31 dezembro 2025

Minha opinião

Nem escritor, nem médico ou fotógrafo
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65  
 

Escrevo quase que diariamente há mais de 25 anos, sem contar o período de faculdade e mesmo quando da clandestina militância contra a ditadura. Há 23 anos, ininterruptamente, mantenho a coluna semanal no portal Vermelho. E em várias oportunidades, em outros portais e sites, assim como diariamente no meu próprio blog [Blog de Luciano Siqueira], tenha dois livros de crônicas e artigos publicados, escritos meus incluídos em duas coletâneas de autores pernambucanos e cumprido a desafiante tarefa de escrever treze prefácios de obras de gêneros diversos.  

Fiz o curso de medicina na Universidade Federal de Pernambuco, onde também cumpri o período da residência médica e, com o mesmo caráter de pós-graduação, tornei-me também médico sanitarista pela Fiocruz em convênio com a UFPE. Mas tive interrompida a atividade profissional nos idos de 1982, quando se tornou incompatível cumprir a rotina de um bom médico concomitantemente com o exercício do mandato de deputado estadual, em conjuntura de retomada das lutas sociais e de muita exigência militante, no crepúsculo do regime militar. 

Mas não sou escritor, nem médico. Da mesma forma como também não me considero fotógrafo — embora faça flagrantes a vida inteira, desde a antiga câmera Kodak "caixão" até uma boa Yashika, que já não uso desde que surgiu a praticidade do smartphone.

Aos títulos renuncio conscientemente por uma razão muito simples e objetiva: ao profissional cabe a permanente articulação entre a teoria e a prática, demandando a sistematização do que realiza e muito estudo teórico. 

Como me considerar escritor se jamais me interessei pela teoria da literatura — e, portanto, leio e escrevo muito, mas sem o rigor da técnica?

Médico, além do distanciamento progressivo da prática e da teoria, definitivamente deixei de ser quando já há alguns anos passei a ouvir de vários colegas o anúncio de conceitos novos sobre um sem-número de patologias, em razão da evolução da pesquisa científica.

"Esqueça tudo o que você aprendeu sobre úlcera péptica duodenal", advertiu-me um colega médico, recém-vindo de um Congresso, em encontro casual no aeroporto de Brasília, já faz mais de vinte anos.

Observações semelhantes ouvi de outros colegas a propósito da glomerulonefrite difusa aguda, da conduta emergencial em paciente asmático e outras entidades clínicas.

Então, sou ex-médico — convicto e consciente. 

A prática da fotografia eu realizo à base da mais pura intuição, não mais do que isso. E até consigo, de vez em quando, reconheço, produzir boas imagens.

"Você tem um olho bom", vaticinou um amigo fotógrafo profissional referindo-se ao que ele considera o bom enquadramento e correto uso da luz em algumas fotos minhas. Quanta honra!

Por que a renúncia a esses quase epítetos? Por respeito à ciência, à boa técnica literária e à arte da imagem. E aos profissionais que as exercem.

E assim sigo sensível ao fácie dos que se queixam de alguma enfermidade; leitor assíduo dos grandes escritores e do bom jornalismo e observador criterioso da imagem fotográfica.

Pronto. Mais uma confissão neste último dia do atribulado ano de 2025, às vésperas do desafiante 2026.

[Ilustração: Salvador Dali]

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Leia também: Feliz Ano Novo em Santana do Ipanema https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/minha-opiniao_31.html  

Boa notícia

Lula destaca recorde na queda da taxa do desemprego, a menor da série
“Enquanto 2025 não acaba, seguimos batendo recordes. Menor desemprego da série histórica, e aumento de renda da população”, diz o presidente
Iram Alfaia/Vermelho   

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva comemorou nesta terça-feira (30) mais um recorde do seu governo: o Brasil registrou a taxa de 5,2% do desemprego, a menor da série histórica iniciada em 2012.

Desse modo, o Brasil superou a marca de 5 milhões de empregos com carteira assinada desde 2023.

O país teve saldo de 85 mil vagas formais em novembro e totaliza, no ano, 1,89 milhão, segundo os dados do Novo Caged divulgados pelo Ministério do Trabalho e Emprego.

“Enquanto 2025 não acaba, seguimos batendo recordes. Menor desemprego da série histórica, e aumento de renda da população. Que 2026 seja de ainda mais prosperidade e oportunidades para o povo brasileiro”, festeja o presidente.

Lula diz que este ano ficou comprovado o avanço do povo com o trabalho do governo. “Emprego, renda, direitos e esperança voltaram à vida de milhões de brasileiros. Avançamos muito, mas o Brasil pode ir mais longe. Seguimos firmes, com trabalho, fé e compromisso com o povo”, afirma.

Segundo o IBGE, o número de empregados com carteira assinada no setor privado, incluindo os trabalhadores domésticos, foi recorde da série (39,4 milhões), com estabilidade no trimestre e alta de 2,6% (mais 1,0 milhão de pessoas) no ano.

O número de empregados sem carteira no setor privado (13,6 milhões), por sua vez, ficou estável no trimestre e recuou 3,4% (menos 486 mil pessoas) no ano.

O número de empregados no setor público (13,1 milhões) foi recorde da série histórica, com alta de 1,9% (mais 250 mil pessoas) no trimestre e de 3,8% (mais 484 mil pessoas) no ano.

Destaques

De janeiro a novembro de 2025, os cinco grandes grupamentos de atividades econômicas registraram saldo positivo.

O destaque foi o setor de Serviços, com +1.038.470 postos (+4,5%) e especial vitalidade nas atividades de Informação, comunicação e atividades financeiras, imobiliárias, profissionais e administrativas (+409.148), além de administração pública, defesa e seguridade social, educação, saúde e serviços sociais (+317.540).

O Comércio registra saldo positivo no ano de +299.615 postos formais (+2,8%). Os destaques são o Comércio Varejista (+186.268), o Comércio por Atacado (+67.888) e o Comércio de Reparação de Veículos e Motocicletas (+45.459). 

A Indústria acumula saldo de +279.614 novos postos de janeiro a novembro de 2025, com destaque para Fabricação de produtos alimentícios (+71.845), Manutenção, Reparação e Instalação de Máquinas e Equipamentos (+20.304).

A Construção, por sua vez, gerou +192.176 postos formais de trabalho no ano, com destaque para elevações expressivas nos segmentos de Construção de Edifícios (+79.304), de Serviços Especializados para Construção (+58.051) e Obras de Infraestrutura (+54.821).

A Agropecuária também apresenta saldo positivo, de +85.276 postos de trabalho em 2025, com destaque para o Cultivo de Laranja (+14.446), o Serviço de Preparação de Terreno, Cultivo e Colheita (+8.979) e Cultivo de Soja (+8.059). (Com informações do MTE)

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Pobreza e desigualdade caem ao menor nível em três décadas https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/11/boa-noticia_25.html 

Direita em crise

Brasil – os naufrágios das direitas
Enquanto o governo consolida vitórias diplomáticas e econômicas, as oposições enfrentam um cenário de fragmentação, marcado por tentativas frustradas de pautar a segurança pública e a política externa
Flávio Aguiar*/A Terra é Redonda 

1.

Aziago: eis uma palavra que jamais pensei que usaria no jornalismo contemporâneo. Pois bem: apesar de toda a barulheira que fazem no Congresso Nacional e das iniciativas que ali tomam, apesar de toda a acolhida que encontram na mídia corporativa, no plano federal 2025 foi um ano aziago para a direita e a extrema direita brasileiras. Aziago: ruim e de mau agouro.

Para começo de conversa, o governo Lula acumula índices altamente positivos na área social: taxas de desemprego e pobreza em mínimos históricos Brasil mais uma vez fora do Mapa da Fome, inflação baixa, PIB com crescimento de algarismos modestos mas constante, uma proeza no mundo geoeconômico perturbado de hoje. Tudo isto configura um momento insuportável para a extrema-direita e para a direita.

Na política externa Lula e o Brasil se reafirmaram como lideranças na questão do clima, com presença marcante e positiva em todos os fóruns frequentados, apesar das contrariedades, dificuldades e controvérsias, como no acaso do acordo entre o Mercosul e a Uniã Europeia.

Um caso emblemático foi o da COP30. Tão logo ele entrou no radar das pautas da mídia corporativa, começou a caça a problemas e “fracassos”. Criticava-se tudo: da escolha da sede (Belém) ao preço dos aluguéis, da falta d’água em algumas torneiras à ausência de um cardápio exclusivamente vegetariano (apud Paul McCartney). E só criticava-se. Havia sempre amplo espaço para quem pontasse o esvaziamento do encontro devido à ausência de lideranças importantes e da defecção dos Estados Unidos.

Pois bem: o feitiço voltou-se contra os feiticeiros. O propalado esvaziamento de lideranças abriu espaço para a reafirmação de uma delas: a de Lula, que confirmou sua posição de primeiro plano na questão, projetou a Amazônia em escala mundial e conseguiu a aprovação do fundo Florestas Tropicais para Sempre, com a adesão de 53 países e a captação imediata de 5,5 bilhões de dólares, cerca de 50% do capital total almejado. Lula e o Brasil saíram vitoriosos.

Pode-se dizer que todas as grandes apostas políticas que a extrema direita e a direita fizeram deram errado no todo ou em parte, apesar dos esforços midiáticos para minimizar ou negar os fracassos.

2.

Em 2025 a extrema direita e a direita in extremis, isto é, aquela que é mas não quer parecer que é, ou que não é, mas a ela se rendeu, adotaram uma formação em pinça, Num braço atuavam os governadores de direita, liderados por Tarcísio Freitas (SP), Zema (MG), e Claudio Castro(RJ), secundados por Ronaldo Caiado (GO) e Ratinho Jr (PR),além de outros.

No outro, a família Bolsonaro e seus fanáticos fãs, transformados numa pulga na camisola de que o restante da direita não consegue se livrar. Na base da pinça, a mídia corporativa e seus comentaristas de pjantão, tentando transformá-la numa frente, insistindo em que o governo Lula está na lona, falto de cacife ou de governabilidade, além de apressar uma falênoa do presidencialismo de coalizão devido a um conflito insolúvel entre os poderes.

Ambos os braços da pinça apostaram em apoiar o tarifaço de Donald Trump e as sanções contra Alexandre de Moraes. Deu errado. Suas próprias bases, prejudicadas em seus interesses, rejeitaram a ideia. Tentaram dizer que a culpa era de Lula e sua “ideologia” de se aproximar da Rússia e da China nos BRICS. Tampouco deu certo. Tiveram de fechar o bico.

Ao contrário das lideranças da União Europeia, que foram fazer uma verdadeira cerimônia de baija-mão do presidente norte-americano, Lula peitou Donald Trump com conversa e moderação, e ganhou. Alexandre de Moraes foi reabilitado nos Estados Unidos e as tarifas parcialmente removidas.

O que aconteceu?

Acontece que Marco Rubio, o direitista extremado que é o Secretário de Estado do governo norte-americano, tem os pés no chão, ao contrário de Trump, e sabe que tem de negociar o acesso às terras raras, de que o Brasil é o segundo depositário no mundo, com Lula e o Itamaraty, não com o pirotécnico Eduardo Bolsonaro.

O caso do tarifaço ainda não terminou de todo, mas Lula já foi o vencedor por pontos, sem nocautear o adversário. E Alexandre de Moraes e esposa tiveram seus direitos nos Estados Unidos restabelecidos.

Ressalte-se que esta vitória diplomática brasileira se deu num momento extremamente adverso, com os Estados Unidos revivendo uma nova versão grotesca da doutrina Monroe e da política de Theodor Roosevelt, a saber, a do “carry a big stick and don’t speak softly”.

Jair Bolsonaro segue preso e depois do episódio em que tentou derreter peça da tornozeleira, em prisão de Brasília. Seus filhos clamam e reclamam, sem resultado. Na briga por espaço com seus aliados e concorrentes – os governadores e a mãe, Flávio Bolsonaro se auto-proclamou candidato à presidência. Leu em público uma carta de apoio à sua pré-candidatura, escrita à mão pelo pai à beira de uma cirurgia. Foi uma tentativa canhestra de imitar a Carta Testamento de Getúlio Vargas, que causou profunda irritação em Michelle Bolsonaro e entre demais aliados.

3.

Outra tentativa frustrada dos Bolsonaro foi a de fomentar o boicote às sandálias Havaianas, depois do comercial de Fernanda Abreu apregoar a entrada no Ano Novo com os dois pés, ao invés de apenas com o pé direito. Apesar de apoio ao boicote por parte do Véio da Havan e de alguns outros lojistas e jornalistas, depois de ligeira queda as ações da Alpargatas, dona das Havaianas, voltaram a subir significativamente na Bolsa de Valores, e as lojas Havaianas permanecem cheias.

Às vésperas da Cop30 o quadro era muito negativo para as direitas. Lula e o governo contavam com bons índices econômicos e sociais. Lula continuava na frente em todas as pesquisas de votação para 2026, embora a mídia corporativa e os institutos de pesquisa procurassem diariamente uma alternativa eleitoral viável e sua projeção internacional fosse inconteste.

Cria-se um quadro paradoxal: nas pesquisas, Lula é reprovado pela maioria e ao mesmo tempo ganha de todos os adversários. Neste contexto as direitas lançaram uma cartada desesperada, cometendo aquilo que de melhor podem produzir em matéria de efeito midiático: um massacre de favelados.

Digo massacre porque foi o que aconteceu na mata da Serra da Misricórdia entre as favelas da Penha e do Alemão. Nas palavras da mídia corporativa e do governador Claudio Castro houve um “combate” ou algo assim entre forças policias em operação e narcotraficantes em fuga. Estranho “combate”, com 117 mortos de um lado (os favelados) e quatro do outro (os policiais, depois cinco, com o falecimento de um ferido).

Parecia um daqueles relatos norte-americanos sobre “combates” no Vietnã, em que morriam um ou dois de seus militares, se tantos, alguns sul-vietnamitas e centenas de “vietcongues”, sendo que na contagem destes se incluíam os civis que não eram guerrilheiros, mortos por estarem no lugar errado na hora errada.

A ideia que tomou forma na ocasião era de substituir as pautas sociais e da soberania nacional, além da climática, em que Lula navegaria de vento em popa, pela sa segurança, mais favorável às direitas.

Não deu muito certo. Primeiro, porque tratou-se de um massacre, como ficou mais ou menos claro em reconstituições posteriores, ainda que vagas e truncadas.[1] E segundo porque a justificativa para o massacre se ancorou num conceito de pernas curtas pelo menos para o Brasil, o do “narcoterrorismo”, importado do discurso de Donald Trump.

Este conceito ou algo parecido com ele foi usado pela primeira vez nos Estados Unidos em relação ao Cartel de Medellin, no século passado, acusado de pretender influenciar governos locais colombianos através de ações violentas.

Ele foi mobilizado também contra a guerrilha colombiana (FARC e ELN), além do tema ser mencionado em 1989, quando os Estados Unidos invadiram o Panamá para derrubar o presidente Manuel Noriega que, aliás, já fora um agente norte-americano. Porém ele ganhou maior robustez no século XXI, ao ser usado para acusar altos oficiais das Forças Armadas venezuelanas e o presidente Hugo Chavez de assambarcarem e chefiarem um suposto mega-cartel chamado de “Cartel de los Soles”. Esta mega-organização coordenaria, segundo denúncias, as atividades de vários cartéis em diferentes países latino-americanos com o objetivo de inundar os Estados unidos com drogas. A Revolução Bolivariana e o Chavismo teriam, assim, transformado o Estado venezuelano num narco-Estado, hoje chefiado por Nicolás Maduro.

4.

O governo Donald Trump nada mais fez que trombetear o conceito aos quatro ventos para justificar suas ações violentas contra a Venezuela. E a pinça das direitas no Brasil apressou-se em apossar-se dele para adaptá-lo ao Brasil, sempre apontando que o governo de Lula é incapaz de enfrentar o problema. Tentaram aprovar uma nova-lei anti-crime no “seu” Congresso, apresentando-se como as lideranças responsáveis e capazes de combater o crime organizado.

A manobra não deu certo. É difícil falar de “projetos políticos pára-institucionais” em relação a organizações criminosas brasileiras, como o PCC e o Comando Vermelho, mais próximas da Faria Lima do que de Brasília. Segundo, porque suspeitas maiores de envolvimento com facções criminosas pairam mais sobre o braço bolsonarista da pinça do que sobre o PT e o governo Lula. Terceiro porque inicialmente o tal de “novo projeto anti-crime” revelou-se uma manobra para limitar a ação da Polícia Federal e teve de ser modificado várias vezes.

Além disto as direitas apostaram na proteção de um mandato já esvaziado, o de Carla Zambelli e, na data de votos suficientespara cassá-lo, na suspensão do deputado Glauber Braga.

Tudo isto não impede que a base midiática da pinça das direitas fale diariamente de crises e mais crises institucionais entre os poderes da República, acenando continuamente com uma falta de governabilidade ou com o “esgotamento do atual modelo de presidencialismo de coalizão”,[2] o que aponta subrepticiamente na direção de uma emenda parlamentarista ou, in extremis, de uma ditadura. De direita, é claro.

Mais recentemente lançou-se a pré-candidatura de Fláavio Bolsonaro, secundada pela “Carta-Testamento” do pai, num movimento que neutraliza Tarcísio de Freitas, Michelle e os demais pré-candidatos. Além disto, como Alexandre de Moraes foi “absolvido” pelo governo-morte-americano, busca-se atingi-lo sem provas até o momento, com o escândalo do Banco Master. E há ainda a aposta no projeto da dosimetria, que pode ser declaro inconstitucional.

Resumo da ópera: Lula termina o ano numa posição confortável (não se confunda com zona de conforto, porque as direitas são solertes, tenazes) em relação à eleição de 2026. Enquanto isto, as direitas ainda se parecem mais com um bando de náufragos em busca de boias de salvação do que uma “galera singrando os mares de norte a sul”.

Em parte, isto se deve ao fato de que as direitas não têm mais “projetos”, trocados pela “defesa de valores tradicionais”; têm apenas “programas”, os de desmonte das funções sociais do Estado e de seus mecanismos de controle – como no caso daquele novo projeto de lei anti-crime que, no fundo, beneficiava o crime. Isto é tema para outro artigo, que este já vai longo.

*Flávio Aguiar, jornalista e escritor, é professor aposentado de literatura brasileira na USP. Autor, entre outros livros, de Crônicas do mundo ao revés (Boitempo). [https://amzn.to/48UDikx]

Notas


[1] Ver, a respeito artigo de Manuela Andreoni, Fábio Teixeira e Luciana Novaes Magalhães, “How Brazil’s deadliest police raid turnrf into a bloodbath”, publicado pela Reuters em 20/12/2025. Nele fica claro, através de polimentos colhidos a posteriori, que a operação foi mal planejada e mal executada, redundando, primeiro, numa emboscada com morte de policiais. O massacre aconteceu depois, por um misto de espírito de vingança e pânico diante da possibilidade de os policiais caírem em novas emboscadas.

https://www.reuters.com/world/americas/how-brazils-deadliest-police-raid-turned-into-bloodbath-2025-12-20

[2] Ver, a proposito, o artigo da Maria Hermínia Tavares. “Nem crise, que sirá institucional”, públicado na Folha de São Paulo em 17/12/2025. Nele a autora aponta que, apesar de algumas derrotas e outros contratempos, o governo conta com vários projetos tramitando normalmente no Congresso. https://www1.folha.uol.com.br/colunas/maria-herminia-tavares/2025/12/nem-crise-que-dira-institucional.shtml#:~:text=

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Leia também: Tapando o sol com a peneira https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/minha-opiniao_17.html 

Postei nas redes

Os dados do desemprego no Brasil mostram que o país se recuperou dos baques dos últimos anos. Recorde de trabalhadores com carteira assinada e menor número de desocupados em 13 anos.

Otimismo com 2026 cresce e vai a 69% entre os brasileiros https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/boa-noticia_28.html 

Palavra de poeta

Passagem de ano
Carlos Drummond de Andrade 

O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia e
coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.

O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus…

Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.

O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles… e nenhum resolve.

Surge a manhã de um novo ano.

As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.

[Ilustração: Cildo Meireles]

Leia também: Feliz Ano Novo em Santana do Ipanema https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/minha-opiniao_31.html  

Minha opinião

Feliz Ano Novo em Santana do Ipanema
Luciano Siqueira 
instagram.com/lucianosiqueira65  

A essa altura da vida já dá pra rememorar muitas passagens de ano – dos inocentes tempos de criança às complexas e ricas experiências da idade adulta. Romper o ano tornou-se importante em todas as fases da vida – e invariavelmente emocionante, inesquecível. A primeira emoção de menino ao ver as pessoas se abraçarem saudando o Ano Novo e a vovó Neném, destoando de todos, chorando de saudade do Ano Velho que se ia para sempre. A indescritível sensação de estar fazendo História ao entoar, em coro improvisado, no pavilhão dos presos políticos em Itamaracá, o estribilho da Internacional: “Bem unidos façamos/dessa luta final/uma terra sem amos/a Internacional”.

A mesma sensação experimentada pelo jovem casal de comunistas constrangido a viver a passagem de ano no porão de uma modesta casa de Santana do Ipanema, no sertão das Alagoas, à luz de lamparina, os olhos atentos às imensas baratas que nos causavam asco e o receio de que escorpiões aquartelados num monte de carvão e metralha nos atacassem a qualquer momento. É que havíamos sido condenados a permanecer naquele espaço exíguo e sujo por alguns dias, após sermos comunicados pela proprietária que a moradia alugada um mês antes, com a garantia de que no dia 30 de dezembro estaria desocupada, ainda acolhia a filha e o genro em vias de se transferirem para o Rio de Janeiro.

Havíamos trazido na carroceria de um caminhão, desde a estação ferroviária de Palmeira dos Índios, nossos poucos pertences e a mobília tosca e mínima. Não tínhamos para onde ir, nem dinheiro para nos alojarmos num hotel. Éramos vendedores ambulantes de confecções, apenas alguns trocados no bolso. Estávamos nos mudando de Maceió para Santana do Ipanema em função do plano estratégico do Partido para a região.

Como gostaríamos de estar naquele instante entre pessoas queridas, junto a familiares e a companheiros de luta, ou mesmo ao lado dos novos vizinhos que ainda não conhecêramos! Porém uma ponta sequer de tristeza nos acometeu, muito mais forte era a chama que nos nutria – e que cuidamos de atiçá-la no primeiro dia do ano, refletindo sobre o ocorrido enquanto passeávamos pela cidade de mãos dadas, falando de amor e revolução.

Mais tarde, após os duros anos de clandestinidade, da prisão e das torturas, e já com a presença de Neguinha e Tuca, a passagem de ano se tornou um ritual à beira-mar, poético e divertido, que repetimos todos os anos, onde não falta (que não se tome como sacrilégio) a oferta de flores a Iemanjá. Este ano, além de sobrinhos e genros, a novidade é o todo-poderoso Miguel, o segundo neto, o olhar atento e o sorriso fácil de quem nasceu há pouco menos de três meses.

Vivemos tão intensamente o tempo presente e são tantos os planos para o futuro, quase não há como nos ocuparmos do que passou. Mas permanece marcante e carinhosa a lembrança daquela noite em Santana do Ipanema.


(Publicado no portal Vermelho em 2006; incluído em meu livro de crônicas "Como o lírio que brotou no telhado" – Editora Anita Garibaldi, São Paulo, 2007).

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Leia: Palavra do PCdoB: defesa da democracia com Lula https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/a-orientacao-do-pcdob.html 

30 dezembro 2025

Boa notícia

MCTI investe R$ 2 bilhões para alavancar a ciência e a soberania tecnológica
Aportes foram dedicados a ações estratégicas para fortalecer a infraestrutura de pesquisa, fomentar a inovação e ampliar a capacidade científica nacional
Priscila Lobregatte/Vermelho  

O Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) informou, em balanço publicado nesta última semana do ano que, em 2025, R$ 2 bilhões foram aportados em investimentos, incluindo editais, chamadas públicas e outras ações estratégicas. 

De acordo com o MCTI, tais aportes tiveram como meta “fortalecer a infraestrutura de pesquisa, fomentar a inovação e ampliar a capacidade científica nacional”, a fim de fazer o Brasil avançar na construção de sua  soberania tecnológica e no uso da inteligência artificial (IA), entre outros pontos, levando em conta os interesses nacionais e o combate às desigualdades.

“Soberania tecnológica não é um conceito abstrato. Ela se constrói com investimento contínuo, com políticas bem desenhadas e com gente qualificada trabalhando para que o Brasil não dependa de soluções externas em áreas estratégicas”, explicou a ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos. 

Em 2025, completou a ministra, “demos passos decisivos para estruturar essa autonomia, do incentivo à indústria de TICs (Tecnologias da Informação e Comunicação) à inteligência artificial, passando pela supercomputação e pelos semicondutores”. 

Divisão de recursos

Uma das frentes que mais recebeu recursos foram os editais do Pró-Infra (Programa de Apoio ao Desenvolvimento da Infraestrutura), cujos aportes somaram R$ 1 bilhão, focados, sobretudo,  na expansão e na criação de centros temático. 

O Pró-Infra é um conjunto de iniciativas voltadas a fomentar a infraestrutura de pesquisa científica e tecnológica, modernizar laboratórios, adquirir equipamentos e apoiar centros temáticos. Conforme o MCTI, o objetivo é “reduzir assimetrias regionais e aumentar a inovação e a soberania tecnológica do país”.

Desse total, R$ 500 milhões foram para o Pró-Infra Expansão, destinado à ampliação de infraestrutura de pesquisa em universidades e institutos de ciência e tecnologia ( ICTs ), incluindo aquisição de equipamentos, elaboração de projetos de engenharia e execução de obras complexas. 

Outros R$ 500 milhões foram dedicados ao Pró-Infra Centros Temáticos, voltado à criação e modernização de estruturas científicas em seis áreas: agroindústria sustentável, saúde, mobilidade urbana, transformação digital, bioeconomia/transição energética e tecnologias para soberania e defesa. 

IA e soberania digital

Questões-chave para o desenvolvimento autônomo do Brasil nas próximas décadas, as áreas de inteligência artificial (IA) e soberania digital também estiveram no foco das ações. 

Neste sentido, uma das principais ações foi a consolidação do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (Pbia), que destinou R$ 92,8 milhões para oito institutos nacionais de ciência e tecnologia. 

Os investimentos, segundo o MCTI, priorizaram aplicações de inteligência (IA) em áreas estratégicas, como saúde, educação, governo digital e segurança de dados, além do desenvolvimento do modelo brasileiro de linguagem SoberanIA , treinado em português.

Cabe salientar ainda que, conforme levantamento do ministério, neste ano R$ 267 milhões foram investidos em projetos estratégicos de Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs), um crescimento de 116% no fomento em relação a 2024.

Popularização e apoio aos cientistas

De acordo com o balanço, também foi prioridade para a pasta em 2025 a popularização da ciência, frente que recebeu R$ 60 milhões para iniciativas como feiras, olimpíadas científicas e ações educativas. Também foram financiadas ações de tecnologia assistiva, inclusão de meninas e mulheres na ciência e recuperação de acervos, “reforçando a ciência como instrumento de cidadania e acesso democratizado ao conhecimento”, informa o ministério. 

Outras duas frentes tidas como centrais foram o programa Repatriar e Fixar Talentos, um esforço de recompor o quadro científico brasileiro e combater a chamada “fuga de cérebros”. Segundo o MCTI, a iniciativa prevê R$ 200 milhões anuais, totalizando R$ 1 bilhão em cinco anos. Até o momento, mais de 2,5 mil cientistas manifestaram interesse em retornar ao País, com 599 aprovados e 248 aptos a serem convocados.

Ainda conforme o balanço, ao longo do ano o MCTI também voltou-se para a ampliação de políticas de formação profissional, com o objetivo de “apresentar uma resposta robusta para demandas crescentes em tecnologias digitais, hardware, segurança cibernética e inclusão educacional”.

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Terras raras: por que evitar aproximação com os EUA https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/10/reservas-estrategicas.html

Minha opinião

Quais partidos?
Luciano Siqueira 

Em editorial, a Folha de S. Paulo comenta números da última pesquisa Datafolha a propósito dos partidos políticos no Brasil e proclama a necessidade de que busquem relevância na sociedade.

Entretanto, uma pesquisa rigorosa nos arquivos do jornal certamente constatará ser este um tema recorrente nas suas páginas, sobretudo quando se aproximam eleições no país. 

Entretanto, jamais a Folha propugnou uma reforma política democrática, que efetivamente propicie ao eleitor calçar o seu voto em ideias e não quase exclusivamente, como acontece agora, mediante a dispersão de proposições que efetivamente enfrentem problemas de fundo de nossa sociedade e mesmo a distorção do poderio econômico, que favorece legendas conservadoras e de extrema direita. 

No editorial citado, ao contrário, lê-se comentário meramente superficial e tendencioso, pondo num mesmo saco legendas “de aluguel” e partidos políticos programáticos. 

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Lula e Trump: pragmatismo diplomático https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/10/minha-opiniao_27.html

Palavra de poeta

O habitante
(ao meu pai)
Mia Couto  

Se partiste, não sei.
Porque estás,
tanto quanto sempre estiveste.

Essa tua,
tão nossa, presença
enche de sombra a casa
como se criasse,
dentro de nós,
uma outra casa.

No silêncio distraído
de uma varanda
que foi o teu único castelo,
ecoam ainda os teus passos
feitos não para caminhar
mas para acariciar o chão.

Nessa varanda te sentas
nesse tão delicado modo de morrer
como se nos estivesse ensinando
um outro modo de viver.

Se o passo é tão celeste
a viagem não conta
senão pelo poema que nos veste.

Os lugares que buscaste
não têm geografia.

São vozes, são fontes,
rios sem vontade de mar,
tempo que escapa da eternidade.

Moras dentro,
sem deus nem adeus.

[Ilustração: Hugo Castilho]

Leia também um poema de Sophia de Mello Breyner Andresen https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/08/palavra-de-poeta_3.html 

Imprensa "marron"

O massacre do BNDES e o caso Malu Gaspar
Malu Gaspar foi porta voz do MPF na campanha implacável contra o BNDES. Confrontada com dados reais... ignorou e não deu desmentido.
Luís Nassif/Jornal GGN  

No auge da Lava Jato, o BNDES foi alvo de uma campanha implacável do Ministério Público Federal, através do procurador Ivan Marx. O auge foi uma condução coercitiva de quase 40 funcionários. Foi cometida toda sorte de vilania. 

Principal porta-voz da operação na mídia, Malu Gaspar contava que um executivo da Andrade Gutierrez só conseguiria ser liberado se entregasse o BNDES. O artigo terminava com um fecho ameaçador:

“O que está claríssimo é que, se depender da Lava Jato, não sobrarão mistérios a respeito dos esquemas que cercaram o banco de fomento. Em entrevista à mesma Época que publicou a delação de Antunes, o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima, um dos porta-vozes da força-tarefa de Curitiba, foi direto: “Só há lugar para mais uma empreiteira” nos acordos com o MP. O que ele não disse, mas até as hortências dos parques de Curitiba já entenderam, é que, se quiser ser essa empreiteira, a Odebrecht tem de entregar o BNDES”. 

Aí entra o padrão que conspurcou o jornalismo no período Lava Jato e, agora, ameaça voltar. No Foro de Teresina (o podcast da revista Piauí) Malu despejou novas acusações contra o banco, nas negociações com a JBS, tomando por base o mesmo procurador Ivan Marx. Havia muita informação incorreta.

Um assessor do banco entrou em contato com um conhecido, que trabalhava na revista Piauí, que lhe passou o contato de Malu.

Conversaram. O assessor dividiu sua exposição em dez pontos, demonstrando que as acusações de Ivan Marx não paravam de pé. Até reconheci que num primeiro momento era razoável ter alguma dúvida. Afinal, a JBS nunca tinha precisado lidar com o setor público e, na primeira vez que precisam, a empresa se torna a maior do mundo em proteínas. Num ambiente marcado por corrupção, seria fácil suspeitar da afirmação de Wesley Batista de que no BNDES “nunca me pediram nada de errado, do presidente ao faxineiro”.  

Mas era isso mesmo e Malu recebeu a informação sobre porque os sistemas de compliance do banco impedia a concretização de operações de suborno. Depois dos dez pontos, o assessor fez  uma correção técnica. Malu tinha dito que o BNDES estava alavancado. Foi-lhe explicado que era o contrário disso: o banco tinha índice de Basileia de 30%, quando o piso é 11%. O BNDES tinha se desalavancado.

Quando o programa seguinte saiu, Malu mencionou o contato e admitiu que devia uma correção. Qual foi? A do índice de Basileia!

O assessor escreveu para ela, explicou que o Índice da Basiléia era uma correção lateral, que havia acusações graves e infundadas, por parte de Ivan Marx, que tinham sido esclarecidas.

Ela disse que faria uma nova correção, mas que jamais foi mencionada ou publicada.

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Leia também: Sempre na superfície maledicente https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/minha-opiniao_22.html

Brasil em ebulição

No Brasil, 2025 é marcado por prisão de Bolsonaro, luta por soberania e embates no Congresso
Prisão de ex-presidente e militares representa marco histórico; Lula se destacou pela defesa da soberania frente a ataques de Trump
Portal Grabois www.grabois.org.br   

O ano de 2025 foi marcado pela tensão entre o Congresso Nacional, impulsionado pela ala conservadora formada pela aliança entre o centrão e a extrema direita, o Executivo e o Judiciário brasileiro, com atuação destacada no julgamento dos acusados pela tentativa de golpe, no dia 8 de janeiro de 2023. O processo resultou na prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro e de militares ligados a ele.

Em um ano de ataques por parte dos Estados Unidos, no primeiro ano da nova gestão de Donald Trump, a atuação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva se destacou pela defesa da soberania brasileira, pelo fortalecimento da presença do Brasil no BRICS e pelo posicionamento do país como representante do Sul Global. 

O ano político no Brasil começou com a eleição dos presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, respectivamente Hugo Motta (Republicanos-PB) e Davi Alcolumbre (União-AP), atreladas à manutenção da distribuição de emendas parlamentares, anunciando a disputa de poder com o Executivo.

Em seu discurso de posse, Motta afirmou que não houve tentativa de golpe de Estado em 8 de janeiro de 2023, mas sim vandalismo, sinalizando espaço para que projetos que concedam anistia aos golpistas de 8 de janeiro avancem no Parlamento, conforme analisou em sua coluna Ronald Freitas, membro do Comitê Central do PCdoB e coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Estado e Instituições da FMG.

denúncia da Procuradoria-Geral da República, encaminhada ao Supremo Tribunal Federal (STF) em fevereiro, aponta que Bolsonaro e outras 33 pessoas faziam parte de uma organização criminosa “constituída desde pelo menos o dia 29 de junho de 2021 e operando até o dia 8 de janeiro de 2023, com o emprego de armas (art. 2º da Lei n. 12.850/2013)”.

No documento de 272 páginas, o procurador-geral Paulo Gonet responsabiliza diretamente o ex-presidente pelos ataques aos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023 e pelos planos de assassinato do presidente Lula, Geraldo Alckmin e do ministro do STF, Alexandre de Moraes, então presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Apontado como líder da trama golpista, Bolsonaro é acusado junto de outros réus por cinco crimes: organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático, golpe de Estado, dano qualificado por violência e grave ameaça contra o patrimônio da União e deterioração de patrimônio tombado.

“Pela primeira vez na História do Brasil, uma tentativa de golpe de Estado foi alvo formal de denúncia da Procuradoria-Geral da República. O ineditismo levará militares de altíssima patente, filhotes do regime de exceção, da ideologia da tortura e da Lei de Segurança Nacional, ao banco dos réus, por conspirar contra um governo democraticamente eleito”, destacou a deputada federal Jandira Feghali (PCdoB-RJ) em sua coluna.

A reação da extrema-direita começou pelo Congresso Nacional, a partir da decisão do presidente da Câmara, Hugo Motta, que colocou em regime de urgência a tramitação do Projeto de Lei nº 2858, de 2022, com o objetivo de anistiar Bolsonaro e a cúpula militar golpista, após a denúncia da PGR.

Em março, Bolsonaro se tornou réu por tentativa de golpe de Estado na Ação Penal 2668, em decisão unânime do STF. Os ministros Flávio Dino, Luiz Fux, Cármen Lúcia e Cristiano Zanin, da Primeira Turma do STF, acompanharam o voto de Alexandre de Moraes, relator do caso.

Moraes afirmou que a PGR demonstrou indícios de que o ex-presidente e seus aliados podem ter cometido os cinco crimes apontados na denúncia.

Luta por soberania

Na tentativa de salvar Bolsonaro da prisão, partiu de seu próprio núcleo familiar o principal ataque à soberania brasileira, que expôs o alinhamento ideológico do bolsonarismo com o governo de Donald Trump nos EUA, contra os interesses nacionais. No contexto de taxações impostas por Trump ao Brasil, Eduardo Bolsonaro tentou condicionar a aplicação de novas tarifas ao Brasil, como forma de pressionar pela anistia aos golpistas.

Contra Trump e os sabujos, a resposta do Brasil foi de soberania e democracia, como analisou o presidente da Fundação Maurício Grabois, Walter Sorrentino, a partir do posicionamento do presidente Luiz Inácio Lula da Silva:

“O Brasil é um país soberano, com instituições independentes, e não aceitará ser tutelado por ninguém. […] Qualquer elevação unilateral de tarifas será respondida com base na Lei de Reciprocidade Econômica”, respondeu Lula ao ataque dos EUA.

O tema da soberania nacional ganhou o debate público no Brasil e perpassou as mesas do Ciclo de Debates para o 16º Congresso do PCdoB, organizado pela Fundação Maurício Grabois (FMG). As mesas realizadas em cinco capitais — São Paulo (SP), Rio de Janeiro (RJ), Salvador (BA), Porto Alegre (RS) e Recife (PE) — discutiram soberania, eleições de 2026, o partido, o papel da classe trabalhadora e os rumos do desenvolvimento nacional.

Em julho, o ministro Alexandre de Moraes determinou medidas cautelares contra o ex-presidente Jair Bolsonaro por coação, obstrução e atentado à soberania nacional. A medida foi solicitada pela Polícia Federal (PF), recebeu aval da PGR e foi referendada pela Primeira Turma do STF.

Petição 1419 impôs a Bolsonaro: uso de tornozeleira eletrônica; recolhimento domiciliar entre 19h e 6h de segunda a sexta-feira e em tempo integral nos fins de semana e feriados; proibição de acesso a embaixadas e consulados e de manter contato com embaixadores e autoridades estrangeiras; e proibição de utilização de redes sociais, direta ou indiretamente, inclusive por intermédio de terceiros.

O avanço do processo contra Jair Bolsonaro acentuou a luta interna na extrema-direita para escolher um sucessor, e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), reforçou sua aliança com o golpismo em busca da vaga do ex-presidente na disputa eleitoral do próximo ano. “Num momento em que a extrema-direita busca reorganizar suas forças, o governador de São Paulo se mostrou disposto a ajoelhar no altar do golpismo para herdar os votos de seu criador”, destacou o presidente da Fundação Maurício Grabois (FMG), Walter Sorrentino, após a participação do governador no ato dos bolsonaristas na Avenida Paulista no 7 de setembro.

“A esquerda e o campo popular em torno do presidente Lula retomam a iniciativa política por conta dos erros sucessivos que o campo bolsonarista cometeu e ainda cometerá até o final de 2025. Pela primeira vez em 10 anos, nós retomamos a iniciativa política devido ao discurso nacionalista, pela soberania do país”, avalia Elias Jabbour.

Em agosto, diante dos ataques dos Estados Unidos, Xi Jinping disse a Lula por telefone, que a China estaria “pronta para trabalhar com o Brasil para estabelecer um exemplo de unidade e autossuficiência entre os países do Sul Global” e afirmou apoiar o povo brasileiro na defesa de sua soberania nacional e na salvaguarda de seus direitos e interesses legítimos, “exortando todos os países a se unirem na luta decidida contra o unilateralismo e o protecionismo.”

“Esse é o momento da grande política em que Lula e Xi Jinping entram em cena para buscar uma solução coordenada entre esses dois países e os BRICS de uma forma geral, diante dessa nova ordem global. É o momento em que esse grupo pode se afirmar enquanto bloco e não somente enquanto arranjo político, como tem sido até aqui”, analisou Elias Jabbour. 

Bolsonaro condenado e preso

Em julgamento histórico, a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) formou maioria pela condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro no dia 11 de setembro, na Ação Penal 2668 . Bolsonaro foi condenado a 27 anos e três meses de pena privativa de liberdade em regime inicial fechado e 124 dias-multa (cada dia-multa no valor de dois salários mínimos à época dos fatos).

A condenação do ex-presidente gerou articulações dos bolsonaristas na Câmara em tentativa de pautar, em regime de urgência, a anistia para os golpistas, utilizando como moeda de troca a PEC da blindagem dos parlamentares e o voto secreto na decisão sobre processos contra parlamentares, “abrindo um novo ciclo de impunidade para crimes praticados por representantes eleitos e convidando o crime organizado a se fortalecer no aparelho de Estado”, avaliou Walter Sorrentino em sua coluna.

A manobra bolsonarista encontrou reação nas ruas, na manifestação de esquerda que lotou a Avenida Paulista no dia 21 de setembro. 

A prisão do ex-presidente foi concretizada no dia 25 de novembro, depois da tentativa de Bolsonaro de violar a tornozeleira eletrônica durante a prisão domiciliar em sua residência em Brasília (DF). Alexandre de Moraes decretou o início do cumprimento da pena do ex-presidente, assim como dos demais integrantes do chamado núcleo 1 da trama golpista: Walter Braga Netto, Almir Garnier, Anderson Torres, Augusto Heleno, Paulo Sérgio Nogueira e Alexandre Ramagem.

Em dezembro, com a liderança do presidente da Câmara Hugo Motta, os bolsonaristas conseguiram aprovar, em uma sessão marcada por censura a jornalistas e interrupção da transmissão da TV Câmara, o PL da Dosimetria, uma nova tentativa parlamentar de aliviar a pena dos golpistas. 

No dia 17 de dezembro, na última semana antes do recesso parlamentar, o Senado Federal aprovou o PL 2.162/2023, do deputado Marcelo Crivella (Republicanos-RS). Conhecido como PL da Dosimetria, o projeto que reduz as penas dos condenados pelo golpe de 8 de janeiro de 2023 foi relatado pelo senador Esperidião Amin (PP-SC) e aprovado com 48 votos a favor e 25 contra.

Embates com o Congresso Nacional

A anistia aos golpistas esteve longe de ser a única pauta em que a maioria conservadora do Congresso Nacional, que se mostrou hostil ao governo federal e às pautas progressistas. Em julho, a revogação pelo Congresso do decreto presidencial que aumentava o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) abriu uma crise com o governo, que acionou o Supremo Tribunal Federal.

No programa Almoço Grátis da TV Grabois, Iago Montalvão coordenador do Grupo de Trabalho Novo Ciclo de Desenvolvimento Social da Grabois e doutorando em economia pela Unicamp comenta a polêmica envolvendo o IOF. 

Walter Sorrentino analisou esse impasse como uma oportunidade para ampliar o debate com as camadas médias e populares da sociedade, “que mais sofrem com o atual sistema e que podem se engajar por reformas estruturantes”.

“O governo precisa sair da defensiva. Manter os fundamentos do programa — reindustrialização, política externa soberana, políticas sociais — e reorganizar sua base aliada. É preciso que as forças progressistas sejam chamadas à responsabilidade para se unificar e ampliar a mobilização social em torno de propostas como o fim da jornada 6×1 e a reforma tributária justa”, defendeu Sorrentino em sua coluna.

Foi justamente a mobilização popular contra a PEC da Blindagem que possibilitou ao governo uma vitória expressiva no Congresso Nacional, com a aprovação de uma promessa de campanha do presidente Lula: a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil e o desconto decrescente para quem ganha de R$ 5 mil a R$ 7 mil.

“Acuado, o Congresso dominado pelo Centrão e a extrema-direita bolsonarista, não teve outra escolha senão ceder à pauta da isenção do IR incluída nas manifestações de 21 de setembro. A sanção da lei do IRPF ocorreu em 26 de novembro com a ausência dos presidentes da Câmara e do Senado”, aponta Sinival Pitaguari, professor de Economia na Universidade Estadual de Londrina (UEL), doutorando em Economia na UnB e professor da Escola Nacional João Amazonas, do PCdoB.

Apesar da aprovação do PL da Dosimetria, Pitaguiri chama a atenção para a escolha do ministro da Secretaria-Geral, Guilherme Boulos, para articular no Congresso a luta pela limitação da jornada de trabalho na escala máxima 5×2, com até 40 horas semanais e 8 horas por dia. “Foi a opção politicamente mais realista para o movimento popular organizado e para o governo Lula em vez de tentar uma escala 4×3 com 35 horas, por exemplo, mesmo que ela seja mais justa. A vitória depende da amplitude do movimento político e, para isso, a causa precisa ser considerada por amplas massas do povo como justa e factível”, destaca.

No programa Tá na Rede da TV Grabois, Jade Beatriz analisa como a pauta histórica dos trabalhadores ganhou força nas ruas, nas redes sociais e agora no Congresso Nacional, com a proposta do governo.

16º Congresso do PCdoB e frente ampla para 2026

Em entrevista exclusiva para o Portal Grabois, a vice-presidenta do PCdoB, Nádia Campeão destacou que, apesar da prisão de Jair Bolsonaro, “a luta continua e persiste ainda forte para 2026”, diante da força política do bolsonarismo no país, com “base social, força material, financeira e parlamentar”.

A Resolução Política do PCdoB, aprovada entre os dias 16 e 19 de outubro no 16º Congresso do partido, que teve a participação do presidente Lula na abertura, reforçando a aliança eleitoral e programática e a necessidade de uma frente ampla para 2026, liderada pela esquerda.

Lula encerra o ano como favorito na disputa eleitoral em 2026 em todos os cenários, recolocando o Brasil como porta-voz do Sul Global em discussões centrais, como a COP30, realizada em Belém. No âmbito doméstico, a bandeira da soberania nacional se refletiu em conquistas centrais para a população brasileira, como a retirada do país do Mapa da Fome da ONU — feito histórico realizado pela segunda vez; a primeira ocorreu em 2014, no governo de Dilma Rousseff.

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Leia: O lugar do PCdoB na cena política https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/11/partido-renovado-e-influente.html 

Mundo em transição

China enfrenta o tarifaço de Trump e consolida estratégia de soberania tecnológica em 2025
Ao longo de 2025, sanções, disputa tecnológica e reacomodação geopolítica marcaram a resposta chinesa à ofensiva dos EUA, com impactos no Sul Global e na relação estratégica com o Brasil.
Portal Grabois www.grabois.org.br   

O ano de 2025 foi marcado pelo avanço da China na corrida tecnológica mundial, mesmo diante da retomada da hostilidade dos Estados Unidos, com o retorno de Donald Trump à Casa Branca.

Já em janeiro, a inteligência artificial chinesa DeepSeek despontou na imprensa internacional após provocar a queda das ações das grandes empresas de tecnologia dos Estados Unidos: Nvidia, Microsoft, Meta e Alphabet, sendo que a Nvidia chegou a apresentar uma queda de quase 17%.

Gratuito, o aplicativo chinês se mostrou uma alternativa mais barata e eficaz e demonstrou a “falência da Batalha dos Chips” imposta por Washington, analisou o diretor de pesquisas do Centro de Estudos Avançados Brasil China (Cebrach), Diego Pautasso, em sua coluna para o Portal Grabois.

Ele avalia que o modelo de IA chinesa driblou as sanções da Casa Branca às exportações para a China dos chips da Nvidia e revelou que a política dos EUA não apenas se mostrou incapaz de interditar o setor de semicondutores, como acelerou o desenvolvimento chinês. “A mentalidade da Guerra Fria e da contenção da China já deu todos os sinais possíveis de sua falência – porém, o governo Trump não parece ser capaz de apresentar soluções mais inovadoras”, alertou Pautasso.

Tarifaço

Nos primeiros três meses de seu governo, Trump iniciou um movimento de aumentar as tarifas dos países que mantêm relações comerciais com os EUA, voltando-se principalmente para o México, Canadá, China e União Europeia, com tarifas de até 24%.

Em abril, Trump escalou a medida protecionista decretando tarifas de importação entre 10% e 50% para quase todos os países do mundo, sob a alegação de reciprocidade. Iniciou-se uma grande corrida dos países pela negociação das tarifas, mas ficou claro que o alvo principal das medidas protecionistas era a China, com tarifas que chegaram a 145%.

Socialismo de Mercado: como a China expande modelo econômico com abertura ao setor privado

A resposta da China foi recíproca, com aplicação de tarifas de até 125% para produtos dos EUA, posição que rendeu uma capa icônica da revista The Economist em abril.

Em nova coluna para o Portal Grabois, Diego Pautasso analisou naquele momento como a reação da China à guerra tarifária expôs o declínio da hegemonia dos Estados Unidos.

“Por detrás do unilateralismo de Trump, há o reconhecimento da perda de capacidade produtiva e de liderança dos EUA, bem como da emergência de um mundo multipolar. Inegavelmente, vivemos uma precipitação da transição sistêmica, marcada por incertezas e potencial de escalada de conflitos. Se os EUA dão mostras de uma condução política temerária, a China, por sua vez, demonstra não apenas resiliência, mas também capacidade de prover soluções e alternativas à desordem internacional”, destacou Pautasso.

A posição da China de enfrentamento à política trumpista também fortaleceu os laços entre os países do Sul Global, em especial com o Brasil — também alvo do tarifaço trumpista. Em artigo exclusivo para o Portal Grabois, Jiang Shixue, professor da Universidade de Xangai (China), apontou como a cooperação China-Brasil é estratégica para enfrentar ameaças à ordem global.

Shixue destacou que a política de Trump é marcada por hegemonismo, intervencionismo, unilateralismo e protecionismo, “representando uma grave ameaça à paz e ao desenvolvimento mundiais” e defendeu que, diante desse ambiente externo altamente desfavorável, “a forma como o Sul Global deve responder é uma questão urgente e relevante”. Com base em informações do Ministério da Agricultura chinês, Shixue apontou que China e Brasil devem intensificar ainda mais sua cooperação diante da guerra comercial promovida por Trump.

Rússia, Brasil e China formam triângulo que alimenta o mundo

O encontro bilateral entre China e Brasil aconteceu de fato em maio, quando Lula e Xi Jinping se encontraram durante o IV Fórum China-Celac, realizado em Pequim. “Não é exagero dizer que, apesar dos mais de 15 mil quilômetros que nos separam, nunca estivemos tão próximos”, afirmou Lula ao descrever o atual estágio das relações entre Brasil e China, durante sua visita a Pequim.

O encontro se deu no momento que a política de Trump “começava a demonstrar sinais de desgaste”, com o recuo momentâneo dando um “semblante de derrota às iniciativas norte-americanas”, aponta Tiago Nogara, Doutor em Ciência Política da Universidade de São Paulo e pesquisador do Cebrach. Em sua coluna, ele analisa o posicionamento de Lula e Xi-Jinping diante do unilateralismo de Trump e os novos acordos bilaterais assinados entre os países.

Historiadora, Mestre e Doutoranda em Políticas Públicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, a pesquisadora do Cebrach, Isis Paris Maia considera que a reunião ministerial realizada no IV Fórum China-Celac marcou um novo capítulo na relação entre os países, estabelecendo um roteiro para a próxima década a partir do assim chamado “Cinco Programas” para o desenvolvimento compartilhado. Em sua coluna, ela detalha o Programa 2, voltado ao desenvolvimento, dando ênfase ao setor digital.

Em agosto, diante dos ataques dos Estados Unidos, Xi Jinping disse a Lula por telefone, que a China estaria “pronta para trabalhar com o Brasil para estabelecer um exemplo de unidade e autossuficiência entre os países do Sul Global” e afirmou apoiar o povo brasileiro na defesa de sua soberania nacional e na salvaguarda de seus direitos e interesses legítimos, “exortando todos os países a se unirem na luta decidida contra o unilateralismo e o protecionismo.”

Em 1º de setembro,  Xi Jinping anunciou a proposta chinesa da Iniciativa de Governança Global (IGG) durante a reunião da Organização de Cooperação de Shanghai (OCS). O documento destaca, entre outros pontos, a sub-representação do Sul Global na ONU, a frequente utilização de sanções unilaterais por países relevantes e aponta a necessidade de debater temas como a inteligência artificial, o ciberespaço e o espaço sideral.

Nilton Vasconcelos, diretor do Cebrach e membro do Grupo de Pesquisa sobre Estado e conflitos institucionais no Brasil, analisa em sua coluna como o IGG representa “um convite para repensar as bases da cooperação entre as nações, recolocando a paz, a justiça social, o desenvolvimento sustentável e o direito dos povos a um futuro comum, no centro do debate”.

Os movimentos geopolíticos dos últimos anos refletiram na opinião da população brasileira. Entre 2023 e 2025, a aprovação da China subiu de 34% para 49%, enquanto EUA e Israel perderam apoio, revelou pesquisa Quaest divulgada em agosto. O salto maior ocorreu de 2024 para 2025, quando a opinião favorável saltou 11 pontos percentuais. Por outro lado, a opinião desfavorável em relação à potência asiática caiu de 44% para 37%. 

Por ser o principal parceiro comercial do Brasil, o professor associado da Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ, Elias Jabbour defende que as relações com a China devem atingir outro patamar, em uma relação que pode beneficiar ainda mais a economia brasileira, revertendo a desindustrialização e fortalecendo um projeto nacional voltado à soberania econômica.

O desenvolvimento da economia chinesa foi tema de duas edições da Revista Princípios. Coordenadas por Jabbour, as publicações analisaram como a China atualiza a economia de projetamento de Ignácio Rangel.

+ Princípios 171: China e nova economia do projetamento
+ Princípios 172: Socialismo e nova economia do projetamento
+ Elias Jabbour explica socialismo do século XXI e nova economia do projetamento na China

Em intervenção aos delegados do 16º Congresso do PCdoB em outubro, o representante do Departamento Internacional do Comitê Central do Partido Comunista da China (PCCh), Wang Jialei, defendeu que o multilateralismo, a solidariedade Sul-Sul e a cooperação entre China e América Latina são fundamentais diante das tensões geopolíticas e da ofensiva unilateralista dos Estados Unidos. O representante do PCCh também apresentou as Iniciativas Globais lançadas pelo presidente Xi Jinping — de Governança, Desenvolvimento, Segurança e Civilização — como pilares de uma nova ordem internacional mais justa e equilibrada.

15º Plano quinquenal

O Comitê Central do PCCh se reuniu entre 20 e 23 de outubro para avaliar as principais conquistas de desenvolvimento do país durante o 14º Plano Quinquenal (2021-2025) e deliberar sobre a formulação do 15º Plano Quinquenal de Desenvolvimento Econômico e Social. “A partir de seis princípios orientadores, o debate e o detalhamento das propostas seguem num processo que culminará com a deliberação final das chamadas Duas Sessões – as reuniões anuais do Congresso Nacional do Povo (CNP) e da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês (CCPPC), previstas para março de 2026”, detalha em sua coluna Nilton Vasconcelos, diretor de Relações Institucionais do Cebrach e membro do Grupo de Pesquisa sobre Estado e Instituições da Grabois.

A partir do 15º Plano Quinquenal, o presidente da Grabois, Walter Sorrentino, analisa como o planejamento estatal chinês integra inovação, inclusão social e metas ambientais, oferecendo referências ao Sul Global. Sorrentino considera que a divulgação das bases do 15º Plano em outubro confirma a capacidade de formulação estratégica do Estado chinês com o Partido Comunista no poder. “A implementação do novo Plano deve influenciar as cadeias produtivas globais, com especial importância para o Sul Global e para a parceria estratégica entre Brasil e China, abrindo janelas de oportunidades ao desenvolvimento soberano”, destaca Sorrentino. 

Elias Jabbour considera que as bases colocadas pelo PCCh para o 15º Plano remontam ao movimento iniciado pelo país em 2017, quando a China entrou na etapa da “nova era” na definição de Xi Jinping, tendo como objetivo central a construção da prosperidade comum. O ano de 2017, em que a China havia alcançado os norte-americanos em mais de 70% de altas tecnologias sensíveis, foi marcado pelo início da era de sanções e bullying tecnológico promovido pela administração de Donald Trump nos Estados Unidos.

“Isso levou a sociedade, o Estado e o Partido Comunista chinês a mobilizarem completamente seu núcleo empresarial e financeiro para uma guerra popular prolongada em torno da autossuficiência tecnológica. Os chineses acordaram para uma realidade de um mundo hostil aos seus objetivos estratégicos, que representa o fim da tentativa de desenvolvimento pacífico em relação aos países capitalistas centrais”, aponta Jabbour.

Dessa perspectiva, ele considera que o 15º Plano Quinquenal deve ser observado como “mais um capítulo no rumo da autossuficiência tecnológica”. “Eu colocaria o socialismo pela primeira vez na história em condições não somente de igualdade, mas de superioridade em relação ao capitalismo em matéria de inovação e autossuficiência tecnológica”, ressalta.

Ao analisar a guerra tarifária imposta pelos Estados Unidos contra a China em 2025, Jabbour aponta um elemento central nas condições dessa disputa que provocaram o recuo da ofensiva de Donald Trump: as terras raras. A China possui a maior reserva (70%) e capacidade de processamento de quase toda a cadeia produtiva (90%) que envolve esses minerais: agrega valor e exporta o produto industrializado para os Estados Unidos.

“A China não só conseguiu superar seus impasses internos, criados com o bullying tecnológico iniciado pelos EUA em 2017, mas possui essa grande carta na manga, um instrumento estratégico fundamental para diminuir sua dependência do mercado dos EUA, tanto para exportar produtos, quanto para importar tecnologia nova. Se os norte-americanos quiserem negociar, terão que negociar nos termos chineses”, destaca Jabbour.

Em dezembro, documentos publicados por Estados Unidos e China quase simultaneamente, revelam as diferenças da política externa dessas potências em relação à América Latina. A administração de Donald Trump publicou sua Estratégia Nacional de Defesa (National Security Strategy of the United States of America), enquanto o governo de Xi Jinping apresentou o documento sobre sua política para América Latina e Caribe (Terceiro Documento sobre la Política de China hacia América Latina y el Caribe). 

Os documentos expressam projetos de poder profundamente distintos para a América Latina, avalia Diego Pautasso.

“De um lado, os Estados Unidos reafirmam uma visão hemisférica hierárquica, securitária e de contenção de rivais. De outro, a China articula um discurso de cooperação Sul–Sul, desenvolvimento compartilhado e construção de uma ‘comunidade de futuro compartilhado’, inserindo a região num vocabulário alternativo ao da ordem liberal ocidental”, analisa em sua coluna.

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Leia também: Caminho para uma nova moeda internacional de reserva https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/novo-padrao-monetario-no-mundo.html