28 fevereiro 2026

China: planejamento democrático

Como a China constrói seus Planos Quinquenais?
Muita gente fora da China trata o 15º Plano Quinquenal (2026–2030) como algo já pronto, a realidade é que o plano ainda está em construção
Iara Vidal/Observatório de Geopolítica/Jornal GGN   

Ao longo do último inverno, autoridades, técnicos e pesquisadores chineses estavam em ebulição silenciosa trabalhando na elaboração do documento mais importante da política econômica e social do país para os próximos cinco anos: o Plano Quinquenal, conhecido em chinês como Wǔnián Guīhuà (五年规划).

Embora muita gente fora da China trate o 15º Plano Quinquenal (2026–2030) como algo já pronto, a realidade é outra. O plano ainda está em construção — e esse detalhe é central para entender como funciona o sistema de planejamento chinês. 

Desde o primeiro Plano Quinquenal, lançado em 1953 com foco na industrialização básica, esse instrumento passou por mudanças profundas. De ferramenta rígida de economia planificada, tornou-se um mecanismo estratégico de coordenação entre Estado, mercado e sociedade. Hoje, os planos orientam prioridades como inovação tecnológica, transição energética, redução de desigualdades, segurança econômica e estabilidade social.

O 15º Plano, portanto, não é apenas mais um documento técnico. Ele faz parte de uma tradição de planejamento que molda o rumo do desenvolvimento chinês há mais de sete décadas — e que, neste momento, ainda está em gestação.

É aqui que surge um dos equívocos mais comuns no Brasil. As diretrizes aprovadas pelo Partido Comunista da China (PCCh) na sua 4ª sessão plenária do 20º Comitê Central, realizada em outubro de 2025, não são o plano em si. São, em certo sentido, o ponto de partida. Definem os grandes eixos, os limites e as prioridades estratégicas. Funcionam como uma bússola — não como o mapa completo.

Confundir essas diretrizes com o Plano Quinquenal acabado é perder de vista uma das características centrais do sistema político chinês: um processo de construção coletiva que envolve o Partido, o Estado, governos de níveis provinciais, ministérios, universidades, centros de pesquisa e especialistas de diferentes áreas.

Entender esse processo não é detalhe técnico. É condição básica para compreender por que o planejamento chinês se consolidou, ao longo das últimas décadas, como um dos instrumentos de desenvolvimento mais consistentes e duradouros do mundo contemporâneo.

Consulta pública: como a sociedade participa da construção do Plano Quinquenal

Um aspecto pouco compreendido fora da China — e frequentemente ignorado no debate brasileiro — é que a elaboração dos Planos Quinquenais não ocorre a portas fechadas. Há mais de duas décadas, o governo chinês vem incorporando mecanismos formais de consulta pública ao processo de planejamento nacional. No caso do 15º Plano Quinquenal (2026–2030), esse processo foi ampliado, sistematizado e tornou-se mais visível.

De acordo com a agência Xinhua, o 11º Plano Quinquenal (2006–2010) marcou uma mudança importante na forma como a China passou a planejar suas políticas. Nesse período, o país deixou de usar a ideia de jihua, ligada a um plano mais rígido, e adotou o conceito de guihua, que é mais amplo, estratégico e orientado por políticas públicas. Com essa mudança, o processo de elaboração dos planos passou a seguir um método mais organizado, incluindo pesquisas, consultas, articulação entre diferentes órgãos do governo e avaliação de especialistas. Esse novo modelo criou as bases para que, nos planos seguintes, a China ampliasse gradualmente as formas de ouvir a sociedade.

No 14º Plano Quinquenal (2021–2025), por exemplo, o governo central recebeu mais de 1 milhão de sugestões da população, enviadas por meio de plataformas digitais oficiais, cartas, fóruns temáticos e consultas regionais organizadas por governos locais.

Para o 15º Plano Quinquenal, o processo seguiu lógica semelhante, mas com escala maior e coordenação mais centralizada. Em 2025, o Conselho de Estado e a Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma (NDRC, sigla em inglês) abriram canais oficiais para o envio de propostas, com campanhas públicas incentivando a participação de cidadãos, empresas, universidades, associações profissionais e governos locais. 

Essas contribuições não entram diretamente no texto final do plano. O processo funciona em camadas. Primeiro, as sugestões são classificadas por tema — economia, inovação, meio ambiente, bem-estar social, urbanização, educação, saúde, energia, segurança alimentar, entre outros. Em seguida, equipes técnicas vinculadas à NDRC e a ministérios setoriais avaliam a viabilidade, a coerência com as diretrizes estratégicas do Partido e os impactos econômicos e regionais das propostas.

Somente uma parte dessas sugestões é incorporada — e quase nunca de forma literal. Elas aparecem como ajustes de prioridade, ênfase em determinados setores, mudança de ritmo na implementação ou inclusão de novos eixos de política pública. O objetivo não é atender demandas individuais, mas captar tendências sociais, gargalos reais e expectativas coletivas.

Um elemento novo neste ciclo foi a abertura controlada à participação de estrangeiros. Diferentemente de planos anteriores, algumas plataformas oficiais aceitaram contribuições de estrangeiros residentes na China, pesquisadores internacionais e representantes de empresas estrangeiras com atuação no país. Em certos casos, os formulários estavam disponíveis também em inglês, algo ainda incomum em processos de planejamento estratégico chineses.

É importante frisar: essa participação estrangeira não tem caráter decisório nem interfere nas prioridades centrais do plano. Ela funciona como insumo técnico e informativo, especialmente em áreas como inovação tecnológica, sustentabilidade, cooperação internacional e cadeias globais de produção. A decisão final permanece inteiramente sob responsabilidade das instituições chinesas.

Esse modelo ajuda a explicar por que os Planos Quinquenais combinam, ao mesmo tempo, centralização política e escuta social, direção estratégica clara e flexibilidade operacional. Não se trata de um exercício de democracia liberal nos moldes ocidentais, mas de um mecanismo próprio de governança, no qual o planejamento incorpora informações vindas da base da sociedade sem abrir mão do controle político do processo. 

O que existe hoje — e o que ainda não existe

Até o momento, o que existe de forma pública é um documento político, não o plano em si: as linhas gerais aprovadas pelo Comitê Central do PCCh na 4ª sessão plenária do 20º Comitê Central, realizada em outubro de 2025. É ali que aparecem as grandes prioridades que vão orientar o debate nacional:

●      crescimento de alta qualidade;

●      modernização industrial avançada;

●      liderança global em inovação;

●      segurança energética e alimentar;

●      autonomia tecnológica;

●      transição verde e metas climáticas;

●      coesão social e novo modelo de urbanização;

●      redução das disparidades regionais.

Esses pontos dizem muito — mas não dizem tudo. São diretrizes, não metas quantificadas. Entre a divulgação dessas diretrizes e a aprovação do plano final há vários meses de trabalho intenso. Trata-se de um processo estruturado, que atravessa diferentes camadas do sistema político e administrativo chinês, envolvendo debates técnicos, consultas regionais, ajustes setoriais e definição de prioridade.

Entender esse intervalo é essencial para compreender como o planejamento chinês funciona na prática — e por que ele não pode ser lido como um anúncio pronto, mas como um processo em movimento.

Etapa 1 — A formulação estratégica: quando o PCCh define o horizonte

O ponto de partida é que o PCCh define a direção estratégica do país. Não se trata de um detalhe nem de um ritual formal: é o momento em que se estabelece o que a China entende como prioridade sistêmica para o próximo ciclo de desenvolvimento.

Na sessão plenária, o Partido debate temas estruturais, como:

●      o papel da China no sistema internacional;

●      os gargalos que limitam a inovação de ponta;

●      os riscos associados à dependência tecnológica;

●      a necessidade de proteger cadeias produtivas estratégicas;

●      o fortalecimento da economia digital, da inteligência artificial e da manufatura avançada;

●      a conciliação entre crescimento econômico e metas climáticas mais rigorosas.

Isso ainda não é o plano. Mas é o que molda tudo o que virá depois. Trata-se da visão estratégica que orienta o processo. 

Etapa 2 — Os institutos de pesquisa entram em campo

Com a orientação política definida, entra em funcionamento outra engrenagem central do sistema chinês: a dos institutos de pesquisa e think tanks estatais. Essas instituições atuam sob a orientação estratégica do Partido e do Estado e têm papel decisivo na formulação de políticas de médio e longo prazo.

Participam desse processo, entre outros:

●      a Academia Chinesa de Ciências Sociais (CASS, na sigla em inglês);

●      o Development Research Center of the State Council (DRC);

●      institutos ligados à Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma (NDRC, na sigla em inglês);

●      centros de pesquisa vinculados a ministérios como ciência e tecnologia, agricultura, meio ambiente, transporte e energia.

É nesse estágio que as diretrizes políticas são traduzidas em propostas técnicas. Esses órgãos produzem dados, cenários, avaliações de impacto e sugestões de mecanismos de implementação, além de mapear conflitos potenciais entre objetivos. Surgem aqui versões preliminares — que não são públicas — de partes do plano que podem ou não integrar o texto final. Esse trabalho raramente aparece no noticiário, mas constitui o núcleo do planejamento chinês.

Etapa 3 — As províncias apresentam seus próprios planos

A China não opera de forma estritamente vertical. O sistema funciona por engrenagens acopladas. Antes de existir um texto nacional consolidado, cada província e cada grande cidade apresenta seu próprio plano regional.

Essa fase é marcada por negociações intensas. Províncias industrializadas buscam metas mais avançadas em inovação e tecnologia; regiões agrícolas solicitam recursos para impulsionar a modernização rural; polos energéticos discutem prazos de descarbonização compatíveis com suas realidades; áreas costeiras defendem políticas voltadas à abertura econômica e ao comércio exterior.

Cabe ao governo central conciliar demandas frequentemente contraditórias para construir um plano nacional coerente. Esse processo ajuda a explicar por que os Planos Quinquenais chineses conseguem ser, ao mesmo tempo, ambiciosos e executáveis: eles nascem de uma articulação organizada entre regiões, setores e interesses. 

Etapa 4 — A consolidação ministerial: o plano ganha corpo

Após receber as propostas regionais e os estudos técnicos, o governo central inicia a fase de consolidação. Nesse momento, a Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma (NDRC, na sigla em inglês) assume papel central, articulando o trabalho de diversos órgãos, entre eles:

●      Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação;

●      Ministério da Ciência e Tecnologia;

●      Ministério do Comércio;

●      Ministério da Agricultura e dos Assuntos Rurais;

●      Ministério de Ecologia e Meio Ambiente;

●      Administração Nacional de Energia;

●      Ministério das Finanças;

●      além de outros órgãos especializados.

Cada ministério elabora seus capítulos setoriais — indústria, tecnologia, energia, agricultura, infraestrutura, transporte e meio ambiente. Esses textos passam por um processo de harmonização, para evitar contradições e definir metas mensuráveis apenas quando há consenso técnico. É só aqui, meses depois da plenária do Partido, que começam a aparecer os contornos reais do documento final. 

Etapa 5 — Revisão política final

Mesmo após a consolidação técnica, o texto retorna ao Partido para uma nova rodada de avaliação. O PCCh analisa a coerência interna do plano, seu alinhamento com as prioridades estratégicas nacionais, as implicações para a segurança nacional, os impactos regionais e os efeitos geopolíticos internacionais.

Caso algum ponto seja considerado desalinhado, o texto volta para ajustes. Trata-se de um processo de dupla validação — técnica e política.

Etapa 6 — Aprovação estatal nas “Duas Sessões”

O plano final é apresentado e votado durante as chamadas “Duas Sessões”, geralmente realizadas em março:

●      a Assembleia Popular Nacional (APN);

●      a Conferência Consultiva Política do Povo Chinês (CCPPCh).

É nesse momento que o plano se torna público, detalhado e oficial, com metas para cinco anos, orientando políticas nacionais, investimentos públicos, incentivos, prioridades financeiras e indicadores de desempenho. 

Por que é importante compreender esse processo?

Entender como a China constrói seus Planos Quinquenais é fundamental para interpretar corretamente temas centrais do debate global atual, como:

●      a transição energética chinesa;

●      a expansão das tecnologias de inteligência artificial;

●      a reorganização das cadeias produtivas globais;

●      a substituição de importações em setores estratégicos;

●      a política industrial que hoje influencia o ritmo da economia mundial;

●      o avanço chinês em energias renováveis, semicondutores, manufatura avançada e novos materiais, incluindo fibras têxteis sustentáveis.

Quando o mundo afora trata diretrizes iniciais como se fossem políticas públicas já finalizadas, perde a chance de acompanhar o que realmente está em curso: um processo dinâmico, marcado por deliberações internas, ajustes técnicos, negociações regionais e revisões sucessivas. Perde também ao deixar de observar esse modelo como referência. A China não cresce por espontaneidade — cresce porque planeja, revisa e executa.

Onde acompanhar a construção do Plano Quinquenal

Para quem busca compreender esse processo com maior precisão, os veículos do Grupo de Mídia da China (CMG, na sigla em inglês) são hoje uma das fontes mais consistentes para acompanhar, em tempo real, os debates, sinalizações políticas e prioridades em discussão durante a elaboração do Plano Quinquenal.

Entre esses veículos estão: a CGTN, com cobertura internacional e análises voltadas ao público global; a CCTV, principal emissora de televisão da China, com reportagens sobre decisões políticas e econômicas; e a China National Radio (CNR), que acompanha debates internos e regionais.

Dentro desse conjunto, a CGTN em Português se destaca por oferecer entrevistas, dados oficiais e análises acessíveis ao público dos países de língua portuguesa, permitindo uma leitura direta das prioridades chinesas.

Os conteúdos já divulgados indicam que a China pretende:

●      acelerar a pesquisa em inteligência artificial e computação avançada;

●      fortalecer a autonomia tecnológica;

●      ampliar investimentos em indústria verde;

●      modernizar a agricultura com foco em segurança alimentar;

●     intensificar políticas de redução das desigualdades regionais; investir em tecnologias disruptivas ligadas a novas cadeias produtivas.

Acompanhar esse conjunto de informações de forma integrada permite oferecer ao público fora da China uma visão mais precisa da potência asiática— não como caricatura, mas como sistema político em funcionamento. 

O plano que ainda não existe

O 15º Plano Quinquenal é um organismo vivo, ainda em formação. Ele não nasce pronto. Não sai de uma sala fechada. Não é escrito por um único órgão ou líder.

É resultado de decisões políticas do Partido, estudos técnicos especializados, negociações entre ministérios, articulações regionais, revisões sucessivas e até opinião dos cidadãos, e, por fim, aprovação formal pelo Estado.

Em fevereiro, o mundo ainda não conhece o plano. O que existe é o seu embrião — as diretrizes que orientam sua construção. Compreender esse processo é mais do que um exercício analítico: é entender a lógica que estrutura o desenvolvimento chinês.

O 15º Plano Quinquenal está em andamento — mas ainda não nasceu.

E é justamente agora, neste período de construção, que olhar para Beijing faz toda a diferença.

Iara Vidal é pesquisadora independente dedicada ao estudo das interseções entre moda, política e cultura. Jornalista brasileira radicada em Beijing, trabalha como editora na CGTN em Português, emissora do Grupo de Mídia da China (CMG, na sigla em inglês).

China: Autossuficiência tecnológica e mercado interno https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/china-em-ascensao.html

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