30 janeiro 2026

Uma crônica de Enio Lins

Quatro décadas do nascimento de um bloco revolucionário
Enio Lins    

HÁ QUARENTA ANOS, 30 de janeiro caiu numa quinta-feira. Naqueles dias, o PCdoB, então partido hegemônico nas esquerdas alagoanas, estava envolvido numa missão imprevista e que não fazia parte de seu programa político, nem de sua tática ou estratégia. Eram os preparativos para o nascimento do bloco Meninos da Albânia, que viria à luz três dias depois, no Domingo de Banho de Mar a Fantasia.

ESTRESSE ENORME naquela quinta-feira, penúltimo dia útil antes da esbórnia dominical. Além da ansiedade pelo acontecimento inédito, a tensão se multiplicava pela necessidade de aquisição de produtos para alegorias, fantasias, estandarte. Muito trabalho de última hora, com adereços confeccionados – na raça – por uma militância dedicada, mas amadora, inexperiente na artesania momesca. Mas, ao fim e ao cabo, tudo deu certo. Surgiu um bloco com cara de troça, com humor e cachaça na mamadeira.

DEPOIS DA DÉCADA 1960, arrefecera o carnaval de rua maceioense. Mingou o público, que migrou para os bailes nos clubes locais e para as ruas de Olinda e Recife. Os antigos blocos como Cavaleiro dos Montes, Sai da Frente, Pitanguinha Vai à Lua, Vulcão, e tantas outras agremiações históricas resistiam bravamente, mas desfilavam para calçadas cada vez mais esvaziadas. Apesar de, em 1975, artistas terem criado o bloco Filhinhos da Mamãe, e em 1983 surgir o Pecinhas de Maceió, era um consenso que o Carnaval de Rua passava por enormes dificuldades. Nesse quadro, no final de 1985, Edécio Lopes, carnavalesco dedicado, através de seu programa Manhãs Brasileiras, na Rádio Gazeta AM, líder incontestável de audiência, resolveu fazer uma provocação tão bem-humorada quanto incisiva ao PCdoB: criar um bloco carnavalesco, transformando em verdade uma brincadeira despretensiosa publicada num efêmero jornal.

LUTA POPULAR era o nome de um bravo semanário que circulou, às segundas-feiras, durante 1985. Fundado pelo PCdoB alagoano como experiência de um “jornal de massas” local, o hebdomadário se engajou na campanha de Djalma Falcão à prefeitura de Maceió pela coligação PMDB, PSB e PCdoB. Era a primeira vez, depois da curta legalidade entre 1945 e 1947, que os comunistas participavam com siglas próprias das eleições. Na campanha, a combatividade da militância jovem do PCdoB chamou a atenção, e o termo “Meninos da Albânia” foi cunhado pejorativamente pelos adversários (francos favoritos) numa tática marqueteira que não deu certo: em 15 de novembro, a tríplice aliança em torno de Falcão voou alto e levou a eleição no bico, graças, em parte, à energia da meninada “albanesa”. Eleição finda, missão comprida, a publicação fechou as portas para alívio de uma redação 100% voluntária. No último número, Plínio Lins escreveu uma notinha, tirando onda, dizendo que a alegria com a vitória era tanta que os “Meninos da Albânia” iam virar um bloco carnavalesco. Aí Edécio Lopes pegou pelo pé. Não adiantou explicar que essa não era meta, que a militância estava exaurida pela campanha eleitoral etc.

NASCEU ASSIM, a fórceps, o bloco Meninos da Albânia. Dois foram os desfiles, nos dias 2 e 7 de fevereiro de 1986. Veio ao mundo com músicas autorais, composições de Ricardo Mota e Roberto Barbosa, as sátiras “Emissário Submarino” e “Lei Seca” e uma apologia à Constituinte. Um roupão apelidado de “mortalha” era a vestimenta, tecido adquirido à crédito no Cotonifício João Nogueira, cuja loja da fábrica ficava na Rua Augusta, perto da sede do Partido. Chico de Assis atuou como o porta-estandarte. A boate Maceiork (em Jaraguá) – cedida por Mário Aloísio, Dênio Ramos, e Paulo “Ventinha” – como barracão; o combustível foi uma batida com cachaça de cabeça, batizada como "Gargarejo do Dragão". Um enorme sucesso! Edécio estava certo, foi dado um grande impulso ao carnaval de rua. Parte desse movimento desagua, anos depois, nos contemporâneos Pinto da Madrugada e Jaraguá Folia. E têm mais histórias. 

EM RESUMO, fica o registro, e o anúncio que, neste ano, em 6 de fevereiro, desfiliará o bloco Tributo aos Meninos da Albânia, no Jaraguá Folia. Apareça por lá, para dar sequência a essa caminhada.

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