02 fevereiro 2026

EUA: quem perde com Trump?

Em 1 ano, tarifaço de Trump arrecada bilhões, mas penaliza o povo dos EUA
Após elevar tarifas ao maior nível em um século, governo Trump arrecada mais e reduz déficit à fórceps, mas pressiona preços, isola os EUA diplomaticamente e provoca reação defensiva de parceiros comerciais
Cezar Xavier/Vermelho      


Um ano após o início da mais agressiva política tarifária dos Estados Unidos desde a década de 1930, os efeitos da “experiência Trump” tornam-se mais claros — e mais complexos. Segundo balanço do New York Times, as tarifas médias chegaram a cerca de 17%, patamar não visto desde a Lei Smoot-Hawley, recolocando o protecionismo no centro da política econômica norte-americana e reeditando tensões históricas no comércio internacional.

Defendidas por Donald Trump como instrumento para revitalizar a indústria e recuperar empregos, as tarifas produziram efeitos mensuráveis, mas também desencadearam distorções econômicas — que desafiam a narrativa oficial — e um desgaste diplomático significativo.

Receita em alta, custo interno

O impacto mais imediato foi fiscal. Em 2025, os Estados Unidos arrecadaram cerca de US$ 287 bilhões em tarifas, impostos e taxas alfandegárias — quase o triplo do registrado em 2024. Embora modestos frente aos mais de US$ 2 trilhões anuais do imposto de renda, esses recursos se tornaram uma fonte adicional relevante para o Tesouro.

A ressalva central, porém, é quem paga a conta. A arrecadação vem majoritariamente dos importadores oficiais, em sua maioria empresas norte-americanas. Apesar do discurso de que o custo recairia sobre produtores estrangeiros, o consenso entre economistas é que o ônus tem sido absorvido por importadores e consumidores domésticos, seja via preços mais altos, seja por redução de margens e investimentos.

O déficit comercial encolhe — mas…

O déficit comercial, outro alvo central da política de Trump, recuou nos últimos meses e atingiu em outubro de 2025 o menor nível desde 2009, antes de registrar leve alta em novembro. Mesmo isso, é fruto de uma distorção econômica que torna sua continuidade insustentável. O déficit comercial dos EUA encolheu porque as tarifas frearam as importações no curto prazo, não porque o país se tornou mais competitivo. Foi um ajuste contábil e conjuntural — não uma vitória estrutural da política industrial.

O déficit comercial dos EUA encolheu após o tarifaço de Trump por uma combinação de efeitos conjunturais e mecânicos, e não porque a economia americana tenha passado a exportar muito mais ou se reindustrializado. Os principais fatores a queda forçada das importações, porque os importadores americanos reduziram volumes, adiaram compras, cancelaram contratos, ou buscaram fornecedores alternativos (nem sempre mais baratos).

Empresas não deixaram necessariamente de importar; muitas mudaram a origem: menos compras da China, mais compras de países como México, Vietnã e Índia. Em alguns casos, o valor total importado caiu; em outros, os fluxos ficaram mais caros e mais lentos. O resultado líquido, no curto prazo, foi menor volume registrado de importações, comprimindo o déficit.

Como o déficit comercial mede a diferença entre importações e exportações, basta as importações caírem para o déficit diminuir — mesmo que as exportações não cresçam. Este foi o principal fator do recuo recente.

No início do governo Trump, houve uma corrida para importar antes da entrada em vigor das tarifas, o que inflou artificialmente o déficit nos primeiros meses. Depois que as tarifas passaram a valer, as importações despencaram e o déficit caiu por comparação com esse pico anterior. Esse efeito estatístico ajudou a produzir uma queda rápida, mas não estrutural.

As tarifas elevaram preços e aumentaram incertezas, o que contribuiu para desaceleração do consumo e menor demanda por bens importados. Déficits comerciais tendem a cair quando a economia perde fôlego — um padrão histórico observado também em recessões.

Além de tudo isso, as exportações não foram o motor do reequilíbrio da balança. As exportações americanas não cresceram de forma significativa, a base industrial não se expandiu de maneira ampla e o emprego manufatureiro continuou fraco. Ou seja, o déficit caiu porque os EUA compraram menos, não porque venderam mais.

Por isso, economistas tratam o encolhimento com cautela. O déficit já mostrou sinais de reversão após alguns meses e mudanças em consumo, câmbio ou cadeias globais podem fazê-lo subir novamente. Historicamente, déficits comerciais são influenciados mais por nível de atividade econômica, poupança interna, política fiscal e monetária, do que por tarifas isoladas.

Mesmo com a queda no déficit observada, o movimento não foi linear. No acumulado de janeiro a novembro, o saldo negativo ainda estava 4,1% acima do ano anterior, o que levanta dúvidas sobre a sustentabilidade da tendência recente.

Indústria: ganhos setoriais, frustração no emprego

No setor manufatureiro, os resultados ficaram aquém das promessas. Apesar das tarifas, a indústria continuou perdendo empregos em 2025. Apoiadores de Trump argumentam que a reindustrialização leva tempo e apontam avanços recentes na produção industrial e no investimento em capital.

Os dados mostram, porém, um quadro desigual. O crescimento observado na produção industrial concentrou-se em segmentos menos afetados pelas sobretaxas, como aeroespacial e eletrônicos. Já áreas diretamente afetadas, como a indústria automobilística e de autopeças, registraram queda na produção. Fabricantes relatam que as tarifas elevaram os custos de insumos essenciais, como aço, alumínio e máquinas, corroendo competitividade e limitou a capacidade de expansão.

Além disso, embora a construção de novas fábricas esteja acima dos níveis pré-pandemia, o ritmo é inferior ao observado no fim do governo Biden, quando subsídios a semicondutores e baterias impulsionaram investimentos.

Preços mais altos e inflação contida à força

Como previsto, as tarifas pressionaram os preços de bens importados. Indicadores mostram aceleração especialmente após o anúncio das tarifas globais em abril de 2025, revertendo uma tendência anterior de queda. Ainda assim, o impacto foi menor do que o esperado, em parte porque empresas hesitaram em repassar integralmente os custos aos consumidores, temendo perda de mercado.

A inflação geral nos EUA apresentou melhora, puxada sobretudo pela desaceleração nos serviços. Economistas, porém, calculam que sem as tarifas o resultado teria sido ainda melhor: o IPC de agosto, de 2,9%, poderia ter ficado em 2,2% sem o peso das sobretaxas comerciais.

Reação internacional e isolamento diplomático

No plano externo, o saldo é amplamente negativo. A estratégia unilateral de Trump deteriorou relações comerciais e fragilizou a diplomacia econômica dos EUA. Países atingidos pelas tarifas responderam com medidas defensivas, incluindo sobretaxas retaliatórias, redirecionamento de cadeias produtivas e acordos preferenciais entre si, contornando o mercado americano.

União Europeia, China, Canadá e países asiáticos intensificaram negociações bilaterais e regionais para reduzir dependência dos EUA. Em vez de reindustrializar o país, críticos afirmam que a política acelerou a reorganização das cadeias globais sem os Estados Unidos no centro, enfraquecendo sua influência comercial de longo prazo.

Se Trump pretendia conter a China ou a Rússia, acabou por aproximar aliados históricos (como Europa e América Latina) em torno desses países, afastando-os da hostilidade comercial dos EUA. A busca obsessiva de muitas nações pela desdolarização de suas dívidas também acende um alerta para as chantagens econômicas de Trump.

Desgaste político e opinião pública

A percepção de preços elevados e incerteza econômica também atingiu o campo político. Pesquisa do The New York Times com a Universidade de Siena mostrou que 54% dos eleitores se opõem às tarifas, e 51% avaliam que as políticas de Trump pioraram o custo de vida — um sinal de erosão de um dos principais pilares de sua base de apoio.

Após um ano, a política tarifária de Trump revela um paradoxo: ganhos fiscais e ajustes pontuais no comércio coexistem com custos econômicos internos, perdas industriais e isolamento internacional. Mais do que um experimento econômico, a estratégia redesenhou — de forma controversa — o papel dos Estados Unidos no comércio global.

Longe de uma panaceia, a experiência reacende um velho dilema da economia americana: até que ponto o protecionismo fortalece a produção nacional — e quando passa a cobrar um preço alto demais do próprio país, com efeitos que podem perdurar muito além do mandato presidencial.

[Ilustração: Charge de William]

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