26 junho 2021

Lamaçal bolsonarista

Citação a líder do governo na CPI da Covid complica situação de Bolsonaro

Depoimento confuso dos irmãos Miranda descambou para batalha campal na CPI da Covid
Igor Gielow, Folha de S. Paulo

 

O tão antecipado depoimento dos irmãos Miranda à CPI da Covid descambou para uma batalha campal na qual a histeria dos parlamentares bolsonaristas mostrou o quanto o caso Covaxin entrou para ficar no gabinete de Jair Bolsonaro.

Sem implodir o governo, como prometia, a sessão deixou uma bomba enorme a ser desarmada: trouxe o influente líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR), para o palco.

Barros seria o deputado corrupto citado por Bolsonaro como intocável, no relato do teatral Luis Miranda (DEM-DF). Ele demorou horas para confirmar o nome, alegando não se lembrar e, depois, que temia sofrer represálias no Parlamento.

Se for fisgado pela CPI, Barros, ex-ministro da Saúde de Michel Temer (MDB), será um peixe graúdo e intimamente ligado ao presidente. Ele é um dos símbolos do casamento de Bolsonaro com o centrão, que sustenta sua frágil posição política hoje.

Bolsonaro terá mais uma pergunta incômoda para xingar em entrevistas: sabia de suspeitas sobre o aliado, fez algo?

O depoimento entregou fogo contra fogo, como a chegada do deputado depoente provou: um espetáculo bolsonarista clássico, o sujeito com passado questionável com um colete à prova de balas e uma Bíblia debaixo do braço.

Seu irmão, o quase homônimo Luis Ricardo, encarnou o personagem do bom servidor público quase à perfeição. Depôs trêmulo, inicialmente em mangas de camisa, fisicamente moído após acompanhar um voo cheio de vacinas vindo dos EUA.

"Meu partido é o SUS", foi o ótimo lema de campanha que o funcionário da Saúde enunciou, emulando o "Meu partido é o Brasil" de Bolsonaro em 2018. Estabeleceu empatia, mas foi engolido pela persona bolsonarista do irmão, que o complicou em diversos momentos.

acusação envolvendo a vacina indiana Covaxin, em si, é grave e foi ratificada pelos dois irmãos. Apesar da bomba Barros, não houve exatamente um momento Duda Mendonça.

Se na CPI de 2005 o marqueteiro de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) impressionou o mundo político ao confessar espontaneamente ter recebido milhões no exterior, o caso atual já tinha tido toda sua estrutura delineada quando os irmãos sentaram à mesa.

Culpe-se a velocidade da comunicação em tempo real dos dias de hoje ou a falta de estratégia, mas a sensação de fim de mundo que tomou o governismo naquele 11 de agosto quase 16 anos atrás não compareceu ao Senado, apesar da torcida. À exceção, a ver, de Barros.

Parte disso pode ser debitado da conta da CPI da Covid, que criou uma jabuticaba parlamentar ao colocar os irmãos falando lado a lado. Por óbvio, depoentes precisam ser expostos a contradições eventuais, e não receber palco para um jogral.

Não que o estrago que o caso está causando não tenha sido estabelecido. Os perdigotos e os berros dispensados mais cedo pelo presidente Bolsonaro encontraram eco revelador na bancada de seus prepostos, senadores Marcos Rogério (DEM-MG) e o líder Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE) à frente.

A dupla beirou a apoplexia no seus embates com o comando da CPI e com os irmãos Miranda. Rogério foi humilhado ao ser questionado pelo presidente Omar Aziz (PSD-AM) qual seria a "motivação conhecida" do deputado Luis para fazer sua denúncia. Calou-se, encolhido sob o manto da imunidade parlamentar.

Os pontos centrais, que emergiram de um depoimento ao Ministério Público de Luis Ricardo, se mantiveram como suspeitas a serem esclarecidas. Mais importante, a entrada de Bolsonaro e seus filhos como personagens ativos da trama não foi desmontada pela tática governista de jogar na confusão.

E que confusão. A gritaria serviu aos governistas, já que tornou uma história intrincada de compreensão impossível para quem não conhecia os detalhes dela previamente.

Se alguém ligou a TV para tentar entender do que estavam falando, se perdeu. Ocorre que, politicamente, aqueles que veem na Covaxin motivo para um impeachment já, ou os que desqualificam de forma liminar os irmãos dificilmente mudarão suas opiniões preexistentes.

Ficaram péssimos na foto o secundário ministro Onyx Lorenzoni e o ex-número 2 da Saúde, Elcio Franco, que acusaram fraude em um documento na entrevista em que ameaçaram usar o peso do Estado contra a dupla Luis e Luis. Se não bastassem os fatos, coube ao próprio Marcos Rogério dizer que o papel era legítimo.

Falta muito a apurar no caso, que traz ao centro a gestão do general Eduardo Pazuello na Saúde. Como apontou o senador Humberto Costa (PT-PE), o centro parece estar na empresa intermediária, a Precisa.

É o fim de uma semana péssima para o Planalto. Acuado no caso Covaxin, o presidente tentou mudar o foco demitindo "a pedido" o polêmico Ricardo Salles (Meio Ambiente), viu sua popularidade derreter ainda mais em nova pesquisa de opinião e uma nova rodada de protestos contra si marcada para 24 de julho.

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Até onde irá o governo Bolsonaro? https://bit.ly/3h5e6xJ

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