27 janeiro 2026

Thiago Modenesi opina

O cinema brasileiro não ficou bom agora, ele sempre foi
O cinema brasileiro carrega uma trajetória rica, ousada e potente desde os seus primórdios. Não é uma promessa, mas uma realidade consolidada ao longo de décadas
Thiago Modenesi/Vermelho  

Há uma narrativa recorrente que sugere que o cinema nacional enfim alcançou a excelência, como se fosse uma conquista recente. Mas a verdade é outra: o cinema brasileiro não ficou bom hoje, ele carrega uma trajetória rica, ousada e potente desde os seus primórdios. Nossa sétima arte não é uma promessa, mas uma realidade consolidada ao longo de décadas, com altos e baixos, mas sempre pulsante.

As raízes dessa grandeza vêm dos primórdios chegando até o Cinema Novo. Nos anos 20 e 30 do século XX, já tínhamos obras de impressionante sofisticação técnica e estética. Limite (1931), de Mário Peixoto, é um marco do cinema mudo mundial, um filme experimental que até hoje deslumbra pela sua fotografia e linguagem poética. Nas décadas seguintes, a Cinema Vera Cruz buscou um padrão industrial de qualidade, produzindo clássicos como O Cangaceiro (1953), que venceu o Prêmio de Melhor Filme de Aventura em Cannes.

Mas foi o Cinema Novo, a partir do final dos anos 1950, que cravou o Brasil no mapa cultural mundial com uma estética única e um espírito questionador. Diretores como Glauber Rocha (Deus e o Diabo na Terra do Sol), Nelson Pereira dos Santos (Vidas Secas) e Cacá Diegues criaram um cinema autoral, politicamente engajado e esteticamente revolucionário, que dialogava com as urgências sociais do país. Esse movimento provou que a qualidade do nosso cinema vinha justamente de sua capacidade de refletir, criticar e celebrar a complexidade brasileira.

Durante os anos sombrios da ditadura militar (1964-1985), o cinema se tornou um dos mais importantes instrumentos de resistência e crítica. Sob censura e perseguição, cineastas usaram da alegoria, do humor ácido e do retrato social para furar o bloqueio da informação. Filmes como Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976) e Bye Bye Brasil (1979) nos anos 70, traziam toques de comédia e crítica social; Pixote, a Lei do Mais Fraco (1981), A Hora da Estrela (1985) e Eles Não Usam Black-Tie (1981) nos anos 80, abordando realidades sociais e dramas humanos com grande impacto, além de clássicos do Cinema Novo e filmes de época como O Homem que Virou Suco (1981) e A Dama do Cine Shanghai (1988), todos com suas raízes nesse período de enfrentamento.

A Pornochanchada, muitas vezes menosprezada, foi uma forma inteligente de entretenimento popular que, sob o véu da comédia erótica, também fazia sátiras sociais. O Cinema Marginal ou Udigrudi, com obras como O Bandido da Luz Vermelha (1968), desafiou as estruturas narrativas e a moral da época. O cinema não apenas sobreviveu, ele foi parte da trincheira de resistência aos anos de chumbo.

A criação da Agência Nacional do Cinema (Ancine), em 2001, foi um passo fundamental. Ela estruturou um modelo de fomento que, apesar de seus desafios e debates, proporcionou uma maior estabilidade para a produção. Isso ajudou a pavimentar o caminho para o que muitos chamam de retomada, mas que na verdade foi um renascimento industrial e criativo.

Os anos 2000 consolidaram essa maturidade com uma série de filmes que conquistaram o público e a crítica internacional, provando que a excelência era uma constante redescoberta. É só lembrarmos de Central do Brasil (1998), indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Atriz (Fernanda Montenegro), e vencedor do Globo de Ouro na mesma categoria. Um retrato humano e comovente do Brasil. Cidade de Deus” (2002), que foi indicado a 4 Oscars, incluindo Melhor Diretor. Uma obra-prima narrativa e visual que chocou o mundo. Outro de grande impacto foi Carandiru (2003), potente drama social que ecoou internacionalmente.

Tropa de Elite (2007) foi o grande vencedor do Urso de Ouro em Berlim, gerando discussões acaloradas e mostrando a força impactante do nosso cinema. Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (2014) representou o Brasil no Oscar e no Globo de Ouro, trazendo uma narrativa sensível e universal sobre a adolescência e a diversidade.

Produções mais recentes, como Bacurau (2019), premiado em Cannes, e Marighella (2021), seguem essa linhagem de cinema potente, político e de qualidade incontestável. Ainda Estou Aqui (2024) e O Agente Secreto, obras que vão amealhando prêmios e são herdeiras dessa tradição, representam nosso cinema e nossa História pelo mundo.

A constância dessa qualidade não é um acidente. Ela é fruto do investimento público, através de leis de incentivo e do modelo de fomento da Ancine, e do investimento privado, que vê no audiovisual um setor estratégico e de retorno. Essa sinergia é vital. O cinema gera empregos, movimenta uma cadeia produtiva vasta e, acima de tudo, fortalece a identidade brasileira.

Cada filme é um espelho no qual nos reconhecemos e também uma janela pela qual o mundo nos vê. Ele divulga nossa cultura, nossa língua, nossas paisagens, nossas contradições e nossas belezas. É um ativo diplomático e turístico de valor inestimável.

Portanto, a próxima vez que um filme brasileiro for indicado a um grande prêmio internacional, lembre-se: não é um surto de sorte ou um milagre recente. É o capítulo mais novo de uma longa e gloriosa história. O cinema brasileiro sempre foi bom. Ele resiste, se reinventa e nos conta, há mais de um século, quem somos. Cabe a nós, como sociedade, continuar a valorizá-lo, apoiá-lo e, principalmente, assisti-lo, para que essa tela nunca perca o seu brilho.

O cinema nacional é patrimônio. E seu futuro é agora.

Ilustração: Cena do filme Deus e o Diabo na Terra do Sol. Imagem: Instituto Moreira Salles

"O agente secreto", uma opinião crítica https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/11/o-agente-secreto-critica.html 

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