Como a Selic a 15% inviabiliza o investimento produtivo no Brasil
Projetos
de infraestrutura, que exigem capital paciente e oferecem retornos ao longo de
décadas, não conseguem competir com a renda fixa.
Luís Nassif/Jornal GGN
O Pátria Investimentos, uma das maiores gestoras
de ativos reais do país, enfrenta uma crise que expõe algo maior: a
impossibilidade de qualquer solução de mercado para investimentos de longo
prazo em uma economia com taxa básica de juros a 15%.
A trajetória
do Pátria ilustra a transformação brutal no ambiente de negócios. Originalmente
focada em private equity — o investimento direto em empresas com horizonte de
consolidação, valorização e posterior venda —, a gestora prosperou em um mundo
que deixou de existir.
Esse
mundo era sustentado por juros baixos, crédito abundante, valuations (valor de
mercado) inflados e um mercado ativo de IPOs (oferta pública inicial de ações).
A engrenagem funcionava: capital paciente entrava, empresas se consolidavam,
múltiplos se expandiam, e a saída via abertura de capital coroava o ciclo com
lucros expressivos.
Mas
esse ciclo acabou.
A Nova Realidade
Com
a Selic a 15%, os múltiplos de private equity encolheram drasticamente.
Desinvestimentos ficaram mais difíceis e menos lucrativos. Os IPOs praticamente
desapareceram do radar. Ativos comprados no auge do ciclo anterior agora exigem
reprecificação para baixo, reduzindo a atratividade de toda a classe.
O
horizonte de saída, antes previsível, foi empurrado indefinidamente para
frente. Capital que deveria girar ficou preso. O modelo de negócio precisava
ser reinventado.
A Ilusão do Crédito Estruturado
A
resposta veio na forma de uma migração para fundos de crédito privado.
Operações estruturadas, lastreadas em recebíveis, protegidas por garantias
contratuais — teoricamente mais seguras, mais líquidas, mais adequadas ao novo
ambiente.
Esses
fundos cresceram aproveitando o vácuo deixado pelos bancos tradicionais, que
retraíram suas carteiras de crédito. Empresas buscando financiamento
alternativo encontraram gestoras dispostas a assumir o risco.
Mas
a combinação de juros elevados com desaceleração econômica revelou a
fragilidade dessa estratégia.
A Progressão da Deterioração
O
roteiro é previsível. Empresas tomadoras enfrentam queda no fluxo de caixa. A
inadimplência sobe. Garantias que pareciam sólidas revelam fragilidades
invisíveis durante a estruturação.
Então
começa a longa caminhada da negação contábil.
Primeiro,
a renegociação das condições. Depois, a extensão do prazo de pagamento. Em
seguida, a reclassificação nos balanços. Só muito depois — quando não há mais
escapatória — o reconhecimento efetivo da perda.
Essa
sequência cria uma ilusão de estabilidade. No caso do Pátria, essa ilusão
relaxa a tensão no presente, mas carrega o risco para o futuro.
O Risco Sistêmico
A
migração de capital para crédito estruturado é fenômeno global, mas no Brasil
enfrenta um agravante: juros estruturalmente elevados, não apenas ciclicamente
altos.
Quando
o crédito estruturado cresce demais, o gestor de recursos se transforma em
banco sem banco central. Assume risco de crédito sistêmico sem rede de
proteção. Opera em um mercado onde a regulação corre permanentemente atrás do
fato consumado.
A Impossibilidade Fundamental
A
crise do Pátria não é apenas gerencial ou setorial. Ela demonstra uma
impossibilidade fundamental: com a taxa básica de juros a 15%, não existe
solução de mercado viável para investimentos produtivos de longo prazo.
Projetos
de infraestrutura, que exigem capital paciente e oferecem retornos distribuídos
ao longo de décadas, simplesmente não conseguem competir com a renda fixa. Por
que assumir risco operacional, regulatório e de execução para buscar retornos
de 12% a 15% ao ano quando títulos públicos entregam 13% sem risco?
A
resposta racional do capital é clara: migrar para aplicações líquidas e
seguras. O investimento produtivo fica restrito a nichos ou depende de
subsídios governamentais disfarçados.
O Impasse
O
Brasil se encontra preso em um impasse. Precisa de investimentos em
infraestrutura para crescer. Mas mantém uma estrutura de juros que torna esses
investimentos economicamente irracionais para o setor privado.
Gestoras
como o Pátria tentaram contornar essa contradição com engenharia financeira
cada vez mais sofisticada. Mas engenharia financeira não resolve problemas
macroeconômicos estruturais. Apenas adia e, frequentemente, amplifica suas
consequências.
A
crise atual não é acidente de percurso. É o resultado inevitável de tentar
sustentar investimentos de longo prazo em uma economia de juros de curtíssimo
prazo.
Leia
também: "Patético e pusilânime" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/minha-opiniao_12.html

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