03 fevereiro 2026

Minha opinião

Contrastes de carnaval*
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65     

Leio no Twitter da prefeitura de Olinda informações quentíssimas sobre o desfile das “Virgens” e, na postagem seguinte, a conspícua notícia de que a partir das 10 horas haverá canto gregoriano no Mosteiro de São Bento. Carnaval é assim: contrastes para todos os gostos.

Afastado da folia de Momo desde que, vice-prefeito do Recife, que fui por oito anos consecutivos, não tinha a liberdade de ir à rua com a simplicidade costumeira – tênis, bermuda, camiseta e seja o que Deus quiser -, apenas me divirto à distância com notícias como essas. E com as imagens na TV, quando tenho saco pra isso. Ou com as fotos nos jornais.

Por isso não estranho que se misture o espetáculo de seres do gênero masculino fantasiados como se fossem do gênero feminino (veja a linguagem solene) com a serenidade mística do canto gregoriano na voz de bem comportados monges. Na rua também é assim: tem gente alegre, gente triste; gente que está ali para se divertir e gente que vai “para soltar a franga”; gente que exulta de felicidade e gente que purga fracassos nos negócios e no amor. Gente que na quarta feira de cinzas (os que param na quarta-feira) enfrenta religiosamente ressaca e dores amorosas, e gente que com um bom suco de limão e muita água mineral já se levanta de bem com a vida, celebrando a beleza do amor correspondido.

No Brasil, são territórios democráticos a praia, o campo de futebol e o carnaval de rua (gratuito e livre, em Pernambuco). Por isso todos têm os mesmos direitos: o cara que conversa em voz alta no guarda-sol ao lado, proclamando aos quatro ventos o que a gente não quer ouvir; o que liga o radinho de pilha a todo volume aqui na arquibancada, como se a gente também precisasse de um narrador para entender o que se passa dentro do campo; e o sujeito que amarra a burra junto de mim e quer porque quer discutir política em plena folia.

Desses chatos que querem a minha opinião sobre as medidas anti-inflacionárias justo na hora em que o Elefante vai passando, o frevo rasgado e a multidão em delírio, já me livrei há muito tempo. Porque fico longe, repito.

Aos estádios já não vou desde que minhas duas filhas eram pequenas, por uma escolha pessoal: nunca troquei um bom domingo com elas e a mãe por uma partida do chamado esporte bretão.

Praia, prefiro as quase desertas. Em Boa Viagem, que frequento, simplesmente caminho – livre portanto da turma que faz questão de contar a vida para quem tiver por perto ouvir.

Você que me lê agora pode até ficar com má impressão: “Esse cara tá ficando um velho chato”. Não é isso, creia. Porque gosto de tudo – de praia, de futebol e de carnaval. Gosto dos contrastes da vida. Acredito, como Castro Alves, que a dor e o prazer, a tristeza e a alegria são as expressões mais nítidas da existência humana. Apenas não gosto de gente chata. Só isso.

*Uma crônica de março, 2011

Leia também: A desumana partilha do tempo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/minha-opiniao_89.html

Nenhum comentário:

Postar um comentário