Reconhecer
a Educação como missão nacional
Superar a crise do ensino brasileiro não será
resultado espontâneo de reformas episódicas ou disputas fragmentadas.
Compromisso público de longo prazo, exige a mesma relevância que a transição
energética ou soberani a digital. Eis um plano, com horizonte para 2050
Celso Pinto de Melo/Outras Palavras
“Missões não são listas de políticas, mas compromissos públicos de longo prazo,
orientados por problemas que só o Estado é capaz de coordenar”
Da política setorial à missão de Estado
Ao longo desta série, um argumento foi se tornando
inevitável. A educação não pode mais ser tratada como política setorial,
sujeita a ciclos eleitorais curtos, reformas episódica s e disputas
fragmentadas. Ela precisa ser reconhecida e organizada como missão nacional,
nos termos substantivos com que as políticas orientadas por missões vêm sendo
formuladas no debate contemporâneo sobre inovação, desenvolvimento e soberania.
Nesse enquadramento, a escola pública deixa de ser
apenas uma política social e passa a operar como infraestrutura de coesão
democrática. Reformas educacionais profundas não resultam da imitação de “boas
práticas”, mas da abertura de janela s políticas específicas. O Brasil acumulou
diagnósticos corretos, mas adiou as escolhas estruturais. Considerados em
conjunto, esses elementos conduzem a uma conclusão clara: sem tratar a educação
como missão de Estado, nenhuma transformação duradoura será possível.
Educação e a lógica das missões
No campo das políticas de inovação, a noção de
missão representa uma inflexão decisiva. Em vez de conceber a inovação como
resultado espontâneo do mercado ou como subproduto da pesquisa isolada, a
abordagem orientada por missões a entende como uma escolha estratégica do
Estado, organizada em torno de problemas nacionais de longo curso [1].
Essa perspectiva parte de um diagnóstico simples: o
principal bloqueio não está na ausência de competências, mas na incapacidade de
integrá-las, escalá-las e coordená-las ao longo do tempo. É esse raciocínio que
sustenta a proposta de missões nacionais no horizonte 2027–2050, formulada em
debates recentes sobre soberania tecnológica e desenvolvimento.
O ponto decisivo é reconhecer que o mesmo vale
para a educação – com ainda mais força.
A missão estruturante
A educação não é apenas uma missão entre outras: é
a missão estruturante. Sem uma base educacional sólida, equitativa e universal,
nenhuma outra missão nacional se sustenta no tempo.
Políticas de inovação exigem formação científica
ampla; sistemas de saúde resilientes dependem de uma educação básica de
qualidade; a transição ecológica requer capacidades técnicas disseminadas; a
soberania digital pressupõe competências críticas; e a própria democracia se
fragiliza quando a escola falha em cumprir sua função integradora.
Essa centralidade vem sendo reconhecida
internacionalmente. A OCDE insiste que sistemas educacionais altamente
desiguais desperdiçam talentos, elevam os custos sociais e fragilizam a coesão
democrática [2, 3]. A UNESCO passou a tratar explicitamente a educação como
pilar de um novo contrato social, essencial para a democracia e o
desenvolvimento sustentável [4].
Do diagnóstico à organização do problema
O Brasil não sofre de escassez de diagnósticos
educacionais. Universalizou o acesso formal à escola, mas não o direito à
aprendizagem. O que faltou não foi evidência empíri ca, mas organização
política do problema.
Aprisionada entre ciclos eleitorais curtos,
reformas descontínuas e disputas corporativas, a educação brasileira foi
tratada como uma política permanentemente provisória. Como advertiram Pierr e
Bourdieu e Jean-Claude Passeron, sistemas educacionais tendem a converter
desigualdades sociais prévias em desigualdades escolares “legítimas” sempre que
não são deliberadamente organizados para combatê-las [5].
Nomear a educação como missão é romper com essa
inércia institucional.
Horizonte histórico: 2027–2050
Reformas educacionais profundas são, por definição,
intergeracionais. Não se resolvem em um mandato nem em um ciclo eleitoral. Por
isso, o horizonte 2027–2050 impõe-se como referên cia coerente para uma missão
educacional de Estado.
Esse horizonte não é uma promessa imediatista nem
um plano fechado. Ele expressa a necessidade de continuidade institucional, de
aprendizado administrativo e da capacidade de correção gradual de rumo s. O
novo mandato presidencial a ser iniciado em 2027 pode – se houver decisão
política – inaugurar esse ciclo, blindando a educação contra o imediatismo que,
historicamente, a desorganizou.
Esse enquadramento ajuda a recolocar, com
sobriedade, o lugar do Plano Nacional de Educação (PNE 2014–2024). O PNE foi o
marco de planejamento mais explícito da educação brasileira recen te. Seu
desempenho desigual não prova que planejar não funciona; mostra, ao contrário,
que planejamento sem coordenação federativa robusta, financiamento estável e
mecanismos de responsabilização pública torna-se vulnerável à fragmentação e ao
curto prazo [6, 7].
Tratar a educação como missão não compete com o
PNE. Busca criar exatamente o “andar de cima” de governança, horizonte e
coordenação que faltou para transformar metas em política de Estado.
O que uma missão educacional não é
Assumir a educação como missão implica também
deixar claro o que ela não é. Não se trata de reforma curricular isolada, nem
de digitalização acrítica do ensi no, nem de avaliações punitivas, nem de
soluções mágicas baseadas em plataformas ou algoritmos. Como discuti no texto
sobre equidade e projeto de país, tecnologia sem projeto tende a amplificar
desigualdades pré-existentes, agora sob a aparência de modernização.
Missões não se fazem por atalhos. Elas exigem
arquitetura institucional, coordenação federativa, valorização do magistério,
financiamento redistributivo e compromisso sustentado com a redução das
desigualdades estruturais.
Da escolha à institucionalização
Ao reconhecer a educação como missão nacional, o
debate muda de patamar. A pergunta deixa de ser “qual política adotar” e passa
a ser como organizar o Estado para sustentar essa escolha a o longo de décadas.
Essa transição – do ensaio à institucionalização –
é decisiva. Exige governança clara, métricas públicas, coordenação
interministerial e um horizonte temporal explícito. A educação não pode
permanecer fora da arquitetura estratégica do desenvolvimento nacional.
A partir desse ponto, a questão já não é se o
Brasil precisa de uma revolução educacional. A questão é se o país está
disposto a assumi-la como missão nacional, integrada a um projeto democrático,
soberano e socialmente justo para o ciclo 2027–2050.
Os argumentos desenvolvidos ao longo desta série
foram aprofundados na Nota Técnica “Educação como Missão Nacional – Equidade, capacidades e
futuro comum no Brasil (2027–2050)”, na qual proponho organizar a
educação como missão nacional de Estado no horizonte 2027–2050, discutindo
governança, coordenação federativa e critérios de acompanhamento.
Bibliografia
1. Mazzucato, M., The Entrepreneurial
State: Debunking Public vs. Private Sector Myth s. 2018, London: Penguin.
2. OECD, Equity and Quality in
Education: Supporting Disadvantaged Students and Schoo ls. 2012, Paris:
OECD Publishing.
3. OECD, Equity in Education:
Breaking Down Barriers to Social Mobility. 2018, Paris: OECD Publishing.
4. Unesco, Reimagining Our Futures
Together: A New Social Contract for Education. 2021, Paris: UNESCO.
5. Bourdieu, P. e J.-C. Passeron, La
reproduction: éléments pour une th éorie du système d’enseignement. 1970,
Paris: Éditions de Minuit.
6. Brasil. Ministério da Educação, Plano
Nacional de Educa&ccedi l;ão (PNE) 2014-2024: histórico e avaliação.
2014, Brasília: Ministério da Educação.
7. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas
Educacionais Anísio Teixeira, Cen so Escolar da Educação Básica 2022:
Notas Estatísticas. 2023, INEP: Brasília.
Leia também: A crise brasileira e a reconstrução da Escola https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/celso-pinto-de-melo-opina_26.html

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