02 fevereiro 2026

Thiago Modenesi opina

A esquerda identitária como filha do neoliberalismo: um paradoxo contemporâneo
Enquanto o neoliberalismo dissolve a noção de classe e coletividade em favor do indivíduo consumidor, a política identitária corre o risco de substituir projetos universais
Thiago Modenesi/Vermelho      

A relação entre a atual esquerda identitária e o neoliberalismo pode parecer, à primeira vista, um contrassenso. Como pode um movimento que se opõe às desigualdades estruturais ser considerado herdeiro de uma doutrina que exalta o mercado livre e a meritocracia? No entanto, uma análise mais aprofundada revela ligações profundas e paradoxais, sugerindo que o neoliberalismo não apenas tolerou, mas em certa medida moldou e instrumentalizou a política identitária contemporânea.

Primeiramente, é crucial entender o neoliberalismo não apenas como uma teoria econômica, mas como uma racionalidade política que transforma todos os aspectos da vida em competição de mercado. O neoliberalismo precisa ser visto como um projeto cultural.

Segundo teóricos como Wendy Brown, o neoliberalismo promove um sujeito empreendedor de si mesmo, responsável por seu próprio destino. Nessa lógica, as identidades coletivas — de raça, gênero, sexualidade — podem ser reduzidas a ativos individuais a serem geridos, diversificados e performados.

A esquerda identitária, ao priorizar lutas fragmentadas (e frequentemente centradas em reconhecimento simbólico), pode inadvertidamente ecoar a lógica neoliberal de fragmentação social. Enquanto o neoliberalismo dissolve a noção de classe e coletividade em favor do indivíduo consumidor, a política identitária corre o risco de substituir projetos universais de redistribuição por demandas específicas de reconhecimento. Isso não invalida tais demandas, que são urgentes e legítimas, mas as coloca em um terreno onde podem ser facilmente cooptadas pelo mercado (a “política do arco-íris” vendida por corporações, por exemplo).

O neoliberalismo substitui o conceito de cidadão pelo de consumidor. Nesse contexto, as identidades tornam-se nichos de mercado, e as reivindicações por representatividade transformam-se em oportunidades de branding corporativo. A luta por direitos é, assim, convertida em uma busca por visibilidade dentro das estruturas existentes, em vez de questionar essas estruturas. A diversidade no topo do capitalismo (mais CEOs mulheres ou negros) passa a ser vista como fim em si mesmo, sem questionar as hierarquias econômicas que permanecem intactas.

A ênfase na identidade como categoria primária de análise pode obscurecer as bases materiais e econômicas da opressão. Como argumentou Nancy Fraser, o neoliberalismo promoveu uma “esquerda progressista” centrada em questões de reconhecimento, enquanto abandonava as lutas por redistribuição. Essa divisão beneficia o capital, pois permite que se combata o sexismo ou o racismo sem desafiar a exploração de classe, frequentemente, inclusive, usando a linguagem da diversidade para justificar mais desigualdade (“capitalismo inclusivo”). Há um processo de esvaziamento da crítica estrutural em si.

Chamar a esquerda identitária de “filha do neoliberalismo” não é negar sua importância. É, antes, alertar para um risco de convergência perversa: que as lutas por justiça social sejam absorvidas pela lógica de mercado, tornando-se gestão de diferenças em vez de transformação estrutural. A saída não está em abandonar as questões de identidade, mas em reinseri-las em um projeto amplo de emancipação que una reconhecimento e redistribuição, identidade e classe, micro e macro, apontando para a luta que rompa com o capitalismo e dialogue com a construção do socialismo. Somente assim a esquerda poderá confrontar verdadeiramente o neoliberalismo, em vez de reproduzir, em novas formas, sua lógica fragmentadora.

Leia também: Estética imperialista: A política do espetáculo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/estetica-imperialista.html

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