22 abril 2026

Uma crônica de Ruy Castro

Carmen assombrou a Broadway
Carmen Miranda foi para os EUA em 1939 por seu talento, não pela política da Boa Vizinhança. Mas a ideia errada de que a contrataram por causa da Segunda Guerra continua a ser repetida
Ruy Castro/Folha de S. Paulo     

Entre os vídeos com que a internet me mimoseia regularmente, recebi um outro dia sobre Carmen Miranda. E, como em tantas publicações sobre Carmen, sou informado de que ela foi para a América em março de 1939 por uma manobra da política da Boa Vizinhança, o plano dos EUA para bajular os países latino-americanos e compensar a perda dos mercados europeus pela Segunda Guerra Mundial. Ou seja, Carmen foi para lá por uma conveniência política, não por seu talento. É mesmo?

Vejamos. Em março de 1939, o zilionário americano Nelson Rockefeller ainda não tinha vendido ao presidente Roosevelt a ideia de um intercâmbio cultural para nos seduzir —só faria isto em junho de 1940. Em março de 1939, os EUA também ainda não tinham entrado na guerra, o que só aconteceria em 7 de dezembro de 1941, depois do bombardeio de Pearl Harbor pelo Japão. E, finalmente, em março de 1939, nem a Segunda Guerra havia começado, o que ainda teria de esperar até setembro daquele ano de 1939. Portanto, se não havia política da Boa Vizinhança, os EUA não estavam em guerra e sequer havia a guerra, por que levaram Carmen para lá?

Porque, no Carnaval de 1939, Lee Shubert, o maior empresário teatral dos EUA, estava no Rio. Foi ver Carmen no Cassino da Urca e, confirmando o que amigos americanos aqui residentes haviam lhe dito, ela tinha mesmo tudo para ser um sucesso na Broadway. Então contratou-a, levou-a para Nova York e, na noite de 8 de junho, assim que Carmen adentrou o palco no musical "Streets of Paris", ele se certificou de que tinha descoberto, não uma estrela, mas uma superestrela.

Tudo isso está contado com detalhes, inclusive os termos do contrato, os valores e as condições, em meu livro "Carmen – Uma Biografia", publicado há alguns anos. Para isso, consultei toda a papelada do Arquivo Shubert em Nova York.

Mas meu amigo Carlos Heitor Cony já tinha me advertido: "Não adianta, Ruy. A gente escreve, escreve e escreve, e ninguém toma providências". Cony tinha razão. Por que contrariar uma ideia feita, mesmo que falsa?

[Ilustração: Discos, fotos, publicações e uma escultura de Carmen Miranda pelos americanos - Heloisa Seixas]

Se comentar, assine.

Planos a longo prazo, sim https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/minha-opiniao_4.html 

Nenhum comentário:

Postar um comentário