A prisão de Maduro e as incertezas do futuro para Trump
Tempo dirá se ação na Venezuela reforça ou marca início do declínio da hegemonia dos EUA
James N. Green/Liberta
A mídia nos Estados Unidos retratou a incursão de Trump na Venezuela e o sequestro de Nicolás Maduro como atos de um presidente poderoso, embora irracional e descontrolado, determinado a restabelecer o poder americano no hemisfério ocidental.
Alguns observadores políticos especularam que Trump autorizou a invasão para distrair o público interno da divulgação de mais documentos de Epstein, que poderiam conter material comprometedor sobre o presidente. Outros pensam que é uma forma de desviar a atenção da fragilidade da economia ou do iminente aumento das taxas de seguro de saúde para milhões de pessoas, que, até o final do ano passado, recebiam subsídios do governo para cobrir essas despesas.
Independentemente de quaisquer possíveis segundas intenções, políticos democratas, ex-diplomatas americanos e jornalistas condenaram a invasão.
Ao mesmo tempo, reconheceram a eficiência da força-tarefa militar que invadiu a Venezuela e, em questão de horas, capturou o chefe de Estado e sua esposa, levando-os para julgamento em Nova York sem uma única baixa militar para os EUA. (Pouco se fala sobre os cerca de 70 membros das forças de segurança venezuelanas e cubanas mortos no ataque).
Cálculo pragmático
No entanto, a política da Casa Branca é confusa. Por um lado, Trump anunciou, imediatamente, que membros-chave de sua administração – presumivelmente, Marcos Rubio, secretário de Estado; Pete Hegseth, secretário de Defesa; e Stephen Miller, vice-chefe de Gabinete para Políticas – irão “administrar” o país. Ao mesmo tempo, manteve em seus cargos os membros do governo de Maduro que, presumivelmente, juntamente com o presidente deposto e sua mulher, teriam sido cúmplices no tráfico de drogas.
Trump proclamou que a invasão cirúrgica do Pentágono na Venezuela servirá como um aviso para Delcy Rodríguez, vice-presidente de Maduro e recém-empossada presidente interina. Se ela não colaborar com o plano de Trump para assumir o controle da indústria petrolífera, ele deu a entender que um segundo ataque poderá removê-la do cargo.
A decisão de Trump de apoiar Delcy Rodríguez, em vez de María Corina Machado, líder da oposição e recente ganhadora do Prêmio Nobel da Paz (que Maduro impediu de concorrer à presidência em 2024), é um cálculo pragmático. Com um grande exército e milícias pró-Maduro ainda em atividade, apoiar Edmundo González, o candidato presidencial substituto de Corina, para assumir o poder teria exigido uma força militar dos EUA operando dentro do país para impor a vontade de Washington.
Em vez disso, pelo menos para o futuro imediato, Trump espera ameaçar, chantagear ou persuadir figuras-chave do governo de Maduro a mudar de lado e agir como seus agentes na manutenção da ordem. E, como Trump anunciou, Delcy e seus apoiadores precisarão garantir que os Estados Unidos recebam até 50 milhões de barris de petróleo de alta qualidade, avaliados em aproximadamente US$ 2,8 bilhões, em troca do apoio de Washington ao governo.
Desde setembro passado, o governo Trump insiste que grandes quantidades de fentanil, um poderoso opioide sintético, passaram pela Venezuela, supostamente, com destino aos mercados americanos, embora menos de 5% da droga que chega aos Estados Unidos passe por esse país. Ainda assim, essa alegação falsa justificou o ataque e a destruição, até o momento, de 35 pequenas embarcações que navegavam nas águas da costa da Colômbia e da Venezuela, matando mais de 115 tripulantes.
Desse modo, a movimentação de 20% do poder naval dos EUA na costa da Venezuela, no final do ano passado, não teve nada a ver com o bloqueio do tráfico de drogas. Em vez disso, foi um ato de intimidação contra Maduro e forneceu o apoio militar e logístico para realizar o sequestro do presidente venezuelano.
Nem esse conflito jamais foi sobre democracia. Se fosse esse o caso, Trump teria apoiado, imediatamente, a posse de Edmundo González, que observadores internacionais consideram ter vencido as eleições presidenciais de 2024 por uma margem confortável. Em vez disso, trata-se, simplesmente, do compromisso de Trump com alguns de seus maiores doadores de campanha eleitoral no sentido de garantir o acesso total das grandes empresas petrolíferas à produção venezuelana.
Atoleiro venezuelano
Embora seja praticamente impossível prever o que Trump fará a seguir, parece que ele entrou num novo território político, onde os Estados Unidos podem facilmente se ver presos num atoleiro venezuelano. Como reagirão os setores das forças armadas do país sul-americano com vínculos financeiros com o tráfico de drogas, caso o governo atual precise demonstrar a Washington progressos na redução do movimento de substâncias ilícitas pelo país?
Caso segmentos das forças armadas e/ou milícias se rebelem contra os decretos de Trump para o país, será possível neutralizar os líderes militares colocados no poder por Maduro sem uma presença significativa de tropas dos EUA em solo venezuelano?
Da mesma forma, como os Estados Unidos responderão à medida que os apoiadores de Corina/González começarem a se mobilizar, exigindo uma mudança de governo? Delcy já iniciou uma campanha repressiva para silenciar a oposição. Caso o governo atual não consiga conter os protestos, o Pentágono poderá ser forçado a enviar tropas para controlar a dissidência.
Além de possíveis conflitos acirrados, tanto dentro do novo governo quanto com a oposição, será que o butim de US$ 2,8 bilhões que Trump extraiu de sua guerra de duas horas com a Venezuela será suficiente para apaziguar o presidente dos EUA ou esse será apenas o primeiro de muitos pagamentos de extorsão exigidos por Washington?
A Casa Branca enfrenta outro desafio sério: a opinião pública americana sobre a invasão da Venezuela.
De acordo com uma pesquisa do Washington Post, divulgada três dias após a incursão, a opinião pública está dividida sobre se Maduro deveria ter sido sequestrado pelos Estados Unidos. No entanto, 63% insistiram que Trump deveria ter obtido autorização do Congresso para realizar a operação militar.
Mais significativamente, 94% acreditam que os venezuelanos devem escolher seu próprio governo, enquanto apenas 6% pensam que os Estados Unidos deveriam selecionar seus futuros líderes.
Por fim, os apoiadores de Trump concordarão com seus esforços para a mudança de regime na Venezuela? A promoção da abordagem “América em primeiro lugar” na política internacional, defendida pelo presidente dos EUA, consolidou um ceticismo generalizado em relação a intervenções estrangeiras e gerou forte oposição ao envolvimento de tropas americanas no exterior.
Será que Trump conseguirá convencer aqueles apoiadores do MAGA que se opõem a mudanças de regime e esforços de nation building (construção de uma nação) a apoiarem sua aventura venezuelana, ou eles se absterão das eleições legislativas de novembro de 2026 nos Estados Unidos devido à desilusão com as políticas intervencionistas de Washington?
Será que Trump deu um passo importante na consolidação da hegemonia dos EUA na América Latina e no Caribe? Ou sua intervenção na Venezuela marca o início de um declínio nesses esforços? Só o tempo dirá.
James N. Green é professor emérito de História do Brasil na Brown University
Paz e soberania na Venezuela! Sangue por petróleo, não! https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/editorial-do-vermelho_5.html

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