Discurso para vencer
e para perder*
Luciano Siqueira
Não há fórmula precisa para a vitória eleitoral, é óbvio. Igualmente óbvio que a vitória em geral se produz mediante a distinção explícita das diferenças entre os contendores aos olhos do eleitorado.
É o que a experiência indica.
Analistas das pesquisas em voga se desdobram no exame de detalhes, nas respostas quantificadas, na busca de compreensão mais próxima da realidade a respeito do discernimento do eleitorado em relação ao perfil das candidaturas.
Há uma conspiração em favor do rebaixamento do debate.
A consciência política é sempre uma ameaça à classe dominante.
Isso se comprova numa retrospectiva dos pleitos majoritários no Brasil de agora, desde a superação da ditadura militar.
Os acidentes Collor e Bolsonaro não negam a assertiva, a confirmam. Ambos rebaixando o confronto político, mas não fugindo dele, nos dois casos com o apoio poderoso do complexo midiático dominante.
Tudo pela superficialidade dos discursos para que uma ideia força, ainda que falsa, pudesse predominar – o não comprovado combate à corrupção (caça aos marajás) e a resistência a uma suposta deterioração de valores e costumes via reedição do slogan fascista Deus, Pátria e Família.
A digressão vem a propósito da batalha eleitoral de agora.
Lula cresce e pavimenta a dianteira, ainda que não plenamente consolidada, quando o tarifaço de Trump coloca em destaque a defesa da soberania nacional.
Na outra ponta, um cacho de candidaturas da extrema direita cuja marca comum é o discurso da subserviência aos EUA.
Feliz demarcação de campos!
O raciocínio também se aplica à disputa por governos estaduais. As circunstâncias locais pesam muito, particularmente nuances de cada candidatura em ambiente de rebaixamento do debate.
Sempre foi assim.
Mas é fato que muitas vezes o desempate em favor de candidaturas populares e progressistas se deu pela diferenciação política, para muito além do confronto de supostas habilidades administrativas.
Quando se põe “a política no posto de comando”, confrontando diferenças no plano local e nacional, a pasmaceira dá lugar ao bom e desejado acirramento da disputa.
Quanto mais agora em que candidaturas aos governos estaduais se perfilam, ou não, ao lado do presidente Lula.
Cá na província, nada incomoda tanto a governadora Raquel Lyra (PSD), candidata à reeleição, quanto a pergunta sobre a composição de suas alianças locais (onde pontificam bolsonaristas) e sua posição em relação à eleição presidencial. Prefere, espertamente, ater-se à temática administrativa.
Uma armadilha para a candidatura oponente, do ex-prefeito do Recife, João Campos (PSB), aliado do presidente Lula.
Por enquanto, o confronto tem se ilimitado basicamente ao cotejamento de qual dos contendores fez mais “entregas”.
Ponto para a governadora, que se apoia na máquina estadual e num rosário amplamente majoritário de prefeituras.
O fenômeno também comparece em outros estados. Diz respeito, mais do que à esperteza de marqueteiros, ao nível político de líderes e partidos em confronto.
O discurso administrativo gera, no máximo, gratidão; o discurso político emociona e eleva a consciência do eleitorado.
*Texto da minha coluna semanal no portal ‘Vermelho’
"Somos
todos Lula em torno de um cafezinho" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/convite-vamos-nessa.html

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