27 abril 2026

A variável tecnologia

Irã entendeu algo que os EUA, com todo o seu orçamento de defesa, ainda não processaram
O que o conflito no Oriente Médio ensina para qualquer líder é que tecnologia não flutua; ela pousa em algum lugar, consome algo, depende de alguém. E narrativa não espera: ela acontece com você ou sem você
Camila Farani/O Estado de São Paulo    

Existe uma guerra dentro da guerra. E essa segunda guerra não tem míssil, não tem drone, não tem general dando entrevista coletiva. Ela tem Lego. Tem bebezinho animado. Tem vídeo gerado por inteligência artificial que faz você rir antes de perceber que está consumindo propaganda de Estado. O Irã entendeu algo que os Estados Unidos, com todo o seu orçamento de defesa, ainda não processaram: na era da atenção distribuída, quem faz rir, vence.

Quando o conflito entre EUA e Israel contra o Irã escalou, o debate público foi todo sobre tecnologia militar. Drones autônomos, sistemas de mira com IA, precisão cirúrgica. Fascinante do ponto de vista técnico. Irrelevante do ponto de vista de quem estava assistindo no celular. Enquanto o Pentágono apresentava relatórios, o Irã lançava vídeos com estética de desenho animado ridicularizando o poderio americano. Viralizaram para mais de 145 milhões de visualizações no primeiro mês. Os EUA responderam com referências a videogames de violência explícita e batizaram a operação de “Epic Fury”. Ninguém compartilhou. Todo mundo compartilhou o Lego. 

Eu vi esse padrão antes. Não em guerra, mas em mercado. Vejo fundadores com produto extraordinário perderem para concorrentes medíocres porque não souberam contar sua história. Vi marcas investirem fortunas em produto e centavos em comunicação, e depois se perguntarem por que o cliente escolheu outra. A batalha da narrativa não começa quando você está perdendo. Começa antes. E quando você acorda para ela, o terreno já foi ocupado.

Mas o conflito revelou um segundo problema, esse mais fundo. A IA que celebramos tem um segredo que ninguém gosta de discutir: ela depende de coisas muito físicas para funcionar. Energia. Chips. Rotas de logística. O Estreito de Ormuz, que o Irã controla estrategicamente, é por onde passa boa parte do gás natural que alimenta os data centers americanos. Quando aquela passagem fecha, não é só o preço do combustível que sobe. É a conta de luz dos supercomputadores que sustentam o ChatGPT, o Google, os sistemas que sua empresa usa todo dia.

Isso me incomodou de um jeito específico. Porque eu passo os últimos anos dizendo para o mercado que IA é infraestrutura, não moda. E aí a guerra no Irã chegou para lembrar que infraestrutura tem endereço físico. Que chip de semicondutor precisa de gás hélio produzido no Catar. Que wafer viaja de avião por rotas que passam pela região mais instável do planeta agora. A promessa digital encontrou o limite do mundo analógico. E ninguém tinha mapeado isso no planejamento estratégico.

Tem mais. Enquanto o conflito trava a cadeia da IA americana, a China avançou. Modelos de código aberto “made in Pequim” estão sendo adotados por empresas e governos no mundo inteiro. O Congresso americano acendeu um sinal de alerta formal. O Brasil, nesse cenário, está planejando expandir sua capacidade de data centers em cinco vezes, segundo dados da Associação Brasileira de Data Centers. Cinco vezes. Isso não apareceu no noticiário. Apareceu nos números de quem estava prestando atenção. 

A empresa brasileira que conseguir entender o que está acontecendo aqui tem uma janela. Não porque o Brasil vai virar potência de IA da noite para o dia. Mas porque dependência de infraestrutura concentrada é um risco que os grandes players estão começando a querer diversificar. E diversificar tem endereço. Pode ser o nosso.

O que a guerra no Irã ensina para qualquer líder, no fundo, é simples. Tecnologia não flutua. Ela pousa em algum lugar, consome algo, depende de alguém. E narrativa não espera. Ela acontece com você ou sem você. A pergunta que eu faço para cada executivo que me consulta hoje é a mesma: onde está o seu Estreito de Ormuz? Qual é o ponto da sua operação que, se travar, trava tudo? Quem está cuidando da sua história enquanto você cuida do seu produto?

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Irã usa satélite chinês e desafia hegemonia dos EUA https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/poderio-belico-digital.html

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