10 agosto 2026

Abraham Sicsu opina

Agora caminha lento, mas caminha
Abraham B. Sicsu   

Não suporto livros de autoajuda. Trazem fórmulas mágicas. São guias do bem viver, se formos comportados, é claro. Tentam resolver todos os problemas dos indivíduos, acreditam fazer com que a autoestima se valorize quando se está por baixo celeremente. Para isso, prometem até sucesso profissional e mesmo emocional.

Nessa direção, descrevem os indivíduos como quase idênticos, padronizados, procuram transformar os seres humanos com fórmulas mirabolantes, infalíveis e iguais para todas as pessoas. Como se sentimentos e emoções, principalmente, fossem os mesmos para todos, como se as reações humanas sempre fossem similares e previsíveis. Por isso, não me dou tempo para ler essa literatura.

No entanto, sem nada para ler numa manhã chuvosa, peguei um livro da estante. Um livro que muitos já leram e releram. Que foi um sucesso editorial e continua sendo nos dias atuais. Editado em 2000. Do Dalai Lama, “Uma ética para o novo milênio”.

Minha curiosidade era tentar conhecer um pouco da filosofia oriental e de uma religião que me era desconhecida, o Budismo. Evidentemente, com todos os pés atrás ditos nos parágrafos anteriores.

Um livro denso com uma linguagem bem acessível. Não deixa de poder ser enquadrado na categoria de autoajuda. Não imaginava, mas a leitura me foi prazerosa, principalmente por não ver o excesso de dogmatismo que esperava. Um livro que me levou a reflexões filosóficas próprias do pensamento budista e que se centra na ética como caminho da convivência harmônica dos indivíduos.

Não pretendo fazer uma resenha. Mesmo porque me seria enfadonho, apenas vou ressaltar aspectos que me parecem relevantes e foram despertados pela leitura.

Parte da concepção de que todo ser humano busca ser feliz. Felicidade seria o norte para uma vida mais plena, aquilo que todo ser humano procura e deseja.

O problema que se coloca é que “criamos uma sociedade em que as pessoas acham cada vez mais ser difícil demonstrar um mínimo de afeto aos outros. Em vez da noção de comunidade e da sensação de fazer parte de um grupo, encontramos um alto grau de solidão e perda de laços afetivos.”

O individualismo impera e a busca de ignorar o sofrimento alheio o norteia. Sendo esse o aspecto crucial, propõe uma sociedade em que se valorize a compaixão e a empatia. Em que haja compromisso com o coletivo, com o comunitário, inclusive com o respeito ambiental e aos outros seres da Terra. Esta é a base do que chama de uma “revolução espiritual’.

Nessa visão, ressalta que “o descaso pela dimensão interior do homem fez com que todos os grandes movimentos dos últimos cem anos- democracia, liberalismo, socialismo- tenham deixado de produzir os benefícios que deveriam ter proporcionado ao mundo.”

Concordo com ele, mas o aprofundar dessa visão necessitaria uma reflexão sobre a visão do homem atual, das suas relações com o status vigente, da sua submissão aos males atuais, inclusive seu sofrimento frente às mazelas que seu semelhante enfrenta. É o que se propõe no texto. E isso exige compromissos difíceis de serem assumidos.

Dirão que estou sendo incoerente, que o aqui exposto se enquadra no gênero de autoajuda e da religiosidade. Eu diria que vocês têm razão, muitos pensadores de diversas correntes apontam esse caminho para a “salvação’, sem dúvida. Colocar o pensamento no campo da ética não modifica a essência, embora, para mim, lhe dê mais solidez. Não foi isso que me levou a este escrito.

 Tratar da velhice foi tema que me trouxe pensamentos, me identificando com o tema. É ele que me leva a escrever este texto. Tendo por base o que diz o religioso:

‘’Desde o dia em que nascemos temos diante de nós a perspectiva de envelhecer e perder o viço da juventude. Com o passar do tempo, nosso cabelo cai, os dentes se enfraquecem, a vista e a audição se deterioram. Não digerimos mais tão bem os alimentos preferidos. Acabamos descobrindo que não nos lembramos direito de acontecimentos que antes eram tão vividos em nossa memória, e às vezes até dos nomes daqueles que estão mais próximos de nós. Se nossa vida se prolonga muito, podemos atingir um estado de decrepitude capaz de causar aversão em quem olha para nós, embora seja esse precisamente o tempo em que mais precisamos de outras pessoas. ’’ 

No que se refere ao físico envelhecido, exatamente o que ocorre comigo, excetuando a perda de cabelo que, por algum fator genético, não veio e acho que não virá. Mas, isso não ocorre só comigo, e sim com a grande maioria dos idosos que conheço. Incomoda, mas é tolerável e os avanços científicos atuais os diminuem muito, pelo menos disfarçam as perdas.

O problema crucial é o psíquico. É quase geral a perda da memória, principalmente de fatos recentes. Não sei se boa parte dos anciões se tornam decrépitos, mas, as novas gerações assim nos vêm. Ainda, ao merecidamente nos alijarmos do mundo do trabalho e diminuirmos a vida na participação social e política, somos vistos como descartáveis. Muitos anos de vivência e de erros e acertos acumulados são ignorados socialmente. Experiência de vida pouco importa. Essa situação traz sofrimento e dor interna, traz tristeza, nos afasta da felicidade.

Alguns podem chamar de uma primeira morte, a social. Sem dúvida, assim pode ser entendida. No entanto, numa sociedade em que a Ética seja norteada pelo coletivo, pela compaixão, pela empatia, pelo respeito à história de vida, respeito ao contributo dado, ao ser que tem alguma experiência a transmitir, isso se reverte, passa a ser um norte importante de um mundo mais saudável e feliz. E é o que sua santidade, o Dalai propõe.

Depois, implacável, chega o fim. Novo processo a ser enfrentado. Como diz sua santidade:

“Então vem a morte- um assunto que parece ser quase um tabu na sociedade moderna. Mesmo que o encaremos como um alívio e não nos importemos com o que vem depois, a morte significa a separação daqueles que amamos, o abandono de nossos bens materiais preciosos, em suma, de tudo aquilo que nos é mais caro.”

Não negar e refletir sobre esse processo faz-se necessário. É parte natural da vida terrena.

Posso estar enganado, mas a leitura formou em mim uma percepção, o Budismo como uma postura objetiva de enfrentar e aproveitar a vida, uma filosofia para a vida, não como mais uma religião dogmática que amordaça os indivíduos, mas como caminho mais seguro e prazeroso a ser seguido.

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