Trump precisa da guerra
Abraham
B. Sicsu
Queria ser Nobel da
Paz. Disse ter acabado com 8 guerras. Analistas questionam. Sua prática também.
Invadiu a Venezuela. Asfixia Cuba, inclusive com a falta criminosa de energia e
de alimentos. A bola da vez é o Irã.
Irã do regime
fundamentalista teocrático. Irã que financia e se apóia em cruéis grupos
terroristas. Irã do tratamento desumano a mulheres. Irã que em seus documentos
explicita o objetivo de destruir Israel. Não dá para ignorar ou contemporizar,
seu regime atual é uma ameaça real e perversa a um mundo que precisa ser menos
belicoso, mais humano e fraterno. Mas, a questão deste texto não é essa.
O
diretor do Centro Nacional de Contra Terrorismo dos EUA, renuncia ao cargo.
Segundo a CBN, Kent critica a guerra com o Irã e afirma que não era uma ameaça
iminente, sendo assumida, principalmente, por pressões externas, baseadas nos
interesses de Israel.
Falso,
Trump precisa da guerra. Defende seus próprios interesses. Inclusive
comprometendo a estabilidade social e econômica do mundo como um todo.
Evidentemente
que Netanyahu agradece. Vem ao encontro de seus objetivos, inclusive
postergando os julgamentos de crimes nos quais pode ser condenado na Justiça de
Israel e do mundo. Mas, não se enganem, Trump não entrou nesta guerra sem ter
muito claros os resultados que espera para si.
Construir
uma narrativa é fundamental para o momento que se atravessa. Desviar o foco da
crise interna americana e mostrar que a força é a arma dos poderosos faz parte
de um processo planejado. Em que quer apresentar a América do Norte como líder
poderoso do mundo.
A
promessa de campanha era que haveria um crescimento vertiginoso da economia
americana. Não a largo prazo, mas imediatamente. Com isso, empregos de
qualidade retornariam, a massa salarial aumentaria. Não parece o que vem
acontecendo neste início de ano.
O
“tarifaço” teve um efeito perverso e a inflação começou a crescer. O produto
interno bruto não parece estar reagindo nas proporções esperadas. O custo de
vida aumentou e a classe trabalhadora começa a protestar.
Foi
prometido estancar o processo de desindustrialização e repatriar investimentos
industriais para melhoria das condições internas. Com o tarifaço se conseguiu
pouco e com o Judiciário considerando-o ilegal, menos se deve avançar. A não
ser a deterioração das contas públicas do próprio governo americano.
A
concorrência com a China seria estancada e medidas altamente protetivas fariam
com que os Estados Unidos ficassem em primeiro lugar. Outro ponto não alcançado
e difícil de avançar. A dependência americana de produtos asiáticos faz com que
a situação pouco se modifique.
Apesar
do crescimento do PIB de 2,2% em 2025, a economia perdeu força no final do ano,
com temores persistentes de estagflação (inflação alta com recessão). Analistas
alertam para riscos de recessão com a volatilidade do petróleo. O mercado
imobiliário enfrentou em 2025 seu pior ano de vendas em quase três décadas, com
um alto número de hipotecas ativas.
Lembrar,
também, que nos EUA é ano de eleição de meio de mandato. E a maioria nas duas
Casas dos Republicanos está ameaçada.
“Uma
pesquisa conjunta do The Washington Post, ABC News e Ipsos revelou em 25 de
fevereiro de 2026 que o entusiasmo eleitoral entre apoiadores democratas supera
em 14 pontos percentuais o dos eleitores republicanos. Maior diferença nas
pesquisas de anos recentes.”
O uso do
gasto público e da corrida tecnológica associada à gastos com a defesa como
motor de crescimento pode ser uma alternativa para estancar essas variáveis.
Nisso Trump aposta e está se estruturando para auferir resultados. Inclusive de
financiamento para futuras campanhas. Nada melhor que uma guerra para
justificá-los.
Também,
bom ter em mente que as Big Techs foram as grandes financiadoras da campanha do
presidente americano. Os esforços de guerra aceleram em muito os investimentos
em Inteligência Artificial. E isso muito interessa a estas empresas.
O valor
de mercado das empresas ligadas à IA cresceu de forma explosiva na última
década, e hoje as maiores empresas do mundo estão diretamente associadas às
expectativas de lucros futuros dessa tecnologia.
“Juntas, essas gigantes já representam um
valor equivalente a mais da metade do PIB americano. Esse boom tem sido alimentado
por investimentos colossais: estima-se que as empresas de tecnologia planejem
gastar, nos próximos cinco anos, mais que o PIB americano em desenvolvimento de
novas plataformas e produtos.”
O
perigo, ressaltado pela grande maioria dos analistas do mercado financeiro, é
que haja um estouro da Bolha, dada a valorização desproporcional desses ativos
frente à demanda e novos investimentos. Se isso é uma possibilidade, a aposta
do governo americano é poder postergar esse evento e minimizar possíveis impactos
com recursos massivos do governo nas empresas desenvolvedoras e implementadoras
de novas plataformas e algoritmos.
Nesse
cenário, criar um inimigo externo e deflagrar uma guerra torna-se uma forma
desesperada de administrar a frustração social sem enfrentar suas causas
profundas. Por um lado, a guerra mascara o fracasso econômico, por outro
permite esforços midiáticos no sentido de aumentar o ufanismo e a falsa crença
de que os EUA retomam a liderança do processo mundial.
O desastre de Trump no Oriente Médio https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/oriente-medio-trump-atira-no-proprio-pe.html

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