Filosofia
do óbvio
O futebol brasileiro precisa evoluir na maneira de
jogar e na formação de jogadores. País não sabe se valoriza mais o individual
ou o coletivo, o craque ou a estratégia de jogo
Tostão/Folha
de S. Paulo
Houve
progressos na seleção brasileira na vitória
por 4 x 2 contra a Austrália, nesta terça (29).
Além de
pressionar mais na marcação, Carlo Ancelotti mudou o desenho tático com a
escalação de um trio no meio-campo,
formado por Bruno Guimarães mais centralizado, Gabriel Bontempo pela direita e
Danilo pela esquerda. Ficou ainda melhor no segundo tempo com a entrada de
Andrey pelo centro, Bruno pela direita no lugar de Bontempo, além de Danilo.
É preciso
separar essa formação do meio-campo, que é o posicionamento de que mais gosto,
da maneira habitual de jogar dos times brasileiros com uma dupla de volantes em
linha e mais um meia ofensivo à frente dos dois, que não participa da marcação
e que joga entre o meio-campo e a zaga adversária, a espera de receber uma bola
livre para criar uma jogada ofensiva.
Se não há um
típico craque camisa 10, a maneira de jogar com um trio de meio-campistas é
mais eficiente, porque o time marca com três em vez de dois no meio-campo e
possui dois meias ofensivos em vez de um. Dessa maneira, Ancelotti teve seus
melhores momentos no Real Madrid,
que atuava com Casemiro pelo centro, Modric pela direita e Kross pela esquerda.
O futebol brasileiro precisa evoluir na
maneira de jogar e na formação de jogadores. Nos anos 70, Chico Buarque, que
entende muito de música e de futebol, escreveu que os europeus eram os donos do
campo, pela maneira organizada que ocupavam os espaços, e os brasileiros eram
os donos da bola, por causa da improvisação, inventividade e fantasia dos
craques.
Isso mudou. Os
europeus evoluíram na estratégia, na intensidade, no jogo coletivo e, ao mesmo
tempo, passaram, progressivamente, a formar jogadores hábeis, rápidos,
dribladores, talentosos, parecidos com os craques brasileiros. Já o Brasil não
acompanhou tanto a evolução tática, além de ficar perdido, sem saber se
valoriza mais o individual ou o coletivo, o craque ou a estratégia de jogo. Os
dois são essenciais e um precisa do outro. É a filosofia do óbvio.
Enquanto o
Brasil enfrenta a fraca seleção da Austrália e, muito pior ainda, a da Índia,
os europeus realizam ótimos e intensos jogos pela Liga das Nações, como a
vitória da Espanha
por 3 x 2 contra a Inglaterra. O time espanhol jogou ainda melhor do que atuou
na Copa, com Lamine Yamal
novamente em forma.
Na vitória de Portugal por 2
x 1 sobre a Noruega, em um jogo equilibrado, os brasileiros viram novamente uma
excepcional atuação de Odegaard, que brilhou contra o Brasil na Copa. Odegaard
costuma receber a bola dos zagueiros para iniciar as jogadas, trocando passes
até a área adversária. Ele é muito mais que um típico camisa 10. É um
meio-campista que joga de uma intermediária à outra.
Lembrei-me de Gerson, o da Copa de 70. Usava a camisa 8, mas, como Odegaard, gostava de receber a bola dos zagueiros e do goleiro. Com troca curta de passes e espetaculares e precisos passes longos, encantava a todos. Na primeira vez que joguei ao lado de Gerson e de Pelé, os três juntos, em um amistoso na Suécia, antes da Copa de 1966, Gerson, já experiente, sentou-se ao meu lado no intervalo e perguntou: "Dá pra você jogar com dois toques em vez de um para dar tempo de eu chegar próximo de você e de Pelé?".
Foi o que fiz.
Foi bom pra mim, para ele e para o time.
Futebol brasileiro: nada se cria, tudo se repete https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/futebol-brasileiro-apenas-burocratico.html

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