A China e a Inteligência
Artificial
IA domina o cotidiano do cidadão
chinês em todos os níveis – do mais prosaico ao mais complexo
João Cezar de Castro Rocha/Liberta
Impressões de viagem
O
tema deste artigo poderia pertencer a uma enciclopédia dos contos de Jorge Luis
Borges: múltiplo e potencialmente infinito. Serei, contudo, mais modesto.
Limitarei minha perspectiva às viagens acadêmicas que tenho feito à China nos
últimos anos. E, antes mesmo de principiar, um reconhecimento, ainda mais
modesto: em nenhuma circunstância, devo ser visto como especialista em China.
Há no Brasil pesquisadores que se dedicam há anos ao tema e têm muito a nos
ensinar. Penso em nomes como Elias Jabour, Evandro Carvalho e Maurício Santoro
– aprendo bastante com o trabalho deles.
(Sou
apenas um professor latino-americano, sem dinheiro no banco, sem parentes
importantes e nem sei mandarim.)
O
que posso oferecer, portanto, é a memória recente de duas viagens, em particular,
nas quais fui exposto à forma como a cultura chinesa incorpora ativamente a
Inteligência Artificial no dia a dia em planos os mais diversos.
Tratarei
das viagens em ordem cronológica.
Tradução
e Inteligência Artificial
Entre
2021 e 2023, tive a grande honra de receber o título de “Xiaoxiang Scholar /
Visiting Researcher – Hunan Normal University / Humboldt Centre for
Interdisciplinary Research”. Como parte das minhas obrigações, passei dois
meses em Changsha, capital da província de Hunan, o estado no qual nasceu Mao
Zedong.
O
cotidiano para o cidadão chinês já é dominado pela difusão da Inteligência
Artificial em todos os níveis – do mais prosaico ao mais complexo. Muitos dos
estudantes que conheci, por exemplo, nunca tinham tido uma cédula de yuan em
mãos! Para alguns, e não eram poucos, o conceito de “chave de casa” era tão
abstrato quanto Tlon
e Uqbar para o leitor de Borges. O “Abre-te Sésamo”
dependia de reconhecimento facial ou de um QR Code disponível no celular.
Aliás,
o celular é onipresente e possui mil e uma utilidades. Pensei no Brasil e
fiquei preocupado. Perguntei a um aluno: mas e quando a conexão falha, o que
fazem? Como entram em casa, como pagam a conta? O aluno não entendeu a
pergunta. Tentei explicar. Nonada! Contei como funciona o 5G no Brasil. “Não
pode ser”, me respondeu o estudante. “Assim não é 5G!”. Confesso que me senti
ligeiramente embaraçado, mas não me dei por rogado: mas e se houver um problema
com seu servidor? “Ah! Raro, muito raro. Para essas ocasiões, temos um servidor
reserva”.
Na
Universidade Normal de Hunan, junto com dois brilhantes colegas chineses, Chen
Zhongyi e Ren Haiyan, organizamos Montanhas e Pescadores – Crítica
Cultural Chinesa Contemporânea (Editora Autêntica, 2024),
livro com a participação de 17 destacados professores e professoras, a fim de
apresentar à universidade brasileira a produção universitária da China atual.
Um
enorme desafio! Ora, pensei, quanto tempo precisaremos para traduzir os textos
do mandarim para o português? “Dois meses”, me informou Ren Haiyan, notável
jovem pesquisadora. Dois anos? – corrigi minha amiga, com delicadeza. Ren
sorriu e confirmou “60 dias”. Como?! “Inteligência Artificial!”. Reagi: Não!
Sou um velhinho humanista!
“João…
Veja como fazemos: a primeira versão é feita rapidamente com Inteligência
Artificial e com um grau de acuidade impressionante. Passo seguinte: uma
professora, especialista em português e literatura, verifica linha a linha a
tradução. Quando tivermos certeza de sua correção, aí você entra no circuito
para assegurar a adequação do estilo final do texto. E sempre em diálogo com a
especialista chinesa”. Fiquei atônito: a ideia era brilhante! O
resultado? Publicamos o livro no Brasil em menos de um ano, graças ao
excepcional trabalho de revisão da professora da Universidade de Pequim, Fan
Xing.
Aprendi
muito sobre a mentalidade chinesa nessa experiência: é perda de tempo discutir
se a Inteligência Artificial deva ou não ser empregada, pois ela já é
realidade. A questão é inventar formas para que sua utilização seja proveitosa
e, sobretudo, controlada pelo usuário e não pelo algoritmo.
Inteligência
Artificial e Futuro
Em
novembro de 2025, estive em Beijing para participar de evento organizado pelo
governo chinês sobre o processo de modernização em escala planetária e para
oferecer conferências na Universidade de Pequim.
Numa
das atividades programadas pelo evento, fomos levados a um parque de inovações
tecnológicas voltadas para a indústria, assim como para um laboratório de
robótica, igualmente direcionado para aplicações práticas no dia a dia.
Fui
transportado à experiência de tradução em Hunan: os chineses estão muito à
frente na combinação de pesquisa científica com preocupação pragmática,
aceitação da realidade – a onipresença da Inteligência Artificial no futuro
imediato e mesmo já no presente –, mas incorporação ativa desse dado. Em outras
palavras, como se preparar para que os efeitos da Inteligência Artificial sejam
mantidos sob controle?
Inteligência Artificial lida com palavras de Confúcio: “Merece ser um professor o homem que descobre o novo ao refrescar na sua mente aquilo que ele já conhece”.
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IA: Como a China está vencendo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/ia-china-vence-eua.html

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