folheto mais instigante e começava a cantá-lo ou recitá-lo. O ator/vendedor sempre possuía boa voz, movia-se com desenvoltura no pequeno palco, provocava a plateia, criava suspense, fazia rir e chorar e intuía com precisão o que as pessoas desejavam ouvir.

Durante décadas os folhetos representaram os best-sellers das populações pobres e "incultas" do nordeste do Brasil. Mesmo quem não sabia ler comprava os livrinhos, pelo gosto de tê-los guardados, ou na esperança de encontrar alguém que lesse para ele. Quando um visitante chegava a uma casa modesta do interior, depois do hospedeiro descobrir que o mesmo era letrado, ia lá dentro num quarto, arrancava de debaixo da cama uma mala de madeira ou sola abarrotada de livros - a biblioteca da família analfabeta escondida como um tesouro -, trazia os folhetos para a sala e suplicava à visita que os lesse.

Tentei compreender as motivações das pessoas que guardam livros mesmo sendo incapazes de decifrar os sinais impressos nas suas páginas. O que significavam para elas? Essa adoração da gente iletrada me parece de maior valor que a dos bibliófilos letrados. Há algo de sagrado nesse culto, o mesmo que se fazia aos "Mistérios", àquilo que escapa ao conhecimento e à razão e por isso se reveste de outros significados.
Ronaldo Correia de Brito é médico e escritor. Escreveu Faca, Livro dos Homens, Galiléia e Retratos Imorais.

03 novembro 2011

Dimensão estrutural da mobilidade urbana

Mobilidade urbana pede debate consistente
Luciano Siqueira

Publicado no portal Vermelho http://www.vermelho.org.br/

Evidente que todo e qualquer tema deve ser tratado com a abrangência e a profundidade que a seriedade recomenda. Sobretudo quando se trata de algo de interesse público – como o impasse da mobilidade urbana que aflige a quase totalidade das cidades grandes e médias do País.

Por isso fere os ouvidos escutar abordagens ligeiras, superficiais e pirotécnicas que vão proliferando em vários ambientes e propagadas nos meios de comunicação, frequentemente influenciadas por projetos eleitorais futuros. Disse isso de maneira cuidadosa, para não ferir suscetibilidades, ao iniciar minha breve intervenção sobre o assunto em reunião na Assembleia Legislativa, segunda-feira última, à qual compareceu o ex-prefeito do Recife, deputado João Paulo – que nos trouxe significativa contribuição ao debate.

A mobilidade já era essencial e prioritária em todas as cidades e metrópoles ao longo da História, adverte o professor Geraldo Santana, da Universidade Federal de Pernambuco, competente estudioso dos problemas urbanos. E no Brasil – tenho mencionado isso com frequência – há que se reconhecer, no trato da questão, a dimensão histórica, estrutural; e a dimensão imediata, conjuntural.

A industrialização do País, que ganhou grande impulso a partir dos anos 30, e a inexistência de uma reforma agrária distributiva produziram o chamado êxodo para os centros urbanos, que em apenas cinco décadas inverteu a relação entre a população urbana e a rural, na ordem de 80%. Isto sem que as cidades estivessem preparadas para tanto.

Mais: como bem assinala o professor Geraldo Santana, não apenas a partir do governo JK, quando aqui se instalou a indústria automotiva, mas nos períodos que se seguiram até os dias recentes, sob o governo Lula, prevaleceu a ênfase no transporte rodoviário, seja de carga, seja de passageiros, em prejuízo das alternativas marítima, fluvial, e ferroviária. Nas cidades, prioridade total ao veículo individual.

Mais recentemente, quando eclodiu a crise global em 2008, para evitar o colapso da indústria automobilística e o consequente desemporego, Lula flexibilizou a política fiscal, reduzindo o IPI, e facilitou o crédito de modo a estimular o consumo de automóveis. Com isso, conseguiu manter o nível do emprego no setor, mas acrescentou uma carga exponencial de pressão sobre os espaços urbanos, agravando enormemente a crise de mobilidade. Basta ver o Recife, cujas vias são tomadas por automóveis e motos, alongando exageradamente o tempo de deslocamento mesmo a distâncias fisicamente pequenas.

Ainda no primeiro governo Lula, na gestão de Olívio Dutra no Ministério das Cidades, foram lançados os fundamentos de uma nova politica nacional de mobilidade urbana, que entretanto encontra enormes dificuldades de prosperar devido ao baixo poder de investimento público que ainda persiste no Brasil. Livramo-nos da dívida externa (resta um resíduo do Clube de Paris), mas ainda padecemos de uma dívida pública interna monstruosa e retroalimentada pela política de juros altos. Superar esses obstáculos é imprescindível à inversão de prioridades entre o carro individual e o transporte público de massas, que implica em pesados investimentos. Uma luta que cabe a todos nós travar.