19 outubro 2026

Editorial do 'Vermelho'

Globo estende o tapete vermelho à extrema direita

Almoço da cúpula da empresa com Flávio Bolsonaro no dia da sabatina com ele expõe preferência política e afronta a isonomia eleitoral
Editorial do 'Vermelho' www.vermelho.org.br     

 


A recepção de Flávio Bolsonaro pela alta direção do Grupo Globo, em almoço realizado no mesmo dia de sua sabatina no Jornal Nacional, 16 de outubro, constitui um gesto de enorme gravidade política. No momento decisivo da disputa presidencial, a direção de um dos maiores conglomerados de comunicação do país ofereceu ao candidato da extrema direita uma deferência que não dispensou ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, entrevistado no dia anterior.

A diferença de tratamento é inequívoca. A sinalização política, igualmente evidente, compromete a isonomia que deveria orientar a atuação de uma empresa cuja influência sobre a vida nacional é gigantesca. A disparidade não é um detalhe protocolar, tampouco uma coincidência desprovida de significado. É um evidente sinal de proximidade política e programática. É assim que o gesto se projeta sobre a opinião pública, independentemente das justificativas apresentadas posteriormente.

Não foi uma simples visita de cortesia, como tentou explicar a Globo, segundo a qual o encontro teve caráter institucional e não contou com a participação de jornalistas. A ausência de profissionais da redação não apaga a parcialidade nem neutraliza seu significado político. Tampouco se pode transferir aos jornalistas a responsabilidade por uma iniciativa da cúpula administrativa.

A distinção é necessária: os profissionais devem ser avaliados pelo seu trabalho, enquanto os dirigentes devem explicações pelas escolhas que fazem e pelos sinais que emitem. A igualdade de tratamento, a transparência das relações com candidatos e a autonomia das redações são exigências fundamentais para a credibilidade do jornalismo e para a proteção da democracia.

Diante da repercussão, Lula declarou, durante ato político em Ipatinga (MG), no mesmo dia 16, que a emissora havia perdido confiança: “Então, eu quero dizer para vocês que a partir de hoje, a Globo está sob suspeição da minha candidatura. Não vai ter confiança. Não vai ter.”

A direção da Globo conhece perfeitamente o peso político de suas decisões. Sabe também que sua influência no cenário nacional decorre tanto da dimensão de seu poder econômico quanto da natureza do serviço que presta, submetido ao regime de concessão pública. A Constituição estabelece princípios para a programação das emissoras, e a legislação eleitoral veda o tratamento privilegiado a candidatos nas condições previstas em lei.

A obrigação de respeitar a isonomia exige responsabilidade pública, respeito institucional e garantia de igualdade entre os concorrentes. Ao dispensar tratamento diferenciado a Flávio Bolsonaro, a cúpula empresarial emitiu um sinal inequívoco de preferência política e afrontou o princípio da isonomia que deve resguardar a disputa eleitoral.

O episódio assume gravidade ainda maior diante do histórico da própria Globo, especialmente o de 1989, quando a edição do debate presidencial entre Lula e Fernando Collor de Mello, exibida pelo Jornal Nacional, constituiu uma das mais graves ingerências dos meios de comunicação na soberania do voto popular. A seleção de trechos e a apresentação dos desempenhos dos candidatos favoreceram Collor, fato posteriormente reconhecido por diretores da própria emissora.

O acontecimento de 16 de outubro, envolvendo Flávio Bolsonaro, recoloca no centro do debate a mesma questão. A gravidade aumenta porque, nestas eleições, a disputa não se limita à concorrência entre candidaturas. Envolve o futuro da democracia, a soberania nacional, a autonomia do Estado e a capacidade do país de definir seus próprios rumos. O bolsonarismo acumulou um histórico de ataques às instituições, de deslegitimação do sistema eleitoral e de afronta aos fundamentos da convivência democrática. A possibilidade de retorno desse projeto ao poder representa uma questão política de enorme relevância e exige escrutínio rigoroso, informação abrangente e debate público sem privilégios.

A situação torna-se ainda mais grave porque se soma à atuação das grandes plataformas digitais, as chamadas big techs, cuja distribuição de conteúdo e publicidade política desafia a transparência e a fiscalização pela Justiça Eleitoral. A concentração de poder nos meios de comunicação, sua influência e as relações entre interesses econômicos e projetos políticos constituem desafios centrais para a integridade do processo eleitoral e para a soberania do voto popular.

Diante da gravidade do episódio, as forças democráticas, os movimentos populares, as entidades de jornalistas, os sindicatos, as organizações da sociedade civil e todos os defensores da democracia devem intensificar a mobilização. É necessário denunciar a desigualdade de tratamento, exigir transparência das empresas de comunicação, pressionar as instituições competentes para que fiscalizem o cumprimento da legislação e impedir que interesses privados se sobreponham ao direito do povo de decidir livremente seu futuro.

A democracia não pode ficar à mercê dos interesses dos conglomerados de comunicação nem da influência das grandes plataformas digitais. A soberania nacional não pode ser subordinada às conveniências de grupos que defendem seus próprios privilégios. É preciso transformar a indignação em mobilização organizada, vigilância permanente e pressão pública firme. Nenhum privilégio político, nenhum poder econômico e nenhum monopólio da comunicação estão acima da lei e dos direitos do povo brasileiro. A defesa da democracia exige ação, coragem e firmeza.

Duas coisas da campanha de agora https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/minha-opiniao_0613695841.html 

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