21 julho 2026

Uma crônica de Odimariles Dantas

São João 2026
Odimariles Dantas      

Mais um São João lá se vai...

Aqui do 17º andar na Rua Antônio de Castro em Casa Amarela, escuto a Voz de Lia, enfeitando o Sítio da Trindade com sua eterna Ciranda de Itamaracá, lembrando que o São João está se despedindo, dando passagem a São Pedro que encerra o ciclo junino.

Lágrimas escorrem discretamente de meus olhos, disfarçadas pela fina “chuva de prata que cai sem parar” umedecendo o Sítio e trazendo emoções, lembranças e alegrias, como “espumas ao vento”, mais um ano em meu calendário existencial.

Se tem um tempo que registrei com prazer, na minha infância e quase adolescência, é a época de São João.

Iniciava junho, construímos com ajuda de algum adulto (eu cm ajuda de meu pai), uma “barraquinha de fogos”, uma caixinha de madeira, com poucas prateleiras, coberta com papel de seda ou crepom colorido, enfeitada com bandeirinhas que era colocada ao entardecer, na frente das casas, retiradas lá por volta das nove horas da noite, quando a criançada já se recolhia. Dentro dessas barraquinhas ficaram os fogos, objeto de desejo da meninada: estrelinhas, traque de massa, bicha de rodeio, algumas bombinhas para os maiores e os famosos traque de veia, aguardando os compradores.

Ao lado da barraquinha, uma placa de papel madeira ou mesmo aproveitávamos os sacos de pão comprados na venda, nela escrita com carvão em letras meio tortas, o preço dos fogos.

A chegada de um comprador, o som das moedas caindo em um cofre improvisado em uma lata de leite, era música para nossos ouvidos infantis, carregados de sonhos e fantasias.

Rezas e pedidos a São Pedro, para que não chovesse e os fogos fossem vendidos antes da chuva.

E as quadrilhas, com ensaios regulares e responsáveis, para fazer bonito na véspera de São João. Meninos e meninas usando vestidos e camisas com quadriculados de cores vivas, típico da época junina, chapéu de palha para os meninos e laços de fitas para as meninas, além da maquiagem, bigodes de carvão e pontinhos nas bochechas avermelhadas com algum “rouge” (hoje blush) das mamães e era só olhar para o céu e ver balões coloridos, estrelinhas e a fantasia corre solta.

E o primeiro amor?! Ah! era inesquecível, a música de Luiz Gonzaga chegava com força: “Olha pro céu, meu amor, vê como ele está lindo... foi numa noite igual a esta, que eu te dei meu coração...” Ah São João!

Os anos passam, as pernas adultas e cansadas, não acompanham mais os passos da quadrilha, muitos dos amigos já se despediram e com o velho Lua, brincam São João lá no céu.

Sem nostalgia, mas com lembranças vivas que me acalentam o coração e me fazem acordar cada dia esperando outros junhos, canções de Lia de Itamaracá e de Luiz Gonzaga resistência de uma festa raiz, nordestina, com forró pé de serra, cirandas, fogueiras e muita comida de milho.

Ilustração: Cândido Portinari

Carmen Miranda assombrou na Broadway   https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/uma-cronica-de-ruy-castro_22.html 

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