08 agosto 2011

A incontinência verbal na política

Na política, morre pela boca quem quer
Luciano Siqueira

Publicado no Blog da Folha

Morre não, só se quiser. Assim como em boca fechada não entra mosquito. Pelo menos é o que ensina a sabedoria popular.

Essas expressões têm vindo à tona nos meios políticos em razão da incontinência verbal de alguns, como o ex-ministro Nelson Jobim, que soa como se o falante desejasse provocar determinado desfecho para situação incômoda. Ou, em outros casos, para dissimular a dúvida e a indecisão.

Jobim disse tanta coisa inconveniente e desnecessária, e deselegante, que a presidenta Dilma não teria outra alternativa senão demiti-lo. Coisas que a um ministro de Estado não está facultado dizer – muito menos em público. Depreciativas em relação ao governo a que servia.

Político experiente, ex-deputado, ministro por duas vezes, ministro aposentado do Superior Tribunal Federal, por que terá optado por um caminho tão desgastante para se afastar do governo? Muito mais simples seria pedir demissão, e pronto.

Miguel Arraes era justamente o contrário: absolutamente comedido em suas declarações, acautelado até em demasia. Quando da campanha presidencial de 1989, no segundo turno, articulamos um encontro dele com Lula, com todos os cuidados que a resistência do PT local impunha à época. Na véspera, esteve com o governador o deputado Plinio de Arruda Sampaio, então líder petista na Câmara.

Pois bem. Dia seguinte, nos reunimos (os dirigentes da Frente Brasil Popular em Pernambuco) com o nosso candidato à presidência da República para preparar a conversa com Arraes. Lula de pronto indagou a Plínio: “- Como foi a audiência com o governador?” Ao que Plínio, entre tímido e constrangido, respondeu: “- Não tenho certeza, mas acho que foi boa. Ele me ouviu o tempo todo. Falou muito pouco e quando falou, não ouvi direito por causa do barulho do ar condicionado. Mas de vez em quando ele fazia um sorriso...”.

Ou seja: jamais seria pela palavra mal posta que Arraes se comprometeria, antes cultivava um certo mistério, bem a seu jeito ladino.

Mas hoje, tal como Jobim, não são poucos os que exageram na loquacidade. E quando se trata de dissimular algo, pior a emenda do que o soneto. Revela indecisão, fragilidade, inconsequência. E uma canhestra incapacidade de construir soluções consistentes.

Longe do autor dessas linhas (sempre solícito diante de repórteres e colunistas) a intenção de deitar regra para quem quer que seja. Mas o comentário me parece oportuno, num tempo em que método declaratório de fazer política muitas vezes se sobrepõe à busca real de entendimento e de solução para os problemas postos na ordem do dia. Que não leva a nada – a não ser a desenlaces indesejáveis ou a mal-entendidos que custa corrigir.

Um comentário:

  1. Prezado Luciano Siqueira.
    Boa noite.

    Sempre que possível, navegando na rede, observo seu blog. Hoje, agora, copiei o texto A INCONTINÊNCIA VERBAL NA POLÍTICA, e publiquei no meu blog. O endereço é robertobritocultura.blogspot.com
    Visite-nos.

    Roberto Brito
    Paranatama - PE

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