20 março 2026

Abraham Sicsu opina

Trump precisa da guerra
Abraham B. Sicsu     

Queria ser Nobel da Paz. Disse ter acabado com 8 guerras. Analistas questionam. Sua prática também. Invadiu a Venezuela. Asfixia Cuba, inclusive com a falta criminosa de energia e de alimentos. A bola da vez é o Irã.

Irã do regime fundamentalista teocrático. Irã que financia e se apóia em cruéis grupos terroristas. Irã do tratamento desumano a mulheres. Irã que em seus documentos explicita o objetivo de destruir Israel. Não dá para ignorar ou contemporizar, seu regime atual é uma ameaça real e perversa a um mundo que precisa ser menos belicoso, mais humano e fraterno. Mas, a questão deste texto não é essa.

O diretor do Centro Nacional de Contra Terrorismo dos EUA, renuncia ao cargo. Segundo a CBN, Kent critica a guerra com o Irã e afirma que não era uma ameaça iminente, sendo assumida, principalmente, por pressões externas, baseadas nos interesses de Israel.

Falso, Trump precisa da guerra. Defende seus próprios interesses. Inclusive comprometendo a estabilidade social e econômica do mundo como um todo.

Evidentemente que Netanyahu agradece. Vem ao encontro de seus objetivos, inclusive postergando os julgamentos de crimes nos quais pode ser condenado na Justiça de Israel e do mundo. Mas, não se enganem, Trump não entrou nesta guerra sem ter muito claros os resultados que espera para si.

Construir uma narrativa é fundamental para o momento que se atravessa. Desviar o foco da crise interna americana e mostrar que a força é a arma dos poderosos faz parte de um processo planejado. Em que quer apresentar a América do Norte como líder poderoso do mundo.

A promessa de campanha era que haveria um crescimento vertiginoso da economia americana. Não a largo prazo, mas imediatamente. Com isso, empregos de qualidade retornariam, a massa salarial aumentaria. Não parece o que vem acontecendo neste início de ano.

O “tarifaço” teve um efeito perverso e a inflação começou a crescer. O produto interno bruto não parece estar reagindo nas proporções esperadas. O custo de vida aumentou e a classe trabalhadora começa a protestar.

Foi prometido estancar o processo de desindustrialização e repatriar investimentos industriais para melhoria das condições internas. Com o tarifaço se conseguiu pouco e com o Judiciário considerando-o ilegal, menos se deve avançar. A não ser a deterioração das contas públicas do próprio governo americano.

A concorrência com a China seria estancada e medidas altamente protetivas fariam com que os Estados Unidos ficassem em primeiro lugar. Outro ponto não alcançado e difícil de avançar. A dependência americana de produtos asiáticos faz com que a situação pouco se modifique.

Apesar do crescimento do PIB de 2,2% em 2025, a economia perdeu força no final do ano, com temores persistentes de estagflação (inflação alta com recessão). Analistas alertam para riscos de recessão com a volatilidade do petróleo. O mercado imobiliário enfrentou em 2025 seu pior ano de vendas em quase três décadas, com um alto número de hipotecas ativas.

Lembrar, também, que nos EUA é ano de eleição de meio de mandato. E a maioria nas duas Casas dos Republicanos está ameaçada.

“Uma pesquisa conjunta do The Washington Post, ABC News e Ipsos revelou em 25 de fevereiro de 2026 que o entusiasmo eleitoral entre apoiadores democratas supera em 14 pontos percentuais o dos eleitores republicanos. Maior diferença nas pesquisas de anos recentes.”

O uso do gasto público e da corrida tecnológica associada à gastos com a defesa como motor de crescimento pode ser uma alternativa para estancar essas variáveis. Nisso Trump aposta e está se estruturando para auferir resultados. Inclusive de financiamento para futuras campanhas. Nada melhor que uma guerra para justificá-los.

Também, bom ter em mente que as Big Techs foram as grandes financiadoras da campanha do presidente americano. Os esforços de guerra aceleram em muito os investimentos em Inteligência Artificial. E isso muito interessa a estas empresas.

O valor de mercado das empresas ligadas à IA cresceu de forma explosiva na última década, e hoje as maiores empresas do mundo estão diretamente associadas às expectativas de lucros futuros dessa tecnologia.

 “Juntas, essas gigantes já representam um valor equivalente a mais da metade do PIB americano. Esse boom tem sido alimentado por investimentos colossais: estima-se que as empresas de tecnologia planejem gastar, nos próximos cinco anos, mais que o PIB americano em desenvolvimento de novas plataformas e produtos.”

O perigo, ressaltado pela grande maioria dos analistas do mercado financeiro, é que haja um estouro da Bolha, dada a valorização desproporcional desses ativos frente à demanda e novos investimentos. Se isso é uma possibilidade, a aposta do governo americano é poder postergar esse evento e minimizar possíveis impactos com recursos massivos do governo nas empresas desenvolvedoras e implementadoras de novas plataformas e algoritmos. 

Nesse cenário, criar um inimigo externo e deflagrar uma guerra torna-se uma forma desesperada de administrar a frustração social sem enfrentar suas causas profundas. Por um lado, a guerra mascara o fracasso econômico, por outro permite esforços midiáticos no sentido de aumentar o ufanismo e a falsa crença de que os EUA retomam a liderança do processo mundial.

O desastre de Trump no Oriente Médio https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/oriente-medio-trump-atira-no-proprio-pe.html

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