31 maio 2014

Espera

O sábado é de Paulo Freire: “Estarei preparando a tua chegada/como o jardineiro prepara o jardim/para a rosa que se abrirá na primavera.” 

Não use Resfenol

Informa a Agência Brasil que A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) suspendeu a distribuição, o comércio e o uso, em todo o país, do medicamento Resfenol, solução oral gotas, fabricado pela empresa Kley Hertz S.A. Indústria e Comércio. A agência cancelou o registro do antigripal sob a alegação de que o produto não apresenta estudos clínicos que comprovem sua eficácia. A empresa fabricante fica responsável pelo recolhimento de todo o estoque existente no mercado.

Economia cresce

Economia do Brasil cresce 0,2% no primeiro trimestre do ano. Alta de 1,9% em comparação com o primeiro trimestre do ano passado.

29 maio 2014

Aconchego

A quinta-feira é de Pablo Neruda: "O mundo é mais azul e mais terrestre/de noite, quando eu durmo,/enorme, em tuas pequeninas mãos." 

28 maio 2014

Jogando a toalha

Eliane Catanhêde, na Folha de S. Paulo, confusa e a contragosto, admite que a Copa será um sucesso e empolgará o Brasil.

Crime político

Padre Henrique foi vítima de crime político - Passados 45 anos do assassinato do Padre Antônio Henrique Pereira Neto, a Comissão Estadual da Verdade divulgou relatório conclusivo, apoiado em provas concretas obtidas de fontes oficiais, atestando o caráter político do crime. Estive na cerimônia realizada ontem, na Igreja dos Manguinhos, marcada por muita emoção. Na minha juventude, participei de grupo de debate do Evangelho, ao lado de companheiros que se iniciam no movimento estudantil universitário. Guardo de Henrique a imagem de um sacerdote comprometido com a luta do povo.

Alarde estéril

"Um país em embulição", manchete do Diário de Pernambuco. Absurdo exagero! Somos mais de 228 milhões de habitantes e as manifestações e greves de policiais mobilizam ínfima parcela da população.

Luz

Karol Bak
A quarta-feira é de Ariano Suassuna: "Oh! Meu sangue, meu sono e dor, coragem/Meu candeeiro aceso da miragem/Meu mito e meu poder, minha mulher" 

Incentivo

Continua a política de desoneração da folha de pagamento que beneficia 56 setores da indústria brasileira, iniciada em 2011 como parte do programa Brasil Maior. Um estímulo à competitividade e ao incremento do emprego. Com a decisão da presidenta Dilma, os setores beneficiados pagam apenas o equivalente a 1% e 2% de seu faturamento, em troca dos 20% do pagamentos da contribuição das empresas para o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) que existia anteriormente.

Incitação ao ódio antinacional

A Copa e a bandeira do Brasil 

Walter Sorrentino, no Vermelho

A última manifestação “contra a Copa” em São Paulo reuniu um punhado de manifestantes e nela foi queimada uma bandeira do Brasil, exasperação para o apelo midiático.
É uma coisa de qualidade nova. Mais que o complexo de vira-lata e mais que o senso de desprezo nacional por parte de uma camada restrita da alta classe, esse pretenso movimento social incitou ao ódio nacional. Um caroço novo que se incute na sociedade brasileira, normalmente não afeita a isso, e muito presente em outros rincões, alavancando a direita extremada a capitalizar politicamente.

A que serve e a quem serve essa iniciativa? Não se deve considerar ser ingenuidade ou simples primarismo o que motivou a iniciativa – não pelo que vemos nessa manifestação, que acaba conspurcando até os movimentos sociais que, certos ou errados, reclamam contra a Copa para alcançar reivindicações sinceras. E a esta altura da luta, na atual correlação de forças no mundo e no Brasil, não se deve imaginar que isso foi espontâneo, não mesmo.

Queimar bandeiras se tornou um marco de protesto contra o imperialismo, contra os atentados, golpes e guerras promovidos, sobretudo, pelos EUA em todo o mundo. Ainda hoje isso vige, contra as guerras “humanitárias” promovidas pelo presidente Nobel da Paz (!), enquanto os mais de 1 milhão de soldados que fizeram a guerra, desde o Vietnã, ditos “heróis da pátria” são verdadeiros párias sociais ao retornarem mutilados e portadores de doenças mentais. É conhecido o escândalo dos veteranos de guerra abandonados nos cuidados à saúde que tem lugar hoje nos EUA.

Nada a ver com situação brasileira, muito menos com a Copa. O que ocorreu em São Paulo desserve à causa popular. Claramente, leva água para um moinho que não é o do povo brasileiro, de seus interesses imediatos e fundamentais. Não vai nessa condenação nenhum nacionalismo, embora sim o patriotismo (que é o caso de invocar quanto à Copa e quanto à torcida sincera pela seleção).

Ingenuidade é crer que a maioria do povo seria contra a Copa no sentido pretendido pelos tais manifestantes e disso fizesse uma bandeira política para derrotar o governo. O eleitor vai separar friamente os ganhos e as perdas nessa iniciativa. Não se pautará por isso para decidir seu futuro, o futuro do país na encruzilhada das eleições presidenciais. As pessoas sabem decifrar seus interesses.

É verdade que há uma esfinge a decifrar na sociedade. O argumento de fundo é de que há algo novo que é a emergência de uma extensa legião de brasileiros que ascenderam social e economicamente. Formarão suas próprias tradições, consolidarão valores, alimentarão o ideário meritocrático, farão suas experiências políticas. É reducionista considerar que isso representa a prevalência de uma “ideologia de shopping”. É muito mais que isso e muito menos ingênuo que isso, não obstante a despolitização– sobretudo anti-partidarização – que marca a sociedade contemporânea. Há alguma anomia nas relações sociais ou, ao menos, uma desreferenciação política mais geral das irrupções com respeito às entidades históricas que deram a estrutura vertebral da luta social – e política, por suposto – das últimas décadas. Há também, nesse ambiente, lugar para o descabeçamento puro e simples, soluções falsas que penalizam o povo.

O importante é que as forças estruturadas politicamente não se omitam, porque ajudam a promover o debate racional sobre os interesses do movimento social e da luta política que serve à maioria do povo e à afirmação nacional. Eis aí a disputa: buscar fazer prevalecer valores progressistas, com a experiência das forças sociais mais politizadas e experientes, desde que estejam abertos a ouvir e dar guarida às aspirações, formas de ver e agir dessas novas camadas, em especial mulheres e jovens, de seus anseios, insatisfações e protestos.

Não há como considerar que o povo brasileiro seja ingênuo politicamente. As últimas disputas políticas realizadas no país, depois do terror anti-Lula que deu na eleição de Collor, indicam que vão separando joio de trigo, pensam nos seus interesses, valores e expectativas sociais quando votam; decodificam mensagens partidárias na TV; desconstroem e reconstroem, em modo próprio, narrativas críticas sobre o que se propõe. Está mais esclarecido, tem sua própria forma de moldar opiniões, outro padrão social-familiar e etário no núcleo que rege a formação de opinião e forma a maioria da sociedade. Aliás, as três últimas eleições presidenciais foram marcadas pelo signo de que os órgãos e segmentos sociais ditos formadores de opinião, não fizeram valer sua opinião.

Esses contingentes sociais estão em disputa política, daí o afã da mídia hegemônica (e oposicionista) em produzir mau-humor a partir do mal-estar social com a vida urbana, os reclamos de que os avanços mantenham a aceleração dos últimos anos, as reivindicações de serviços públicos e melhora da representação e governança política. Mas pergunta-se: por que não o conseguiríamos, a partir do legado destes doze anos e da capacidade de promover ainda maiores mudanças?

Relembro Mário de Andrade e um comentário anterior que fiz ao povo como o heroi sem nenhum caráter. “Depois de pelejar muito verifiquei uma coisa me parece que certa: o brasileiro não tem caráter. Pode ser que alguém já tenha falado isso antes de mim porém a minha conclusão é (uma) novidade para mim porque tirada da minha experiência pessoal. E com a palavra caráter não denomino apenas uma realidade moral não, em vez, entendo a entidade psíquica permanente, se manifestando por tudo, nos costumes, na ação exterior, no sentimento, na língua, na História, na andadura, tanto no bem como no mal”.

Dizia na ocasião que não se deve tomar mais ao pé da letra essa ideia, pois ele avançou em forjar uma identidade própria (que, aliás, é marcantemente simpática aos olhos da maioria do mundo). Seu caráter já tem traços constitutivos, e a própria diversidade pode ser considerada a principal marca desse caráter, de um povo que se amalgama (como previa José Bonifácio de Andrada, o patriarca da independência) e que não está preso a fundamentalismos e verdades acabadas, por isso aberto para o futuro.

Talvez os brasileiros estejam menos dionisíacos com o futebol – uma paixão mais racional, digamos assim – e isso não é necessariamente um mal; quem sabe, efeito do caráter do povo que vai se moldando e de um maior nível civilizador alcançado com a redução relativa das desigualdades sociais. Valha a pluralidade de opiniões e o direito de todos em se manifestar, mas também quanto a condenar a queima da bandeira brasileira.

27 maio 2014

Livre

A terça-feira é de Maurício Terra: “O amor, mesmo que não seja tanto,/há de ser revelado – e vivido./Jamais contido.”

26 maio 2014

Esperto e conservador

Ronaldo usa Copa só para faturar e apoiar candidato

Ricardo Kotscho, em seu blog

Ronaldo Fenômeno, maior artilheiro de todas as Copas e empresário bem sucedido, pode ser acusado de tudo, menos de ser um idiota, como o chamou o escritor Paulo Coelho, que estava a seu lado, entre outras autoridades e celebridades, quando o Brasil foi escolhido para sediar a Copa do Mundo de 2014.

Ao contrário,  o ex-jogador do Corinthians e da seleção sempre foi muito esperto nos negócios e não rasga dinheiro, um exímio surfista em busca de uma boa onda, sem dar muita bola para compromissos e princípios éticos, um verdadeiro fenômeno empresarial.

Quando aceitou ser membro do Comitê Organizador Local, em 2007, uma das tarefas de Ronaldo era exatamente a de defender a Copa no Brasil e responder críticas à organização do evento. Só que, logo em seguida, ele sumiu do noticiário, mudou-se para Londres, onde foi cuidar dos seus negócios, e esqueceu a tarefa que havia assumido. Até aí, seria apenas mais um cartola omisso e leniente, preocupado mais em faturar como garoto propaganda do que em servir ao futebol brasileiro que lhe deu fama e fortuna.

Depois de embolsar uma bela grana com comerciais alusivos à Copa do Mundo, eis que ele ressurge em grande estilo no Brasil, ganhando novamente as manchetes ao papaguear as críticas da grande mídia à organização, na qual o COL tem um papel importante. Ronaldo foi além e desceu o pau no atraso das obras dos estádios e da mobilidade urbana. Como se não tivesse nada com isso, apenas um turista inglês de passagem pelo Brasil, falou mal dos aeroportos e de todo o resto, dizendo que sentia vergonha de tudo.

Vergonha de Ronaldo sentimos nós ao constatar que não fez nada de graça, nem isso: na verdade, estava fazendo política rasteira para desgastar o governo e iniciar uma campanha a favor do candidato que apoia, o tucano Aécio Neves, seu amigo, como fez questão de registrar em seu Facebook, chamando-o de futuro presidente.

Com a maior cara de pau, logo deu início à sua nova tarefa de cabo eleitoral: "Sempre tivemos uma amizade muito forte e agora vou apoiá-lo. É meu amigo, confio nele e acho que é uma ótima opção para mudar o nosso país". Foi mais longe: afirmou que, como empresário, diz que desistiu de investir no Brasil no próximo ano por estar inseguro. "Essa insegurança que estamos vivendo, essa instabilidade, a revolta do povo... O governo deveria tranquilizar o povo, o setor empresarial".

Até outro dia, ele aparecia em alegres fotos ao lado de Lula e Dilma. De repente, ao voltar de uma longa vilegiatura no exterior, entre um comercial e outro, virou uma espécie de Álvaro Dias do futebol, só vendo defeitos em tudo e dizendo o que deveria ser feito.

Ora, o cidadão Ronaldo tem o direito de escolher os amigos e apoiar os candidatos que bem entender, mas poderia pelo menos ser um pouco mais sutil na sua radical guinada de lado, certamente porque ouviu dizer lá fora que Dilma estava mal nas pesquisas e Aécio era a bola da vez.

Sem esperar pela pronta resposta, acabaria tomando um tranco da presidente Dilma, ainda no final de semana. "Tenho orgulho das nossas realizações, não temos do que nos envergonhar e não temos o complexo de vira-latas, tão bem caracterizado por Nelson Rodrigues se referindo aos eternos pessimistas de sempre".

Dilma e Nelson só erraram na raça do cachorro: vira-latas costumam ser fiéis, não traem o caráter nem mudam de time em troca de um osso.

A campanha presidencial este ano está tão imprevisível que tudo pode acontecer. Como Aécio Neves não consegue encontrar um vice para chamar de seu, por que não aproveitar o repentino embalo político de Ronaldo e dar a camisa logo para ele?

Se com sua ficha extracampo Ronaldo vai agregar ou tirar votos do tucano, é outro problema. E se o nome dele for aprovado nas pesquisas internas do PSDB? Fica a sugestão. A campanha eleitoral ficaria pelo menos mais divertida e festiva.

Conquistas que a mídia esconde

As vitórias pouco divulgadas do Brasil

Luis Nassif, no seu blog

O pessimismo geral do país é um caso clássico de esquizofrenia, alimentado por uma mídia do eixo Rio-São Paulo que perdeu a noção da notícia.

Durante dois anos, martelaram diariamente atrasos em obras da Copa, realçaram detalhes de obras inacabadas, uma campanha diuturna sobre a suposta incapacidade do país em se preparar para a Copa – como se depreciando a engenharia brasileira, os grupos privados envolvidos com as obras, os governos estaduais corresponsáveis pelo processo, a criação do clima de derrotismo se abatesse exclusivamente sobre o governo Dilma Rousseff.

À medida que a Copa se aproxima, que os tapumes das obras são retirados, os usuários descobrem aeroportos de primeiro mundo, arenas esportivas de qualidade invejável, novas estatísticas mostrando o potencial financeiro do jogos.

E os jornais passam a se dar conta que a Copa será a maior vitrine do país em toda sua história, com os 14 mil correspondentes, os recordes de visitantes e da audiência esperada para o televisionamento dos jogos.

Por esse sentimento permanente de baixa autoestima, provavelmente não se dará o devido valor a um feito extraordinariamente superior ao de abrigar a maior Copa do mundo da história (na opinião da Fifa): o atingimento dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, comprovando que o Brasil entrou em um novo estágio civilizatório.

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O conceito de Metas do Milênio nasceu em 2000, quando líderes mundiais acertaram uma agenda mínima global de compromissos  pela promoção da dignidade humana e de combate à pobreza, à fome, às desigualdades de gênero, às doenças transmissíveis e evitáveis, à destruição do meio ambiente e às condições precárias de vida.

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Conforme os dados do 5º Relatório Nacional de Acompanhamento dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, com quatro anos de antecedência, o país conseguiu alcançar a meta de redução de dois terços a mortalidade infantil, que caiu de 53,7 mortes por mil nascidos vivos em 1990, para 17,7 em 2011.

No saneamento, em 1990 70% da população tinham acesso à agua e 53% à rede de esgotos ou fossa séptica. Em 2012, os indicadores saltaram para 85,5% e 77% respectivamente.

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Outro indicador, o da redução da pobreza extrema, caiu para 3,5% da população, próxima à meta de 3%.

Segundo o Ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos Marcelo Nery, um dos principais fatores foi a formalização do mercado de trabalho. No período 2002-2005, a formalização girou em torno de 46% da população ocupada. Em 2012 alcançou 58%.

Entre os ocupados a pobreza extrema é de 1,3%; entre os ocupados com carteira de trabalho, de 0,1%.

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Em que pese os avanços que ainda faltam na qualidade do ensino, a taxa de escolarização no ensino fundamental, para crianças de 7 a 14 anos, está próxima de 100%; assim como a taxa de alfabetização de jovens de 15 a 24 anos.

Apesar do analfabetismo funcional, os estudantes de 9 a 17 cursando a série adequada à sua idade saltaram de 50,3% para 79,6%. Parte do avanço foi devido a distorções, como a aprovação automática.

25 maio 2014

PCdoB na TV

@lucianoPCdoB: Se não viu, vale a pena ver, analisar criticamente e debater - PCdoB na TV http://t.co/8M7IDtqy1D

Torcida

Corinthians muito superior goleia Sport: 4x1 em plena Ilha do Retiro. De arrasar. Não gostei do resultado: torço para que os times pernambucanos se saiam bem no campeonato brasileiro. Em todas as séries.

Somos

O domingo é de Vinicius: "Pois para isso fomos feitos:/Para a esperança no milagre/Para a a participação da poesia" 

A vida do jeito que é

O saque

Marco Albertim, no Vermelho

Rígido ali, só mesmo o delegado parado à porta de seu gabinete, fitando a imagem do Cristo acima de sua poltrona, enxergando cumplicidade nos olhos de peixe morto de um Cristo que de tão agônico, renunciara a ouvir o murmúrio de crimes no corredor em frente.
O Cristo tinha olhos tão somente para a poltrona do delegado, mesmo em sua ausência, o que infundira a convicção de que, estando sua poltrona vazia, a pregação que se desprendia dos olhos mortos, agonizava mais ante os ouvidos moucos das paredes.
Quis sentar-se, mas decidiu ficar ali por mais tempo, para não dar as costas à aura a seu ver vital, que descia dos olhos do Cristo. O Velho Testamento na gaveta à direita de seu birô, com frequência sustinha-o na mão do mesmo lado, sobre pastas de inquéritos ainda em curso. A força da Palavra dando prumo e entrevendo sentenças de punição a ímpios ainda não arrependidos.
Ao fim de cinco minutos, recompôs o paletó cinza, da mesma cor da calça. A reza comum a seus balbucios solitários, subjugou-o na feliz prostração do pensamento sem curvas, cego aos flancos de pecadilhos atraentes. Respirou fundo antes de dar o primeiro passo para a poltrona àquela altura duas vezes fria, porque também se fizera indiferente aos rogos do Cristo acima. Já andando, atinou outra vez para a sua crença pútrida, por isto mesmo cultuada e só abrigada em seu peito de reação morna à rotina desigual dos presos sob sua custódia.
Sentado, mesmo olhando para o corredor de onde viera com passos lentos para fruir-se dos cumprimentos reverentes que ouvira dos agentes na sala, não viu o comissário chegar, pedir licença para falar e dar conta do rebuliço iminente na avenida em frente.
- Como assim? – não se desprendera de seus santos.
- Não podemos fazer nada. São centenas, talvez mais de mil pessoas saindo de becos e descendo as ladeiras da Guabiraba. Vão saquear o comércio.
- E a Polícia Militar, onde está a Polícia Militar!?
- Está em greve, doutor Silvestre. Não tem uma viatura por perto.
Feito duendes saídos de grotões, homens suados, mulheres com varizes à mostra nas pernas e coxas, muitas com o filho entre as curvas da cintura e a intumescência da barriga. Não gritavam, inda que abrindo a boca para ofegar contentes a fraqueza do corpo súbito controlada pelo delírio de ter nas mãos um eletrodoméstico com dobras luzidias. Um grito ou outro se ouvia de moços de bermuda, canelas compridas e cinzentas, nos pés um par de tênis já estropiados, ainda aos sopapos de quem se supunha quites com os costumes da moda. Não tinham trabalho, aqueles moços, nunca lhes deram incumbência com prazo para começo e fim; criam-se, pois, com energia bastante para pôr sob os braços ágeis, celulares e toca-discos, com a desenvoltura suspeitada, só suspeitada, por quem, por isto mesmo, lhes negara ocupação remunerada.
O delegado teve tempo de pôr o revólver no coldre vazio; não abotoou o paletó, mesmo lembrando-se do hábito de sempre fechá-lo antes de entrar na igreja para o culto purgativo. Segurou na bíblia sem tirá-la da gaveta; o fluido adstringente apertou-o de cima a baixo; ao fim, em vez de jungir os membros, distendeu a medula espinhal.
Ordenou que a viatura parasse em frente à loja de eletrodomésticos. Tirou o revólver do coldre, os outros, no banco de trás, imitaram-no. Atirou para cima; o estampido deu lugar ao estrépito, à gritaria. A última prateleira da loja ainda no mesmo lugar, desabou no chão. O gerente, perplexo, olhou para o chão e para o rosto com cismas de salvação do delegado.
O delegado Silvestre ainda viu a última saqueadora saindo da loja, uma mulher com estrias fundas nos cantos dos olhos, da boca e sob o queixo, carregando o estrado de uma cama cujos lados ficaram para trás.
Dia seguinte, uma romaria de saqueadores arrependidos entrou na delegacia com o butim respectivo. Conduzidos por agentes com os revólveres à mostra, ouviram do delegado Silvestre o anuncio de que a pena ser-lhes-ia comutada por outra menor; voltaram para casa nus da pilhagem e do juízo.
A mulher de rosto encarquilhado trouxe o estrado com a ajuda do neto. O delegado perguntou-lhe se sabia rezar.
- Sei sim sinhô. Mas tô com tanta vergonha que no momento num sei começá.
Ele tirou a bíblia da gaveta e, pausado, recomendou:
- Vá para a cela com esta bíblia, sente-se no estrado de cimento. Pode levar o garoto. Quando recuperar a memória da oração, volte aqui e vá para casa.             

24 maio 2014

Pressão do pensamento único

A guerra ideológica
Eduardo Bomfim, no Vermelho

A grande mídia oligárquica internacional, nacional, sócia dos interesses do grande capital financeiro especulativo, do rentismo, praticamente já não mais traduz aquilo que ao longo dos tempos chamamos de jornalismo factual ou investigativo.

Trata-se de um fenômeno interligado ao movimento de concentração, centralização do capitalismo em escala global em níveis nunca vistos em épocas anteriores.

Ao tempo em que nas duas últimas décadas reinou absoluta a Nova Ordem mundial em decorrência de uma realidade geopolítica unipolar sob a batuta imperial dos Estados Unidos.

Produzindo uma espécie de ditadura do pensamento único do Mercado em substituição aos grandes valores universais, conquistados ao longo dos tempos pelos esforços da civilização humana em meio a avanços e retrocessos, conflitos de classes e guerras.

Assim essa mídia cuja finalidade residia no valor da informação, mesmo que uma informação de classe, foi se transmutando pelo menos nos últimos vinte anos assumindo mais recentemente outro caráter em sintonia com o processo de ultra centralização capitalista global.

A pauta da mídia oligárquica passou a ser a mesma em qualquer parte do mundo ao sabor dos objetivos do grande Mercado, da especulação parasitária, dos movimentos políticos estratégicos ou conjunturais da Nova Ordem Mundial neoliberal.

O que se alterna é a nuance regional sobre os temas, posto que as agendas são globais em consonância com os interesses econômicos, políticos da governança mundial financeira.

Onipotente, a grande mídia oligárquica já não mais divulga a sua versão de classe sobre os acontecimentos, passou ela própria a arquitetar em laboratório os fatos, os fenômenos sociais, tal é sua força como monopólio substituindo, quando necessário, os partidos políticos de linhagem neoliberal desgastados por lutas institucionais.

Mas a resistência dos povos, das nações a esse modelo totalitário tem sido crescente, aumentando os conflitos por todo o planeta. Destacando-se na América do Sul, Brasil, Argentina, Venezuela, sob ataques do que vem sendo definido nessa era digital, cibernética, como guerra de 4ª geração.

O que estamos vivendo no Brasil, em resumo, é uma intensa batalha ideológica, política. Uma tenaz luta em defesa do progresso social, da democracia, da soberania nacional.

Voz do povo

No 12° Congresso da CONAM, em João Pessoa, falei agora sobre a situação política nacional. O debate prossegue. São mais de 1.200 delegados e delegadas de todo o País, sob a consigna "Na construção das reformas democráticas para o Brasil continuar avançando.". É a força do movimento popular.

Canto

O sábado é de Cecília Meireles: “Sei que canto. E a canção é tudo./Tem sangue eterno e asa ritmada.” 

23 maio 2014

A palavra instigante de Jomard Muniz de Britto

Quem tem medo da Copa?

Para os militantes dos pré-conceitos e pós-tudo
das preguiças mentais e experienciais
NÃO PODE SER
a nossa cópula midiática.
QUEM TEM MEDO das REDES SOCIAIS e
dos resíduos patrimoniais?
O que faz falta de fato é o espírito crítico?
Mas quem educa nossos educadores?
Salve-se quem souber da brevidade dos
ATENTADOS POÉTICOS.
O que fazer?
  
SER e NÃO SER

Da maior e melhor teatralidade.
Dos eternos enquanto perdurem.
Mas continuar sendo e permanecendo
ex-PERI-mental no corpo a corpo
dos paradoxos. Conflitos em transe.
Quem tem medo de Lígia Fagundes e/ou
Hilda Hilst das BUFÓLICAS?
Paradoxos para todos: eternos e efêmeros,
cômicos e trágicos.
Lutas cotidianas além das
Redes Sociais e Enredos Palacianos.
Que twitaço é esse ou aquele?

Recife, maio de 2014.
Jomard Muniz de Britto

Terrorismo fiscal no figurino tucano

A oposição só acredita em desemprego

Wanderley Guilherme dos Santos, na Carta Maior

Ciclos de recessão e desemprego fazem parte da dieta normal da tristeza capitalista. Isso é história econômica banal. Mas nada triviais são os esforços para evitar, superar e em último caso amenizar as seqüelas que, como já diagnosticara Alexis de Tocquevile, constituem o outro lado da moeda da expansão do mercado.
 
Em favor da verdade, a necessidade de intervir nesses maléficos processos não foi desde logo reconhecida nem muito menos, mesmo depois de registrada em cartório, aceita como necessária. Para os que, julgando-se Isaac Newton, acreditavam que as leis dos mercados capitalistas copiavam as leis da física clássica, toda intervenção seria inútil, tentativa de emendar a lei da gravidade universal. Pior, seria desastrosa, desajustando as leis da oferta e demanda. Foram precisos muito desemprego e muitas recessões até que surgissem concepções não mecânicas do mundo humano. 

No Brasil criou-se o seguro-desemprego em 1986, embora já previsto na Constituição de 1946. O Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), instituído em 1990, foi outro grande marco de defesa do trabalho diante da imprevisibilidade capitalista. Finalmente, durante as três administrações petistas estenderam-se amplamente as políticas pró-trabalho. Não é à toa que organismos internacionais proclamam a excelência do programa Bolsa-Família, entre outros, copiada em vários países.

Mas o seguro-desemprego e equivalentes só compensam relativamente a perda de renda quando o trabalhador já está desempregado. Com o fim da estabilidade no emprego, na década de 80 do século passado, estabeleceu-se um buraco legislativo que a criação do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) não preencheu. Trata-se de desenhar medidas que evitem ao ciclo de expulsão do mercado de trabalho sem onerar excessivamente a folha de pagamentos das empresas. É neste sentido que os Ministérios da Fazenda e do Trabalho preparam medida provisória regulamentando a flexibilização da jornada laboral. Por ela, as empresas em comprovada dificuldade financeira cortariam temporariamente em até 30% o salário do trabalhador enquanto o governo ficaria responsável por complementar metade da parcela reduzida. Com a dificuldade financeira conjuntural do FAT (com fundos destinados a outras demandas do crescimento econômico e proteção aos trabalhadores), o governo inclina-se para financiar o programa com recursos do FGTS. Na proposta, o empregado beneficiado continuará a descontar para o Fundo de Garantia do Trabalhador. As centrais sindicais estão de acordo com a futura medida provisória. 

Sem nenhuma surpresa, já se ouvem vozes críticas ao financiamento do novo programa, disfarce da real oposição que, no fundo, é à própria medida. Não importa que programas semelhantes tenham sido implantados em um punhado de países, desenvolvidos ou não: Bélgica, Alemanha, Itália, Japão, Nova Zelândia, México, Hungria e República Tcheka. O Brasil, para esses arautos, nunca estará pronto para nenhuma iniciativa contrária ao mito do automatismo mercadista. Se o FAT, conjunturalmente, apresenta débitos em suas contas, o excedente real do FGTS não deveria ser utilizado em seu lugar, tendo em vista possíveis despesas futuras de origem sabida ou não sabida. Ou seja, uma possibilidade, que a seu tempo será administrada, como tudo em qualquer governo, seria motivo para abortar um extraordinário benefício atual, considerando as mais do que previsíveis oscilações do mercado.

O terrorismo fiscal sempre fez parte do embornal conservador. De nada valem os fracassos de suas previsões. Mudam de argumento. Os conservadores brasileiros estão, todavia, exagerando. Além de substituírem as verdadeiras estatísticas nacionais pelos sensacionalismos da mídia estrangeira, apelam para um indicador único para avaliar o “sucesso” de um governo: a taxa de desemprego. Quanto maior, melhor o governo. Deles. 

O problema, como se sabe, não faz parte da estratosfera sustentável em que Marina Silva desfila. Eduardo Campos é omisso neste quesito, assim como em vários outros, embora fosse interessante saber como ele faria mais e melhor em matéria de emprego e de proteção ao trabalhador. Aécio Neves não se fez de rogado: a saúde da economia depende de medidas impopulares, entre elas, claro, o aumento do desemprego. Só desemprego estima a saúde de uma economia. Repetindo: para a oposição quanto maior o desemprego, melhor o governo. Cáspite!  

Intimidade

A sexta-feira é de Luís Carlos Monteiro: "É tão ínfima a distância/quanto viva a lembrança -/E é tão vivo e tão próximo teu corpo/que não se perde a esperança"

Bandeira erguida na batalha de ideias

O que fazer diante da onda marrom da mídia?
Osvaldo Bertolino

Aparentemente há uma apatia das forças progressistas na atual fase da disputa ideológica que se trava no país. O pensamento direitista, reacionário e preconceituoso, ao que parece, nada de braçadas. Por que isto acontece?

O campo progressista brasileiro entrou na alça de mira da mídia, inclusive a internacional, como alvo principal. Além dos jornalões, portalões, TVs e rádios monopolizados pelo cartel gobbeliano que domina a comunicação brasileira, blogs, redes sociais e peças pretensamente humoristas disparam rajadas conservadoras numa velocidade e profusão estonteantes. Essa onda marrom começou a se levantar antes mesmo da posse do ex-presidente Luiz Inácio da Silva, em 2003, mas, como é do feitio da direita, em ano de eleição ela ganha densidade.

Neste ano, no entanto, a pauta e a propaganda ideológica fundada no rancor político e no ódio de classes talvez já seja a mais torpe da história brasileira. Os mandantes da mídia sequer são capazes de admitir a ideia de que as pessoas que não seguem seu figurino ideológico não são necessariamente “petistas”. Basta ser democrata e progressista para ser enquadrado nesta categoria. O epíteto passou a ser sinônimo de xingamento e se sobrepõe pesadamente às melhorias que vira e mexe a própria mídia é obrigada a noticiar. São dados que aparecem distorcidos ou camuflados pelo catastrofismo. O progresso que todo mundo vê com os próprios olhos não existe, segundo nos garante esses meios de comunicação.

Cenário de guerra e golpe de Estado - Está claro que os pontos de vista, as análises e o noticiário de diversos órgãos de imprensa que não pertencem ao monopólio midiático brasileiro compõem um quadro muito ruim para a direita. Também é verdade que o governo cometeu erros factuais, embora tenha acertado muito mais vezes do que errou. Pode-se até concordar, enfim, quando a mídia diz que o governo não é do seu agrado. Mas onde está escrito que deveria ser? É essa, justamente, a ideia que tantas pessoas de peso na mídia e a seu redor não conseguem aceitar. Na sua visão, o governo não teria o direito de contrariá-la porque ela é a nata da democracia.
Esta posição serve, em primeiro lugar, ao propósito muito útil de fornecer uma desculpa a membros da direita que defendem a “liberdade de imprensa”. Em segundo lugar, comprova a alergia da mídia à liberdade de expressão — valor que toleram por não terem força para suprimir. ''A grande mídia foi montando primeiro um cenário de guerra e, depois, de golpe de Estado'', afirma a filósofa Marilena Chauí. Por trás de tudo isso, há um jogo perigoso.

Em entrevista à torpe revista Veja, algum tempo atrás, o historiador José Murilo de Carvalho disse que existe uma “armadilha” no Brasil. “Os escândalos políticos não colaram no presidente (Lula) porque ele é um distribuidor de benefícios. No atual mandato, a instituição que mais se desmoralizou foi o Congresso. Se você tem uma economia melhorando, um presidente com apoio popular e um Congresso desmoralizado, qual o resultado? A América Latina está nos mostrando o risco”, disse ele. Logo, seria premente a necessidade de enfraquecer o Executivo para evitar qualquer tentação “autoritária”.

Separar as emoções das realidades - Trata-se de um sofisma, está claro. O Executivo e o Legislativo — ou o Judiciário — são pedras no sapato da direita porque, progressivamente, eles tendem à democracia. O fato é que há também uma campanha nacional contra o parlamento. Segundo a mesma revista, a juíza da 10ª Vara da Justiça Federal Maria de Fátima Costa disse, durante audiência do “mensalão”, ao deputado Paulo Rocha (PT-PA): “O senhor não vai bagunçar a minha audiência. Aqui não é a Câmara dos Deputados.” É o mesmo achincalhe ao parlamento que se vê em colunistas e blogueiros do estrato moral de gente como Reinaldo Azevedo, Diogo Mainardi e Cláudio Humberto. Ou seja: essas figuras desclassificadas servem de referência até para magistrados.

O Brasil conhece bem, e há muitos anos, a situação de ter dentro de si diversos países diferentes convivendo ao mesmo tempo. No presente momento, a diferença que mais chama a atenção é a existente entre o Brasil da calamidade e o Brasil do progresso. O primeiro, como dizem os mestres-de-cerimônia ao introduzir algum personagem que todo mundo conhece, dispensa apresentações: é o Brasil da elite em particular e da mídia, visível todo dia e a qualquer hora em um noticiário político que cada vez mais se parece com os programas de palhaçadas de quinta categoria.
O segundo Brasil é o país do trabalho, do mérito e do progresso — tão real, tão visível e tão vigoroso em suas virtudes quanto o primeiro é vigoroso em seus vícios. A questão mais relevante do momento, do ponto de vista prático, é determinar até onde o país da mídia pode piorar — e os fatos mostram que ele tem tudo para continuar piorando — sem que isso torne inviável o país do avanço. É muito fácil, diante da degeneração crescente da mídia, concluir que o filme já terminou e o bandido acabou ganhando.

Mais difícil, porque dá mais trabalho, é separar as emoções das realidades — e quando se faz essa tarefa com aplicação e cabeça fria o que começa a tomar forma é a possibilidade de que esteja ocorrendo exatamente o contrário. Sem dúvida, o Brasil arcaico dá provas diárias de que está mais vivo e atuante do que nunca. Mas, ao mesmo tempo, parece cada vez menos capaz de impedir os avanços do Brasil novo. Qual o caminho a seguir? Os fatos, mais do que as propagandas ou os desejos, vão responder de um jeito ou de outro a essa pergunta.

A esquerda não pode se encolher - Como diria Lula, o que se pode dizer com certeza, hoje, como nunca antes na história deste país, é que encontram-se em operação forças positivas que jamais haviam se manifestado de forma simultânea. O problema é que isso faz aflorar o que há de pior na mentalidade da direita. Guardadas as diferenças, é algo parecido com o que acontece na Europa. A diferença é que lá a direita que defende o que a direita daqui defende ganha o rótulo de nazista por ser a favor do que ela chama de limpeza social: o extermínio dos seus pobres, os imigrantes. No Brasil, não é raro ouvir que ladrão bom é ladrão morto, especialmente se ele for pobre e negro.A diferença é que na Europa o discurso é aberto e ainda causa arrepios. No Brasil, ele é velado e rende votos.


É uma lástima que a direita no Brasil esteja mais preocupada em preservar a estrutura medieval de nossa sociedade do que em debater abertamente a situação do país. A esquerda não pode se encolher diante disso. Na internet, predomina o ideário elitista. Precisamos de mais blogs, colunas e opiniões progressistas. É o futuro da nação que está em jogo. E ele pode começar a ser definido neste terreno da luta de ideias. (Publicado no portal da Fundação Maurício Grabois)

22 maio 2014

No tempo do amor à camisa

Álbuns de figurinhas de antigamente
Luciano Siqueira


Li agora que em vários lugares formam-se animadas concentrações de colecionadores de um álbum de figurinhas da Copa do Mundo. Gente de todas as idades, muitos adultos de cabelos grisalhos - bendita nostalgia - dão-se ao prazer do troca a troca.

Volto, assim, por um instante, aos meus tempos de criança, colecionador que fui. Lembro-me de um álbum dedicado aos principais clubes do centro-sul do País, em que os jogadores eram retratados com o rosto na forma real, mas o corpo em desenho criativo, alusivo às características de cada um. Meio foto, meio caricatura. Lembro dos goleiros Poy (São Paulo), Oberdan (Palmeiras), Castilho (Fluminense); do centroavante Gino, do São Paulo, dos meio campistas Rubens e Evaristo, do Flamengo, de Vavá e Pinga, do meu Vasco; dos geniais Garrincha e Nilton Santos, do Botafogo.

Acho que era o Teixeirinha, ponta esquerda do São Paulo, que aparecia sorridente tomando banho de banheira, em alusão ao hábito de se posicionar sempre a frente dos zagueiros adversários, em impedimento.

E a “figurinha difícil”, obrigatória em todo álbum? É a mais rara, a que poucos têm acesso. A daquele álbum ficou para sempre no meu espírito como inalcançável. Era o meio-campista Zé do Monte, do Clube Atlético Mineiro. Nunca vi sequer uma foto desse jogador, de quem diziam maravilhas e por isso merecia, sim, o status de figurinha mais cobiçada.  

Até completar o álbum - e poucos o conseguiam - o felizardo tinha direito, como prêmio, a um eletrodoméstico. Um amigo do meu pai se vangloriava de ter ganho um ferro elétrico moderníssimo, que recebera via Correios, pelo serviço de reembolso postal!

Pois bem. Hoje resolvi pesquisar sobre o tal Zé do Monte e, com o auxílio do Google, finalmente me deparei com a foto do dito cujo e com uma breve biografia que, além da exaltação aos seus predicados dentro das quatro linhas, assinala a paixão pelo clube, o alvinegro das Minas Gerais – que o fez recusar propostas vantajosas para jogar em outras terras. Coisa do tempo em que o futebol ainda não se convertera no grande negócio que é hoje, em que os atletas já não podem alimentar o luxo da fidelidade à camisa do seu time do coração. (Publicado no Blog de Jamildo – JC Online)

Descoberta

A quinta-feira é de João Cabral de Melo Neto: “(Espera, por isso/que a jovem manhã/te venha revelar/as flores da véspera.)”

21 maio 2014

Moderna imprensa marrom

A "babaquice" da Folha

Por Renata Mielli, no blog Janela sobre a palavra

Nesta sexta-feira, o ex-presidente Lula participou do 4º Encontro de Blogueiros e Ativistas Digitais, em São Paulo.
Uma leva de jornalistas dos mais variados meios de comunicação compareceu para “fazer a cobertura jornalística da participação do ex-presidente no Encontro de Blogueiros”.
Pela reação virulenta que a maior parte dos veículos tiveram na ocasião da entrevista que o Lula deu para a blogosfera, já dava para imaginar que a predisposição dos profissionais que foram enviados ao encontro era marcada pela má vontade, para dizer o mínimo. Ou seja, já esperávamos uma cobertura em tom de ataque ao Lula e aos Blogueiros.
Mas, o que veio na manhã de sábado na manchete principal da Folha de S.Paulo e em chamada de capa do Estadão e de O Globo foi muito pior. Foi jornalismo de 5ª categoria. Pior, a chamada da matéria - idêntica nos três jornais - foi combinada nos corredores do encontro. Como disse o jornalista Igor Fuser, isso não é jornalismo, é campanha. Sinceramente, como jornalista fiquei com vergonha.
Temos que nos incomodar!
Entre as várias análises que Lula fez sobre o cenário da comunicação e o papel que a mídia tem exercido na disputa política nacional, o presidente disse que não se incomodava mais com o tratamento que a imprensa dispensava a ele.
Ok. Ele pode não se incomodar, mas eu me incomodo DEMAIS e, sinceramente, acho que todos deveriam se incomodar.
Explico: A questão não é concordar ou discordar do presidente. Você pode até odiar o Lula. Mas o veículo de comunicação, mesmo que assuma uma linha editorial de confronto com a política que o Lula representa, deveria fazer um jornalismo de melhor qualidade e fazer a contraposição ao Lula e ao governo de maneira mais qualificada e inteligente.
Reduzir a longa análise que Lula fez em mais de uma hora à frase “Para Lula, cobrar metrô em estádio é “babaquíce”', é tudo, menos informação ou notícia – é o antijornalismo. Qualquer escola de comunicação, em uma aula sobre os critérios de seleção da notícia, poderia utilizar essa manchete para mostrar o que não deve ser feito.
Mas, por outro lado, é um exemplo explícito de tudo o que temos dito (movimentos sociais, de blogueiros) sobre o papel de oposição política que a mídia hegemônica privada brasileira tem assumido nos últimos anos e o péssimo jornalismo que tem sido praticado no Brasil.
Jornalismo de qualidade, por favor.
E sobre isso, toda a sociedade deveria se posicionar, exigindo um jornalismo de qualidade. Porque a mesma cobertura de 5ª categoria que a mídia (em razão de interesses políticos) fez da participação do Lula no Encontro dos Blogueiros, ela faz também em outras áreas (saúde, educação, moradia, economia) por interesses comerciais e financeiros. O que é preocupante e perigoso não só para a democracia, mas para a integridade da sociedade.
Por isso, todos nós temos que nos incomodar e denunciar quando vemos um flagrante do mau jornalismo.
Para o 399 participantes inscritos vindos de 25 estados brasileiros, Lula falou por mais de uma hora. Inspirado e bem-humorado, ele falou sobre a necessidade de o Brasil discutir um novo marco regulatório das comunicações, sobre a conjuntura política nacional e estadual, sobre o seu governo, sobre a Copa, sobre economia e vários outros assuntos. A frase que virou manchete, foi dita em forma de brincadeira e para mostrar que a paixão do brasileiro do futebol é tão grande que ele não se importa de andar.
Mas, para não correr o risco de acharem que eu também posso estar puxando a sardinha para o meu lado, convido a todos e todas para assistirem ao vídeo do Lula no encontro e tirarem suas próprias conclusões. Pode discordar de tudo o que o Lula disse. Isso é legítimo e democrático. Agora, duvido que você concorde com a cobertura e, a partir daí, estou certa que você vai olhar de maneira mais crítica tudo o que aparece nos meios de comunicação.


Grandeza

Picasso
A quarta-feira é de Vladimir Maiakóvski: "Como, será que cabem/nesse tico de gente/o rio, o coração, eu/e cem quilômetros de montanhas?"

Teoria e prática de mãos dadas

Proclamações gerais não têm aderência na realidade

Luciano Siqueira, no Portal da Organização

Toda intenção é válida, pelo menos até que o crivo da prática a julgue. Vale para todas as esferas da vida, vale em especial para a atividade política. Um exemplo marcante é a difusão e a aplicação do Programa Socialista, tarefa de primeiro plano para os militantes do PCdoB. 

A experiência vem demonstrando a absoluta necessidade de se evitar incorrer em dois desvios. Um é a abordagem doutrinarista, que combina o discurso alegórico (permeado por proclamações gerais dissociadas da realidade concreta) com a distribuição pura e simples do exemplar impresso do Programa. Militantes bem intencionados, é verdade, mas ainda despreparados eles mesmos para o bom uso do Programa, escrevem ou discursam acentuando a necessidade objetiva do socialismo e a "inviabilidade" de sua realização no Brasil. Na prática, distanciam-se da "chave" que possibilita a "fusão" das proposições programáticas com os problemas imediatos da vida do povo e da nação – a concretude do novo projeto nacional de desenvolvimento, espelhada no cotidiano da vida e da luta do povo.

Na outra ponta, a ausência de qualquer referência ao Programa. Debate-se, por exemplo, na esfera de governo municipal, intervenções urbanísticas de certo porte sem nenhuma relação com a reforma urbana, uma das reformas estruturais que dão conteúdo programático ao caminho para o rumo socialista. É o discurso economicista ou puramente administrativo. 

Trabalhar com o Programa partidário no curso da luta social, da gestão pública e do debate de ideias em diferentes fóruns, institucionais ou informais, implica correta articulação entre a teoria e a prática. Um desafio para o trabalho de formação e propaganda, a partir das secretarias temáticas dos Comitês Estaduais e Municipais; e questão de atitude militante, via debate e avaliações periódicas na Organização de Base.

Este é o sentido de uma experiência piloto iniciada na zona norte do Recife, em andamento. O propósito é compartilhar com lideranças e ativistas da área a abordagem da pauta de lutas local à luz do Programa e da orientação tática atual (com a participação de dirigentes municipais e de candidatos ao pleito de outubro), resultando: a) na elevação do nível de capacitação teórica e política dos militantes e, por conseguinte, de seu poder de liderança e de intervenção na luta concreta; b) inclusão de bandeiras locais, assim qualificadas, na plataforma dos candidatos comunistas. 

Desse modo, tentamos atingir vários coelhos de uma só cajadada: a busca do voto, o reforço da prática militante consciente, a emulação para a batalha eleitoral de outubro, a qualificação do trabalho de quadros dirigentes. 

(Darei notícia dessa experiência aqui no Portal da Organização.)

20 maio 2014

Uma conquista do movimento estudantil

Foto: Andrea Rego Barros
Prefeitura do Recife garante passe livre para 14 mil estudantes da rede municipal

Mais um compromisso fixado no Programa de Governo do prefeito Geraldo Julio começa a virar realidade. Na tarde desta terça-feira (20), o gestor encaminhou à Câmara dos Vereadores o Projeto de Lei do Executivo que prevê a implantação da gratuidade do Sistema de Transporte Público de Passageiros – Passe Livre para os alunos do 6° ao 9° ano da rede municipal de ensino. A iniciativa beneficiará cerca de 14 mil estudantes, que receberiam 44 passagens por mês para serem utilizadas exclusivamente no trajeto residência/escola/residência. Após escutar as reivindicações dos representantes do movimento estudantil presentes no ato, o prefeito Geraldo Julio tomou uma decisão imediata de ampliar cerca de 1/3 do volume disponibilizado, que passou de 44 para 60 passagens por mês. 

Para garantir o benefício, que começa a valer 90 dias depois da aprovação na Câmara Municipal e sanção pelo prefeito Geraldo Julio, a Prefeitura do Recife disponibilizará um investimento mensal de R$ 1,7 milhão oriundos do Tesouro Municipal para garantir a ampliação do acesso à educação dos jovens do município. A implementação do Passe Livre vai colaborar com a redução da evasão escolar, além de contribuir para economia das famílias de baixa renda, com a redução de R$ 567,60 de gasto por ano, ou R$ 47,52 por mês (meia passagem) por cada filho matriculado, o que se equipara a quase 80% de um salário mínimo.

“O Passe Livre é mais um compromisso tirado do papel. Tudo o que nos comprometemos com a população do Recife está sendo passo-a-passo realizado. Agora, os estudantes da rede municipal vão poder ter o acesso garantido ao trajeto das escolas e também ao lazer que desejarem nos fins de semana”, declarou o prefeito Geraldo Julio.

A matéria será encaminhada à Câmara dos Vereadores ainda nesta terça. De acordo com o Projeto de Lei, as passagens correspondem ao valor do Anel A (R$ 2,15), estando disponível para o uso apenas duas vezes por dia, nos dias úteis, e a partir da decisão do prefeito, também aos fins de semana. Cada estudante receberá do Executivo Municipal um cartão eletrônico com o benefício. O Passe poderá ser recarregado pelos alunos nas próprias unidades de ensino. A aquisição do crédito será feita pela PCR diretamente com a instituição representante do transporte coletivo, o Grande Recife Consórcio de Transporte, mediante a gerência da Secretaria de Educação do Município.

Para Jader Cleiton, presidente da União Metropolitana dos Estudantes Secundaristas, que participou do ato, esta vitória é resultado de uma luta de muitos anos do movimento estudantil. “Estamos muito felizes, porque essa conquista representa uma luta de muito tempo, de muitas mobilizações, reuniões, projetos, conversas com os governantes. Há 70 anos os movimentos sociais já pautavam o Passe Livre e hoje vemos isso começar a acontecer, e começar pela nossa cidade. O prefeito Geraldo Julio dá valor às reivindicações da classe estudantil e só temos que comemorar porque este ato vai contribuir fortemente para a formação dos jovens, para o acesso à escola e também às atividades culturais e de lazer”, pontuou.

A iniciativa, que está no Programa de Governo de Geraldo Julio, visa garantir as condições para que os estudantes frequentem a sala de aula, através do benefício de ir para a escola e voltar para casa sem precisar pagar a passagem de ônibus e agora, também vai facilitar o deslocamento dos jovens para atividades diversas de lazer aos fins de semana.

De acordo com o secretário de educação, Jorge Vieira, este projeto complementa as iniciativas na área da educação da Prefeitura do Recife. “Temos uma política de atenção às escolas municipais, com melhorias estruturais, reformas de mais de cem escolas, projetos de robótica, distribuição de tablets para os alunos, entre outras tantas ações. Este é mais um ato que simboliza a importância da educação para esta gestão”, enfatizou o secretário. (Do portal da Prefeitura do Recife).

Renovação

A terça-feira é de Thiago de Mello: "Velho pássaro, este mundo/dorme como um menino/e se renova cada manhã." 

19 maio 2014

Guerra de ideias na pré-campanha

De quem é a estratégia do medo?
Antônio Lassance

Confrontada com imagens do passado, a oposição partidária e midiática reclama de que a "estratégia do medo", que é de sua exclusividade, estaria sendo usada em favor de Dilma. Seu medo maior, no fundo, é que as pessoas já não mais acreditem em fantasmas.

Na terça-feira (13), foi ao ar a propaganda “Fantasmas do Passado”, do Partido dos Trabalhadores (PT), em inserções na tevê e no rádio.

A peça expõe cenas em que pessoas são confrontadas com a imagem delas próprias, no passado. Mais pobres, mais tristes, abandonadas à própria "sorte".
O programa quer - e consegue - fazer com que as pessoas tentem se lembrar de como era o Brasil antes dos governos de Lula e Dilma. No mínimo, que elas se recordem de como elas mesmas estavam – onde e em que situação.

Os candidatos da oposição acusaram o golpe e imediatamente reclamaram de que PT usa uma "estratégia do medo" e um "discurso do medo".

Ato contínuo, a velha mídia simplesmente copiou e colou o discurso oposicionista. Transformou as aspas da oposição em suas manchetes, literalmente. Estão em todos os jornalões: "estratégia do medo" e "discurso do medo".

Questiona-se em que medida o PT não estaria usando a mesma estratégia de FHC e Serra, disparada contra Lula em 2002. Boa pergunta - boa, capciosa e omissa.

A pergunta tem um pressuposto ardiloso, que é o de que a estratégia do medo é um recurso que deve ser exclusivo de quem faz oposição ao atual governo.
A pergunta omite 2004, 2006, 2008, 2010 e 2012, quando a oposição partidária e midiática usou a "estratégia do medo" em eleições presidenciais, estaduais e municipais.

Em 2006, as campanhas eleitoral e midiática instilavam o pavor a que dinheiro público fosse gasto com pobres, de que o Bolsa Família criasse uma legião de vagabundos e de que o País estivesse sendo transformado no pior dos mundos. Continuamos às voltas com esse discurso em cada esquina.

Em 2010, o medo era do aborto, do casamento de homossexuais e de uma candidata que tinha um passado de luta contra a ditadura. Esse mesmo medo irá proporcionar pelo menos uma candidatura nas eleições deste ano, a do PSC, mas promete estar na boca de muito mais gente.

Em 2014, a "estratégia do medo" é a de repetir - assim como se fez durante todo o ano de 2013 - que a inflação está fora de controle; que o país caminha para um apagão elétrico e de infraestrutura; que ninguém está satisfeito com nada.

De repente, a maioria da população virou "ninguém" e o país pode ser traduzido como "nada". Belo discurso.

Os brasileiros foram meticulosamente convencidos a terem medo da Copa do Mundo, de protestos, de greves. De quem, afinal, é a estratégia do medo?
A oposição sente calafrios não da peça publicitária, mas da ideia força que ela traz para o debate público.

O programa veiculado coloca, nas mãos dos eleitores, uma pergunta simples e direta, que até então não havia sido feita: de 2003 a 2014, sua vida melhorou ou piorou? Aquilo que você conquistou, de mais importante, foi conquistado antes ou depois de 2003?

A oposição, até mesmo Eduardo Campos, vestiu a carapuça de ser o fantasma a que o programa se refere - e treme por ter que carregar o apelido.

Seu medo maior é que as pessoas, no fundo, já não mais acreditem em fantasmas.

(*) Antonio Lassance é cientista político
Publicado em Carta Maior

Existência

Denis Sarazhin
A segunda-feira é de Drummond: "Existir: seja como for./A fraterna entrega do pão./Amar: mesmo nas canções." 

18 maio 2014

Cantilena sem substância

A Copa é pretexto

Aldo Rebelo*
No dia das “manifestações contra as injustiças da Copa”, a maior reunião de massas ocorreu em Macapá: nesta cidade de 370 mil habitantes, 20 mil pessoas fizeram fila para admirar a taça da Fifa exposta no Monumento do Marco Zero. Em contrapartida, os atos públicos da quinta-feira (15) realizados em sete grandes capitais, entre as mais populosas do Brasil, reuniram, nas contas de um jornal, 21 mil manifestantes.
A Copa tem sido um valor de protesto agregado, mas não é o vetor das manifestações. Na cidade de São Paulo, com 11 milhões de habitantes, o conjunto de atos públicos reuniu 15,7 mil pessoas, das quais oito mil eram professores desfilando reivindicações trabalhistas.
O Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto mobilizou menos de dois mil manifestantes, e suas demandas, apesar de inseridas na “Campanha Copa Sem Povo, Tô na Rua de Novo”, foram controle de aluguéis, mudanças no Programa Minha Casa, Minha Vida e “política federal de prevenção de despejos forçados”.
Tudo vai de cambulhada como “atos contra a Copa”, mas salta aos olhos que as críticas ao Mundial da Fifa são minoria. Infelizmente, tal observação fica prejudicada porque as manifestações também incorporam hostilidade à certa imprensa. As principais redes de TV não nos deixam ver pormenores, pois registram as passeatas de helicóptero para evitar que suas equipes sejam agredidas nas ruas.
A grande visibilidade vai para a cantilena político-partidária de grupos que se opõem ao governo. Seus argumentos economicistas, de que ocorre desperdício de verbas públicas, não se sustentam. Não se faz Copa do Mundo para ganhar dinheiro, e sim pela festa que encerra e a projeção geopolítica que proporciona, mas é fato que um megaevento desse porte se paga e dá lucro.
Ao final, os bilhões de reais injetados na sociedade irão, por ironia, ajudar a saldar as seculares dívidas sociais que levam manifestantes às ruas.

*Aldo Rebelo é ministro do Esporte.
O artigo foi publicado em 17/05/2014 no jornal Diário de São Paulo

Troca-troca de técnicos é a ponta do iceberg

A doença do imediatismo no futebol brasileiro

Luciano Siqueira, no Jornal da Besta Fubana

Estamos na quinta rodada do campeonato brasileiro de futebol - o "brasileirão", como se diz no jargão rádio-televisivo - e nem sei ao exato quantos técnicos caíram e outros tantos iniciaram agora seu trabalho em novo clube. Nas séries A e B a lista parece crescer a cada semana, se não exagero.
Em Pernambuco, Náutico e Santa Cruz mudaram na terceira rodada, ou antes. Ou seja: como sempre, bastam uns três resultados negativos para que a troca se consuma. 
Outro dia, num programa de debates na TV, o vitorioso técnico Tite, ex-Corinthians, afirmou que em todos os clubes por onde passou e obteve êxito, os resultados positivos só apareceram a partir do primeiro ano de trabalho. E justificou alinhando algumas variáveis que, no futebol moderno, concorrem para o sucesso ou fracasso de um grupo, cujo amadurecimento requer tempo. 
Mas há que se perguntar quantos clubes têm a maturidade de gestão para aguardar um ano. Nenhum, mesmo os que já atingiram, para os padrões brasileiros, um patamar de organização superior, como São Paulo, Atlético Paranaense, Grêmio e Internacional. 
Bem sei que este não um tema para principiantes. Ou, no meu caso, para quem há muito não frequenta os estádios, apenas vê jogos pela TV - nem sempre - e ouve, de passagem, resenhas no rádio do carro. Também sei que não se circunscreve à esfera dos apaixonados torcedores ou diretores amadores. Mas também sou filho de Deus e, como todo brasileiro, sinto-me no direito de meter o bedelho.
O futebol, tal como mundo afora, no Brasil também se converteu em empreendimento de grande porte, para muito além da relação clube-torcedor. Em torno do marketing, por exemplo, se negociam milhões em patrocínio e se vendem outros tantos em produtos licenciados. Ora, se assim é, não pode seguir gerido de modo amadorístico, improvisado, imediatista. Planejar em horizonte de médio e longo prazo é uma imposição da realidade. Como fazem os grandes clubes europeus, ingleses, alemães e espanhóis, sobretudo. 
Assim, a instabilidade dos técnicos é apenas uma ponta do iceberg gigantesco, que envolve da incompetência a interesses menores, provincianos. 
Nessa mesma rubrica se inclui o calendário brasileiro, que impõe aos atletas um regime de trabalho desumano, que em muito prejudica seu desempenho técnico e físico. 
Assim, estamos prestes a iniciar a Copa do Mundo vivenciando um grotesco contraste: compareceremos com um selecionado de altíssimo nível, formado na quase totalidade por jogadores que atuam na Europa, com chances reais de levar a taça; e um desempenho lastimável dos clubes brasileiros que disputaram as fases iniciais da Libertadores das Américas, todos já devidamente desclassificados diante de argentinos, uruguaios, equatorianos e até bolivianos. 

Poderemos até chegar à constatação de que o mesmo futebol que terá sido capaz de vencer mais uma vez a Copa, vive internamente uma das suas fases mais críticas, mergulhado na mediocridade, fruto de gestão imediatista e incompetente. Até quando?

Comparações necessárias e oportunas

Polarização de quem, caras pálidas?

Por que não checar os números? Resultados contra resultados, estendidos na mesa ou nas telas de TV. Quem fez mais para o país em todos os tempos?
José Carlos Peliano, na Carta Maior

Se o Brasil elegesse Lula os empresários iriam sair daqui e investir noutros países. O futuro do país estaria ameaçado irremediavelmente. Se nos lembramos bem foi este o recado transmitido pela mídia em 2002 e alardeado páginas e páginas, telas e telas de TV, regiões afora.

Essa a polarização escolhida e lançada pelos grandes meios de comunicação. De um lado o futuro do país nas mãos dos empresários, de outro o atraso, os seguidores do PT e aliados, sonhadores, que não tinham ainda governado. O pânico foi insuflado entre os eleitores. Ou se apostava no escuro, ou se seguiria uma vez mais a procissão do poder do capital e seus interesses coligados.

Lula eleito, o sonho derrotou a voz da mídia, ensaiada às custas de muitos investidores interessados, daqui e do exterior. Lula reeleito de novo quatro anos após a contragosto dos poderosos meios de comunicação de plantão. O povo em sua maioria de votantes confirma nas urnas o primeiro e único presidente brasileiro nordestino, retirante, torneiro mecânico. As elites indignadas não admitiram nunca que carne de sol substituísse baby beef.

Pois, foi esse perseguido pela mídia todo o tempo de seus oito anos de governo quem conseguiu proezas até então nem pensadas. Contrariamente aos governos anteriores, despediu-se das amarras do FMI e passou a orientar a sua própria política econômica. Sem mandantes, nem consultores enviados pelos mesmos interesses.

Pôs Lula o país na rota do crescimento outra vez a despeito da grave crise internacional que tomou conta do mundo. Países antes considerados seguros e fortes, como os Estados Unidos e os caciques da Europa, todos eles sofreram amargamente o baque com quedas na expansão econômica e nos níveis de emprego. Muitos deles seguiram a fila e se dependuraram no FMI.

O Brasil fora disso. A mídia nacional assumiu postura cínica e desavisada. Nada ou pouco a falar das conquistas dos governos de Lula e muito a falar de eventuais tropeços, mesmo que inventados por previsões espúrias de dominadores de bolas de cristal feitas nas garagens de suas casas ou nas intrincadas elucubrações saídas de seus computadores.

A polarização do embate político nasceu das páginas dos jornais, das telas de TV e dos mais nervosos radialistas e comentaristas. Nunca admitiram os governos capitaneados por Lula. Nem de sua seguidora Dilma. A mídia perdeu no voto popular, mas não se vergou à pompa e circunstância. Pau neles, o lema que comandou os noticiários, comentários e entrevistas desde a eleição de 2002!

Entra Dilma e o refresco não chega. Fizeram de tudo e por tudo para desacreditar o governo, colocá-lo em cheque, ameaçá-lo de uma intriga ou de outra. A conta não terminava. Começado em Lula e esticado em Dilma, apareceu o famigerado mensalão, alcunha dada pela mídia antagonista. Bordoada midiática por todos os lados, diariamente, de manhã, de tarde e de noite. Intrigas políticas ensopadas com interesses contrariados ensaiaram a maior polarização já vista e vivida na estória republicana do país.

Hoje a polarização criada pela mídia começa a pagar seu preço pela reprovação de entidades jurídicas e advogados notórios do país ao comandante do processo do mensalão por arbitrariedades e ilegalidades cometidas.

Uma outra das mais importantes e marcantes conquistas dos doze anos de Lula e Dilma, depois do adeus ao FMI, a queda na desigualdade de rendas, foi relegada a segundo plano pela mídia. Não se menciona. Nem a oposição fala a respeito porque permaneceu em seu papel de oposição pela oposição. Juntas, mídia e oposição, fizeram e ainda fazem de tudo para descaracterizar, desqualificar e polarizar os doze anos.

É verdade que muito do crescimento econômico tímido do Brasil nos últimos anos está nas mãos de empresários que igualmente querem virar o barco. Alimentam-se mutuamente, mídia, oposição e alguns empresários. Embora os governos de Lula e Dilma tenham facilitado sobremaneira a vida deles com linhas de crédito e financiamento e programas de investimento – veja o PAC por exemplo.

Candidato a presidente e consultores associados querem agora ir contra os aumentos do salário mínimo. O outro candidato nem programa definido tem. Quer a mídia e a oposição jogar tudo fora? O avanço social conseguido nos três governos, reconhecido apenas pela mídia e governos estrangeiros, teve sua razão mais importante nos aumentos maiores do salário mínimo em relação à inflação. Querem voltar atrás. Esta a polarização contra os mais pobres do país que as campanhas elaboram nos bastidores, mas temem jogar no ar.

E vêm agora falar de polarização exatamente porque o PT colocou no ar uma chamada eleitoral alertando para que o país não volte atrás? Este o poder sub-reptício da mídia e da oposição. Criaram a polarização e jogam-na contra o PT e seus governos! Mas a maioria dos eleitores até agora souberam discernir o joio do trigo. Com os defeitos que possam ter encontrado, o pão que saiu da forma dos doze anos ainda é saboroso e saudável.

E o cinismo continua. Boa parte da mídia irá lucrar muito com a Copa e depois com as Olimpíadas. Mas ao mesmo tempo critica a construção dos estádios, a arrumação da infraestrutura urbana, a melhoria dos aeroportos, a qualidade dos serviços. Uma no cravo, outra na ferradura.

Chamaram as primeiras manifestações de bandos de baderneiros. Hoje conclamam a importância delas contra os gastos excessivos para a realização da Copa. O baluarte da dignidade jornalística global chegou nas telas de sua TV a apontar os bandos de baderneiros das manifestações. Seu canal e repórteres passaram a ser então acuados nas coberturas. Voltou atrás dias depois para reconsiderar e falar bem dos antigos baderneiros virando a metralhadora midiática novamente contra o governo.

Se querem continuar a polarização por que não checar os números. Resultados contra resultados, estendidos na mesa ou nas telas de TV. Quem fez mais para o país em todos os tempos? Os doze anos de Lula e Dilma ou os anteriores todos juntos? O que a mídia, a oposição e os novos candidatos a presidente têm a dizer? Sem tergiversarem nem tirarem engodos de suas bolas de cristal?
(*) Economista

À direita

Aécio busca crescer entre os 30% do eleitorado que tende naturalmente ao conservadorismo acentuando discurso à direita. Está no seu papel.

Estranheza

Denis Nuñez Rodríguez
O domingo é de Marcelo Mário de Melo: "Alguma coisa de metal e gelo/retira do caminho toda surpresa." 

Capacitação avançada

Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego - Pronatec já alcançou 6,9 milhões de matrículas em todo País. Oferece mais de 200 opções de cursos técnicos, capacitando jovens trabalhadores para o desenvolvimento.

Vai ter Copa - contra vontade de poucos

Torcida contra a Copa é menor do que a da Portuguesa
Ricardo Kotscho, em seu blog

O que aconteceu? Anunciadas pomposamente como o "Dia Internacional de Lutas Contra a Copa" por líderes sem cara e sem nome, as manifestações de protesto programadas nesta quinta-feira em todo o País e até no exterior, terminaram num retumbante fracasso e, mais uma vez, em atos de vandalismo. Luta mesmo se deu apenas entre black blocs e policiais, um vexame.

Aconteceu que este foi apenas mais um factoide midiático. Não apareceram mais do que 1.500 combatentes no Rio e em São Paulo; outros 2.000, em Belo Horizonte, 100, em Curitiba, 200, em Porto Alegre, 300, em Fortaleza, 100, em Salvador, e por aí foi. Ou seja, somando tudo, tinha menos gente do que num jogo da Portuguesa e mais policiais e jornalistas do que manifestantes.

Estão desmoralizando até os protestos. Agora, qualquer um, por qualquer motivo, pode fechar a avenida Paulista, região onde fica o maior complexo hospitalar do País. Logo de manhã, um grupo de ex-funcionários do Idort, que cuida dos telecentros da prefeitura paulistana, achou-se no direito de desfilar pela avenida, no horário de maior movimento, para cobrar salários atrasados. E o que nós temos a ver com isso?

Claro que, criado o clima e montado o cenário, movimentos de sem-teto e diversas categorias profissionais em campanha salarial, de policiais a professores, passando por metalúrgicos arrebanhados pelo impagável Paulinho da Força, principal aliado do candidato Aécio Neves, aproveitaram-se da ampla cobertura da imprensa para fechar ruas e avenidas em mais um dia de baderna e caos nas principais cidades do País.

Em Recife, foi pior. A exemplo do que já havia acontecido na Semana Santa em Salvador, durante a greve da Polícia Militar, em poucas horas, sete pessoas foram assassinadas, começaram os saques e o pânico tomou conta das ruas, com comércio e escolas fechando as portas. Foram convocadas tropas da Força Nacional e, mais uma vez, o Exército, enquanto o candidato Eduardo Campos, ex-governador de Pernambuco, postava na rede social uma foto da família viajando de jatinho a caminho de São Paulo.

Vamos ter Copa, mas não vamos ter mais nenhum dia de paz até as eleições. São tantos interesses em jogo nesta antevéspera da Copa, juntando os político-eleitorais com os daqueles que querem apenas azucrinar a vida dos outros e aos que se aproveitam do momento para chantagear os governos, que o direito de ir e vir está provisoriamente suspenso. Nada indica que, apesar do fracasso de ontem, as manifestações possam parar por aí.

Policiais de todo o País, civis, militares, federais e rodoviários, já estão ameaçando fazer uma greve conjunta na próxima quarta-feira, dia 21. Em Pernambuco, os PMs pedem módicos 50% de aumento, ao passo que no Rio motoristas e cobradores se contentam com 40%. Num país em que a inflação está abaixo do teto de 6,5%, caso as reivindicações de todas as categorias em greve sejam atendidas, o que é inviável, os aumentos provocariam uma disparada nos preços para a alegria da turma que joga no quanto pior, melhor, que sabemos bem maior do que a torcida da Portuguesa. Aí certamente serão programadas novas manifestações, agora contra a inflação.

Aonde querem chegar? Só espero que outubro chegue logo.

17 maio 2014

Expressão

Picasso
O sábado é de Lau Siqueira: "ando pensando/sobre tudo e canto/como se falar fosse/um ato mudo"

Parada militar

A greve dos PMs

Marco Albertim, no Vermelho

Ressalta na greve da Polícia Militar de Pernambuco, o isolamento que o segmento sofre em relação à população. Recife tornou-se refém do silêncio das ruas. Tanques e viaturas da Força Nacional, com soldados empunhando fuzis-metralhadoras apontados para as calçadas, deram conta do justificado espanto dos minguados transeuntes nas ruas. No sofisticado bairro de Boa Viagem, os urutus foram aplaudidos e ouviram-se vivas ao Exército; a manifestação reflete o medo a saques e a assaltos, junto à reprovação à paralisação de uma força que tem presença ostensiva em centros vitais do comércio. 
A pauta tem como reivindicação principal o aumento de salários de soldados e oficiais. A decisão da greve ocorreu numa assembleia com presença maciça de militares em trajes civis. Porém, no período eleitoral, quando a lei proíbe vantagens salariais na administração pública. Decisão açodada, atabalhoada, em que pese a justeza dos reparos que os militares exigem. Sintoma do açodamento deu-se com a fala da tenente-coronel Conceição Antero, líder com destacada visibilidade na corporação. Na assembleia, em frente ao Palácio do Governo, fez uso de um latim popularesco, corrente em rodinhas de círculos amigos: “(...), se é para parar, vamos parar essa porra.” Foi aplaudida pela turba ruidosa.
Mas na noite da quinta-feira, segurando o microfone, defendeu o retorno aos quartéis, apoiada no compromisso do governo de que a reivindicação salarial será retomada em janeiro. A greve teve fim sem a unanimidade do plenário no asfalto, tampouco houve votação. Quando de sua decretação, a mesma oficial reconheceu no microfone que a corporação tem que procurar o apoio da população. Não há sinais de retaliação por iniciativa da cúpula militar. O comando do quartel reconhece a defasagem salarial, a irrisória ajuda do vale-alimentação e a precariedade do Hospital da Polícia Militar. Conceição Antero, diga-se, é ex-esposa do comandante da corporação, coronel José Carlos Pereira.
A greve demonstrou ausência de unidade numa categoria que ainda engatinha no enredo de greves, inda que a hegemonia de oficiais e soldados tenha manifestado disposição para ir adiante na peleja. E o Tribunal de Justiça decidira pela ilegalidade da greve. O governador João Lyra Neto não arguiu sobre a precariedade do cofre do Estado em conceder o aumento, ateve-se à Lei de Responsabilidade Fiscal e à proibição de aumento no período eleitoral. Contudo, a iminência de descontrole da ordem, franziu o cenho de Lyra Neto, ao solicitar a presença da Força Nacional e se reunir com o ministro da Justiça, Eduardo Cardozo.
Nos três dias acampados nas imediações do Palácio do Governo, centenas de motocicletas estacionaram ao lado do Teatro de Santa Isabel. Dos ônibus, na ponte sobre o rio Capibaribe, os ralos passageiros olhando com indiferença para a multidão de militares à paisana; soldados de bermuda e tênis, homens e mulheres em torno de um carro de som com músicas evangélicas; trilha nada comum ao contingente treinado para vigiar e prender. A decisão de vestir a farda, junto com o cansaço, acentuou o sentimento de desgaste, de perda. No dizer do cabo Miguel Neto, 24 anos de PM: “Vou pedir à mulher para engomar a farda.”
Os saques às lojas tiveram conotação de vandalismo. Não foram comandados por Associações de Moradores de bairros pobres, tampouco tiveram a participação de acampados dos sem-terra. A correria mostrou o frenesi do subproletariado, do lúmpen apropriando-se da presa fácil. Mas não há como negar que também a mulher com filhos a tiracolo arrematou o butim acessível. Celulares de última geração e estrados de camas para quartos vazios de apetrechos para o descanso. Uma parcela que os governos Lula e Dilma ainda não contemplaram.