29 setembro 2026

Desenvolvimento soberano

Quando o futuro deixa de ser promessa
A crise climática e a revolução digital impõem a necessidade de superar a histórica subordinação primária do país por meio da construção de um Estado preditivo e capaz de converter recursos naturais em independência tecnológica
Marcio Pochmann/A Terra é Redonda     

1.

O Brasil está diante de uma mudança de época que exige mais do que crescimento econômico para reconstruir a capacidade de decidir o próprio futuro. Durante boa parte do século XX, desenvolvimento significou avançar em direção a uma fronteira relativamente conhecida como industrializar, urbanizar, elevar a produtividade, ampliar direitos, aumentar a escolaridade e reduzir a distância em relação às economias centrais. Hoje, essa referência perdeu nitidez.

A tese central é simples. O futuro deixou de ser uma promessa automática do progresso e precisa voltar a ser objeto de construção política, econômica e social. Isso significa repensar o desenvolvimento em um mundo marcado simultaneamente pela crise climática, pela revolução digital, pela financeirização, pela reorganização geoeconômica e pela transformação das formas de trabalho, produção e sociabilidade.

Durante boa parte do século XX, havia conflitos profundos sobre quem deveria conduzir o desenvolvimento e quem dele se beneficiaria, mas permanecia uma convicção poderosa acerca da possibilidade do futuro ser melhor que o presente. Essa talvez tenha sido uma das grandes promessas da modernidade. Mais educação deveria significar melhores empregos, assim como mais tecnologia, menos esforço, mais produtividade, maior prosperidade, mais ciência, maior domínio sobre a natureza.

No primeiro terço do século XXI, essa certeza começou a se desfazer. A ascensão da Ásia, sobretudo da China, desloca o eixo da economia mundial, ao passo que a crise climática evidencia os limites da expansão material e a revolução digital amplia extraordinariamente a capacidade de produzir e processar informações, ao mesmo tempo que concentra poder. Paralelamente, a financeirização permite que a riqueza abstrata cresça em meio ao avanço da insegurança social, enquanto a hiperconectividade multiplica a comunicação e transforma atenção e tempo em bens cada vez mais escassos.

Por isso, a pergunta já não parece ser apenas como crescer mais, mas que desenvolvimento ainda faz sentido e quem terá capacidade de orientá-lo. O Antropoceno tornou essa questão incontornável ao revelar que a humanidade não está separada da natureza e que suas próprias ações alteram as condições materiais de continuidade da vida social. O futuro, assim, deixa de ser apenas aquilo que ainda não aconteceu e passa a ser também aquilo que as decisões do presente podem tornar possível ou mesmo impossível.

Para o Brasil, essa transformação chega em momento contraditório. No século passado, o país realizou uma das mais rápidas mudanças estruturais entre as economias periféricas de passado colonial e escravista. Em poucas décadas, deixou de ser predominantemente rural e primário-exportador para constituir uma sociedade urbana e industrial. Essa transformação, contudo, permaneceu incompleta. Desde os anos 1990, o Brasil perdeu densidade industrial justamente quando uma nova revolução tecnológica começava a reorganizar a economia mundial. A financeirização, a especialização produtiva e a fragmentação das cadeias globais reduziram parte da capacidade nacional de produzir tecnologias e bens de maior complexidade.

2.

Por isso, a saída não está simplesmente em restaurar o desenvolvimentismo do século passado. A indústria contemporânea combina software, inteligência artificial, sensores, dados, novos materiais, automação e serviços especializados. A agricultura depende cada vez mais de genética, máquinas, satélites e informação ao passo que as infraestruturas física e digital se tornaram inseparáveis.

Diante disso, o Brasil não precisa escolher entre ser potência agrícola, industrial, energética, ambiental ou digital, mas integrar essas dimensões. A emergência climática amplia essa possibilidade, pois poucos países possuem simultaneamente água, biodiversidade, biomassa, terras produtivas, potenciais hidrelétrico, solar e eólico, reservas minerais e capacidade científica.

Mas a abundância também pode ser uma armadilha. O país pode exportar lítio e importar baterias, exportar minerais estratégicos e comprar equipamentos tecnológicos, produzir energia limpa e importar os bens industriais que dela mais se beneficiam e, ainda, exportar biomassa e adquirir materiais sofisticados produzidos a partir desse mesmo recurso.

Nesse caso, o Brasil poderia tornar-se essencial à transição verde mundial e, ainda assim, permanecer tecnologicamente dependente. A diferença entre uma potência ambiental e uma periferia verde reside na capacidade de transformar recursos naturais em conhecimento, tecnologia e produção.

A mesma lógica vale para a relação com a China, cuja ascensão oferece ao Brasil novos mercados, investimentos e possibilidades produtivas, mas também pode aprofundar um padrão conhecido de exportação de matérias-primas e importação de produtos industriais. Trocar o centro da dependência não significa superá-la.

A questão relevante é saber quanto conhecimento, tecnologia, fornecedores, empregos qualificados e capacidade produtiva permanecem no país depois que o investimento chega. O mesmo princípio vale para ferrovias, portos e corredores bioceânicos, pois uma infraestrutura destinada apenas a acelerar a exportação de commodities pode tornar a periferia mais eficiente, mas não necessariamente mais desenvolvida. O desenvolvimento exige encadeamentos produtivos e capacidade tecnológica.

A energia ocupa posição central nessa transformação. Durante milênios, as sociedades dependeram essencialmente dos fluxos naturais. A Revolução Industrial rompeu esse limite ao permitir a utilização, em larga escala, de carvão, petróleo e gás acumulados ao longo de milhões de anos. O início do século XXI, por sua vez, exige um novo movimento, marcado pela ampliação do uso do sol, do vento e da água, apoiado por redes elétricas, sistemas de armazenamento, eletrônica e inteligência computacional.

O Brasil possui condições extraordinárias para essa transição. Mas dispor de energia não significa, por si só, possuir soberania energética. A questão decisiva está no destino do excedente gerado por esses recursos. A renda do petróleo pode ser consumida no presente ou financiar ciência, infraestrutura e tecnologias para uma economia progressivamente menos dependente dos combustíveis fósseis.

3.

Há, portanto, uma oportunidade histórica de usar a riqueza dos estoques para construir a economia dos fluxos renováveis. A transformação em curso, porém, não se limita à produção. Ela também modifica a experiência cotidiana. Toda sociedade possui uma espécie de relógio. A sociedade agrária vivia segundo o tempo da natureza, ao passo que a industrial se submeteu ao relógio mecânico da fábrica e a sociedade digital começa a viver sob o relógio do algoritmo. Ele não apenas marca o tempo, mas classifica, recomenda, compara, notifica e procura antecipar comportamentos.

O trabalhador industrial precisava estar presente durante determinadas horas. O indivíduo hiperconectado precisa permanecer disponível. O relógio saiu da parede, entrou no bolso e passou a disputar espaço dentro da própria mente.

A tecnologia prometia economizar tempo. O paradoxo é que, quanto mais rapidamente realizamos uma tarefa, maior parece ser o número de tarefas à espera. Surge, assim, uma nova desigualdade que avançou para o acesso e no uso do tempo. A informação se generaliza de forma abundante e a atenção, escassa para uma comunicação instantânea e exposta cada vez mais a conteúdos quase ilimitados, tendo o silêncio se transformado em privilégio. Na sociedade hiperconectada, talvez o novo luxo seja poder não estar disponível.

A inteligência artificial aprofunda essa transformação. Pela primeira vez, máquinas de uso cotidiano participam diretamente da escrita, da análise, da programação e da tomada de decisões. A questão não é impedir a inteligência artificial, mas decidir quanto pensamento desejamos delegar. É justamente nesse ponto que a transformação tecnológica encontra o problema institucional, pois a produção, finanças e informação organizam-se em redes globais. As plataformas coordenam bilhões de pessoas, empresas atuam em dezenas de países e organizações criminosas e religiosas também aprenderam a operar em redes.

Enquanto isso, o Estado concebido na era industrial permanece, em muitos casos, dividido em estruturas setorializadas e pouco integradas. O problema não é simplesmente ter um Estado grande ou pequeno, mas saber se ele é capaz de produzir informações, integrar dados, planejar, regular e antecipar riscos.

O Estado desenvolvimentista do século XX atuava na industrialização de uma sociedade ainda marcada por estruturas agrárias. No início do século XXI, o Estado da era digital precisa preservar sua capacidade transformadora e incorporar novas dimensões, especialmente a sustentabilidade ecológica e a atuação preditiva. Isso significa antecipar acontecimentos e tendências como enchentes, transformações demográficas, mudanças no trabalho e dependências produtivas para que a atuação estatal antecipada evite que se converta em crises.

Nesse novo Estado, a informação deixa de ser apenas recurso administrativo e torna-se infraestrutura estratégica. Por isso, instituições públicas de estatística e geociências, como o IBGE, ganham nova centralidade. O Estado agrário precisava conhecer terras, população e produção. O industrial incorporou empresas, empregos, renda e cidades. O Estado digital precisa compreender também mobilidade, plataformas, fluxos digitais, riscos ambientais, novas formas de trabalho e uso do tempo.

Não parece ser suficiente saber onde as pessoas moram, mas também compreender por onde circulam, assim como é importante superar a medida da renda sem relacioná-la ao custo de vida, à mobilidade e ao tempo. Para além da identificação e acompanhamento da conexão, a necessidade de conhecer a qualidade e os efeitos dessa conexão.

O desafio brasileiro, portanto, não é apenas voltar a crescer, mas recuperar a capacidade de decisão e construção de uma estratégia capaz de integrar natureza, indústria, energia, dados, ciência e sociedade. No século XX, desenvolver-se significava avançar em direção a uma fronteira relativamente conhecida. Agora, a própria fronteira está em movimento. Talvez seja justamente aí que resida a oportunidade brasileira. O futuro deixou de ser promessa. Por isso mesmo, precisa voltar a ser projeto.

*Marcio Pochmann, professor titular de economia na Unicamp, é o atual presidente do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Autor entre outros livros de Novo sujeito coletivo: a governança de populações em três tempos do capitalismo no Brasil (Editora da Unicamp). [https://amzn.to/40lMNWU]

A mídia flerta com o desastre https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/informacoes-distorcidas.html 

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