Quando tomou o voo de Portugal para o Brasil, o casal Fernanda Sarkis e Marcus Nogueira trazia uma bagagem preciosa. Brasileiros, ela mestre em comunicação política pela Universidade do Porto e ele sociólogo, Sarkis e Nogueira haviam feito um mapeamento da extrema direita portuguesa no universo digital que ajudou o Partido Socialista a conquistar uma inesperada maioria nas eleições legislativas do início do ano. Enquanto cruzavam o Atlântico, no mês de fevereiro, a campanha no Brasil estava longe de começar, mas o PT já andava às tontas com um desafio enorme: como enfrentar a milícia digital de Jair Bolsonaro, que se provou tão eficaz na eleição de 2018? Baseados na experiência em Portugal, Sarkis e Nogueira achavam que tinham a resposta.
Em Brasília, o
casal começou a participar de discussões sobre o funcionamento da extrema
direita. Trocaram ideias com líderes de alguns partidos, mas estavam mais
interessados no PT por achar que a candidatura de Lula era a única capaz de
enfrentar Bolsonaro com sucesso. De início, o núcleo político petista ficou na
dúvida sobre como a abordagem do casal poderia ser útil na comunicação do partido
e na ação política. Mas as conversas prosseguiram até que houve uma
reunião com o advogado Angelo Ferraro, ex-assessor jurídico do governo de Dilma
Rousseff e sócio de Eugênio Aragão, que ocupou o cargo de ministro da Justiça
nas vésperas do impeachment da petista. Ferraro e Aragão operaram a área
jurídica da campanha presidencial de Fernando Haddad em 2018 e estavam
escalados para exercer a mesma função na campanha de Lula. Associados ao
escritório de Cristiano Zanin, o advogado que tomou conta dos processos de Lula
na Lava Jato, eles queriam abrir uma trincheira jurídica contra a milícia
digital bolsonarista.
No encontro,
realizado no escritório de Ferraro e Aragão, os advogados logo captaram o
potencial do trabalho de Sarkis e Nogueira. Perceberam que a pesquisa digital
poderia ser um elemento central nas ações jurídicas, capaz de deter o avanço do
bolsonarismo nas redes sociais. Sarkis e Nogueira explicaram que adotam o
conceito de “cartografia da controvérsia”, cuja base está na Teoria Ator-Rede, do
pensador francês Bruno Latour, recentemente falecido. Na pesquisa em Portugal,
o casal incorporou a ideia de que, para compreender bem um ator, é preciso
analisar seu comportamento em rede. A partir dessa premissa, construíram
extensos mapas de interação de atores da extrema direita portuguesa,
decodificando como, por meio das redes, eles amplificavam seu discurso e suas
mensagens.
Em termos mais
técnicos, investigaram como uma rede transnacional, sob uma coordenação
central, opera na ocupação do espaço digital, de modo a fazer muito mais do que
disseminar fake news: construir toda uma realidade paralela. Nesse
mundo à parte, as premissas são falsas e a desinformação se multiplica em
diversas camadas. Não se trata, apenas, de inventar uma mentira e martelá-
la diante de uma plateia politicamente disponível. São desinformações, baseadas
em interpretações subjetivas, manipuladas de modo que pareçam objetivas.
Apesar do linguajar
algo obscuro, os advogados entenderam a importância da proposta para a atuação
jurídica e contrataram o casal por conta própria. Assim começou um trabalho
que, fundindo pesquisa digital com argumento jurídico, pela primeira vez
conseguiu neutralizar parcialmente a milícia digital bolsonarista.
Corria o feriado de 1º de maio quando os pesquisadores começaram a mapear
e monitorar a rede de interação de um único ator numa única plataforma: o
Twitter do vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ). Nessa primeira etapa, o
trabalho durou até 21 de maio. (Na segunda etapa, estendeu-se de 15 de agosto a
30 de setembro.) Os pesquisadores constataram que Carlos Bolsonaro comentava
posts de outros atores, mas a grande maioria de suas intervenções – 78% – era
sempre sobre postagens de um universo de quarenta perfis.
Esses quarenta
perfis foram classificados em três categorias. A primeira era o “promotor de
conteúdo”, assim chamados os perfis que enquadravam notícias e manchetes –
atuais e antigas – numa linha narrativa pró-Bolsonaro. O segundo era o
“produtor de conteúdo”, que criava novas histórias para pautar o debate no
âmbito daquilo que os pesquisadores chamam de “ecossistema de desinformação”. O
terceiro tipo, talvez o mais importante, era o spin doctor. São
perfis com alta credibilidade no tal ecossistema, capazes de agendar o debate
com grande velocidade e, como têm milhões de seguidores, enquadram um
acontecimento à feição bolsonarista com facilidade.
Ao mapear a rede de
Carlos Bolsonaro, que hoje tem 3,2 milhões de seguidores no Twitter, os
pesquisadores começaram a descrever a estrutura e a forma de atuação da milícia
da desinformação do presidente. Os dados coletados eram remetidos à área
jurídica da campanha do PT, que acionava o Tribunal Superior Eleitoral (tse),
pedindo a remoção das postagens de fake news. Em toda a campanha, a
equipe petista conseguiu 75 decisões judiciais para remover postagens, sempre
por desinformação.
Aos poucos, os
pesquisadores foram documentando o caráter reiterado na publicação de
desinformação dos atores que se relacionavam com Carlos Bolsonaro no Twitter.
Em outras palavras, a pesquisa estava, paulatinamente, demonstrando a
existência e o funcionamento do “ecossistema de desinformação”, que, ao todo,
reunia 81 perfis nas redes sociais. Entre eles, estavam os três filhos de
Bolsonaro e um punhado de parlamentares, como Carla Zambelli (PL-SP), Bia
Kicis (PL-DF) e Ricardo Salles (PL-SP), o ex-ministro que vai estrear uma
cadeira na Câmara dos Deputados, além de apoiadores do presidente. O
levantamento do PT mostrou que a milícia não atuou de forma espontânea – ou “orgânica”,
como se diz no jargão digital – mas sim de maneira coordenada com o objetivo de
produzir e espalhar desinformação para influenciar o resultado da eleição de
2022.
“As múltiplas
decisões judiciais que mandam remover desinformação atestam que há um
comportamento reiterado e padronizado entre os atores do ‘ecossistema’”,
afirmou Fernanda Sarkis à piauí. “Isso mostra como eles ocupam o
espaço público, em especial no debate político eleitoral, com uma estratégia
coordenada, com o objetivo de validar como verdade um conjunto de mentiras”.
Oestudo do PT mostra que o “ecossistema da desinformação” de Bolsonaro
operava em quatro eixos temáticos: “violência e criminalidade”, “religião e
costumes”, “descredibilização do sistema eleitoral” e, por fim, “agenda
socioeconômica”. Nenhum deles estava voltado à formulação de propostas, mas em
organizar acusações – frequentemente mentirosas – contra os adversários,
sobretudo Lula. Cada perfil podia tratar de qualquer eixo temático a qualquer
tempo, impulsionando nas redes a fake news do dia que, em
alguns casos, podia durar semanas ou mais.
A lorota de que
Lula perseguiria cristãos, imitando o que se passa na Nicarágua do seu aliado
político Daniel Ortega, foi um desses casos duradouros. Entre julho e setembro,
42 perfis da rede de interação de Carlos Bolsonaro publicaram 238 conteúdos
sobre o assunto. Foi num crescendo: 5 em julho, 76 em agosto e 162 em setembro.
O deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) entrou na roda em 12 de julho. De início,
com insinuações indiretas. Em 19 de agosto, subiu o tom. “Lula e o PT apoiam
invasões de igrejas e perseguição de cristãos.” Como o assunto crescia, Jair
Bolsonaro apareceu na entrevista que deu ao Jornal Nacional em
22 de agosto com uma palavra escrita a caneta na palma da mão: “Nicarágua.” Era
uma senha para impulsionar o assunto.
Um dos melhores
exemplos da atuação da milícia digital bolsonarista partiu do eixo “violência e
criminalidade”, que tentou vincular Lula ao PCC, a maior organização criminosa
em atividade no Brasil, e ao assassinato do prefeito petista de Santo André,
Celso Daniel, ocorrido em 2002. Na rede de interação de Carlos Bolsonaro no
Twitter, 47 perfis publicaram 763 tuítes sobre os dois assuntos, entre 3 de
maio e 10 de outubro, com destaque para três perfis: @ViLiMiGu_Tex e
@ruirapina3, cujos autores não se identificam, e @kimpaim, que pertence a Kim
Paim, influente youtuber que apresenta programas com dossiês sobre temas de
interesse da agenda bolsonarista, quase sempre repletos de desinformação.
Figura central na rede de Carlos Bolsonaro, Paim publicou uma sequência de
quatro vídeos, de uma hora cada um, entre os dias 2 e 5 de julho, estabelecendo
a tal ligação Lula- PCC. Uma de suas fontes era o perfil @ViLiMiGu_Tex. Carlos
Bolsonaro recomendou tanto o vídeo de Paim quanto os tuítes de ViLiMiGu: “Vale
a pena conferir a thread!”
A sequência é
didática sobre o funcionamento do “ecossistema da desinformação”: perfis
anônimos lançam a fake news, que é amplificada por influenciadores
e endossada pela família Bolsonaro. Mas foi justamente as lorotas sobre
Lula-PCC e a morte de Celso Daniel que marcaram o início dos problemas para a
milícia bolsonarista. Com as mentiras bombando nas redes – só em julho, a
milícia bolsonarista postou 434 tuítes sobre o assunto –, o PT entrou com a
representação eleitoral 0600543-76.2022. Foi o começo de uma mudança
importante.
Na representação, o
partido pediu a remoção de publicações mentirosas sobre quatro temas: a suposta
ligação de Lula com o PCC e a morte de Celso Daniel, a associação do petista ao
fascismo e ao nazismo e, por último, uma declaração manipulada de Lula, de modo
a parecer que ele dissera que usava “pobre como se fosse papel higiênico”. Na
noite de domingo, 17 de julho, durante o plantão de recesso do Judiciário, o
ministro Alexandre de Moraes acatou o pedido e mandou remover as publicações de
seis redes – Twitter, TikTok, YouTube, Instagram, Facebook e Kwai. A decisão
atingiu posts do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e dos deputados bolsonaristas
Otoni de Paula (MDB-RJ), Hélio Lopes (PL-RJ) e Carla Zambelli, bem como de
outros apoiadores e até administradores de sites e canais no YouTube.
Em sua decisão, o
ministro Alexandre de Moraes aceitou um critério proposto pelo jurídico do PT:
derrubar conteúdos que já tivessem sido apontados como falsos ou enganosos
pelas agências de checagem. As publicações atingidas pela decisão daquele 17 de
julho ou eram mentiras evidentes já descartadas pela própria Justiça, ou já
haviam sido desmentidas pelas agências. Em sua decisão, Moraes, então
vice-presidente do TSE, recorreu a uma retórica inflamada, crivada de pontos de
exclamação:
Liberdade de
expressão não é Liberdade de agressão!
Liberdade de
expressão não é Liberdade de destruição da Democracia, das Instituições e
da dignidade e honra alheias!
Liberdade de
expressão não é Liberdade de propagação de discursos mentirosos,
agressivos, de ódio e preconceituosos!
Aparentemente, o
ministro Moraes enamorou-se do seu pronunciamento e voltou a usá-lo, tal e
qual, em outras decisões no período eleitoral. Em outubro, por exemplo, mandou
excluir publicações segundo as quais Lula iria instituir o uso de banheiro
unissex para as crianças nas escolas – uma das mentiras que mais impressionaram
um segmento dos eleitores evangélicos. Um dos tuítes com a fake news era
do presidente Bolsonaro. E, na ordem para suspender o conteúdo falso, lá foi
Moraes com seus pontos de exclamação:
Liberdade de
expressão não é Liberdade de agressão!
Liberdade de
expressão não é Liberdade de destruição da Democracia, das Instituições e
da dignidade e honra alheias!
Liberdade de
expressão não é Liberdade de propagação de discursos mentirosos, agressivos, de
ódio e preconceituosos!
Consolidada a
tendência de seguir as agências de checagem para definir conteúdos falsos, a
coligação liderada pelo PT passou a concentrar seus pedidos em temas já analisados
pelos checadores profissionais. A decisão de Moraes teve um impacto imediato. O
volume geral de postagens no Twitter caiu cerca de 30%, segundo levantamento da
Pública, uma agência de jornalismo investigativo sem fins lucrativos. Até no
Telegram, rede que não fora atingida pela remoção de conteúdos porque não
constava da representação, a quantidade de mensagens relacionando PT e PCC
desabou 56,8%.
Para quem
desconhece o funcionamento da milícia digital bolsonarista, uma decisão da
Justiça Eleitoral carimbando um conteúdo como falso pode parecer apenas isso:
um conteúdo falso suspenso do perfil de determinado usuário. Na prática, é
muito mais. A Justiça derruba um capítulo (ou um conjunto de capítulos) que
compõe a grande narrativa da rede de desinformação, desarticulando parcialmente
o discurso digital. No mundo analógico, é como se uma publicação, que
normalmente é distribuída de graça nos pontos de ônibus e estações de metrô,
deixasse de ser entregue aos passageiros por seu conteúdo mentiroso. Só que
essa publicação – eis aí a diferença brutal – era distribuída em milhares de
pontos de ônibus e metrô para milhões de pessoas em questão de segundos.
Essa é a rede que
uma decisão judicial derruba.
OPT criou uma estrutura para a guerra digital. Em São Paulo, conforme
contou a repórter Consuelo Dieguez em reportagem no site da piauí,
instalou-se uma sala com cinquenta monitores cobrindo uma parede inteira – ali
se acompanhava, minuto a minuto, o que a milícia bolsonarista estava
disseminando. Em agosto, por meio do advogado Cristiano Zanin, a equipe
paulista ganhou a adesão de Marcos Aurélio Carvalho, estrategista em marketing
digital que trabalhara na campanha digital de Bolsonaro em 2018 – da qual foi
defenestrado em razão do ciúme de Carlos Bolsonaro. Carvalho conhecia o
adversário por dentro.
Em Brasília, onde
ficavam Sarkis e Nogueira, monitorava-se o “ecossistema de desinformação” como
um todo, que passou a ser jocosamente chamado de “o show de Jair”, numa alusão
ao filme O Show de Truman, de 1998, em que o personagem principal
vive – sem saber – numa redoma em que, na aparência, tudo transcorre com
espontânea naturalidade, mas, na verdade, todas as interações são programadas.
Quando publicações com fake news começavam a ser impulsionadas
na rede de Carlos Bolsonaro, os pesquisadores alertavam: “Começou a rodar o
show de Jair.”
A vantagem de
analisar o “ecossistema” como um todo era viabilizar um contra-ataque
estratégico. Na campanha, o PT recebia centenas, às vezes milhares, de
mensagens de militantes denunciando fake news. Era impossível
trabalhar caso a caso. Com a abordagem estratégica, que identificava
cirurgicamente os pontos nevrálgicos, a equipe digital ajudou a qualificar as
ações dos advogados da campanha – “nossos obuses judiciais”, nas palavras de
Eugênio Aragão. Afinal, tal como no filme de 1998, o show de Jair de 2022
também contava com uma equipe encarregada de produzir e promover o espetáculo.
Kim Paim, o
youtuber dos dossiês, é um dos nomes de destaque. Paim é engenheiro, vive na
Austrália e tem 700 mil inscritos em seu canal no YouTube, no qual apresenta
programas diários de uma hora de duração. O presidente Bolsonaro já promoveu
conteúdos de Paim. Seus vídeos costumam reproduzir conteúdos de perfis do
“ecossistema de desinformação”, como “Família Direita Brasil” e “Demagogia do
Oprimido”, além de pessoas físicas como Carlos Bolsonaro e outros militantes
bolsonaristas, como Elisa Brom, Iara GB, Rafael Balboa e Luiz Paulo (LP).
Outro megafone no
show de Jair é o empresário Leandro Ruschel, membro do conselho da Brasil
Paralelo, a mais ativa plataforma de streaming da extrema
direita. Ruschel é um dos principais spin doctors. Sua
especialidade é tentar vincular a esquerda ao crime, qualquer crime – do
narcotráfico ao terrorismo. “TODOS os movimentos ligados à esquerda apresentam
uma estreita ligação com o crime”, escreveu no dia 2 de julho em seu Twitter,
onde tem 900 mil seguidores. (A postagem foi excluída.) Na campanha, Ruschel
foi alvo de cinco decisões judiciais, todas suspendendo a veiculação de
conteúdo falso ou distorcido.
Uma terceira fonte
de referência é Bernardo Küster, que se apresenta como diretor de opinião
do Brasil Sem Medo, um blog bastante ativo da direita extremista.
Küster tem também um canal no YouTube, que beira 1 milhão de inscritos. O Brasil
Sem Medo – ou BSM, para os íntimos – foi fonte inaugural de um dos
exemplos mais completos da atuação da milícia digital do bolsonarismo. Tudo
aconteceu no dia 16 de setembro, uma sexta-feira.
* Às 9h57 da manhã,
o BSM noticiou que acabara de confirmar a autenticidade um áudio antigo de
Lula, no qual o petista teria dito que “ninguém teve a competência e a coragem
de acabar com esse cara”, supostamente reclamando que o ex-ministro Antonio
Palocci ainda não tinha sido assassinado.
* Às 10h10, o
diretor executivo do Brasil sem Medo, Silvio Grimaldo, fez um tuíte
afirmando: “O BSM recebeu o laudo de uma perita criminal aposentada da PF com
vinte anos de experiência. A análise técnica é enfática: a voz é do Lula.” Sua
postagem – que está no ar até hoje – já rendeu 2 230 retuítes.
* Às 10h28, Küster
entrou no show com o seguinte tuíte: “Exclusivo: Perícia confirma autenticidade
de gravação de 2017 em que o ex-presidente comenta acusações de Antonio
Palocci.”
* Às 11h41, o
youtuber Gustavo Gayer, outro membro ativo do “ecossistema da desinformação”,
correu para Telegram e o YouTube, onde postou um vídeo: “URGENTE – ACABOU PRO
LULA! Áudio analisado por perita confirma ser a voz do lula.” Era, segundo ele,
a prova de “que não só Lula é corrupto, mas também, aparentemente, de acordo
com a análise do áudio, é também mandante de crimes”.
* Às 12h11, Gayer
compartilhou o link do Twitter, repetindo, mais uma vez em maiúsculas: “acabou
pro lula!”
* Às 12h35, o Terra
Brasil Notícias, site cujo mote noticioso é “Deus acima de tudo e de
todos”, reproduziu a notícia do BSM no seu Twitter.
* Às 16h36, Eduardo
Bolsonaro, que já tinha entrado no assunto, tuitou: “O PT não é um partido, é
uma máfia. O ex-presidiário é o gângster da facção.”
* Às 18h21, a
deputada Bia Kicis, publicou: “Bomba! Perícia da polícia garante que áudio de
conversa de Lula é autêntico. […] Esse criminoso não pode concorrer à
Presidência.”
* Às 20h56, Carlos
Bolsonaro endossou a história em seu Twitter: “É fato e o áudio mais que
sacramenta: o único objetivo do descondenado é fazer todos pagarem e isto
inclui você!”
* Às 21h46,
“Embaixada Resistência”, outro perfil da extrema direita, postou um trecho do
laudo técnico pericial e fez um desafio: “Refutem a perícia, militantes de
redação!”
Um
tempo novo no Brasil é possível, mas nada está previamente garantido https://bit.ly/3Y6nLZF
O vídeo de Gayer
viralizou. Em 24 horas no ar, já tinha quase 600 mil visualizações. O tal laudo
da perita da Polícia Federal era uma enganação. Sabe-se que o áudio é falso
desde 2017, quando as agências de checagem constataram que a voz era de um
imitador. A coligação do PT pediu a remoção do conteúdo no dia seguinte, em 17
de setembro, demonstrando que os checadores já haviam declarado a falsidade do
áudio havia pelo menos cinco anos. Nove dias depois, em 26 de setembro, o
ministro Paulo de Tarso Sanseverino, relator do caso no TSE, mandou derrubar os
links mentirosos. Em 3 de outubro, um dia depois do primeiro turno, o TSE
referendou em plenário a decisão de Sanseverino. Mas, até o fechamento desta
reportagem, a decisão ainda era descumprida pelo BSM, em cujo site estavam
disponíveis a reportagem e o áudio mentirosos.
Com todos os dados reunidos, o PT bateu na porta do TSE em pleno domingo,
16 de outubro. Doze advogados, todos vinculados aos escritórios de Cristiano
Zanin e Eugênio Aragão, assinavam uma peça jurídica com 245 páginas.
Denunciavam – com dados, fatos, evidências – que a rede bolsonarista tinha uma
coordenação na disseminação de fake news contra o processo
eleitoral. O instrumento jurídico chama-se Ação de Investigação Judicial
Eleitoral (Aije).
A Aije acusa os
integrantes do “ecossistema de desinformação” de quatro violações: crime
eleitoral, abuso de poder econômico, abuso de meios de comunicação e abuso de
poder político. Neste último caso, a ação foca na conduta dos investigados que,
com mandato eletivo, atuam para “plantar uma ruptura de poderes, numa escalada
autocrata de eliminação do instrumento mais essencial do estado democrático de
direito: o sistema eleitoral e o voto direto”. Neste ponto, o alvo é Bolsonaro.
Se condenado, ficará inelegível por oito anos.
No caso do abuso de
poder econômico, a ação pede que o TSE investigue o financiamento das produções
audiovisuais e o impulsionamento dos conteúdos da rede bolsonarista. O alvo,
aqui, são onze pessoas, entre elas os donos da Brasil Paralelo e dos canais
Folha Política (Ernani Fernandes e Thais Raposo do Amaral) e Foco do Brasil
(Anderson Rossi), além dos youtubers do esquema (como Kim Paim e Gustavo Gayer)
e dos empresários Otávio Oscar Fakhoury, um bolsonarista já investigado no
Supremo Tribunal Federal (STF) por financiar milícias digitais, e José Pinheiro
Tolentino Filho, dono do Jornal da Cidade OnLine, um site de
opinião e notícias pró-Bolsonaro. O julgamento da Aije não tem data para
acontecer. Pode levar seis meses ou três anos, mas, enquanto não for julgada,
ficará pairando como uma ameaça sobre a cabeça dos envolvidos, incluindo
Bolsonaro.
Quais as chances de
sucesso da Aije? A advogada Marilda Silveira, doutora em direito administrativo
pela Universidade Federal de Minas Gerais e ex-assessora jurídica de ministro
do TSE, diz que é cedo para avaliar a consistência da ação, pois ainda não se
encerraram as etapas de instrução e contraditório. Ela lembrou, no entanto, que
o TSE passou a admitir que as mídias digitais sejam consideradas nos mesmos
termos que a mídia tradicional, o que aumenta a chance de sucesso da ação no
quesito “uso indevido de meios de comunicação”.
O advogado Marcelo
Weick, professor da Universidade Federal da Paraíba, leu a íntegra da ação. “É
uma das ações mais bem-postas na questão do enfrentamento desse ecossistema
massivo de desinformação.” Ele diz que as Aijes anteriores – nos casos
Dilma-Temer, por caixa dois, e Bolsonaro-Mourão, pelo disparo em massa de
mensagens via WhatsApp – careciam de um conjunto robusto de evidências, mas
acha que, no caso atual, é possível entregar provas ampliadas. “Mesmo depois
das eleições, você está tendo atos antidemocráticos, suspensão de perfis,
bloqueio de contas. Então, se o TSE entender que tem uma concatenação, que é um
ecossistema interligado, com financiamento oculto, estará caracterizado o uso
indevido dos meios de comunicação e o abuso de poder econômico.”
Samara Castro,
advogada com atuação em direito digital e eleitoral, também avalia que a Aije
está bem calçada. “Ela pode ser totalmente comprovada. Seja pedindo que as
plataformas confirmem as informações alegadas na inicial, seja pela própria
confirmação de prova que a inicial traz”, disse. Castro acha que a ação de
agora é superior à de 2018, movida contra a chapa Bolsonaro-Mourão. “Na época,
você não conseguia fazer provas porque nem mesmo o WhatsApp conseguia nos
ajudar por conta da criptografia.”
A advogada observa
que, ao denunciar uma rede composta por 81 perfis, a ação pode ter tramitação
lenta, mas entende que, desta vez, o próprio tribunal estará sob escrutínio.
“Seria uma desmoralização para a Justiça Eleitoral não punir a desinformação”,
diz. Sua opinião está baseada no fato de que o TSE criou resoluções específicas
para atacar as mentiras nas redes sociais e fez todo um trabalho baseado nessa
diretriz. “É preciso que os candidatos de 2024 tenham medo. E isso só é
possível se houver punição, uma cassação ou inelegibilidade.”
De fato, o TSE se
empenhou nesse combate. Ainda durante a presidência do ministro Edson Fachin, o
tribunal marcou reuniões com todos os partidos representados no Congresso.
Nesses encontros, que contaram com a presença de presidentes e vices das siglas
e de seus advogados, Fachin anunciava que o combate à desinformação era
prioridade. Alexandre de Moraes, então vice-presidente do tribunal, alertava os
dirigentes partidários de que as ações judiciais que eventualmente viessem a
ser apresentadas precisavam estar bem embasadas. Numa ocasião, segundo uma
fonte que testemunhou a reunião, Moraes disse que os partidos deveriam
“contratar meia dúzia de moleques que sabem mexer com computador” para coletar
dados capazes de dar estofo às ações.
Suplantar
a cultura do ódio é uma luta de longo curso https://bit.ly/3Us8tfj
O tempo dirá se a
Aije do PT chegou lá. Mas a empreitada jurídica pode ganhar um aliado importante.
O grupo Sleeping Giants, que atua contra desinformação e discurso de ódio nas
redes sociais, vai pedir para participar da ação na condição de “amigo da
corte”. Se o pedido for aceito pelo TSE, o grupo pretende apresentar
monitoramentos detalhados do debate nas redes sociais que demonstram a
capilaridade e o impacto dos ataques ao sistema eleitoral, às urnas e à
integridade das eleições.
A principal
preocupação do Sleeping Giants, segundo consta na minuta da petição a ser
apresentada ao TSE, é com o impacto da “ampla rede de desinformação que se
profissionalizou em criar discursos diretos e indiretos capazes de despertar a
animosidade da população com relação à legitimidade dos resultados obtidos da
apuração das urnas eletrônicas”. O grupo monitorou a disseminação do discurso
de ódio e de desinformação entre candidatos a deputado federal. Concluiu que
tais discursos se intensificaram no segundo turno da campanha presidencial.
Entre seus expoentes, há bolsonaristas eleitos neste ano, como Carla Zambelli,
Eduardo Bolsonaro, Nikolas Ferreira, Gustavo Gayer, Bia Kicis e Ricardo Salles.
Além da Aije, o PT
planeja apresentar outras duas ações. Quer uma investigação sobre “compra
institucionalizada de votos”, uma referência à inclusão de mais de 500 mil novos
beneficiários do Auxílio Brasil em pleno período eleitoral, bem como a
distribuição de auxílio a taxistas e caminhoneiros, além da abertura de crédito
excepcional pela Caixa. A outra ação diz respeito aos ataques de Bolsonaro
contra as instituições democráticas e o sistema eleitoral, que atentam contra o
regime democrático.
Ainda que o “ecossistema de desinformação” tenha continuado ativo na
campanha, a milícia digital bolsonarista sentiu o golpe antes e durante a
campanha. Com a estratégia digital e jurídica, o PT incomodou algumas das vozes
mais influentes do show do Jair. “Stálin apagava pessoas de fotos e reescrevia
a história. Hoje, tribunais apagam posts”, postou Eduardo Bolsonaro no Twitter,
quando o TSE mandou as redes sociais apagarem posts sobre o “kit gay”, fake
news que marcou a eleição de 2018.
“Essa campanha
percesecutória [sic] do PT contra influenciadores de direita não tem
como objetivo apenas nos censurar, mas também produzir um ambiente de medo,
evitando a manifestação das pessoas sobre o ex-presidiário. É assim que seus
ditadores amigos na Venezuela e Nicarágua operam”, tuitou Leandro Ruschel em 11
de outubro, entre o primeiro o segundo turno. O comentário foi apagado mais
tarde.
Bernardo Küster,
num tuíte do início de setembro, deixou claro que a estratégia do PT acertara
na mosca e relacionou os temas com os quais o bolsonarismo queria trabalhar:
“TSE faz de tudo para diminuir os feitos de Bolsonaro e evitar que brasileiros
associem Lula/PT à corrupção, PCC, ditadura na Nicarágua, perseguição aos
cristãos, comunismo, aborto, invasão de terra, aumento de impostos e do poder
estatal, narcotráfico, desarmamento e censura.” O post apareceu em sua conta
alternativa no Twitter porque a conta principal estava – e assim continua –
bloqueada por decisão judicial.
Um tuiteiro
contumaz da direita, Geovane Moraes, que se identifica como professor de
direito penal, fez um tuíte no início de setembro em que já mostrava o
resultado do trabalho jurídico dos petistas. “Os parlamentares de direita
preferiram investir em # e mitar nas redes. O PT montou uma força-tarefa de
advogados nunca antes vista. Resultado: os candidatos da direita estão
desprotegidos juridicamente e apanhando todo dia”, escreveu, em tom de
reclamação. “Pessoas como a Dra. @flferronato cansaram de avisar”, concluiu,
referindo-se à advogada bolsonarista Flavia Ferronato, uma spin doctor da
rede.
Em um relatório
sobre o mapeamento do “ecossistema da desinformação” da extrema direita, os
pesquisadores Fernanda Sarkis e Marcus Nogueira comentam a reação dos
bolsonaristas ao trabalho jurídico do PT. “Esse papel não passa despercebido
pela rede bolsonarista, que compreende que há duas formas de disputar a
ocupação de espaço de uma narrativa, nas ‘hashtags’ e nos ‘tribunais’”.
A disputa nos
tribunais explica por que o ministro Alexandre de Moraes, na condição de
presidente do TSE, tornou-se alvo predileto dos bolsonaristas. Em uma de suas
ações mais drásticas para combater as fake news, Moraes fez uma
resolução que ampliava bastante os poderes do tribunal. Com a resolução,
editada em 20 de outubro, os ministros passaram a poder barrar a divulgação de
conteúdo falso por conta própria, sem a necessidade de serem acionados por
alguém que se sinta prejudicado. A Procuradoria-Geral da República moveu uma
ação contra a resolução por considerá-la inconstitucional. O STF rejeitou-a por
9 votos a 2, mas não afastou por completo as acusações de que Moraes e o
próprio tribunal estavam indo longe demais, aproximando-se perigosamente da
censura.
Agora, com grupos
bolsonaristas se insurgindo contra o resultado das eleições e adotando a
pregação golpista, a resolução está sendo útil. Até o fechamento desta
reportagem, foram derrubados os perfis de seis deputados – quatro no exercício
do mandato e dois recém-eleitos. Não se sabe a fundamentação exata, pois as
decisões de Alexandre de Moraes estão sob sigilo. Um dos eleitos, Gustavo
Gayer, ignorou a decisão, abriu uma nova conta no dia 7 de novembro e, duas
semanas depois, quando já reunia mais de 250 mil seguidores, voltou a ser
banido.
Alexandre de Moraes
não se intimida com as críticas. No dia 14 de novembro, em evento empresarial
em Nova York, fez um discurso claro sobre esse sistema de desinformação nas
redes sociais e não se furtou a mencionar indiretamente as acusações de
censura. “Sob o falso manto de liberdade sem limites, o que se pretende é corroer
a democracia”, disse. Também afirmou que “a democracia foi atacada no Brasil,
mas sobreviveu”. Para ele, a atuação do Judiciário no processo eleitoral
representou “barreira para qualquer ataque à democracia e à liberdade”.
Tudo considerado, a
professora Rose Marie Santini, da Escola de Comunicação da Universidade Federal
do Rio de Janeiro, acha que acionar a via judicial para combater a
desinformação bolsonarista foi “fundamental para dar um limite”. Em 2018, não
houve nada parecido. Santini, que é também diretora do NetLab, organização que
colaborou com o TSE nesta eleição, destaca que, agora, havia duas máquinas para
enfrentar: a do Estado, sob o comando de Bolsonaro, e a das fake news de
sua milícia digital. “A do Estado não tinha como enfrentar. Mas conseguiram
enfrentar a da desinformação. Acho que a oposição foi bem-sucedida, e a prova
disso é que ganhou a eleição”, diz ela, ao advertir: “Eles foram derrotados,
mas estão muito vivos.”
O
bolsonarismo dialoga com a tradição do anticomunismo e também com construções
do tempo presente https://bit.ly/3VL2sLl

Nenhum comentário:
Postar um comentário