27 abril 2026

O delírio de Trump

O cenário insano que pode tornar a guerra global

Israel não aceita a trégua transitória. EUA concentram mais soldados diante do Irã, e surgem sinais de que Trump está alheio à realidade. Seu gabinete delira com um “cerco à China”. As turbulências da economia global podem virar terremoto
Alastair Crooke/Outras Palavras  

Os Estados Unidos estão entrando em uma nova fase da guerra contra o Irã. Pode não ser o que muitos esperam (especialmente nos mercados financeiros). No sábado, 19/4, Trump disse, entre outras coisas, que o Estreito de Ormuz estava aberto e que o Irã concordou em nunca mais fechá-lo; que Teerã, com a ajuda dos EUA, removeu ou está removendo todas as minas marítimas; e que EUA e Irã trabalhariam juntos para extrair do Irã o urânio altamente enriquecido (UAE) que o país produziu. Trump escreveu:

“Vamos resolver isso. Vamos trabalhar com o Irã, em um ritmo tranquilo, e começar a escavar com máquinas pesadas… Traremos os resultados para os Estados Unidos muito em breve.”

O presidente afirmara um dia antes que o Irã concordou em entregar seu estoque de urânio altamente enriquecido. Nenhuma dessas afirmações era verdadeira . Ou Trump estava imaginando (apegando-se a fantasias, embora acreditando que fossem verdadeiras); ou estava manipulando os mercados. 

Se foi o último caso, houve sucesso. O preço do petróleo caiu e os mercados dispararam. Segundo relatos, 20 minutos antes da afirmação do presidente, de que o Estreito de Ormuz estava aberto e jamais fecharia novamente, uma posição vendida de US$ 760 milhões em petróleo foi aberta… Alguém ganhou uma fortuna.

Toda essa turbulência gerou muita confusão. Trump também afirmou que uma nova rodada de negociações e um provável acordo com o Irã aconteceriam muito em breve — inclusive neste fim de semana. A probabilidade de negociações é falsa. A agência de notícias iraniana Tasnim informou que “o lado norte-americano foi informado, por meio do mediador paquistanês, de que nós [Irã] não concordamos com uma segunda rodada [de negociações]”.
Desde o início do cessar-fogo mediado pelo Paquistão, o Irã deveria permitir a passagem diária de um número limitado de navios. No entanto, isso sempre esteve sujeito às condições iranianas para a passagem em trânsito. O resultado final das manipulações de Trump foi fazer com que o Irã reafirmasse suas condições sobre Ormuz, sobre seus estoques de urânio altamente enriquecido e sobre seu “direito de enriquecer”, em uma definição mais restrita e menos flexível.

As negociações em Islamabad já haviam demonstrado ao Irã que sua proposta estruturada em  10 pontos — inicialmente vista por Trump como uma “base viável” para o início de negociações diretas — não poderia prosperar. O lance iraniano foi descartado no final do dia, à medida em que os EUA voltaram-se para seus principais pontos para uma planejada vitória: abandono, para sempre, do enriquecimento de urânio pelo Irã; entrega aos EUA de seu estoque de 430 kg de urânio enriquecido a 60%; e a abertura do Estreito de Ormuz — sem pedágios.

Em resumo, a posição dos EUA foi apenas uma continuação das exigências de longa data de Israel. A experiência adicional do Irã, com a falsificação promovida dos EUA na sexta-feira, só serviu para confirmar a convicção de permanecer sempre alerta, e de encarar a confusão fabricada como uma possíve l manobra dos EUA para acobertar os preparativos para uma escalada militar planejada .

Ao recusar essas exigências cruciais, o Irã desencadeou a repentina decisão dos EUA, de desistir de Islamabad, evidenciando o contexto fundamental por trás dessa retirada norte-americana: Netanyahu estava frustrado. Muito frustrado. “Co mo [Netanyahu] afirma, ‘a mídia’, esse conveniente ‘vilão’, conseguiu consolidar a narrativa de que Israel perdeu a guerra [com o Irã]”, escreveu Ravit Hecht no Haaretz. Ele prosseguiu:

“Poucas pessoas entendem melhor que Netanyahu o poder de mensagens curtas, diretas e inequívocas… Com o tempo se esgotando e sua reputação internacional em declínio, ele está desesperado para apresentar pelo menos uma história de sucesso inequívoca, dentre as metas ambiciosas que proclamou na primeira semana da guerra – quando a arrogância e a adrenalina ainda permeavam todas as coletivas de imprensa do governo.

“Mudança de regime em Teerã? Já não está em discussão. O vago objetivo de ‘criar condições’ para tal mudança evaporou-se. Acabar com o programa de mísseis balísticos do Irã parece agora extremamente irrealista – os ministros de Netan yahu também reconhecem isso. Quanto à rede de aliados regionais do Irã, sua influência pode se tornar mais sutil, mas poucos acreditam que possa ser completamente desmantelada.

“Isso deixa apenas uma carta em jogo: o urânio.

“O círculo de Netanyahu espera que, como em crises passadas, a crescente pressão possa obrigar o Irã a abrir mão de seu estoque de urânio enriquecido. Netanyahu está apostando tudo nesse resultado – ou na possibilidade de que uma nova guerra ainda possa desestabilizar o regime.

“Foi por isso que o vice-presidente dos EUA, J.D.Vance — que recebia instruções da Casa Branca ou de Tel Aviv quase a cada hora — encerrou as prematuramente negociações em Islamabad, no início do mês. Não era possível esperar do diálogo uma mensagem de vitória concisa e incisiva, da qual depende o futuro de Netanyahu”.

O advogado constitucionalista norte-americano Robert Barnes (amigo de Vance) relatou em entrevista que:

“Trump começou a apresentar sinais de demência precoce em setembro de 2025… Ele frequentemente confabula – inventa histórias –, perde a paciência rotineiramente e profere discursos raivosos e descontrolados, sendo incapaz de pensamento crítico. E nesse estado, segundo Barnes, Trump realmente acredita que os EUA derrotaram o Irã e não compreende o enorme prejuízo econômico que o fechamento do Estreito de Ormuz está causando à economia global”.

Resumindo, Barnes afirma que o delírio de Trump, de que o Irã está prestes a se render, reflete seu estado mental comprometido — uma dificuldade em compreender a realidade (uma interpretação panglossiana que o secretário de Defesa, Pete Hegseth faz o possível para reforçar).

Assim como Netanyahu, Trump provavelmente também acredita que pressionar de forma crescente o Irã poderia render o troféu da vitória de exibir 430 kg de urânio enriquecido — seja por meio de pressão econômica, seja por meio de uma apreensão dramática em solo iraniano pelas forças norte-americanas.

Diante dessa crise no coração da Casa Branca, o vice-presidente Vance, novamente segundo Barnes, tem trabalhado intensamente nos bastidores para organizar um novo encontro com o Irã em Islamabad. Age assim apesar de o processo político estar sendo deliberadamente prejudicado por ataques aéreos e terrestres israelenses em larga escala no Líbano, que mataram e feriram até mil pessoas (quase todas civis) durante as negociações de cessar-fogo, bem como pelos ataques contínuos, desde que Trump supostamente “proibiu” Israel de atacar o Líbano no início do cessar-fogo.

No entanto, após muita negociação por parte do Paquistão, com mensagens circulando em várias direções, “na noite passada [19/4], um oficial militar iraniano afirmou que Teerã havia emitido um ultimato final aos EUA, informando que estava a uma hora de iniciar uma operação militar e ataques com mísseis contra as forças israelenses que atacavam o Líbano, o que [finalmente] forçou Trump a declarar um cessar-fogo no país”, causando grande indignação em Israel. Autoridades israelenses ficaram furiosas, reclamando que só foram informadas depois do ocorrido.

Não está nada claro se Israel irá respeitar o acordo (Telaviv já violou o cessar-fogo). Netanyahu, todos os líderes da oposição israelense e uma grande maioria da população estão unidos no desejo de que a guerra continue.

As negociações de Islamabad fracassaram, em primeiro lugar, porque as divergências entre as duas partes eram intransponíveis; e, segundo, porque as partes tinham visões diferentes e contraditórias da realidade no território. Os EUA, aparentemente, entraram nas negociações partindo da “hipótese” de que a outra p arte já estava militarmente destruída e em situação desesperadora.

O Irã, por outro lado, entrou convicto de que havia saído mais forte do que após a Guerra dos Doze Dias. Em sua interpretação, isso significava que o controle de Ormuz e do Mar Vermelho ainda não havia atingido o estágio em que o equilíbrio de sofrimento pudesse pesar decisivamente favorável ao Irã — e certamente n& atilde;o havia chegado ao ponto em que concessões significativas por parte de Teerão fossem apropriadas.

Qual será, provavelmente, a próxima etapa? Mais guerra! Uma guerra cinética de maior escala, com foco provavelmente em outra série m aciça de ataques com mísseis, principalmente contra a infraestrutura civil do Irã.

Em 14 de abril, o Conselho de Segurança da Rússia alertou que “as negociações de cessar-fogo podem ser uma cortina de fumaça usada por Washington para se preparar para uma guerra terrestre… Os Estados Unidos e Israel podem usar as negociações de paz para se preparar para uma operação por terra contra o Irã, enquanto o Pentágono continua aumentando o número de soldados norte-americanos na região”.

Trump acrescentou agora uma nova frente , com o objetivo de maximizar ainda mais o impacto econ& ocirc;mico de sanções e bloqueios sobre o Irã. A China é o principal alvo porque, como afirma o Secretário do Tesouro Scott Bessent, Beijing tem sido a maior compradora de petróleo iraniano vendido com desconto. Bessent alega que essa nova dimensão é o equivalente financeiro aos ataques militares conjuntos EUA/Israel anteriores contra o Irã. Ele a chamou de parte da “Operação Fúria Econômica” — destinada a cortar as fontes de receita do Irã, especialmente as provenientes da venda de petróleo e das supostas redes de contrabando.

Bessent também afirmou que os EUA imporiam sanções secundárias a quaisquer países, empresas ou instituições financeiras que continuassem comprando petróleo iraniano ou que permitissem a circulação de dinheiro iraniano em suas contas. Descreveu isso como uma “medida muito severa”. Bessent advertiu explicitament e que, se fosse comprovado que fundos iranianos estavam circulando por meio de contas bancárias, os EUA aplicariam sanções secundárias.

Se este anúncio tem como objetivo coagir a China a pressionar o Irã para que este se renda a Israel e aos EUA, isso constitui uma leitura flagrantemente equivocada da situação tanto no Irã quanto na China. É provável que se volte contra Trump. Isso provocará o surgimento de mais uma frente econômica na guerra — e estender&a acute; a guerra econômica a um nível global.

É provável que a China e a Rússia interpretem essa declaração apenas como mais uma tentativa dos EUA (após o bloqueio à Venezuela) de restringir o fornecimento de energia à China. O Estreito de Ormuz continua aberto para navios chineses. A tentativa de bloqueio de Trump foi a pressão inicial — agora ele ameaça sanci onar bancos e empresas chinesas.

A guerra tarifária de Trump será vista em retrospectiva como insignificante, comparada ao ataque iminente às cadeias de abastecimento da China. Os mercados podem comemorar prematuramente, mas a próxima fase será, tudo indica, uma guerra ainda maior e mais intensa.

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Irã usa satélite chinês e desafia hegemonia dos EUA https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/poderio-belico-digital.html 

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