02 agosto 2026

Minha opinião

Gastando muito? Corra ao endocrinologista! 

Luciano Siqueira      

O amigo é consumidor compulsivo. Em viagem à China, roubou de tudo – pelo menos quase tudo do que lhe foi oferecido: gravatas, relógios “Rolex” de eficiência duvidosa, bolsas e apetrechos vincados como se de grifes famosas... e até prosaicos e muito úteis pares de meia.

Na viagem de volta, mil truques para segurança e bugigangas na bagagem, de modo a não pagar excesso de peso – em dólares! Afinal, ao chegarmos ao Aeroporto dos Guararapes, juro que – exaurido e sonolento em razão das muitas horas de voo – o ouvi perguntar ao carregador, que se aproximava empurrando o carrinho de bagagens: “Quanto custa?” Mas minhas testemunhas idôneas garantiram que tal não aconteceu, foi pura imaginação, talvez devido ao porre de consumo que havia presenciado na longa viagem...

Pois bem. Essa coisa de consumir sem limites, uns dizem que é doença, outros acham que nem tanto, e muitos consideram reflexo da propaganda imensa na TV, que associa prazer e felicidade à aquisição dos mais variados bens – dos inalcançáveis ​​​​barcos a vela e carros de última geração a perfumes, desodorantes, refrigerantes e uísques diversos.

Tem outra explicação, cientificamente embasada. Pelo menos é o que agora leio no Valor Econômico, em matéria assinada por Noemi Jaffe. O cientista Dan Ariely, dedicado ao estudo do "comportamento econômico dos macacos" (sic), garante que os seres humanos também cometem "erros econômicos básicos", como "não agir em função do futuro e repetir nossos erros sempre da mesma maneira".

Está no livro "Eu Compro, sim! Mas a Culpa é dos Hormônios...", de Pedro de Camargo, onde se indica tratamento endocrinológico para a superação do impulso de consumo irrefreável.

Imaginar. O cara chega ao consultório médico e, questionado sobre o que o incomoda, sapeca de pronto: - Doutor, estamos muito doentes, eu e minha conta bancária. Não paro de comprar coisas e no final do mês não há renda que me impeça de operar no vermelho!

E o médico, por sua vez, após análise detalhada e exame físico específico, solicitação bateria de testes laboratoriais, com ênfase em dosagens hormonais. Sem retorno, o paciente sai com a prescrição do medicamento X, comprovadamente eficiente na cura da nova entidade clínica, conhecida como “síndrome da gastança”.

Tempo moderno!, diria a minha avó Neném, que à sua época se espantava com tudo o que era novo, a partir do mesmo uso de calças compridas pelas mulheres, que ela nunca aceitou.

É uma disputa no mercado? Por outro lado, os varejistas apoiam cada vez mais campanhas publicitárias concebidas para explorar, por meio de estímulos visuais e sonoros, a liberação de hormônios que conduzem às vítimas à primeira loja da esquina. Do outro, a indústria farmacêutica anunciando a última descoberta, um inibidor hormonal, capaz de curar o mais incontrolável comprador de quinquilharias. Uma guerra pra gente grande, sem dúvida.

É isso, minha avó: assim caminha a Humanidade!   

[Ilustração: imagem produzida por IA]

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