01 julho 2026

Para destravar o desenvolvimento soberano

Reforma do sistema financeiro é condição para recuperar papel do Estado e a soberania
Em Seminário da Grabois, Ana Rosa Ribeiro Mendonça (Unicamp), Antônio José Alves Júnior (UFRRJ),Diogo Santos (UFMG), e Norberto Mucani (UFRJ) defendem crédito orientado, fortalecimento dos bancos públicos e novos mecanismos de financiamento para impulsionar a reindustrialização, enfrentar a transição climática e ampliar a capacidade do Estado de promover o desenvolvimento nacional
Leandro Melito/Portal Grabois   
 

A reforma do sistema financeiro foi apontada como uma ação necessária para recuperar o papel do Estado e garantir a soberania nacional brasileira durante a mesa “Questão financeira e macroeconômica”, realizada na terça-feira (23) como parte do Seminário Capitalismo no Brasil Contemporâneo, promovido pela Fundação Maurício Grabois.

“Capacidade de financiamento é capacidade de se defender, de exercer sua soberania. Soberania é muito mais do que a defesa nacional em si, mas sobretudo capacidade de ter instrumentos de política econômica que permitam a defesa dos interesses nacionais”, destacou Diogo Santos, economista do Instituto de Pesquisas Econômicas da UFMG e coordenador do grupo de pesquisa sobre Desenvolvimento Nacional da Grabois.

Em sua apresentação, ele destacou que o sistema financeiro não deve ser visto como um fim em si mesmo, mas precisa estar a serviço do desenvolvimento do país. No Brasil, ele aponta que mais de dois terços do patrimônio dos fundos de investimento são aplicados em títulos da dívida pública e que o país tem spreads bancários entre os mais altos do mundo.

“Será que não era hora da gente retomar uma discussão mais a fundo de uma necessária reforma do sistema financeiro no Brasil para pensar o desenvolvimento nacional?”, questiona, diante dos desafios que o país precisa enfrentar em relação à reindustrialização, às questões climáticas, à diversificação energética e às disputas geopolíticas.

Norberto Mucani, professor do Instituto de Economia da UFRJ e assessor especial no Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI), considera necessária a discussão de uma nova reforma do sistema financeiro, tendo como foco “não qualquer tipo de desenvolvimento, mas aquele que consideramos soberano, sustentável e inclusivo, no sentido de redução das desigualdades que temos no país”.

Embora o mercado de capitais tenha ganhado fôlego no período recente, Mucani aponta que ele permanece restrito a grandes empresas e precisa ser articulado com um sistema público de financiamento de longo prazo. Para isso, ele defende a necessidade de discutir como criar mecanismos efetivos para ampliar o acesso a esse mercado, que considera “um acessório importante para mitigar problemas de fragilidade financeira que surgem no financiamento do desenvolvimento”. “É fundamental a articulação de um mercado de capitais bem estruturado e com liquidez junto a um sistema público de financiamento, visando ao longo prazo, à soberania e à sustentabilidade desse processo”, defendeu.

A professora do Instituto de Economia da Unicamp, Ana Rosa Ribeiro Mendonça, focou sua análise no papel fundamental dos bancos e na importância do direcionamento de crédito como ferramenta de desenvolvimento. Para a pesquisadora, o sistema bancário deve ser compreendido como um mecanismo para viabilizar o movimento econômico. “Pensar a regulação de uma forma mais ampla não é apenas buscar a estabilidade financeira, mas criar mecanismos que façam o sistema funcionar financiando as economias”, afirmou.

Ana Rosa ressaltou que o Brasil possui uma institucionalidade sólida, composta por bancos públicos, como BNDES, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal, além de fundos fiscais e parafiscais, como o FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador) e o FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço), que garantiram o financiamento de longo prazo e a habitação social quando a lógica privada não teve interesse – e alertou para o “enxugamento estrutural” desse sistema desde 2016, após o golpe contra a presidenta Dilma Rousseff. Ela defendeu que o direcionamento de recursos para setores estratégicos não é uma peculiaridade brasileira, mas uma prática retomada internacionalmente para enfrentar crises e a transição climática.

O professor Antônio José Alves Júnior, da UFRRJ, criticou o fato de grandes bancos públicos, como o Banco do Brasil e a Caixa, muitas vezes operarem sob uma lógica privada em linhas de crédito de varejo, como cartão de crédito e cheque especial, para aumentar sua lucratividade. O economista defendeu que o Estado deve utilizar essas instituições de forma mais incisiva para guiar o mercado: “Deveríamos colocar o Banco do Brasil e a Caixa de modo mais agressivo para reduzir os spreads dos financiamentos. Eles têm plenas condições de dar o tom e impulsionar o desenvolvimento, reduzindo o custo do crédito na ponta final”, destacou.

Em sua apresentação, Alves Júnior demonstrou que o spread brasileiro supera largamente o de vizinhos como México, Paraguai e Argentina, perdendo globalmente apenas para o de Madagascar. “Nenhum outro país com dimensão e economia semelhantes tem taxas básicas e spreads tão elevados. É um ciclo perverso: os bancos elevam os juros, o risco de inadimplência aumenta e isso é usado para justificar juros ainda maiores”, alertou.

Assista à íntegra da mesa: “Questão financeira e macroeconômica” https://grabois.org.br/2026/06/30/reforma-sistema-financeiro-papel-estado-soberania/

O selo do PCdoB na frente pró-Lula https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/o-pcdob-e-lula.html

Nenhum comentário:

Postar um comentário