10 março 2026

Trump atira no próprio pé

O desastre de Trump no Oriente Médio
Até agora, ninguém tem certeza de quais são exatamente os motivos para atacar o Irã
James N. Green/Liberta   

Os ataques conjuntos de Trump com Israel contra o Irã podem dar errado de inúmeras maneiras. O problema em avaliar os objetivos de guerra do presidente dos EUA é que ele ofereceu tantas justificativas diferentes na última semana que ninguém tem certeza de quais são exatamente os motivos para atacar o Irã. Parece que todos os resultados de guerra projetados pela Casa Branca e pelo Pentágono podem acabar enfraquecendo, fatalmente, sua presidência nos dois anos e nove meses restantes de seu mandato.

O objetivo é destruir o programa nuclear do Irã e eliminar seu sistema de mísseis balísticos? Ou é provocar uma mudança no regime, identificando e recrutando líderes dispostos a trabalhar com os Estados Unidos? Talvez seja impedir que os aliados do Irã (Hezbollah, Hamas, os Houthis e seus apoiadores na Síria e no Iraque) operem no Oriente Médio. Ou, ainda, será a meta apoiar a população civil que clama pelo fim do regime, a qual, presumivelmente, se levantará pacificamente e o derrubará?

O Rei Louco

Como Trump sabe tão bem, quando se oferecem muitas possibilidades confusas e contraditórias, basta apontar para aquela que acaba funcionando, declarar vitória e ir para casa.

Isso deve levar de um mês a cinco semanas, de acordo com o último cronograma anunciado por Trump. Durante esse período, ele e o primeiro-ministro israelense, Bibi Netanyahu, poderiam infligir danos significativamente maiores à infraestrutura militar do Irã, ou seja, às suas capacidades nucleares e de mísseis balísticos. Inevitavelmente, o número de vítimas civis também poderia aumentar exponencialmente.

Para fins de argumentação, vamos esquecer que, em junho de 2025, Trump proclamou que a força aérea dos EUA “obliterou total e completamente” as capacidades nucleares do Irã. Desde que fez essa afirmação exagerada, ninguém no atual governo dos EUA tem permissão para criticar Donald, o Rei Louco, sobre seu brilhantismo militar como comandante-em-chefe das forças armadas do país.

Assim, em agosto de 2025, quando o tenente-general Jeffrey Kruse, chefe da Agência de Inteligência de Defesa, divulgou um relatório afirmando que os ataques dos EUA apenas atrasaram o programa nuclear do Irã em alguns meses, o secretário de Defesa, Pete Hegseth, o demitiu imediatamente. Parece que ninguém no governo quer imaginar o rei sem roupa.

Esquecendo, convenientemente, a ostentação do ano passado sobre a onipotência militar dos EUA, Trump ainda pode usar o argumento de que as capacidades nucleares do Irã ameaçam Israel e a paz no Oriente Médio. É uma forma de mobilizar setores céticos de sua base “América Primeiro” (MAGA, sigla do movimento Make America Great Again). Afinal, Trump tem feito campanha, desde 2016, afirmando ser contra envolvimentos estrangeiros e “guerras intermináveis”.

A ameaça militar “iminente”, que Trump e seus apoiadores alegam existir, pode encorajar os apoiadores do MAGA a se unirem em torno da bandeira e apoiarem a guerra, apesar de muitas reservas. No entanto, não devemos esquecer que essa estratégia não se mostrou muito eficaz para o presidente George W. Bush, quando insistiu, em 2003, que o Iraque possuía armas de destruição em massa (na verdade não as possuía).

E quanto a derrotar os apoiadores do Irã no Líbano, Gaza, Iêmen, Síria e Iraque? A guerra contra o Irã e a resposta do Hezbollah, com o lançamento de foguetes contra Israel, deram ao governo de Netanyahu a desculpa para infligir ainda mais danos à organização bem dentro das fronteiras do Líbano. Isso serve como sinal verde para dizimar o Hezbollah de uma vez por todas.

Entretanto, o Irã intensificou a guerra atacando países árabes que permitiram bases americanas em seus territórios, reacendendo ressentimentos e rivalidades seculares entre sunitas e xiitas. Curiosamente, nem os analistas de notícias, nem o Pentágono e a Casa Branca parecem levar em consideração essa divisão incrivelmente importante dentro do Islã.

Risco de perda de controle

Nas primeiras horas da guerra, vários países árabes, aliados dos Estados Unidos, recusaram-se a permitir que o Pentágono usasse seu espaço aéreo. No entanto, as retaliações do Irã contra os Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Kuwait, Catar, Iraque e Jordânia os levaram a entrar na guerra. Resta saber se eles atacarão o Irã, mas existe um risco real de que a guerra possa rapidamente se tornar um conflito regional difícil de conter.

Há também a questão da mudança de regime. No primeiro dia da guerra, ataques aéreos aniquilaram quase toda a liderança do República Islâmica. Tendo capturado com sucesso Nicolás Maduro na Venezuela e permitido que sua vice-presidente, Delsy Rodríguez, permanecesse no poder, Trump agora parece acreditar que esse é o modelo a ser empregado no Irã.

Ao anunciar, em 3 de março, que “alguém de dentro” do governo iraniano poderia ser a melhor escolha para assumir o poder, assim que a campanha militar EUA-Israel terminasse, Trump, no entanto, admitiu que “a maioria das pessoas que tínhamos em mente está morta”. Ele continuou a refletir: “Agora, temos outro grupo, que também pode estar morto, segundo relatos. Então, teremos uma terceira onda. Em breve, não saberemos de ninguém.” Que belo planejamento militar estratégico para o dia seguinte.

Dois nomes importantes, entre vários outros que circulam na mídia ocidental como possíveis sucessores do aiatolá Khamenei, são seu filho linha-dura, Mojtaba Khamenei, e Hassan Khomeini, o suposto neto reformista do fundador da República Islâmica.

Há outros líderes ligados à Guarda Revolucionária Islâmica, cujos nomes são comentados. Eles fazem parte de uma estrutura governamental sofisticada e complexa, com capacidade significativa para sufocar quaisquer levantes internos contra o regime atual. Representam continuidade, não ruptura. Como Trump corretamente aponta, a situação pode ser ainda pior do que antes da guerra.

E o que acontece depois que os bombardeios cessarem? Presumivelmente, de acordo com a análise de Trump, será uma oportunidade única para centenas de milhares de iranianos irem às ruas exigir a queda da República Islâmica. A maioria dos especialistas acredita que eles serão brutalmente reprimidos, como aconteceu no ano passado, quando Trump prometeu socorrê-los e depois recuou.

Linha vermelha

Se o massacre de manifestantes for a linha vermelha que, se cruzada, provocará uma resposta vigorosa de Trump, quase inevitavelmente será necessária a intervenção de tropas estrangeiras.

Isso representa um problema para Trump com sua base anti-intervencionista e pró-América Primeiro. Figuras importantes do movimento MAGA – Tucker Carlson, Megyn Kelly e Matt Walsh – já manifestaram sua oposição à guerra, sugerindo não necessariamente uma divisão, mas sim refletindo uma potencial desmoralização de alguns eleitores republicanos e independentes.

Frustrados com a mudança radical na política de Trump, um número significativo pode se abster nas importantíssimas eleições de meio de mandato de novembro, dando o controle do Congresso aos democratas.

Embora os parlamentares republicanos tenham permanecido unidos a Trump, votando contra uma tentativa de conter sua conduta por meio do uso da Lei de Poderes de Guerra, o público não é muito convencido da atual política do presidente para o Oriente Médio. Uma pesquisa da NBC indica que 54% dos americanos são contra a guerra. Há uma diferença de 13 pontos percentuais entre aqueles que se opõem à guerra e aqueles que são a favor da atuação de Trump em relação ao Irã, com um pequeno número demonstrando incerteza.

Os resultados mostram uma polarização contínua entre democratas e republicanos, mas alguns destes últimos parecem estar abandonando o presidente.

Ainda é cedo demais para dizer quantos.

Poderíamos acrescentar a isso a possibilidade de um número crescente de baixas entre os soldados americanos, especialmente se Trump for forçado a enviar tropas terrestres. Além disso, os preços do petróleo já estão subindo rapidamente, criando inflação e minando a capacidade do presidente de reduzir os preços e abordar a questão do acesso ao combustível, que será um tema fundamental nas próximas eleições. Adeus àquela promessa crucial de campanha.

Como sugerido acima, é verdade que Trump, o vigarista, poderia simplesmente declarar que venceu a guerra em algum momento de abril e, mais uma vez, exigir que receba o Prêmio Nobel da Paz. Mas fica a dúvida se esses gestos irão apaziguar parte de sua base e os “eleitores independentes”, que precisarão comparecer em grande número para apoiar os candidatos republicanos em novembro, caso Trump queira garantir a continuidade do controle do Congresso.

Neste momento, nenhum desses cenários, nem outros, parece favorável ao presidente. Talvez ele, assim como os soldados que, segundo relatos, desprezou com comentários pejorativos no passado, também seja um perdedor? 

Multilateralismo aos frangalhos https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/diplomacia-em-segundo-plano.html 

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