04 janeiro 2026

Força bruta imperialista

O sequestro de Maduro e a nova era da Doutrina Monroe na América Latina
Ações violentas da Casa Branca rompem normas globais ao raptar líder venezuelano, resgatando táticas de força bruta para subjugar o continente
Davi Molinari/Vermelho  

A operação criminosa perpetrada pelos Estados Unidos contra a Venezuela neste início de 2026 marca uma ruptura drástica na legalidade internacional. A incursão da Força Delta, que culminou no sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, é classificada por analistas como uma “inflexão perigosa”. Trata-se da passagem da interferência velada para a agressão aberta, reeditando o “Big Stick” (Grande Porrete) de Theodore Roosevelt sob a roupagem do chamado Corolário Trump.

Para o jornalista José Reinaldo Carvalho, presidente do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz, a gravidade do episódio é inédita. “Trata-se de uma operação brutal, destinada a impor pela violência aquilo que Washington já não consegue assegurar por meio da diplomacia”, afirma. Carvalho classifica a ação como “inequivocamente criminosa” por violar a Carta das Nações Unidas. Ao sequestrar um presidente constitucional, os EUA “normalizam a agressão armada como método permanente de dominação”.

O legado de agressões dos EUA na América Latina

A socióloga Rita Coitinho, secretária-geral do Cebrapaz, destaca que, embora o sequestro de um chefe de Estado na América do Sul seja um fato novo, a região carrega cicatrizes de ações similares no Caribe. Foi caso da Operação Causa Justa no Panamá (1989), uma invasão militar em larga escala com o objetivo de capturar o então líder militar Manuel Noriega, que deixara de ser um aliado truculento dos próprios Estados Unidos na América Central. A justificativa, também, foi o narcotráfico. Mas, segundo Coitinho, “uma entrada direta de forças dos EUA, de forma tão declarada e assumida publicamente em coletiva, é algo sem precedentes na América do Sul”.

A professora Ana Penido, do Instituto de Relações Internacionais e Defesa da UFRJ e pesquisadora do Grupo de Estudos em Defesa e Segurança Internacional (Gedes), alerta para a comparação que a mídia tem feito do ataque atual à Venezuela com o caso panamenho. Além de contexto e realidade muito diferentes, “o perigo de usar o Panamá como parâmetro é imaginar que o desfecho será o mesmo. A Venezuela tem uma retaguarda estratégica com China e Rússia que o Panamá não tinha”, pondera. Segundo Penido, o governo bolivariano permanece ativo e a mobilização para recuperar os líderes está em curso.

Na visão da professora, a defesa venezuelana se baseia em “povo intensivo e resistência prolongada”, na lógica do Vietnã. Ela revela que bombardeios atingiram áreas civis simbólicas, como o mausoléu de Hugo Chávez. “O Chávez é um consenso no país. Defender o bombardeio de áreas civis e de um Estado nacional não é algo simples, mesmo para quem é contra o Maduro”, explica.

O Brasil no alvo e a defesa da soberania

A ataque acende um alerta vermelho para o Brasil. Para José Reinaldo Carvalho, “o agressão à Venezuela é uma declaração de guerra contra toda a América Latina. O Brasil torna-se alvo potencial de pressões e desestabilização”. Nesse cenário, Rita Coitinho observa que o Brasil ainda mantém dependência de equipamentos militares dos EUA e de Israel. “Seria preciso romper com uma extensa cadeia de dependência. É necessário investimento na indústria de defesa interna”, defende.

Ana Penido conclui que o Brasil deve construir um pensamento de defesa compatível com sua estatura e em conjunto com os vizinhos. “Sozinhos, não teremos espaço nesse duelo de gigantes entre EUA, Rússia e China”. O que se desenha, como define Carvalho, é uma “nova era de colonialismo” que exigirá estratégia e unidade dos povos latino-americanos.

O Brasil e o histórico de agressões dos EUA

O Brasil, ao longo de sua história recente, sofreu ataques diretos e indiretos dos Estados Unidos em diferentes momentos: em 1964, com a Operação Brother Sam, que apoiou o golpe militar contra João Goulart e instaurou a ditadura militar de 21 anos, que é a gênese do pensamento golpista que levou aos ataques de 8 de Janeiro de 2023; e em 2013, quando as revelações de Edward Snowden expuseram a espionagem da NSA sobre as comunicações da presidência da República, visando informações estratégicas sobre o pré-sal. 

A espionagem norte-americana ocorreu justamente quando o Brasil buscava consolidar o pré-sal como ativo soberano e estratégico para seu futuro energético, mas esse projeto foi atravessado por pressões externas e internas que se intensificaram com a Operação Lava Jato, fragilizando a Petrobras, corroendo sua imagem pública e abrindo caminho para a crise política que culminou no golpe contra a presidenta Dilma Rousseff em 2016; na gestão seguinte, sob Michel Temer, vieram mudanças decisivas no marco regulatório, que  retiraram a obrigatoriedade da Petrobras ser a operadora única dos blocos do pré-sal e que concederam benefícios tributários às empresas estrangeiras na exploração e produção de petróleo e gás, medidas que reduziram o papel estratégico da estatal e ampliaram a abertura do setor ao capital internacional.&nbs p;

O conjunto desses episódios, somado às questões ainda recentes do tarifaço de Donald Trump, demonstra que o Brasil permanece vulnerável às práticas de intervenção de Washington, seja pela via de apoio a rupturas institucionais, pela guerra tecnológica da informação, pela pressão econômica sobre recursos estratégicos, ou, agora, como demonstrado na Venezuela, por uma intervenção militar, diretamente.  

Linha do Tempo: O histórico de agressões dos EUA na América Latina (1950–2026)

  • 1954 – Guatemala: Operação PBSuccess derruba Jacobo Árbenz para proteger a United Fruit Co.
  • 1961 – Cuba: Fracasso da invasão da Baía dos Porcos organizada pela CIA.
  • 1964 – Brasil: Operação Brother Sam garante apoio logístico e naval ao golpe contra João Goulart, iniciando 21 anos de ditadura.
  • 1965 – Rep. Dominicana: Invasão (Operação Power Pack) para impedir o governo nacional-popular de Juan Bosch.
  • 1973 – Chile: Projeto FUBELT; apoio direto ao golpe de Pinochet contra Salvador Allende.
  • 1973 – Uruguai: Apoio político e treinamento de forças de segurança que culminaram no golpe de Juan María Bordaberry.
  • 1975–1980 – Cone Sul: Coordenação da Operação Condor, unindo os aparatos repressivos de Brasil, Argentina, Chile, Uruguai, Paraguai e Bolívia para o extermínio de opositores.
  • 1976 – Argentina: Apoio diplomático e de inteligência à junta militar liderada por Jorge Rafael Videla.
  • 1981–1990 – Nicarágua: Financiamento ilegal aos “Contras” para desestabilizar os sandinistas (Escândalo Irã-Contras).
  • 1983 – Granada: Invasão militar (Urgent Fury) para derrubar o governo de Maurice Bishop.
  • 1989 – Panamá: Operação Causa Justa; invasão militar e captura do presidente Manuel Noriega.
  • 1994/2004 – Haiti: Intervenções militares para restauração e posterior deposição forçada de Jean-Bertrand Aristide.
  • 2002 – Venezuela: Suporte político e financeiro da CIA ao golpe frustrado contra Hugo Chávez.
  • 2008 – Bolívia: Apoio a grupos opositores contra Evo Morales, levando à expulsão da DEA e da CIA do país.
  • 2009 – Honduras: Apoio tácito ao golpe militar que removeu Manuel Zelaya da presidência.
  • 2013 – Brasil (Espionagem do Pré-Sal): Revelações expõem que a NSA espionou comunicações da Presidência da República e da Petrobras para obter dados estratégicos sobre as reservas do pré-sal.
  • 2025 – Venezuela: Trump autoriza ataques letais da CIA contra embarcações venezuelanas, resultando em 27 mortes.
  • 2026 – Venezuela (Inflexão Atual): Operação da Força Delta realiza o sequestro do presidente Nicolás Maduro e da liderança bolivariana, instaurando uma crise de soberania sem precedentes no século XXI.

Lula condena ataque à Venezuela https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/lula-protesta-contra-agressao-venezuela.html 

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