Irã entendeu algo que os EUA, com todo o seu
orçamento de defesa, ainda não processaram
O que o
conflito no Oriente Médio ensina para qualquer líder é que tecnologia não
flutua; ela pousa em algum lugar, consome algo, depende de alguém. E narrativa
não espera: ela acontece com você ou sem você
Camila Farani/O
Estado de São Paulo
Existe uma guerra dentro da guerra. E essa segunda guerra não tem míssil, não tem drone, não tem general dando entrevista coletiva. Ela tem Lego. Tem bebezinho animado. Tem vídeo gerado por inteligência artificial que faz você rir antes de perceber que está consumindo propaganda de Estado. O Irã entendeu algo que os Estados Unidos, com todo o seu orçamento de defesa, ainda não processaram: na era da atenção distribuída, quem faz rir, vence.
Quando o
conflito entre EUA e Israel contra o Irã escalou, o debate público foi todo
sobre tecnologia militar. Drones autônomos, sistemas de mira com IA, precisão
cirúrgica. Fascinante do ponto de vista técnico. Irrelevante do ponto de vista
de quem estava assistindo no celular. Enquanto o Pentágono apresentava
relatórios, o Irã lançava vídeos com estética de desenho animado
ridicularizando o poderio americano. Viralizaram para mais de 145 milhões de
visualizações no primeiro mês. Os EUA responderam com referências a videogames
de violência explícita e batizaram a operação de “Epic Fury”. Ninguém compartilhou.
Todo mundo compartilhou o Lego.
Eu vi
esse padrão antes. Não em guerra, mas em mercado. Vejo fundadores com produto
extraordinário perderem para concorrentes medíocres porque não souberam contar
sua história. Vi marcas investirem fortunas em produto e centavos em
comunicação, e depois se perguntarem por que o cliente escolheu outra. A
batalha da narrativa não começa quando você está perdendo. Começa antes. E
quando você acorda para ela, o terreno já foi ocupado.
Mas o
conflito revelou um segundo problema, esse mais fundo. A IA que celebramos tem
um segredo que ninguém gosta de discutir: ela depende de coisas muito físicas
para funcionar. Energia. Chips. Rotas de logística. O Estreito de Ormuz, que o Irã controla
estrategicamente, é por onde passa boa parte do gás natural que alimenta os
data centers americanos. Quando aquela passagem fecha, não é só o preço do
combustível que sobe. É a conta de luz dos supercomputadores que sustentam o
ChatGPT, o Google, os sistemas que sua empresa usa todo dia.
Isso me
incomodou de um jeito específico. Porque eu passo os últimos anos dizendo para
o mercado que IA é infraestrutura, não moda. E aí a guerra no Irã chegou para
lembrar que infraestrutura tem endereço físico. Que chip de semicondutor
precisa de gás hélio produzido no Catar. Que wafer viaja de avião por rotas que
passam pela região mais instável do planeta agora. A promessa digital encontrou
o limite do mundo analógico. E ninguém tinha mapeado isso no planejamento
estratégico.
Tem mais.
Enquanto o conflito trava a cadeia da IA americana, a China avançou. Modelos de
código aberto “made in Pequim” estão sendo adotados por empresas e governos no
mundo inteiro. O Congresso americano acendeu um sinal de alerta formal. O
Brasil, nesse cenário, está planejando expandir sua capacidade de data centers
em cinco vezes, segundo dados da Associação Brasileira de Data Centers. Cinco
vezes. Isso não apareceu no noticiário. Apareceu nos números de quem estava
prestando atenção.
A empresa
brasileira que conseguir entender o que está acontecendo aqui tem uma janela.
Não porque o Brasil vai virar potência de IA da noite para o dia. Mas porque
dependência de infraestrutura concentrada é um risco que os grandes players
estão começando a querer diversificar. E diversificar tem endereço. Pode ser o
nosso.
O que a
guerra no Irã ensina para qualquer líder, no fundo, é simples. Tecnologia não
flutua. Ela pousa em algum lugar, consome algo, depende de alguém. E narrativa
não espera. Ela acontece com você ou sem você. A pergunta que eu faço para cada
executivo que me consulta hoje é a mesma: onde está o seu Estreito de Ormuz?
Qual é o ponto da sua operação que, se travar, trava tudo? Quem está cuidando
da sua história enquanto você cuida do seu produto?
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Irã usa satélite chinês e desafia hegemonia dos EUA https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/poderio-belico-digital.html

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