20 março 2015

A poeta e seus dilemas

Correntes

Lila Ripoll

Tantos e tantos caminhos
e os meus pés aqui parados
na negativa de andar.
Cansei a boca e o desejo,
desenrolei pensamentos,
pedi, pedi que seguissem
e eles ficaram imóveis,
como rocha junto ao mar.
Há correntes invisíveis
enroladas no meu corpo.
- Ninguém as pode partir”-
Fico parada às estradas,
encho a cabeça de sonhos,
atiro as mãos para a frente
mas nunca posso seguir.
Minha roupa às vezes toma
a forma exata de um barco
que morre por navegar.
Mas - ai! de mim! - faltam remos,
a água vem, vai e volta,
molha meus pés invisíveis
e as correntes não me deixam.
- Meu destino é renunciar. -
Os caminhos estão claros
e há um convite sem medidas...
- Ah! partir minhas correntes! -
Prisioneira do meu corpo,
sobem ondas de desejos,
descem ondas de esperanças -
vai e vem soturno e triste
como a água das vertentes!
Pode a Vida fechar todos
os caminhos que me abriu.
Meus pés não querem andar.
Falei sempre inutilmente...
Minha boca é um traço triste
que perdeu seu movimento
de pedir... sem alcançar...

Ilustração: Alessio Albi

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