27 fevereiro 2010

"Terrenos de Marinha": a palavra do professor Geraldo Santana

O fruto mais valioso
Geraldo Santana – arquiteto
santanag@elogica.com.br

Os exploradores das terras brasílicas, nas suas viagens de fundação das Capitanias, fizeram importantes tratados descritivos do território. Assinalaram os acidentes geográficos, as espécies da flora e da fauna, cursos navegáveis, portos naturais, fontes de água doce, e povoações indígenas, ao longo do litoral. Buscavam identificar as riquezas e os sinais que indicassem ocorrências minerais, do ouro e da prata. Seriam esses os frutos que mais cobiçavam, e que melhor justificariam aquelas arriscadas expedições e custosos investimentos – promissores “frutos da Capitania”.

Como colonizadores do imenso litoral, aí aportaram e se fixaram, e plantaram as primeiras vilas, integradas aos melhores sítios portuários. E no seu entorno as primeiras empresas rurais de exploração, os engenhos. Traziam as ordenações do Reino, definindo objetivos, diretrizes, direitos e obrigações, para prosseguimento da conquista, estabelecimento da colônia e defesa do território. E para demarcação das primeiras parcelas de terra, as capitanias, todas elas litorâneas.

Sem descobertas de minerais preciosos nessa faixa litorânea, dois vegetais foram arduamente trabalhados: um nativo, o pau-brasil (hoje, ironicamente, extinto); o outro importado e bem adaptado no seu novo habitat, a cana de açúcar, hoje em expansão como fonte de energia renovável. Mas o progresso e sucesso do modelo de exploração colonial, por quase 200 anos, permaneceu restrito ao espaço litorâneo, sem se interiorizar, até a descoberta do ouro das Minas Gerais, no final do século 17. Na expressão do Frei Vicente do Salvador (1627), os portugueses ficaram presos ao litoral, como caranguejos.

Na passagem do século 16 para o século 17, o “fruto mais valioso” da Capitania de Pernambuco foi o seu açúcar, que despertou a cobiça dos holandeses a serviço da Companhia das Índias Ocidentais. Em 1630, atacaram Pernambuco e por 24 anos dominaram todo o Nordeste brasileiro, sediados em Olinda-Recife, melhor dizer, entre Itamaracá e o Cabo de Santo Agostinho, seu estratégico e fortificado litoral.

Nos dias atuais, quais seriam os “frutos mais valiosos” agora produzidos em Pernambuco? O momento é de euforia e grandes expectativas com os sucessos esperados para as novas indústrias e serviços pesados em implantação no Complexo Industrial Portuário de Suape, o que certamente consolidará sua histórica vocação portuária. O litoral pernambucano acolherá refinarias, terminais marítimos, estaleiros e siderúrgicas, capazes de processar milhões de toneladas de aço, petróleo, etanol, biodiesel, e cargas – o esperado ápice da sua indústria pesada.

Nesse contexto favorável às especulações sobre a economia de Pernambuco, fui atraído pelas novidades no modelo de produção imobiliária, observáveis, sobretudo, nos espaços litorâneos. Significativos aumentos na entrada de capitais externos (europeus e americanos) estão sendo orientados para empreendimentos turístico-imobiliários, de diversos tipos, localizados e desfrutando do clima e encantos das praias do nordeste. Novos produtos caracterizados como “ecoturísticos e de segunda residência”, plantados em terrenos beira-mar – nosso valioso solo litorâneo, re-parcelado e re-produzido – originário daquela primordial divisão do Brasil em Capitanias. E que agora é convertido em divisas, apenas trocando de mão. Ao preço de 30 euros o metro quadrado, em glebas a urbanizar. Atraídos pelo sol e pelo mar, e sem preconceito com os caranguejos, os investidores do ecoturismo de segunda residência se concentram no litoral.
(Este artigo está publicado no Diário de Pernambuco, edição de 4/fev./2010, p. A19).

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