Empresas recebem US$ 22 bilhões com repressão migratória de Trump, diz jornal
Segundo o Financial Times, contratos bilionários com ICE e CBP envolvem Amazon, Microsoft, Palantir e construtoras ligadas ao muro e às deportações
Lucas Toth/Vermelho
Empresas de tecnologia, consultorias, construtoras e companhias de aviação receberam mais de US$ 22 bilhões em contratos ligados à política migratória do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, desde janeiro de 2025.
Os recursos foram destinados principalmente ao Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas dos Estados Unidos (ICE, na sigla em inglês) e à Alfândega e Proteção de Fronteiras (CBP, na sigla em inglês), agências centrais na repressão e violência à imigração no país.
Levantamento publicado pelo Financial Times aponta que o volume de contratos cresceu de forma acelerada após a segunda posse de Trump e ganhou novo impulso com a aprovação, em julho, da chamada “big beautiful bill”, o pacote fiscal aprovado pelo Congresso que ampliou recursos e instrumentos legais para reforçar a política migratória e as operações xenofóbicas de Trump.
Os dados indicam que os gastos do ICE com contratos mais que dobraram nos dois trimestres posteriores à nova legislação, alcançando US$3,7 bilhões, ante US$1,5 bilhão nos seis meses anteriores.
Já a CBP multiplicou por sete os contratos com empresas privadas entre o primeiro e o segundo semestre de 2025, registrando quase US$2 bilhões em novos acordos apenas neste mês.
Parte desses contratos refere-se a serviços estruturais de tecnologia e infraestrutura. Outra parcela, porém, está diretamente associada às novas estratégias de identificação, detenção e deportação de imigrantes implementadas pelo governo.
Veja alguns gastos citados pela Financial Times:
Amazon (AWS):
Valor: pelo menos US$ 75 milhões (principalmente via revendedores)
Agência: ICE e CBP (indiretamente)
Serviço: computação em nuvem e hospedagem de sistemas.
• Em um contrato específico, o ICE destinou US$ 24 milhões a uma empresa intermediária para gerenciar serviços da AWS.
Microsoft:
Valor: pelo menos US$ 93 milhões (via intermediários)
Agência: ICE
Serviço: licenças corporativas e infraestrutura de software.
• A Dell Federal Systems recebeu US$ 19 milhões para fornecer licenças Microsoft ao ICE.
Palantir:
Valor: US$ 81 milhões (desde janeiro de 2025)
Agência: ICE
Serviços:
• Sistema para rastreamento de “self-deportation” (US$ 30 milhões)
• Ferramentas de análise e apoio à seleção e detenção de imigrantes
Deloitte:
Valor: mais de US$ 100 milhões
Agências: ICE e CBP
Serviços:
• Sistemas de aplicação da lei
• Análise de dados para operações de fiscalização e remoção
• Suporte analítico para divisão de direcionamento de capturas
Fisher Sand & Gravel
Valor: mais de US$ 6 bilhões
Agência: CBP
Serviço: construção de trechos do muro na fronteira sul dos EUA
(empresa liderada por Tommy Fisher, doador republicano)
CSI Aviation
Valor: mais de US$ 1,2 bilhão
Agência: ICE
Serviço: intermediação e fretamento de voos utilizados em deportações
Motorola Solutions:
Valor:
• US$ 19 milhões (contratos diretos)
• US$ 260 milhões (via revendedor)
Agência: ICE
Serviço: rádios e baterias para agentes em operações de fiscalização migratória
G4S (Reino Unido):
Valor: US$ 68 milhões
Agência: ICE
Serviço: transporte terrestre de detidos em operações de remoção
Smiths Detection (Reino Unido):
Valor: mais de US$ 62 milhões
Agência: CBP
Serviço: tecnologia de triagem e detecção para controle de fronteiras
Tecnologia e dados no centro das operações
Entre as principais beneficiárias está a Palantir, que recebeu US$81 milhões em contratos com o ICE desde janeiro de 2025. Em abril, a empresa firmou um acordo de US$30 milhões para desenvolver um sistema operacional voltado ao monitoramento de “self-deportation”, – mecanismo pelo qual imigrantes deixam voluntariamente o país sob monitoramento das autoridades migratórias – além de fornecer ferramentas voltadas à seleção e à detenção de pessoas sem documentação.
A consultoria Deloitte recebeu mais de US$ 100 milhões em novos contratos com o ICE e a CBP desde janeiro de 2025. Os serviços incluem desenvolvimento e atualização de sistemas voltados à aplicação da lei, análise de dados para operações de fiscalização e remoção, além de pesquisas na internet e suporte analítico à divisão responsável por direcionar ações de captura.
Gigantes da tecnologia também integram a cadeia de fornecimento dessas agências. A Amazon, por meio de sua divisão de computação em nuvem (AWS), presta serviços avaliados em pelo menos US$ 75 milhões, em grande parte contratados via revendedores. Em um desses acordos, o ICE destinou US$ 24 milhões a uma empresa intermediária encarregada de contratar e gerenciar a hospedagem e o suporte técnico dos serviços da AWS utilizados pela agência.
A Microsoft, por sua vez, soma ao menos US$93 milhões em serviços, igualmente via intermediários. A Dell Federal Systems recebeu US$19 milhões para fornecer licenças corporativas Microsoft ao ICE, reforçando a infraestrutura tecnológica das operações.
Muro, voos de deportação e logística de detenção
No campo da infraestrutura física, a Fisher Sand & Gravel, empresa liderada pelo doador republicano Tommy Fisher, recebeu mais de US$6 bilhões em contratos da CBP desde julho para a construção de trechos do muro na fronteira sul dos Estados Unidos. Trata-se do maior valor individual identificado na apuração.
O maior beneficiário dos contratos do ICE é a CSI Aviation, que assegurou mais de US$1,2 bilhão desde janeiro de 2025 para intermediar e fretar voos utilizados nas deportações. A ampliação dessas operações acompanha o endurecimento das ações de remoção.
Empresas de segurança e transporte também foram contempladas. A britânica G4S firmou contratos de US$68 milhões com o ICE para fornecer transporte terrestre de detidos em operações de fiscalização e remoção.
Já a Smiths Detection, subsidiária do grupo britânico Smiths, recebeu mais de US$62 milhões da CBP por tecnologias de triagem e detecção utilizadas no controle de fronteiras.
No setor de equipamentos, a Motorola Solutions mantém US$19 milhões em contratos diretos com o ICE. Além disso, um revendedor terceirizado obteve um acordo de US$ 260 milhões para fornecer rádios e baterias destinados a agentes envolvidos em ações de fiscalização migratória.
Crescimento dos contratos e reação interna
Embora parte dos contratos tenha origem em administrações anteriores e envolva serviços de modernização de sistemas ou suporte técnico rotineiro, a expansão recente está associada às novas diretrizes do governo Trump para ampliar detenções, acelerar deportações e incentivar a chamada “autodeportação”.
O crescimento dos contratos ocorre em meio a controvérsias públicas sobre a atuação das agências federais, inclusive após mortes registradas em operações no estado de Minnesota, que provocaram críticas de parlamentares democratas e republicanos
A intensificação da parceria entre governo e empresas também gerou reação interna no setor de tecnologia.
Mais de mil trabalhadores da área, incluindo funcionários do Google, assinaram uma carta aberta pedindo que as companhias cancelem contratos e se posicionem contra as táticas adotadas pelo governo.
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