09 fevereiro 2026

Palavra de poeta

Os vivos
Ferreira Gullar        

Os vivos são vorazes
são glutões ferozes:
até dos mortos comem
carnes ossos vozes


Se devoram os mortos

devoram os outros vivos:
pelos olhos e sexo
elogios, sorrisos

 

Os vivos são dotados
de famintas bocas:
devoram o que veem,
o que cheiram e tocam

 

Os vivos são fornalhas
em sempre operação:
em sua mente e ventre
tudo vira carvão

 

O mar a pedra a manhã
são ali combustível:
o vivo, voraz, muda
o visível em visível

 

O mar a pedra a manhã
— que ele queima em seus risos —
viram pele e cabelos
do corpo, que é ele vivo

 

e onde habita alguém
— seja espírito ou não —
alimentado também
por essa combustão

 

que tudo vaporiza.
Mas que agora na pele
desta efêmera mão
é afago de brisa

[Ilustração: Antonio Sgarbossa]

Em tempo real. Será? https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/minha-opiniao_6.html 

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