06 agosto 2026

Miró da Muribeca

Miró 66
Marcelino Freire/Revista Araçá  

[1] Miró pintava a rua com os pés.
[2] Miró era uma rua.
[3] Uma arruaça.
[4] Conheci Miró na praça Benedito Calixto. Miró era a raça da praça.
[5] Miró era um palhaço. Espalhava-se.
[6] Era todo espaço. Cômico. Cósmico.
[7] Era um dançarino nas nuvens.
[8] Uma chuva que caía e se levantava.
[9] Miró brincava de estátua antes de virar estátua.
[10] Fazemos estátuas porque não sabemos fazer árvores.
[11] Miró era um árvore que explodia sementes.
[12] Mirabolantes.
[13] Sua poesia aparecia de repente no nosso repente.
[14] Miró procurava um quarto de hotel na madrugada.
[15] Sempre o deixei na porta de um hotel. Com as poesias diárias.
[16] Ainda existe o Hotel Bali em que ele ficava ali na Vila Madalena.
[17] Merece um Bali quem inventou o Bali.
[18] Miró gostava de dormir entre travesseiros travessos.
[19] Miró sonhava com janelas. Em quartos sem janelas.
[20] Miró era um ônibus no campo. Uma casinha sem teto.
[21] Eu apresentei Miró ao bairro de Campo Limpo.
[22] Miró despoluía os ares de São Paulo.
[23] São Saraus.
[24] Miró morou na casa de Marco Pezão e Otília.
[25] Miró tinha famílias poéticas.
[26] Miró era uma criança esperança. Que não passava na Globo.
[27] Miró pisou um dia na TV Cultura.
[28] Era um astro deixando rastro.
[29] Miró cantava Djavan pegando uma van.
[30] Sonhos de Peninha.
[31] Miró fazia cócegas cegas.
[32] Morria de rir com a morte.
[33] Ele me telefonava para perguntar se eu estava vivo.
[34] Miró não podia ver um poeta desamparado que logo puxava versos.
[35] Miró era uma onda.
[36] Um banho de torneira.
[37] Miró dava banho em Elza.
[38] Elza tava cagando pra gente.
[39] Menos para o Miró.
[40] Miró era o melhor amigo do mundo.
[41] Miró era filho do casal Cida e Wilson.
[42] Eu amava o Miró como não amei a um irmão.
[43] Miró era um baladeiro. Veio em várias Baladas Literárias.
[44] Merece uma balada quem inventou uma balada.
[45] Miró amava o Zero.
[46] Uma vez fiz o reencontro entre ele e Loyola.
[47] Miró ressuscitou a poeta Maria do Carmo Barreto.
[48] Miró vestiu o vestido da própria mãe para encher o corpo da cidade.
[49] Recife é um vestido colorido.
[50] O Recife ressuscita o Miró todo dia.
[51] A poesia no meio-fio.
[52] Miró era um teatro a céu aberto.
[53] Levei Miró ao grupo Clariô.
[54] Ele iluminou Taboão.
[55] Miró chorava feito um raio de sol.
[56] Eu tenho saudades da alegria.
[57] Miró eu rimo.
[58] Fizemos uma homenagem para o Miró na Mário de Andrade.
[59] Foi a última vez em que vi Miró. E ele estava Miró.
[60] Eu estava na estrada, vindo de Garanhuns, a caminho do seu abraço.
[61] Na estrada Wellington me avisou que Miró se foi.
[62] Miró sempre estava indo embora. Mas sempre ficava mais um pouco.
[63] Eu juro que vi Miró se levantar do caixão.
[64] Miró, cor, ação do Brasil.
[65] Miró encruzilhada.
[66] Meia meia.

Marcelino Freire é escritor. Criou a Balada Literária, onde Miró esteve várias vezes. E continuará sempre presente. Porque vive em sua poesia.

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