02 fevereiro 2026

Sionismo dividido

O possível tombo de Israel
Pensador israelense fala com exclusividade ao Outras Palavras. Expõe as fissuras do projeto sionista. Os caminhos, inclusive digitais, para enfrentar o apagamento de Gaza. E as razões do Sul global, sem a “culpa pelo Holocausto”, liderar o movimento de solidariedade
Ilan Pappé em entrevista a Thiago Gama/Outras Palavras     


Ao observarmos as ruínas de Gaza e a reconfiguração brutal da Palestina entre os anos de 2024 e 2026, a sensação é de que a gramática política tradicional já não dá conta da escala do horror. Para compreender se estamos diante de uma repetição ou de uma mutação definitiva da tragédia, é preciso recorrer a quem dedicou a vida a escavar as fundações do Estado de Israel. Ilan Pappé, o historiador que rompeu o consenso acadêmico com sua obra seminal sobre a limpeza étnica de 1948, apresenta um diagnóstico terminal nesta conversa: o projeto sionista entrou em uma fase de “apagamento” total, movido pelo desespero de um colonialismo de povoamento que percebeu que o nativo não se curvará.

Nesta entrevista ao Outras Palavras, no alvorecer de 2026, Pappé guia o leitor por um labirinto de tensões que vai muito além das fronteiras físicas. O diálogo é aberto com uma análise crua sobre a evolu ção da violência: o que antes era “incremental” tornou-se uma política de genocídio aberto, motivado pela incapacidade histórica de Israel em resolver seu desafio demográfico através da simples expulsão. O historiador detalha ainda o fenômeno do memoricídio e do escolasticídio — a destruição sistemática de arquivos e universidades — apontando o arquivo digital e a reprodução de fontes como as novas trincheiras do direito de retorno.

A análise de Pappé traz uma reviravolta fundamental: a aparente invencibilidade militar de Israel mascara um colapso interno irreversível. As rachaduras na infraestrutura do Estado e a fragmentação da sociedade judaica — dividida entre uma teocracia de apartheid e um campo secular em agonia — sugerem que o projeto sionista caminha para o seu fim por suas próprias contradições. Ao final, Pappé convoca o Sul Global a rejeitar a “culpa europeia” e a reafirmar a natureza anticolonial da luta palestina como o único antídoto cont ra a instrumentalização do antissemitismo. O leitor tem em mãos, a seguir, a íntegra deste diálogo que define o nosso tempo.

Sua obra seminal A Limpeza Étnica da Palestina (2006) forneceu o quadro histórico para entender 1948. No entanto, olhando para Gaza entre 2024 e 2026, teríamos avançado da lógica da “limpeza” (deslocamento) para uma lógica de “apagamento” puro (genoc&iac ute;dio)? Seria este o estágio final e desesperado do projeto colonial de povoamento ao perceber que o nativo não sairá?

Acredito que sim. Como a limpeza étnica de 1948 foi incompleta, o desafio demográfico ao projeto sionista, enquanto empreendimento colonial de povoamento, permaneceu intacto. De 1967 até 2023, a limpeza étnica — ou melhor, a limpeza étnica incremental — foi o principal método para lidar com esse desafio demográfico, paralelamente a uma ocupação muito dura na Cisjordânia e na Faixa de Gaza. Esse método funcionou bem na Cisjordânia até agora; mas, devido à resistência na Faixa de Gaza e à sua localização geopolítica muito peculiar, tais métodos não foram eficazes ali. A desumanidade por trás da limpeza étnica torna mais fácil a decisão pelo genocídio, que é, naturalmente, um crime contra a humanidade ainda pior.

O senhor costuma falar em “memoricídio” — a destruição da história do outro. Hoje, vemos Israel destruindo universidades, bibliotecas e arquivos em Gaza (Escolasticídio). Como historiador, como preservamos a memória de um povo quando as evidências físicas de sua e xistência estão sendo pulverizadas? Seria o “Arquivo Digital” agora o campo de batalha primário para o direito de retorno palestino?

Não apenas o arquivo digital, mas também a reprodução, caso seja impossível reconstruir marcos, arquivos ou bibliotecas destruídos. É possível reconstruí-los em um lugar mais seguro. Fundei uma instituição de caridade chamada Nakba Memorial Foundation, que recolhe documentações de Israel que foram reclassificadas ou destruídas. Existem projetos semelhantes protegendo fontes palestinas e, de fato, tornando-as acessíveis online, mas também mantendo-as em bibliotecas e arquivos físicos adequados.

Em sua análise recente, o senhor argumenta que estamos testemunhando o “começo do fim” do projeto sionista, não por derrota externa, mas por contradições internas. Poderia elaborar isso para o nosso público brasileiro? Como um Estado que parece militarmente invencível pode es tar, simultaneamente, colapsando por dentro?

Existem rachaduras sérias na infraestrutura do Estado. Em particular, a sociedade judaica está perdendo sua solidez e encontra-se dividida de forma significativa como nunca antes, a ponto de ter dificuldade, no futuro, de manter a coesão necessária para sustentar o Estado. Trata-se de uma luta interna entre um campo secular/liberal e um campo religioso/nacionalis ta, no qual este último parece estar em vantagem. Essa trajetória de transformar Israel de uma democracia liberal (mesmo que apenas para os seus judeus) em uma teocracia de apartheid levará a embates intermináveis com o restante dos judeus no mundo, isolará Israel ainda mais globalmente e poderá alterar as atuais políticas de seus vizinhos árabes. Isso também exigirá uma economia de guerra por um longo período, dependendo fortemente do dinheiro americano e de um exército invencível. Isso não durará para sempre.

Vemos um esforço coordenado para equiparar o antissionismo ao antissemitismo, a ponto de historiadores judeus como o senhor serem rotulados de “autodiestratários” (self-hating). No Brasil, essa narrativa é usada para silenciar críticos de Israel. Como o Sul Global pode quebrar essa armadilha retórica? A definição de antissemitismo está sendo reescrita para servir de escudo para crimes de guerra?

Deveria ser mais fácil para os apoiadores da Palestina no Sul Global não se sentirem intimidados, já que não deveria haver a mesma culpa que os europeus ocidentais sentem, compreensivelmente, sobre sua história de antissemitismo e, particularmente, sobre o Holocausto. Diante desse cenário, é especificamente no Sul Global que tanto a natureza colonial de povoamento de Israel quanto a natureza anticolonial do movimento nacional palestino devem ser reconhecidas e enfatizadas. Isso não deve ser apenas a mensagem de ativistas e do movimento de solidariedade. Deve ser a forma como a história deste conflito é ensinada nas universidades e discutida na grande mídia. Esse seria o melhor antídoto contra a acusação de que pessoas que apoiam uma luta anticolonial são antissemitas, quando, na verdade, elas estão protestando contra o racismo sionista.

O senhor defende a Solução de um Estado Único como o único caminho moral. Críticos a chamam de utópica. Mas, olhando para os escombros da Solução de Dois Estados, a “utopia” não seria, na verdade, acreditar que a partilha pode um dia trazer a paz? Qual é o papel do historiador ao imaginar a arquitetura política do “Dia Seguinte”?

Antes de tudo, talvez seja importante ressaltar que o Estado único já está aqui. Portanto, a questão é: quão utópico é imaginar que o atual Estado de apartheid único se torne, um dia, democ rático? O historiador tem uma vantagem aqui: regimes de apartheid, ou regimes injustos fundada por movimentos coloniais de povoamento, não duraram para sempre.

Leia também: Trumpismo é neofascismo, uma ameaça a ser rechaçada https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/editorial-do-vermelho_26.html 

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