Contrastes de carnaval*
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65
Leio no Twitter da prefeitura de Olinda
informações quentíssimas sobre o desfile das “Virgens” e, na postagem seguinte,
a conspícua notícia de que a partir das 10 horas haverá canto gregoriano no
Mosteiro de São Bento. Carnaval é assim: contrastes para todos os gostos.
Afastado da
folia de Momo desde que, vice-prefeito do Recife, que fui por oito anos
consecutivos, não tinha a liberdade de ir à rua com a simplicidade costumeira –
tênis, bermuda, camiseta e seja o que Deus quiser -, apenas me divirto à
distância com notícias como essas. E com as imagens na TV, quando tenho saco
pra isso. Ou com as fotos nos jornais.
Por isso não
estranho que se misture o espetáculo de seres do gênero masculino fantasiados
como se fossem do gênero feminino (veja a linguagem solene) com a serenidade
mística do canto gregoriano na voz de bem comportados monges. Na rua também é
assim: tem gente alegre, gente triste; gente que está ali para se divertir e
gente que vai “para soltar a franga”; gente que exulta de felicidade e gente
que purga fracassos nos negócios e no amor. Gente que na quarta feira de cinzas
(os que param na quarta-feira) enfrenta religiosamente ressaca e dores
amorosas, e gente que com um bom suco de limão e muita água mineral já se
levanta de bem com a vida, celebrando a beleza do amor correspondido.
No Brasil, são
territórios democráticos a praia, o campo de futebol e o carnaval de rua
(gratuito e livre, em Pernambuco). Por isso todos têm os mesmos direitos: o
cara que conversa em voz alta no guarda-sol ao lado, proclamando aos quatro
ventos o que a gente não quer ouvir; o que liga o radinho de pilha a todo
volume aqui na arquibancada, como se a gente também precisasse de um narrador
para entender o que se passa dentro do campo; e o sujeito que amarra a burra
junto de mim e quer porque quer discutir política em plena folia.
Desses chatos
que querem a minha opinião sobre as medidas anti-inflacionárias justo na hora
em que o Elefante vai passando, o frevo rasgado e a multidão em delírio, já me
livrei há muito tempo. Porque fico longe, repito.
Aos estádios
já não vou desde que minhas duas filhas eram pequenas, por uma escolha pessoal:
nunca troquei um bom domingo com elas e a mãe por uma partida do chamado
esporte bretão.
Praia, prefiro
as quase desertas. Em Boa Viagem, que frequento, simplesmente caminho – livre
portanto da turma que faz questão de contar a vida para quem tiver por perto
ouvir.
Você que me lê
agora pode até ficar com má impressão: “Esse cara tá ficando um velho chato”.
Não é isso, creia. Porque gosto de tudo – de praia, de futebol e de carnaval.
Gosto dos contrastes da vida. Acredito, como Castro Alves, que a dor e o
prazer, a tristeza e a alegria são as expressões mais nítidas da existência
humana. Apenas não gosto de gente chata. Só isso.
*Uma crônica de março, 2011
Leia também: A desumana partilha do tempo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/minha-opiniao_89.html

Nenhum comentário:
Postar um comentário