15 janeiro 2026

Mistificação fascistóide

De ratos e urubus
Como evitar, nos tempos presente e futuro, tragédias como as que vivemos?
Chico Pinheiro/Liberta     


No centro do palco, altar da insanidade, um homem de pé, em silêncio. Ele olha, como se estivesse em transe, para um ponto fixo, distante. Era o dia 30 de outubro de 2018. Dois dias antes, aquele homem, Jair, havia sido escolhido, em segundo turno, pelos votos de quase 58 milhões de brasileiros, para ser presidente da República por um mandato de quatro anos.

Ao seu lado apontando-lhe o dedo, diante da plateia estupefata, bradava um pastor que ali estava o novo Messias, ungido pela vontade de Deus para conduzir a nação a uma nova Canaã, um reino de paz, de justiça e de liberdade. O eleito seria um predestinado – não por acaso, trazia até “Messias” em seu nome. O pastor, Silas Malafaia, ancorava-se nas palavras da Primeira Carta do apóstolo Paulo aos Coríntios, capítulo 1º, versículo 27, na qual está escrito que “Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias; Deus escolheu as coisas fracas deste mundo para confundir as fortes”.

Mas o pastor foi além, dizendo: “Agora, a coisa vai ser mais profunda: Deus escolheu as coisas vis, de pouco valor; as desprezíveis, que podem ser descartadas; as que não são, as que ninguém dá importância, para confundir as que são, para que nenhuma carne se vanglorie diante d’Ele. É por isso que Deus te escolheu”. E completou: “Deus vai te dar sabedoria, graça e saúde para mudar a história deste país.”

Período de trevas

O mandato do falso Messias chegou ao final no dia 31 de dezembro de 2021. Agora, três anos e oito meses depois, ele se vê às voltas com a Justiça, respondendo por uma série de crimes que culminaria num golpe militar, valendo-se, para tanto, até dos assassinatos do presidente da República, do vice-presidente e de um ministro do Supremo Tribunal Federal.

Além dos crimes que agora foram imputados a Jair (o falso Messias) Bolsonaro, há outras questões a serem consideradas do período de trevas que se abateu sobre os brasileiros durante o seu mandato: destruição do meio ambiente; violência e mortes entre os povos indígenas e populações pobres das cidades e dos campos, impulsionadas pela  proliferação de armas letais por todo o país; conflitos instaurados nos lares brasileiros pelas mentiras que ele e seus seguidores disseminaram nas redes digitais; e uma conta impagável de 700 mil mortos pela Covid-19, tragédia certamente ampliada pela sua política de combate às vacinas, fundada no seu negacionismo científico.

São resultados de quatro anos de um governo da Morte, do experimento mais acabado no país do exercício da necropolítica. O termo foi criado pelo pensador camaronês Achille Mbembe (filósofo, cientista político e historiador, autor do livro que traz “Necropolítica” como título), denunciando gente como Bolsonaro, que, uma vez alçada ao poder, usa dele para definir quem deve morrer e sob quais condições isso deve se dar.

Exercício do poder

A necropolítica, ensina Mbembe, não se limita a deixar morrer, mas também a “fazer morrer’ por meio de práticas e tecnologias que visam à destruição de corpos de certos grupos e populações. A necropolítica cria territórios (como periferias e favelas) nos quais a vida é precária e a morte é autorizada e facilitada, como exemplificado nas políticas de segurança pública no Brasil, fortemente impulsionadas no bolsonarismo.

Precisamos falar também sobre os negros (pesados em “arrobas” pelo padrão de Bolsonaro, lembram?). Sim, o racismo é dispositivo central na necropolítica, regulando a distribuição da morte e estabelecendo a ideia de raças inferiores para justificar a eliminação de certos grupos. Entre os alvos, além dos pretos e indígenas, também estão os brasileiros da comunidade LGBTQIA+.

O conceito do pensador Mbembe está associado a formas contemporâneas de capitalismo neoliberal e ao neocolonialismo, onde a exploração e a violência se manifestam na subjugação da vida ao poder da morte. A consolidação dessa forma de exercício do poder foi a meta indiscutível do governo de Bolsonaro e seus asseclas.

Não é preciso aqui relembrar todos os momentos em que o ex-presidente verbalizou sua crença na necropolítica (“Eu não sou coveiro… deveria ter fuzilado… deveriam ter matado” e outras tantas falas). E os momentos em que sua família e seus aliados no mundo político e empresarial se revelaram adeptos desta forma de “desgoverno”. É preciso, sim, lembrar de tudo, revisitar o passado e buscar respostas para perguntas que intrigam.

Ignorância ou má fé

Onde estavam esses bolsonaristas antes de Jair entrar no jogo político e na disputa presidencial? Onde estavam, onde estão e como arquitetam sustentar práticas fascistóides de agora em diante? Como evitar, nos tempos presente e futuro, tragédias como as que vivemos?

Certamente não será acreditando que Deus escolhe coisas loucas, coisas fracas, coisas vis e desprezíveis para orientar uma nação, como dizia Silas, aos berros. Se a escolha recaiu em Jair, está claro que ela não foi de Deus. Foi de milhões de eleitores que votaram por ignorância ou má fé, muitos até iludidos, enganados por falsos profetas, profanadores de templos e do Evangelho, travestidos de pastores bíblicos.

O mote para este artigo veio de uma pergunta: o que será de Bolsonaro depois de condenado? Eu arrisco apostar que tal figura política está em processo final e acabará entrando em putrefação. Mas os que viram em seu desgoverno oportunidade para exercer a necropolítica, seja no campo da própria política, seja no campo dos negócios, esses seguirão adiante, semeando a morte em grandes plantações de ódio e de violência.

Alguns da política, de olho nos votos dos bolsonaristas, agem agora como urubus que sobrevoam o corpo político em decomposição. Ou serão ratos, como a eles se referiu o filho Eduardo, o traidor da Pátria? Não importa, são traidores também. Da Pátria e do amigo Jair, que deveria estar de olhos bem abertos. Ou atento aos versos de meu Xará mais ilustre, o Buarque. Os políticos que contam com a força do apoio de Jair devem estar cantando para eles próprios: “Mas, na manhã seguinte, não conta até vinte, te afasta de mim; pois já não vales nada, és página virada, descartada do meu folhetim”.

[Ilustração: charge de Schröder]

Defesa da soberania nacional e da democracia https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/editorial-do-vermelho_10.html 

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