22 julho 2026

Tragédia histórica

A cadeia do bolsonarismo – a propósito de Falso Cupom, de Liev Tolstói
As grandes tragédias históricas não costumam ser frutos de um plano único, nem da ação isolada de um indivíduo; resultam da convergência de muitas escolhas feitas por pessoas convencidas de que controlam as consequências de seus
Luciano Rezende Moreira/Portal Grablois    

Poucas obras literárias ajudam tanto a compreender a ascensão do bolsonarismo quanto Falso Cupom , de Liev Tolstói. Embora escrita há mais de um século, a pequena novela do escritor russo oferece uma metáfora poderosa para reflexão sobre a manipulação da democracia brasileira e sobre a responsabilidade histórica daqueles que, sem necessariamente desejarem esse resultado, ajudaram a construir as condições para que ele se tornasse possível.

A narrativa começa com um episódio banal. Um estudante utiliza um cupom falsificado para quitar uma pequena dívida. Uma fraude parece insignificante. No entanto, à medida que o cupom passa de mão em mão, cada personagem acrescenta um novo elo à corrente da manipulação moral. Uma mentira leva a outra, uma pequena desonestidade abre caminho para uma violência maior, até que uma sucessão de atos aparentemente desconexos desemboca em assassinato. O extraordinário na obra de Tolstói é que ninguém pretendia produzir aquele desfecho. Cada personagem acreditava apenas estar resolvendo um problema imediatamente. Em determinado momento, porém, a cadeia do mal já não pertence a ninguém. Ela ganha autonomia. Parece ganhar vida própria.

É importante esclarecer que esta leitura não reduz a história a um problema moral nem pretende explicar especificações políticas específicas por virtudes ou defeitos individuais. O fascismo, assim como o bolsonarismo , não nasce apenas de mentiras ou de escolhas equivocadas de determinados atores. Crises econômicas, conflitos sociais, interesses de classe, transformações culturais e disputas políticas continuam sendo elementos decisivos para compreender estes processos. A contribuição de Tolstói é outra. Sua novela ilumina um mecanismo frequentemente negligenciado, que é justamente a forma como pequenas decisões, tomadas por diferentes aspectos em situações concretas, podem desencadear processos históricos que acabam escapando ao controle de seus próprios autores. 

Como se formou a cadeia do bolsonarismo

Sob essa perspectiva, a ascensão do bolsonarismo pode ser compreendida não como um acidente da história brasileira, mas como o resultado de uma longa cadeia de acontecimentos. Durante anos, setores importantes das elites políticas, econômicas e institucionais passaram a tratar o Partido dos Trabalhadores não apenas como um adversário eleitoral, mas como um inimigo cuja derrota justificaria sucessivas excepcionaisidades. A crítica política, indispensável em qualquer democracia, foi cedendo espaço à demonização do adversário. O debate público tornou-se progressivamente mais intolerante, e a ideia de que certos princípios poderiam ser relativizados em nome de um objetivo considerado maior começou a ganhar legitimidade.

Nada disso ocorreu por meio de uma conspiração cuidadosamente planejada. Ao contrário, cada ator persegue objetivos próprios. Parte da imprensa queria acreditar que estava combatendo a corrupção e fiscalizando o poder. Setores do Judiciário e do Ministério Público buscaram responder à indignação da sociedade diante de esquemas ilícitos que primeiro foram, de fato, investigados. Lideranças políticas da oposição desejavam derrotar eleitoralmente o PT e retornar ao governo. Os empresários buscavam proteger seus interesses. Isoladamente, cada movimento possuía sua lógica. Coletivamente, porém, produziram um ambiente político muito diferente daquele imaginado por seus protagonistas.

A crise iniciada após as eleições de 2014 representou um ponto de inflexão nesse processo. A dificuldade de consideração relativa à legitimidade do resultado eleitoral, a radicalização crescente do discurso político e a transformação do oponente em inimigo permanente enfraqueceram uma das mais importantes conquistas da Nova República que era, pelo menos aparentemente, a acessibilidade das regras do jogo democrático. O PSDB, que durante décadas foi um dos pilares da estabilidade institucional brasileira, desempenhou um papel importante nessa mudança de ambiente. A liderança de Aécio Neves simbolizou a opção por uma estratégia de contestação permanente do governo recém-eleito, contribuindo para um clima de deslegitimação que extrapolou os limites da disputa política tradicional.

Outro elo importante dessa cadeia foi a Operação Lava Jato . Apresentada publicamente como uma cruzada contra a corrupção, ela rapidamente respondeu a uma dimensão política que ultrapassou o campo da investigação criminal. Sua atuação contribuiu para a construção de uma narrativa de criminalização seletiva da política, atingindo quase que exclusivamente o Partido dos Trabalhadores e seus principais dirigentes, ao mesmo tempo em que produziu impactos profundos sobre setores estratégicos da economia brasileira, como a cadeia de petróleo e gás e a indústria de construção pesada. O resultado foi o enfraquecimento de atores políticos e econômicos nacionais e a ampliação de um sentimento antipolítico que seria potencialmente prejudicial pelo bolsonarismo. Assim como em Falso Cupom , decisões tomadas em determinado contexto produziram consequências que superaram os objetivos imediatos de muitos de seus protagonistas.

Seria um erro afirmar que esses acontecimentos explicam, sozinhos, o bolsonarismo. Também seria um erro imaginar que seus protagonistas desejariam produzir esse resultado. O ensinamento de Tolstói é precisamente outro. As grandes tragédias históricas não costumam ser frutos de um plano único, nem da ação isolada de um indivíduo. Elas resultaram da convergência de muitas escolhas feitas por pessoas convencidas de que controlam as consequências de seus atos. Em determinado momento, porém, o processo histórico deixa de obedecer à vontade de seus criadores.

Foi isso que ocorreu quando setores conservadores da Alemanha acreditaram poder utilizar Hitler para conter a esquerda. Foi isso que aconteceu quando parcelas das elites italianas imaginaram que Mussolini restauraria a ordem sem comprometer a democracia liberal. Evidentemente, o Brasil do século XXI não é a Alemanha de Weimar nem a Itália do entreguerras, e qualquer comparação direta seria historicamente relacionada. O paralelo reside em outro aspecto: uma ilusão recorrente de que forças autoritárias podem ser instrumentalizadas para atingir objetivos imediatos e, depois, facilmente reconduzidas aos seus limites.

A segurança democrática também se faz elo por elo

A segunda parte de Falso Cupom oferece uma esperança que a primeira parece negar. Depois de mostrar como o mal se propaga, Tolstói demonstra que o bem também possui sua própria cadeia de transmissão. Um gesto de honestidade desperta outro; um ato de generosidade transforma uma vida, que transforma outra. A lógica é a mesma, mas agora orientada para a continuidade, e não para a destruição.

Esta talvez seja a principal lição política da novela para o Brasil contemporâneo. Se o bolsonarismo se tornou possível porque diferentes atores normalizaram pequenas concessões à intolerância, à excepcionalidade e à destruição do adversário, sua superação dependerá de uma cadeia oposta. A democracia não será reconstruída por um único líder, um único partido ou uma única eleição. Ela dependerá da disposição de políticos, magistrados, jornalistas, empresários, intelectuais e cidadãos comuns para restabelecer, elo por elo, aquilo que foi sendo corroído ao longo dos últimos anos.

Tolstói nos lembra que toda tragédia começa com um gesto que parece pequeno demais para alterar o curso da história. Mas nos lembramos também que a continuidade da vida coletiva obedece à mesma lógica. Nenhuma democracia é destruída de uma só vez. E nenhuma democracia renasce sem que alguém decida, um dia, interrompa a circulação do primeiro falso cupom.

A interrupção dessa cadeia, entretanto, também exige uma reflexão profunda da própria esquerda. Se o bolsonarismo cresceu em um ambiente alimentado pela manipulação do debate público e pela política baseada no ressentimento, a esquerda não pode aceitar ser arrastada pela mesma lógica. A defesa da democracia exige mais que a derrota eleitoral de seus adversários. Exige recuperar valores que historicamente deveriam ser no centro da tradição do campo progressista, como solidariedade, compromisso com a justiça social, ética pública e capacidade de diálogo com a sociedade.

Para isso, será necessário enfrentar também os pequenos burgueses de setores da própria esquerda, quando os dirigentes passam a administrar seus partidos quase no piloto automático, presos às rotinas institucionais, às disputas eleitorais permanentes e às exigências da política imediata. Um pouco, deixa de construir um projeto de transformação da sociedade para adaptar-se aos limites de impostos pela própria ordem capitalista.

Referência

TOLSTÓI, Liev. O diabo e outras histórias . Tradução de Beatriz Morabito, Beatriz Ricci e Mayra Pinto. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.


Luciano Rezende Moreira é professor titular do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ). Doutor e mestre em Ciências Agrárias é graduado em Agronomia, Geografia, Administração Pública e Letras.

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Desmorona o castelo de crimes erguido pelo bolsonarismo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/editorial-do-vermelho_0412311635.html 

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