31 março 2012

O poeta e a cidade

A dica de sábado é de João Cabral de Melo: “A cidade é passada pelo rio/como uma rua/é passada por um cachorro;/uma fruta/por uma espada.”

28 março 2012

Genialidade versus intolerância

Goya e a Inquisição
Plínio Palhano*

Publicado no Jornal do Commercio

No século XVIII, na Espanha, era impossível não se declarar católico, até mesmo porque o Santo Ofício, o braço fortalecido da Inquisição — que exercia maior poder no século XVII —, ainda disposto ao ritual de julgamentos e a incitar a acender fogueiras nutridas de carnes humanas para iluminar a própria obscuridade, estava atento a qualquer deslize e sacrilégios dos cidadãos comuns e de pessoas que representavam importância na sociedade.

Era o caso de Francisco Goya y Lucientes, ou Goya, como o conhecemos, o genial pintor do rei Carlos IV, que se deixava apresentar como católico, mas, na verdade, de um catolicismo sem padres, sem frequência às obrigações nas celebrações das missas semanais e, no leito de morte, sem nenhum registro da presença de padre para confissão de seus pecados nem a extrema-unção tão desejada pelo fervor da crença, apesar de a história consolidá-lo como grande artista espanhol por também decorar igrejas representando santos e anjos e por pintar autoridades eclesiásticas.

Por pouco, o artista não foi perseguido pela Inquisição ao satirizar o mundo sacerdotal quando representou, em desenhos e em gravuras e água-tinta da série Los caprichos, com o olhar agudo e ácido, as cenas de vítimas daquele tribunal e personagens eclesiásticas glutonas, obscenas, hipócritas, que pervertiam o povo com as pregações de superstição e alimentavam o temor ao poder inquisitorial.

A lâmina 52 da mesma série, Los caprichos, diz claramente o que Goya pensava do mundo clerical: com o título O que um alfaiate pode fazer! — onde representa uma mulher ajoelhada numa atitude de prece diante de uma figura monstruosa, de braços abertos e, ao fundo, em silhuetas, outras personagens ajoelhadas a esse gigante envolvido numa batina clerical e, em suas mãos, brotam folhas, como um espantalho no campo a afugentar os corvos.

Com a sua visão humanista, permitia esse tom de ódio à Inquisição pelas imagens, e, numa delas, na lâmina 23, Aquelas partículas de pó está um herético, de cabeça baixa, sentado num palco acima da população presente a testemunhar a sentença definitiva do herege, com o gorro cônico da infâmia que o identificava. Outra, em que diz o título Sonho de certos homens que nos devoram, induz à interpretação pervertida daqueles homens da Igreja devorando o seu próprio rebanho, como no ritual sagrado que converte o sangue e o corpo de Cristo no sacramento da Santa Comunhão. E na gravura Ninguém nos viu, estão monges numa adega a se embriagar, quando pr egavam a abstinência, hipocritamente.

Goya, que não era um populista, também demonstrou a sua indignação pela multidão que acompanhava essas execuções públicas, como vemos na gravura Não teve jeito, na qual uma mulher montada em uma mula a caminho da fogueira é cercada por rostos desprezíveis e cruéis.
* Plínio Palhano é artista plástico

Comenda generosa

Recebo hoje, com muita honra, da Escola Politécnica a Medalha do Mérito do Centenário. Na Blue Angel Benfica, às 18 horas.

25 março 2012

Perseverar é preciso

A sugestão de domingo é da amiga Nilda: “Desejos devem ser mantidos sempre elevados - na vida, na luta, no amor.”

24 março 2012

Significados do que se diz e do que se escreve

Ciência Hoje Online:
Censurar dicionários?
No embalo de ação do MP contra o ‘Houaiss’, Sírio Possenti retoma, em sua coluna de março, a função básica desse tipo de obra. Para o linguista, tirar uma palavra do dicionário equivale a tirar um animal do catálogo da fauna.
. Discutiu-se um pouco, nas últimas semanas, sobre dicionários. Mais exatamente, foram tornadas claras algumas características e funções dessas obras. Todos os que se pronunciaram reafirmaram verdades óbvias. É de esperar que a maioria das pessoas tenha uma ideia clara sobre o que seja um dicionário.
. O que levou às recentes manifestações foi uma inusitada ação do Ministério Público, acionado por um cidadão que considerou que dicionários ofendem grupos (etnias etc.) ao registrarem acepções negativas de certas palavras. Concretamente, houve uma ação do MP contra o Dicionário Houaiss, por registrar acepções de “cigano” consideradas ofensivas (“aquele que trapaceia, velhaco, burlador”).
. Pode-se ver melhor o caso na versão on-line do referido dicionário, até porque as acepções consideradas ofensivas tinham sido retiradas do ar, em decorrência da ação ou de sua divulgação. Mas, pouco tempo depois, foram repostas, com uma explicação sobre a origem daquelas acepções (talvez em decorrência das manifestações contra a ação): “Uso: as acepções 5 e 6 resultam de antiga tradição europeia, pejorativa e xenófoba por basear-se em ideias errôneas e preconcebidas sobre as características deste povo que no passado levava uma existência nômade”.
. Leia a matéria na íntegra http://goo.gl/aa5DU

O risco da desindustrialização

No Vermelho, por Eduardo Bomfim:
Cavalo de Troia

Uma combinação de fenômenos negativos está levando o parque industrial brasileiro a uma crise aguda enquanto outros fatores estão provocando uma anemia ideológica e cultural da identidade nacional.

Todos os estudos sérios e relevantes demonstram que a indústria nacional de transformação tem perdido acelerado espaço no mercado interno ao tempo que cresce na proporção inversa a presença dos produtos importados.

Nessa batida a tendência inevitável será o sucateamento da indústria de transformação do País.

As altas taxas de juros, as maiores do planeta, e a sobrevalorização da moeda brasileira são os dois principais fatores dessa verdadeira crise que afeta profundamente a própria soberania nacional.

Enquanto os bancos especialmente aqueles de investimentos auferem lucros fabulosos a nação caminha para uma verdadeira encruzilhada e tende a perder uma oportunidade histórica de em plena crise global do capitalismo acumular condições para uma nova etapa para o seu processo de crescimento econômico, um outro tipo de desenvolvimento.

Nos últimos dezessete anos e cinco mandatos presidenciais a perda de competitividade da indústria nacional só tem se acelerado e não existe exemplo de um País que tenha conquistado papel relevante na geopolítica mundial sem a correspondência da excelência dos seus produtos no mercado interno e no comércio exterior.

A desindustrialização do parque produtivo brasileiro é um problema de fundo estratégico e só pode ser enfrentado se houver vontade política o que implica em altos investimentos em ciência, tecnologia, prioridade maciça em educação etc.

Mas é preciso que o Estado nacional assuma o controle soberano da política cambial e suste os ganhos estratosféricos do capital especulativo. Porque sem isso qualquer discurso sobre o nosso futuro enquanto um País verdadeiramente soberano será figura de retórica.

Uma retórica insuflada por uma exortação desmedida sobre o crescimento econômico sustentado pela exportação de produtos primários, especialmente agrícolas, pelas condições internacionais favoráveis no contexto da crise capitalista global, com tempo determinado para se exaurir.

Para que esse oba-oba da grande mídia hegemônica mundial, sobre um Brasil nadando a largas braçadas sob um céu de anil rumo ao Olimpo não se transforme em um cavalo de Tróia, impõe-se uma nova política econômica além de um verdadeiro projeto de nação.

O Haiti é aqui

Jornalista lança livro sobre a tragédia dos haitianos após terremoto em 2010
. A jornalista Jullimária Dutra lançará nesta terça-feira (27), às 19h, na Livraria Cultura, o livro Caro Haiti, no qual procura mostrar e sensibilizar os leitores sobre a atual situação de vida dos haitianos. “É um livro-reportagem que busca, por meio do relato humanizado, esclarecer momentos marcantes da história do país, com o simples e único objetivo: tentar encontrar algum jeito, alguma forma de levar ajuda para um povo tão esquecido e sofrido”, explica a autora.
. Dividido em três momentos: antes, durante e depois do terremoto que arrasou a capital Porto Príncipe e desalojou mais de um milhão e meio de civis, no livro a autora contextualiza seus relatos fazendo breves incursões pela história do Haiti, com seus 500 anos marcados por conflitos sangrentos, destruição ambiental e tensões sociais radicalizadas pela pobreza extrema.
. Em 12 de janeiro de 2010, o país mais pobre das Américas tornou-se o centro das atenções de todo o mundo. O Haiti foi atingido por um violento terremoto, que matou milhares de pessoas e deixou a população em condições ainda mais precárias. Apesar dos inúmeros problemas, o país, com a ajuda direta de diversos países, como o Brasil, e da Organização das Nações Unidas, enfrenta ainda o longo processo de reconstrução.
Da Redação do site www.lucianosiqueira.com.br

Arte de viver

A dica de sábado é de Emílio Moura: “Viver não dói. O que dói/ é a vida que não se vive”.

21 março 2012

Coisas do esporte das multidões

O futebol é um vício
Cyl Gallindo*
Publicado no site Geleia General

Impossível tratar aqui de todos os problemas ocorridos em torno do futebol. Não porque seja difícil colher as informações na internet, na mídia falada ou escrita. Lembro ter sido ouvinte cativo da Rádio Universitária do Recife, quando certo dia o apresentador declarou “esporte também é cultura”. Nessa brecha ele deu informações sobre os times de futebol do Recife, complementando com atividades de agremiações de São Paulo e Rio de Janeiro. Nessa época, censuravam-se os centros europeus, aonde chegavam times brasileiros com os seus melhores ídolos, e não havia vivalma para recebê-los nos aeroportos. A imprensa noticiava a chegada com notinhas inexpressivas. Os jogadores, de lá, tinham os seus empregos e somente nas horas vagas atuavam nos clubes, não eram profissionais.

O futebol era apenas e tão somente uma diversão, como o cinema, a dança, a praia.

De lá para cá, o panorama mudou em 360 graus. A começar pela expressão “esporte também é cultura”, que se transformou em “cultura também é esporte”. Ao se falar de uma escola, uma praça, uma residência, uma igreja, de qualquer área, em fim, se diz que é igual, ou menor, ou tantas vezes um campo de futebol. Em nenhuma outra profissão paga-se igual ou mais do que a do jogador de futebol.

O reinado do futebol cria reis, rainhas, fenômenos, embaixadores, professores, cantores, atores e o que mais se possa imaginar. E condecorados, para não esquecer que a Academia Brasileira de Letras agraciou o Ronaldinho Gaúcho com a sua maior insígnia. O moço até ironizou, indagando: “o que é que vou fazer com isso? Eu nem gosto de ler!” Ora, ora, ele já estava fazendo, ao dar a oportunidade dos acadêmicos presentes aparecerem ao seu lado na imprensa.

O programa educacional brasileiro para infância e adolescência tem na primeira ordem a educação física, para ensinar e permitir os alunos a jogar futebol, dentro da própria escola.

Os torcedores, atualmente, organizam-se em associações, criam escolas de samba, têm estatutos, comandantes e comandados. O único ponto preocupante desse corporativismo está na possibilidade de um grupo se encontrar com outro, quando pode haver lutas, como se fosse uma de guerra de povos inimigos, dada a violência.
 
H
á também facetas exóticas que poderiam até ser engraçadas. Dias atrás, uma televisão apresentou um torcedor, cuja família comungava a mesma filiação futebolística. Ele, a mulher e filhos usavam roupas, calçados, bonés, forros de cama e de mesa, além da própria casa, centenas de objetos domésticos pintados nas cores do time de suas preferências. No meu entender, em lugar de jornalistas para mostrá-los numa reportagem em nível nacional, eles mereciam a visita de psicólogos ou psicanalistas para um sério tratamento. Mas num país em que pouquíssimas vezes a população reúne-se em defesa dos seus direitos ou em protesto contra desmandos de ordem pública, embora vá às ruas de bandeira em punho aos gritos de Brasil, sil, sil, saudando uma vitória da seleção, tudo é compreensível.

Basta olhar a cara dos apresentadores de televisão. Ao falar sobre qualquer assunto a fisionomia é padronizadamente impassível, no entanto, se o tema é futebol eles se transfiguram, além de falar gritando, especialmente através do rádio.

No exterior, aquela frieza citada acabou-se. Os governantes e a mídia acordaram para o filão econômico do setor e souberam trabalhar a cabecinha dos torcedores de lá também. O que vemos é que não só torcem pelos seus times, como vestem suas camisas, brigam em defesa de suas cores, como contribuem com milhões para a compra do passe de qualquer grande jogador, de onde quer que ele seja. As autoridades inglesas se desdobraram para evitar que sua juventude fosse para a Alemanha, assistir a uma partida de futebol, porque em caso de derrota, promoviam um fantástico quebra-quebra, cujo saldo era de alguns mortos e centenas de feridos, afora os prejuízos materiais. Um desses grandes espetáculos aconteceu recentemente no Egito, com a morte de 74 torcedores, e milhares de feridos.

Mesmo sem guerra, há violência. Quando atuei na imprensa recifense, nos anos 70, tomei conhecimento de que no dia seguinte após um jogo clássico entre os maiores times do estado, o comércio deixava de vender de 7 a 8 mil litros de leite. As economias haviam sido empregadas na compra do ingresso dos estádios e, claro, numa cervejinha, que ninguém é de ferro. Como ficar sóbrio se o time do coração perdeu ou ganhou uma partida. As crianças não morriam por não tomar leite por um ou dois dias.

Feito esse painel, lembro apenas alguns fatos por outro ângulo, para concluir esta breve nota.

Ninguém desconhece que há pessoas viciadas em corrida de cavalo, por exemplo. Pode parecer louco, mas há criaturas que perdem o que não tem, apostando em corridas de cavalos. Ou jogando baralho, roleta, nesses caças níqueis, nos cassinos, no nosso famoso jogo do bicho. Este é um império na contravenção. Proibido por lei, por tudo, mas ainda hoje se vê pessoas com máquinas eletrônicas nos pontos aonde vão os afeiçoados fazer a sua “fezinha”. Sem esquecer e não se pode esquecer que a Caixa Econômica é mais que um banco, graças às dezenas de jogos que banca. Há um canal de televisão que não faz outra coisa a não ser bancar jogos. As demais se contentam em promover o futebol, com até 72h00 de programação para um único dia. Aí se pode vê como um gol é mostrado como numa pedra lapidada por mil ângulos diferentes. E não é para menos, tendo em vista a quantidade de campeonatos que existem, envolvendo além dos grandes times, até peladeiros no interior.
Estamos tateando diante de um vício moderno que também dará muito trabalho à humanidade: a Internet. Aguardem!!


Dito isto, concluo afirmando que o torcedor de futebol é um viciado. Viciado tanto quanto o consumidor de álcool, de cocaína, de craque, o jogador de baralho, de roleta. E de toda e qualquer modalidade de jogos e vícios que se imagine. Ele não vai ao campo de futebol se divertir. Vai participar da vitória do seu time. Se isto não acontece, sua frustração é tamanha que ele pode matar ou morrer, como tem acontecido em todo o mundo. Mistérios para Freud, Young ou Foucault explicar.

É por isso que assistimos a um secretário da FIFA dizer que os governantes brasileiros merecem “um chute na bunda”, por não satisfazerem todas as suas vontades.

Não estou apregoando o fim do futebol, como esporte. Estou apenas e tão somente advertindo que o torcedor é um viciado, e em cima dessa condição, foi montada uma multinacional, talvez a mais poderosa do mundo, para dominá-lo política e economicamente. Assim sendo, seria fundamental se estabelecer controles no sistema e limites para torcedores e promotores.
* Jornalista, poeta, membro da Academia Pernambucana de Letras.

Velho e jovem partido

PCdoB, jovem aos 90 anos
Luciano Siqueira

No próximo domingo, os brasileiros assinalam 90 anos da fundação do partido registrado em 25 de março de 1922 sob a denominação de Partido Comunista do Brasil, no livro 3 do Registro de Pessoas Jurídicas do Cartório do 1º Ofício do Rio de Janeiro.

Digo os brasileiros, e não apenas os comunistas, porque a longevidade do PCdoB há que ser reconhecida como uma conquista da luta democrática em nosso País – cuja vida institucional jamais exibiu espectro partidário duradouro. Ao contrário, sempre esteve sujeito a circunstâncias conjunturais.

Efetivamente, ao observador isento, mesmo o mais equidistante (ou até oponente), chama a atenção que uma agremiação partidária tenha perdurado tanto tempo, atuando ininterruptamente, no cenário político brasileiro. Mais ainda quando se constata que nessas nove décadas esse partido experimentou em escassos momentos o direito constitucional de existência legal - sendo o mais longo o período atual, que já dura vinte e sete anos, desde 1985.

Isto se explica pelo fato de que, além de corresponder a uma necessidade objetiva, determinada pelo conflito social - a de uma representação ideológica, política e orgânica de uma classe, a dos proletários - o Partido Comunista aprende com a sua própria experiência, com a trajetória de lutas do povo brasileiro e com a evolução dos movimentos libertários no mundo. Amadurece em meio às permanentes tensões determinadas pelos desafios teóricos, políticos e práticos. Pois seus êxitos ou fracassos dependem diretamente da sua capacidade de compreender as mutações que se processam na sociedade; da natureza dos vínculos que estabeleça com a sua base social; e da habilidade com que se comporte nas diferentes situações políticas.

Sempre foi uma trajetória difícil, a do PCdoB. Complexa, caracterizada por lutas ingentes, perseguições violentas e odiosas, absurdas restrições legais; por vitórias e insucessos; e por um complexo e sinuoso processo de formação de um embasamento teórico e político próprio, cujos resultados nos inspiram a todos nas comemorações deste 90º. aniversário.

Não se trata apenas do fato de que, numa época evidentemente adversa para os defensores da causa socialista, o PCdoB esteja próximo a meio milhão de militantes, tenha uma presença significativa nos movimentos sociais, um desempenho influente no parlamento e em importantes postos em governos nas três esferas federativas. Trata-se, sobretudo, do fato de que o velho partido de 1922 se apresenta hoje renovado, moderno, ágil na abordagem da problemática nacional, portador de uma proposta concreta de desenvolvimento para o Brasil. Proposta consubstanciada no Programa Socialista para o Brasil, cuja essência está no objetivo estratégico – de superação do capitalismo – e na construção de um Novo Projeto Nacional de Desenvolvimento como caminho de acumulação de forças nessa direção.

Um programa formulado em bases científicas, marxistas, sem se orientar entretanto por nenhum “modelo” preexistente, mas primordialmente adequado às peculiaridades da sociedade brasileira. Um programa brasileiro.

Certamente este é, para o PCdoB, um momento de ricas reflexões e de homenagem a tantos militantes, destacados ou anônimos, que dedicaram a vida à causa socialista. E de alegria pelo reforço das suas fileiras com o ingresso de novos combatentes. Mas é sobretudo um instante de afirmação da sua contribuição ao esforço conjunto dos partidos de esquerda e de personalidades e grupos progressistas no sentido de formularem uma plataforma de luta por um Brasil soberano, democrático, socialmente progressista.

Bom dia, Bertold Brecht

Nada é impossível de mudar

Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar.

20 março 2012

Pernambucanos celebram os 90 anos de vida do PCdoB

Os 90 anos do PCdoB – Partido Comunista do Brasil serão comemorados em Pernambuco a partir desta terça-feira (20) com sessão solene na Assembléia Legislativa do Estado, proposta pelo deputado Luciano Siqueira. O evento começa às 18h e contará com a presença das principais lideranças, amigos, simpatizantes, filiados e militantes do partido. Comunistas pernambucanos históricos serão homenageados com placas comemorativas.

Na quinta-feira (22), às 10h, as homenagens ao aniversário da mais antiga legenda partidária do Brasil acontecerão no plenário da Câmara Municipal do Recife. Na solenidade, requerida pelo vereador comunista Almir Fernando, será feita a entrega de selo comemorativo à data. Dirigentes, militantes, amigos e filiados estarão presentes.

Uma grande festa popular a ser realizada no dia 23 de março, na praça de eventos do Fortim do Queijo, à beira-mar do Sítio Histórico de Olinda, marcará o encerramento das festividades em Pernambuco. Na programação, destaque para os shows de Maciel Melo, Patuscos, Maracambuco, Jehovah da Gaita e Carlinhos Lua, além de apresentação do grupo Vozes Femininas, formado pelas poetas Cida Pedrosa, Mariane Bigio, Silvana Menezes e Susana Morais.

19 março 2012

Cidadão de Maceió

Hoje, 10h, recebo o honroso título de Cidadão de Maceió. Na Câmara Municipal, proposto pelo vereador Marcelo Malta (PCdoB).

18 março 2012

Perseverar, por que não?

A sugestão de domingo é do amigo Joel: “Por mais obscuro o momento e raro o sorriso, não se detenha - continue cantando seu sonho.”

Bom dia, Jussara Salazar

Foto: Tuca Siqueira
As janelas

delicadas algumas
formigas transportam
um besouro morto em
volutas e fábulas de
tanto contada a
lembrança caduca
a fuga na paisagem,
no delirismo esse
desdichado
sem musa, mas aranhas
negras e fino amor na
língua presa, na história
no livro de memórias
a avó varicosa
na desprimavera do
monstrobicho pero isso
laminas e afinas a fiação
do tempo quando belo
minera aqui
no nenhum que conta
nossa chispa recôndita
que vai enreda
e encandeia aonde
nada move-se além,
e são horas de existir

17 março 2012

Política com os pés em terra firme

É a tática, amigo!
Luciano Siqueira

Publicado no portal Vermelho www.vermelho.org.br  

Agrada-me muito a troca de ideias com amigos e amigas com os quais mantenho contato frequente, por e-mail e através das redes sociais. Recebo opiniões críticas e muitas vezes a indagação sobre este ou aquele lance da política.

Ontem conversei no MSN com amigo R, impaciente em relação ao que considera “novela” das eleições municipais no Recife e em outros lugares. E num rasgo de entusiasmo sapecou a proposta: “Que o PCdoB lance candidato a prefeito em todos os municípios onde atua!” Seria muito mais simples, diz ele, pois pelo menos nos livraria de demoradas negociações com os demais partidos.

Faz as contas e avalia que elegeremos Manuela Dávila em Porto Alegre, Flávio Dino em São Luis, Netinho de Paula em São Paulo, Inácio Arruda em Fortaleza e por aí saiu citando suas otimistas previsões.

Mas as coisas não são bem assim, amigo. Nessas cidades onde militantes comunistas aparecem bem situados nas pesquisas, tudo fazemos para agregar outros partidos, estabelecer alianças amplas e competitivas. E onde detectamos o desejo legítimo de militantes que se consideram credenciados a governar suas cidades, a primeira pergunta que fazemos é exatamente esta: “que forças poderiam lhe apoiar?”

É que o PCdoB não disputa eleições majoritárias sozinho. Mesmo que tenha nomes de enorme prestígio e comprovada densidade eleitoral, como a deputada Manuela Dávila. “Por que não?”, indaga o amigo R., sugerindo falta de ousadia de nossa parte.

Tento então explicar pacientemente que numa batalha dessa magnitude é preciso considerar a correlação de forças, ou seja, que forças reunimos em torno do projeto comum, quais as adversárias, que outras podemos neutralizar (e agregar num hipotético segundo turno, em cidades maiores) e, na medida do possível, verificar tendências atuais e em perspectiva no eleitorado. Ou seja, com que roupa vamos ao samba e para que lado tende a maioria da população e por que razão.

Daí se define a tática a seguir. Cito para o amigo R a assertiva de Lenin, de que alma da política está na tática e a essência da tática decorre da correlação de forças. E ainda acrescento Plekhanov, para quem o Partido Comunista deveria pensar e agir “com as quatro patas fincadas na realidade”.

Nosso diálogo esquenta no MSN. O amigo se exaspera, deixa-se levar pela emoção e resiste à racionalidade, repele a consideração das condições concretas onde o pleito se dará em cidades como o Recife, Jaboatão dos Guararapes e Caruaru, por exemplo. Volta a Porto Alegre e sentencia que nossa jovem deputada, campeão de votos, “não precisa de nenhum outro partido para vencer”.

Encerramos o bate papo com um cordial boa noite e juras de amizade e confiança mútua. Mas R arremata, indignado, “que essa tal de tática só serve para atrapalhar”. Não me deixo dobrar e insisto: nada disso, sem uma orientação tática certeira, dificilmente se alcança a vitória em qualquer peleja, mais ainda quando o que está em jogo em poder local.

Evolução da ciência

Ciência Hoje Online:
A construção do conhecimento físico
Adilson de Oliveira aproveita o aniversário de Einstein (14/3) para falar sobre os padrões de funcionamento e as dinâmicas transformações das teorias na física. Na coluna de março, lembra mudanças de paradigma no passado e reflete sobre as que (possivelmente) estão por vir.
. A ciência é uma maneira de entender o mundo a nossa volta. Contudo, não é a única. As religiões, as artes, a filosofia, entre outras, são alternativas que também constroem uma visão específica sobre a natureza e de como o ser humano está inserido nela. Mas elas são muito diferentes da ciência.
. A característica principal do pensamento científico é que as suas afirmativas, proposições e teorias não são absolutas, mas sempre relativas. Os modelos científicos devem sempre ser confirmados, seja por experimentos ou observações que deem sustentação aos postulados e às ideias dos cientistas.
. Dentre os diversos ramos da ciência, a física, com a sua visão peculiar, é a que entende os fenômenos físicos na sua forma mais fundamental. As suas teorias são capazes de explicar situações que vão da escala atômica até o universo como um todo.
.Além disso, as teorias físicas são válidas também ao longo do tempo. Ao observar as galáxias que estão muito distantes, há milhões de anos-luz (um ano-luz corresponde à distância que um raio de luz percorre durante um ano e equivale aproximadamente a 10 trilhões de quilômetros), não as vemos como elas estão nesse exato momento, mas sim como eram quando a luz partiu delas e viajou por milhões de anos, até chegar a nós.
. Leia a matéria na íntegra http://goo.gl/pmyhs

Uma riqueza a explorar

Tratamento adequado do lixo domiciliar pode gerar US$ 10 bilhões por ano ao país
. O lixo domiciliar, se tivesse tratamento adequado, poderia gerar recursos da ordem de US$ 10 bilhões ao país por ano, dinheiro suficiente para beneficiar a população brasileira com cestas básicas e um plano habitacional. A estimativa é do economista Sabetai Calderoni, presidente do Instituto Brasil Ambiente e do Instituto de Desenvolvimento Sustentável, informa a Agência Brasil. Calderoni acredita que o país vai conseguir captar cerca de 80% desse valor em cinco a dez anos.
. Para o economista, o “processo social de amadurecimento” que o país viveu nos últimos anos pode, com a implantação da atual Política Nacional de Resíduos Sólidos, que estabelece, por exemplo, o fim dos lixões e a logística de retorno de embalagens e produtos usados, aumentar ainda mais os ganhos com a reciclagem de lixo no Brasil.
. “A gente gasta muito menos energia, por exemplo, quando usa sucata ao em vez de usar a matéria prima virgem. É o caso da latinha de alumínio, em que eu economizo 95% da energia. Da mesma forma, economizo minha matéria prima que é a bauxita [gasta-se 5 toneladas de bauxita para produção de 1 tonelada de alumínio], e ainda economizo água”, disse Calderoni. Na mesma conta, o economista ainda considera o pagamento feito pelas prefeituras aos aterros, que recebem e enterram os resíduos, além dos gastos com o transporte desse material e a perda dos ganhos que a reciclagem poderia gerar.
Tanto o lixo domiciliar, quanto o entulho, produzido pela construção civil, por exemplo, poderiam ser tratados pela sistemática das centrais de reciclagem, modelo proposto por Calderoni para aumentar a lucratividade com a reciclagem de lixo no país. Para contornar custos das prefeituras com a implantação dessas unidades, a solução apontada pelo economista é a parceria com empresas . "Se fosse apenas um custo proibitivo e não valesse a pena, os empresários não teriam interesse em participar", declarou.
. Mais de 150 municípios já implantaram centrais que, segundo ele, derruba, na prática, argumentos que colocam o investimento necessário para a reciclagem como o empecilho. “Caro é pegar matéria-prima, chamar de lixo, pagar caro para transportar o lixo e gastar dinheiro para alguém receber e enterrar. É não entender que o que você está chamando de lixo é um conjunto de matéria-prima preciosa”, disse Calderoni.

A nova "classe média"

Cobiçada e pouco compreendida
Luciano Siqueira

Publicado no Blog de Jamildo (Jornal do Commercio Online) 

Em debate recente, da plateia me veio um comentário de sentido negativo acerca da chamada “nova classe média” – esse contingente de quase trinta milhões de brasileiros que recentemente ascendeu na pirâmide social e passou a contar no mercado consumidor. “É uma parcela da população que se coloca contra as mudanças que desde Lula vêm acontecendo!”, sentenciou a interpelante em tom inquisitivo.

Discordei de pronto. Até porque os resultados eleitorais indicam o contrário, a ponto de analistas terem criado a figura da “teoria do lago invertida”, referindo-se ao fato de que o segmento de maior poder aquisitivo e de mais elevado nível de instrução – a “classe média tradicional” – ter se manifestado muito sensível e acuada diante do bombardeio da mídia e da oposição ao presidente Lula, em seu primeiro governo, enquanto os chamados segmentos C, D e E (na classificação mercadológica) se converteram na base eleitoral principal do presidente, em sua reeleição. Invertendo-se, assim, o que se supunha acontecer antes: o segmento B é que exercia influencia sobre de mais, logo abaixo, que nem as ondas sucessivas a partir da queda de uma pedra sob lago de águas em repouso.

Tanto na reeleição de Lula e como na vitória de Dilma, o movimento deu-se em sentido contrário, a turma menos aquinhoada pressionando os melhores situados social e culturalmente.

Pois bem. Em artigo de alguns meses atrás, na Folha de S. Paulo, o economista Marcelo Neri - com a ressalva de não estar “falando de classes sociais (operariado, burguesia, capitalistas etc.), mas de estratos econômicos” – assinala a importância de se investigar, para a compreensão do que se passa com esse segmento da população, “as relações concretas entre fluxos de renda e estoques de ativos abertos em duas grandes frentes: a do produtor e a do consumidor analisadas em detalhes sociais e setoriais.”

O lado do produtor implica em emprego e empreendedorismo. O lado do consumidor envolve consumo e poupança. E assegura que “a nova classe média constrói seu futuro em bases sólidas que sustentem o novo padrão adquirido. Isso é o que chamamos de lado brilhante dos pobres.”

Sendo assim, imagino cá com meus botões, a evolução da consciência política desse segmento não pode ser subestimada. Talvez seja por isso que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso venha expressando, recorrentemente, preocupação com o fato de que o seu partido, o PSDB, sustenta um discurso muito distante da realidade e dos anseios “da classe média”. E que, segundo ele, urge encontrar o ideário que faça dos tucanos corrente política confiável perante essa gente.

Missão impossível, em se tratando de um partido que pensa o País a partir da Avenida Paulista, como dizia Miguel Arraes. Pois como bem adverte Marcelo Neri, “a nova classe média nasce a partir da recuperação de atrasos tupiniquins. Ela é filha da volta do crescimento com a redução da desigualdade.” Logo, digo eu, tende a manter o apoio às transformações que o Brasil experimenta e que beneficia a maioria dos brasileiros.

História: 17 de março de 1973

Morto após 24 horas de torturas nas dependências do DOI-Codi/São Paulo o estudante Alexandre Vanuchi Leme, 22 anos, estudante de Geologia da USP. (Vermelho www.vermelho.org.br).

A política não caminha em linha reta

Quem sabe o que quer caminha por onde pode
Luciano Siqueira

Publicado no Blog da revista Algomais

As eleições municipais se avizinham, vivemos o momento que antecede as convenções partidárias (que acontecerão em junho) e muito se especula. Sobre tudo – principalmente sobre o que se suponha seja a melhor alternativa para esta ou aquela cidade.

Em geral, aos que não vivem o cotidiano das relações interpartidárias nem estão familiarizados com os escaninhos da política, parece não haver distância entre o desejo e a possibilidade de realiza-lo.

Mas a realidade é bem outra. Na luta política nada se dá em linha reta e nem sempre as coisas ficam claras para todos os atores envolvidos, assim como o meio de campo frequentemente se embaralha em razão de interesses conflitantes (legítimos). Faz-se o que possível, não necessariamente o desejável.

Numa situação emblemática de defasagem entre o desejável o que se mostrou possível, uma amiga me endereçou comentário em que citava, com propriedade, frase célebre de Martin Luther King: “Talvez não tenhamos conseguido fazer o melhor, mas lutamos para que o melhor fosse feito. Não somos o que deveríamos ser, mas somos o que iremos ser.”

E caminhamos por onde é necessário, acrescento. Convivendo com o contraditório, tal como ensina Castro Alves numa carta a Regueira Costa: “Trevas e luz. Tormentas e bonanças. Amargos e ambrosias... É assim que eu vivo... A dor e o prazer são as únicas afirmações da existência... Convenço-me então de que existo.”

Importa é ter perspectiva clara, nitidez de propósitos e compreensão exata dos obstáculos a transpor. E uma boa dose de paciência, pois quem quer construir algo importante a muitas mãos há que convencer e mobilizar vontades. Imposição pela força dificilmente leva a bons resultados.

Demais, se o que se pretende não pode ser alcançado agora, porque se mostra inviável unir consciências e vontades na mesma direção, nada impede que se faça possível no futuro.

Toda essa digressão, com a permissão dos que me leem, vem a propósito das inúmeras composições políticas que se farão até meados de maio, aqui e alhures, tendo em vista o pleito municipal. Nós do PCdoB pelejamos por coalizões comprometidas com o ideário de uma cidade mais humana e nos dispomos a percorrer os caminhos que a vida permitir, sem sectarismos nem preconceitos. Preservando, contudo, nossa visão de mundo e nossas intenções essenciais.

O divórcio entre o capitalismo e a democracia

No Vermelho, por Eduardo Bomfim:
O legado da dama de ferro
 
Um recente ensaio do sociólogo italiano Franco Cassano expõe a ideologia hegemônica da atual etapa da sociedade capitalista globalizada mesmo que algumas de suas conclusões possam ser questionadas.

Segundo ele as conquistas sociais dos anos sessenta (direitos trabalhistas, consumo de massa, expansão dos direitos sociais) teriam rachado o compromisso entre o capitalismo e a democracia clássica porque revelaram um Estado "perigosamente" exposto às pressões de baixo e a máxima "um indivíduo, um voto" mostrou-se incompatível com os imperativos da rentabilidade e do lucro.


Assim, o capital global numa intensa ofensiva iniciada nos idos de 1970 implementou uma estratégia de evitar o choque frontal, esvaziando a política, redimensionado drasticamente a sua esfera e o papel do Estado nação que já não seria o de dirigir mas garantir algum grau de coesão social, de não mais cultivar projetos ambiciosos, mas apenas remendar e tampar através das políticas compensatórias.

E aí acontece uma espécie de crime perfeito: a decadência da política é atribuída aos seus protagonistas enquanto o verdadeiro poder, o capital global, goza de total liberdade de movimento, impunidade e privilégios.

Com a débâcle da União Soviética e do chamado campo socialista ao leste da Europa, essa liderança unipolar fez-se mais contundente introduzindo um novo período de expansão colonial militar sob o tacão norte-americano e inglês apesar de óbvio declínio econômico, cultural.

Possibilitando que essa contra-ofensiva neoliberal permeasse uma capilar liderança ideológica conduzida principalmente através da grande mídia hegemônica mundial onde o imaginário social assume que o essencial da vida é o sucesso total, que você pode ser o que quiser, não importa de qual maneira, mas que a coletividade é o obstáculo à sua realização individual.

A ex-primeira ministra britânica Margareth Thatcher, a "dama de ferro", cuja biografia filmada acabou de ganhar um Oscar, mãe das políticas neoliberais, dizia que "a sociedade não existe, existem apenas os indivíduos" em uma clara apologia à lei da selva, ao leviatã.

A emergência dos BRICS é um novo alento num mundo conduzido em galopante regressão à barbárie e ao desvario. Para tanto é decisiva a luta de ideias que galvanize os trabalhadores, povos e as nações em defesa de uma nova alternativa econômica, social, bem mais justa para a humanidade.

Fim das coligações é contra a democracia

Manobra duplamente equivocada
Luciano Siqueira

Publicado no portal Brasil 247

O paciente apresenta quadro clínico grave e o prognóstico não é bom. A analogia cabe ao sistema eleitoral brasileiro, carente de reforma, mas alvo de manobra duplamente equivocada: além de diversionista, porque não vai ao âmago do problema; antidemocrática, porque pretende cercear a liberdade dos partidos na conjugação de alianças para o pleito proporcional.

A PEC de autoria do senador José Sarney (PMDB-AC) que visa a interditar a possibilidade de coligações começa a tramitar. Seriam permitidas coligações apenas para as eleições majoritárias (presidente da República, governador e prefeito).

A proposição fere o direito constitucional de livre associação, prerrogativa dos partidos políticos. E bloqueia a ascensão de partidos médios e pequenos, que encontrariam muitas dificuldades de atingir o consciente eleitoral.

O senador Inácio Arruda (PCdoB-CE) estima que em dez das 27 unidades federativas, o percentual nas eleições para a Câmara dos Deputados chega a 12,5% dos votos válidos; em outras nove, fica entre 5,5% e 11%. Assim, computando os mapas das últimas eleições, sem coligação nas eleições proporcionais, no estado de Roraima, por exemplo, apenas um partido teria atingido o quociente eleitoral. Em mais seis estados e no Distrito Federal, somente dois partidos.

Além desse sentido abertamente antidemocrático, a manobra do senador Sarney ainda tem o dom de desviar a atenção de dois instrumentos essenciais de reforma política: a adoção do financiamento público de campanhas e o sistema de listas preordenadas pelos partidos para o pleito proporcional.

O financiamento tornaria a disputa menos desigual e daria um golpe certeiro nas relações promíscuas entre o poder econômico e candidatos e partidos, raiz da corrupção institucional.

O sistema de listas preordenadas mudaria o foco do eleitor, que hoje vota considerando tão somente os atributos dos candidatos e não enxerga os programas partidários.

As listas seriam compostas através de processo democrático interno, respeitadas as peculiaridades de cada partido.

 Os partidos apresentariam suas listas exclusivas ou poderiam se compor com outros partidos.

 O eleitor escolheria o partido levando em conta os nomes constantes da lista, em ordem decrescente, avalistas do programa sustentado na campanha. Os eleitos, desse modo, teriam o compromisso público explícito com o programa partidário, condição da coerência política no exercício do mandato e da fidelidade partidária.

 Num país cuja história institucional é marcada pela fragilidade partidária, passaria a ter agremiações programáticas, coerentes e nitidamente identificadas pelo eleitorado. Mas isso depende de amplo movimento em prol de uma reforma política de sentido democrático.

Viver é lutar

A dica de sábado é de Castro Alves: “A dor e o prazer são as únicas afirmações da existência... Convenço-me então de que existo.”

15 março 2012

Bom dia, Jacqueline Torres

Véspera de chuva
Uma chuva de vírgulas
cairia sobre o meu poema
se nele me ocupasse de elencar minhas dores,
meus medos,
minhas aflições...

Amparo-me,
começou o sereno.

12 março 2012

Quem não se comunica não alcança o que quer

É muita gente nas redes!
Luciano Siqueira

Publicado no Blog da Folha

Dias atrás, surpreendi-me com a notícia antecipada carca de determinado evento político, em que se esperava a minha presença, via blogs noticiosos – e logo replicada no Twitter e no Facebook. Ou seja, antes dos jornais e mesmo do rádio e da TV, pela internet se sabe de tudo – para o bem ou para o mal.

Divulga-se agora uma pesquisa feita pela empresa eMarketer, segundo a qual 87,6% dos internautas brasileiros participam de algum tipo de site de relacionamento. O que põe o Brasil no pódio mundial, seguido bem de perto pela Indonésia, que registrou o número 87,5%.

Dizem analistas do fenômeno que tamanha adesão dos brasileiros às redes sociais corresponde a um traço cultural próprio, a elevada sociabilidade. As pessoas usam a grande rede para se comunicarem, conhecer mais gente e, naturalmente, saber das coisas.

Da minha parte, nenhuma resistência a isso. Ao contrário, frequento pessoalmente o Twitter e o Facebook, mantenho um blog pessoal (improvisado por mim mesmo) www.lucianosiqueira.blosgpot.com, além do site do meu mandato de deputado www.lucianosiqueira.com.br, a um só tempo noticioso, instrumento de prestação de contas em tempo real e canal de comunicação com a população. Todos com elevada frequência de internautas e ótimo retorno em termos de opinião crítica e de contribuição ao que chamo de construção coletiva das ideias.

Prática semelhante muitos outros que, como eu, exercem função pública também vêm desenvolvendo. E certamente contabilizam semelhantes resultados, creio.

Daí decorre que o debate de ideias, tão necessário quanto subestimado no atual período pré-eleitoral, há que fluir através desse meio. Com a vantagem de evitar que informação chegue ao internauta distorcida, na medida em que os próprios interessados – militantes, partidos, ativistas de movimentos sociais ou grupos de interesse – cuidem da tarefa.

E na campanha que se iniciará em julho, provavelmente mais do que as anteriores, quando ainda se engatinhava no bom uso da mídia digital, a internet venha a ter um peso bem maior. Na difusão das ideias, na mobilização das pessoas.

De outra parte, como que em efeito bumerangue, os detentores de postos eletivos e os que pretendem alcança-los, assim como as organizações que representam, vêm-se compelidas a aprimorar a arte da comunicação. Pela internet, uma palavra mal posta, um fato incompreendido, se espalham com instantânea rapidez – e consertar nem sempre é fácil.

Sendo assim, por que não incluir no debate pré-eleitoral questões substantivas, para além das especulações táticas e de conjecturas em torno de nomes?

História: 12 de março de 1978

Assembléia popular de 7 mil cria em S. Paulo o Movimento do Custo de Vida (mais tarde Movimento Contra a Carestia). A inflação do ano chega à casa dos 40%. (Vermelho www.vermelho.org.br).

Sobre o cinema da vida

Ao mestre Visconti
Roberto Menezes*

Mestre Luchino Visconti:

Antes de tudo, permita que eu me apresente: um plebeu, que a vida toda foi um operário que teve suas forças físicas e mentais consumidas pelo trabalho, mas que só agora tem consciência de ter sido um proletário e não o pequeno-burguês “criativo”, que só fez engordar a mais-valia das empresas a quem prestou serviço.

Me autodenomino plebeu, pois estou me dirigindo a um aristocrata que, paradoxalmente, era militante ativo do Partido Comunista Italiano até o fim da vida. Mestre, sei que você, como eu, não acredita em outras vidas. Mas se existe sobrevivência depois da morte espero que este contato telepático chegue até sua mente, hoje sem cérebro.

Quero dizer que continuo me emocionando muito com TODOS os seus filmes, especialmente “O Leopardo”. Como quero fazer pública esta carta, não vou entrar em detalhes que revelam outras faces de beleza do seu filme “Il Gattopardo” (O Leopardo). Como sua genialidade ao colocar no final do roteiro a cena do baile, que no romance de Lampedusa (que originou o filme) não passa de uma página comum. Nesse baile de 45 minutos, a beleza resplandece junto com o presságio de morte e o cheiro de putrefação da traição política contra o povo da Itália.

Durante todos esses anos, tenho revisto este filme na televisão brasileira, na espanhola, na francesa. E há uns dez anos atrás no cinema, numa cópia renovada; sem contar o número de vezes que assistí quando do lançamento nos anos sessenta.

E cada vez gosto mais desta película de quase 4 horas de duração, feita com toda a sua extravagância, estourando orçamento (mas que produtores tinha o cinema europeu nos anos 60 ! sem eles não existiriam os filmes de Visconti , Rossellini, Buñuel e Pasolini, entre outros).

Aristocrata e grande diretor de teatro e ópera, você , Luchino Visconti, fazia questão de flores autênticas, de tecidos caros, de objetos verdadeiros nas locações onde filmava. Reformou palácios, casas de operários e camponeses, tudo para filmar nos verdadeiros locais onde os fatos aconteceram.

Você, mestre, era um tirano com os atores, mas tudo isso para fazer filmes com os mais belos enquadramentos , ritmo de montagem e expressividade dos atores.

 “O Leopardo” é o grande filme do cinema em todos os tempos. Um filme belo e cruel: é a derrota da revolta popular liderada por Garibaldi, do ponto de vista das classes dominantes (a decadente aristocracia e a burguesia ascendente). O filme todo mostra o desprezo e a manipulação das elites contra o povo que se sublevou em armas. É uma lição de cinema, mas acima de tudo a maior lição de política que o cinema já deu. Considero “O Leopardo”, o ÚNICO filme marxista já realizado.

O final é chocante :sabemos momentos antes, na festa, que os desertores do exército que foram para o lado da luta popular serão fuzilados ao amanhecer. Na carruagem de volta para o palácio, a bela Angélica (Cláudia Cardinale) cochila nos braços do seu noivo, o nobre oportunista Tancredi (Alain Delon). Na carruagem vão ainda a princesa de Salinas e o pai de Angélica, típico representante de uma classe burguesa sem escrúpulos e ávida pelo poder. Ouvimos rajadas de tiros, que despertam Angélica. Tancredi a tranquiliza porque são tiros do exército. E o pai de Angélica diz : “ainda bem que o exército está fazendo a sua parte. A ordem voltou”. Os soldados do povo que, vendo a traição e a restauração da velha ordem sob roupas novas, se passaram de novo para o lado popular. E foram presos e fuzilados pelo mesmo exército que tinha apoiado a luta de Garibaldi.

“A História se faz quase sempre pelo lado mau”, disse Marx . O jovem Tancredi, que lutou ao lado dos garibaldinos, apesar de ser nobre, entrou depois no exército oficial para manter a ordem contra os “excessos do povo” ,e agora faz parte da burguesia que assume o seu papel. No filme ele ,Tancredi, diz várias vezes: “é preciso que tudo mude para que tudo continue como está”.    

Alguma semelhança com os tempos de hoje?

Um abraço de agradecimento pelas lições de vida, cinema, beleza e política que seus filmes me deram.

Do seu admirador, Roberto Menezes. 

(Se existir outra vida, espero encontrá-lo para uma boa conversa. Estou perto de lhe fazer companhia ; ou, se nada mais existir depois, dormir o sono eterno como os “gattopardos” da vida.)
*Jornalista e publicitário.

11 março 2012

Um debate oportuno

Agora pela manhã, discutirei a conjuntura política e o papel da juventude na plenária estadual da União da Juventude Socialista (UJS).

Contraponto

A sugestão de domingo é da amiga Geovania: “Por que temer as trevas da noite, se há estrelas que até quando ocultas iluminam o caminho?”

10 março 2012

8 de Março de luta e afeto

Pequenos grandes gestos no 8 de março
Luciano Siqueira

Publicado no portal Vermelho e no Jornal da Besta Fubana

Aconteceu há uns poucos anos atrás. Como de costume, oferto uma rosa vermelha às mulheres de casa e às que comigo batalham no dia a dia, no ambiente de trabalho. Para marcar a data, densa em significados, com afeto, cumplicidade e espírito guerreiro. Rosas vermelham traduzem bem querer e luta.

Era dia de faxina doméstica. Ofertei também uma rosa para ela, com um abraço fraterno e palavras de reconhecimento e incentivo. Olhou-me com espanto. Balbuciou palavras que não conseguiu pronunciar além de um tímido “muito obrigado” e afastou-se nervosa, o rosto em lágrimas. Um choro abafado, contido. “- Vou completar cinquenta anos e é a primeira vez que recebo uma rosa vermelha em toda a minha vida”, confidenciou depois.

Foi como se ela se descobrisse de repente alvo de um carinho jamais experimentado. Daquela forma, com aquelas palavras e aquele gesto. Tal como acontece com milhões de marias mundo afora, vitimas do desamor ou objeto de um querer apenas superficial, incompleto.

Através de gestos simples como aquele ou de manifestações coletivas, o 8 de março há que ser um misto de comemoração e combate. Comemoração pelas conquistas alcançadas em três décadas de impulso da luta feminista, no Brasil e em outras terras. De combate renovado em busca de novas conquistas, pois a luta é ingente e de longuíssimo curso. A desigualdade de gênero está fincada em sólidas raízes históricas, econômicas e culturais. A emancipação da mulher implica múltiplas trincheiras – nas relações de trabalho, na vida social e política, no confronto de ideias.

Não basta o reconhecimento de que a condição feminina impõe direitos específicos consignados na Constituição. Nem a gama de políticas públicas traduzidas em programas de atenção à mulher adotados pelo poder público nas três instâncias federativas. É preciso fazer permear as atividades protagonizadas pela mulher ou a ela destinadas pelo debate teórico e político acerca da desigualdade de gênero – suas causas, suas manifestações estruturais e cotidianas; e encontrar meios e modos de aprimorar a peleja pela igualdade.

Mais do que tudo, cabe ampliar e qualificar a presença feminina nas esferas de poder, em todos os níveis. O país hoje governado por uma mulher há que abrir espaço para que mais e mais mulheres ocupem cadeiras nas casas legislativas e nos posto de mando no Executivo.

As eleições de outubro dão azo a que as mulheres venham a obter mais cadeiras nas Câmaras Municipais. Para que tenhamos vereadoras capazes de pugnar por uma cidade mais humana, em que mulheres como aquela que um dia derramou lágrimas em minha casa por se descobrir digna de receber uma rosa vermelha possam despertar para a luta emancipacionista.

O sentido do que se diz

Palavras devem ser mais do que palavras
Luciano Siqueira

Publicado no Blog da Revista Algomais
Na década de setenta, a rede Globo exibia um programa humorístico em que o personagem Walfrido Canavieira - criado e interpretado por Chico Anysio -, ao discursar para a multidão, à guisa de comício, concluía sua fala, em geral vazia, com a expressão: “palavras são palavras, nada mais do que palavras”.

Essa afirmação do discurso demagógico, que pretende conquistar votos sem firmar compromissos claros e factíveis diante do povo, vem à tona com certa força na atual fase pré-eleitoral. Pré-candidatos a prefeito em todo o País – segundo se lê na imprensa e se observa cá na província -, devidamente instruídos por suas assessorias de marketing, pinçam de pesquisas de opinião os problemas mais sentidos pela população e em torno de cada um deles antecipam uma promessa – de preferência apresentada em termos plásticos e atraentes. Pouco importa a viabilidade do que se anuncia, vale a conquista do aval partidário e a simpatia do eleitor.

Há demagogia para todos os gostos. Sem nenhuma consideração para com os dispositivos constitucionais, nem para com as dificuldades de financiamento relacionadas com os limites da arrecadação municipal e com os rigores da Lei de Responsabilidade Fiscal.

De outra parte, mesmo em cidades de grande e médio porte, muitos tratam o município como uma entidade apartada do Estado e da União, como se ente federativo não fosse. Descuidam das implicações de políticas públicas federais no equacionamento de problemas municipais – como desemprego, segurança, saúde, educação, saneamento básico, desenvolvimento de atividades produtivas diversas, etc. E ignoram o peso da mobilização da sociedade local em favor do desenvolvimento nacional.

Nas plataformas (termo mais apropriado do que “programa”) dos candidatos majoritários, o destaque óbvio está nos problemas e soluções locais, porém o elemento nacional não pode está ausente. Todo candidato progressista, mormente os situados à esquerda no espectro das forças que dão respaldo ao governo Dilma, deve se posicionar, por exemplo, sobre projetos e programas do governo federal que, uma vez concretizados, melhorarão em muito as condições de vida nas cidades – como a política de investimento visando acelerar o crescimento econômico, incrementada pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Demais, a ideia de um pacto nacional pelo desenvolvimento e pelo emprego, com a valorização do trabalho, no período pós-eleitoral precisa encontrar nos prefeitos eleitos mediadores qualificados junto aos partidos da base do governo, ao movimento social e a segmentos e personalidades expressivas na vida local.

Promessas de futuro candidato não podem ser simples palavras, nada mais do que palavras. Devem
expressar propostas de conteúdo responsável, para que o eleitor possa fazer uma escolha consciente.