Socorro na pandemia: uma ajuda desigual
Não tanto pela análise em si – que carece de aprofundamento crítico – e mais
pelos dados da realidade, transcrevo aqui matéria do Valor Econômico de hoje.
O governo anunciará, em breve, medidas para aprimorar os instrumentos
financeiros criados para socorrer as empresas nesta grave crise econômica,
provocada pela pandemia. Uma delas será oferecer incentivos para que os bancos
privados - além do Banco do Brasil (BB) e da Caixa - atendam à demanda das
micro e pequenas empresas (MPEs), cuja maioria, depois de quase três meses de
parada súbita da economia, não recebeu um centavo de ajuda oficial.
Uma outra mudança, formulada também com o objetivo de ainda tentar
salvar pequenas empresas, diz respeito ao financiamento da folha de pessoal
durante estes meses de travessia da pandemia. Pessoal representa, em média, 50%
dos custos operacionais das MPEs.
A regra original do programa obrigava as firmas a manterem 100% dos
empregados. A restrição tornou o instrumento pouco atrativo porque há três
meses as MPEs estão sem faturar, logo, seus donos alegam ser impossível manter
todo o pessoal.
A expectativa dos analistas é que o Produto Interno Bruto (PIB) encolha
mais de 6% neste ano, uma tragédia por si só, mas ainda mais grave se nos
lembrarmos que, no triênio da última recessão (2014-2016), o PIB caiu 6,25% e,
no triênio seguinte, o da “recuperação”, avançou apenas 3,82%. Se o quadro é
esse, como o pequeno empresário pode se comprometer em manter todos os
funcionários?
A ideia, agora, é que a ajuda oficial seja proporcional ao tamanho da
folha de pessoal que o empresário deseje manter. Se for 50%, o governo pagará
os salários diretamente na conta corrente dos funcionários mantidos, no banco
indicado por eles. Estes não poderão ser dispensados. A medida, comentou um
integrante da equipe econômica, não salva todos os empregos das empresas
beneficiárias, mas pode evitar que o negócio feche as portas, o que de fato
seria pior.
O setor de serviços é o mais atingido pela pandemia porque, como se
comprovou em inúmeros países, a melhor forma de enfrentar esse terrível mal
inesperado é o isolamento social, e este nos obriga a ficar em casa. Não há
estatísticas confiáveis, mas, a suspeita é que grande parte das MPEs já tenha
fechado as portas. Pequenos empresários desistiram de seus negócios na primeira
semana do confinamento. Não conseguiriam esperar pelo socorro oficial, que
chegou logo para as grandes companhias, porque, como todo empresário, têm
dívidas, salários, tributos e aluguel para pagar. E nenhuma possibilidade de se
“alavancar”, como se diz no mercado - endividar-se, comprar ativos, para
aumentar a rentabilidade da sua atividade. É bem provável que, quando acabar o
confinamento da população, não encontremos nas ruas uma boa parcela de lojas,
livrarias, cinemas, teatros, casas de shows, bares e restaurantes que habitam
nosso não estará mais aqui.
Não subestimemos o impacto cultural da grande devastação que
testemunhamos, e que está longe de acabar - se, mesmo com distanciamento
social, a Ilha de Vera Cruz se tornou o segundo epicentro da pandemia (739.503
casos, 38.406 mortos), cabe perguntar ao prefeito e ao governador de São Paulo
por que vão flexibilizar as restrições nos próximos dias. Na área econômica,
após quase três meses de parada súbita da economia, a avaliação é a de que as
grandes companhias e as médias, quase grandes, estão bem atendidas pelas
iniciativas lançadas pelo Ministério da Economia e pelo Banco Central (BC). Já
as MPEs não têm conseguido acessar o crédito oferecido. É por isso que haverá
mudanças nas regras.
Em situação pior ainda estão os microempreendedores individuais,
ambulantes e outros profissionais. Estes iam receber ajuda do Tesouro Nacional
por meio das “maquininhas” (de cartão de crédito), empresas que conhecem bem
seus clientes. Mas, inexplicavelmente, o Ministério da Economia desistiu desse
caminho e não pôs nada no lugar - gol contra os liberais! As maquininhas se
tornaram um fenômeno em Cabrália porque jovens empreendedores, com boa formação
acadêmica e muita vontade de ganhar dinheiro no fascinante mundo das chamadas
"fintechs", constataram que uma das características do sistema de
castas existente por aqui está no mercado financeiro. Não importa que o cidadão
tenha um negócio pequeno, que fature x reais, empregue duas ou três pessoas,
atue no seu mercado há 10, 15 anos. Não! Ele é invisível para os grandes
bancos.
Não se trata apenas de uma “falha de mercado”. Sabe por quê? Porque, ao
ignorarem um enorme público de microempreendedores, dentre eles, ambulantes e
prestadores de serviços como manicure, os bancões negligenciaram um mercado de
bilhões de reais - os americanos, sempre menos espertos que nós, não; é em suas
bolsas de valores que as maquininhas, que atendem à clientela “invisível” aos
bancões, abriram o capital. Nesta crise, a turma das maquininhas teria seus
clientes à mão para viabilizar uma ajuda necessária. Ora, não fazer isso
significa também colocar pedras no caminho de companhias que vêm ajudando a
aumentar a concorrência não só no oligopolizado mercado cartões de crédito, mas
também no de serviços bancários - fica a indagação: a quem interessa tudo isso?
Empresas de médio porte também têm enfrentado dificuldade para obter a
ajuda oferecida pelo governo. O que se diz no governo é que, quando as empresas
ficam muito tempo sem faturar, de dois a três meses como nesta crise, a demanda
por crédito é atípica, muito maior do que num ano normal.
“Tem uma recessão grande vindo aí e há uma demanda de crédito que é
muito maior do que haveria. O natural é que os bancos, por causa da recessão,
segurem. Não é uma demanda de crédito para atender ao aumento do número de
consumidores. É um movimento para ter dinheiro para aguentar o período sem
‘cashflow’ nenhum. É contracíclico ao que os bancos estão acostumados a fazer”,
explica uma fonte do governo.
A insensibilidade tem limites https://bit.ly/2XxXGFo
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