09 janeiro 2026

IA na batalha eleitoral

A democracia sob ameaça de ser hackeada
Estamos diante de uma encruzilhada para a história da experiência democrática no mundo
Jamil Chade/Liberta  

A democracia está ameaçada e, em 2026, viverá uma encruzilhada.

O perigo não vem de tanques que manobram para derrubar os portões de um palácio presidencial, ainda que esse cenário jamais deva ser descartado. O desafio vem de uma operação cada vez mais barata, mais invisível e mais poderosa: a da Inteligência Artificial.

Nas eleições no Brasil no final do ano de 2026, nas campanhas legislativas nos EUA ou em outras partes do mundo, a constatação é a de que nenhuma instituição está pronta para lidar com a transformação tecnológica inédita que atravessamos.

Se, há uma década, a preocupação vinha de redes sociais, que disseminavam desinformação ou operações por milhões de disparos de mensagens aos celulares dos eleitores, observadores passaram a temer, nos últimos anos, que a ameaça viria de imagens ou vozes que imitariam candidatos ou cenas que jamais ocorreram.

Produção fictícia

De fato, em janeiro de 2024, um telefonema supostamente de Joe Biden pedia que o eleitor não fosse às urnas. A ligação era falsa, gerada por IA. Desde então, ferramentas estão sendo desenvolvidas para dificultar cada vez mais a distinção entre uma imagem ou voz real e uma produção fictícia.

Mas a realidade, hoje, é que a ameaça da produção de deepfakes é apenas parte de uma ofensiva muito mais poderosa e que só agora começa a ser identificada como um risco real para a democracia: a capacidade da IA de persuadir as pessoas ativamente a tomar um determinado caminho, uma escolha política ou uma opção de consumo.

Um estudo publicado na revista Nature, por exemplo, descobriu que as preferências dos eleitores oscilaram em até 15 pontos percentuais após conversarem com um chatbot, uma tecnologia usada hoje por cerca de 100 milhões de pessoas por dia.

David Rand, autor do estudo e cientista da Universidade Cornell, em Ithaca, Nova York, concluiu que os chatbots influenciam as opiniões dos eleitores não por meio de apelos emocionais ou narrativas, mas sim inundando o usuário com informações. 

Os resultados da pesquisa foram tão profundos que deixaram perplexos até os cientistas que conduziam os estudos.

Ou seja, a IA pode ganhar uma eleição.

Mas de onde saem essas informações e dados que vão ser usados? Quem alimenta o sistema capaz de mudar de forma tão profunda o que sabemos sobre nossos candidatos? E quem controla de que forma essa informação é produzida e distribuída?

Soma-se a isso duas constatações óbvias: a primeira é a de que nenhuma das empresas de tecnologia de IA nas democracias ocidentais é pública. A segunda é a de que todas elas contam com donos, com suas próprias preferências políticas e alianças com movimentos ideológicos.

Máquina de persuasão

Um dos riscos reais é o de que as respostas dadas pelo chatbots são construídas a partir de dados que o sistema é capaz de coletar na internet. Para movimentos políticos que usam a desinformação como arma política, portanto, a ameaça é a de que a resposta não consiga fazer uma distinção entre fatos e a deliberada mentira de movimentos de extrema direita.

Outro alerta se refere à capacidade da IA ​​de personalizar mensagens de acordo com os dados demográficos precisos dos usuários. O efeito pode ser ainda mais profundo, com chatbots sacrificando a integridade factual.

O risco é o de que aconteça um verdadeiro hackeamento da democracia, com a IA sendo capaz de personalizar argumentos e promover uma reengenharia silenciosa das visões políticas em grande escala. Orientar qual música te oferecer, qual estilo de parceira ou parceiro aparecerá nos aplicativos de namoro ou, claro, argumentos sociais e políticos.

Com uma indústria integrada começando a surgir entre a cópia de imagens e vozes, tendo a capacidade de ler tua emoção e teu sentimento, a tecnologia será profundamente convincente e criará uma máquina de persuasão coordenada – e imparável.

Alguns estudos estimam que uma campanha eleitoral pode ter de gastar apenas US$ 1 milhão para gerar mensagens personalizadas e conversacionais para cada eleitor registrado nos Estados Unidos.

O valor fica ainda mais surpreendente quando se calcula que os 80 mil eleitores indecisos que decidiram a eleição de 2016 nos EUA poderiam ser assediados por menos de US$ 3 mil. Nada.

Aquelas imagens de fazendas de bots ou de celulares disparando mensagens poderão fazer parte ainda de cenas ridículas dos primórdios da nova revolução tecnológica. Tudo isso agora pode ser criado de forma automática, barata e sem sequer identificação dos autores dos disparos.

Banir a tecnologia não é uma opção. Nunca funcionou na história da humanidade. Mas deixar a democracia nas mãos das big techs pode ser uma decisão fatal.

Confiaremos, simplesmente, que os grandes fornecedores de IA vão optar por ser isentos? Vamos, de forma cega, entregar as nossas liberdades mais fundamentais e os nossos direitos a uma nova era do capitalismo?

Democracias precisam desenvolver estratégias, estruturas, agências, políticas e leis para garantir que essa tecnologia revolucionária promova a cidadania e espaços de construção de novos direitos.

A ameaça não se refere a um futuro distante. Ela acontecerá em 2026, um ano de encruzilhada para a história da experiência democrática no mundo.

Leia também: Inteligência Artificial, Data centers e o fim do mundo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/ia-operacao-consequencias.html

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