01 janeiro 2026

Editorial do 'Vermelho'

O rombo criminoso do Master e o ataque da direita ao STF
A direita fez negociatas, deu suporte político a Daniel Vorcaro e, agora, em conluio com a grande mídia, ataca o STF, que cumpre papel decisivo na defesa da democracia
Editorial do 'Vermelho' www.vermelho.org.br   

Foi correta a liquidação extrajudicial do Banco Master e de outras empresas de seu conglomerado, efetivada pelo Banco Central (BC) em razão de gestão fraudulenta e grave crise de liquidez. As investigações demonstraram que o Master vendeu ao Banco Regional de Brasília (BRB) carteiras fraudadas de crédito consignado no valor R$12,2 bilhões. Os depósitos dos clientes que sofreram calote somam R$ 41 bilhões, o que vai exigir o maior resgate do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).

É o maior rombo, em 30 anos, no sistema bancário e financeiro do país. O esquema se gestou e adquiriu tal gigantismo sob a responsabilidade dos governos do consórcio da direita e da extrema direita e no âmbito do que reza e prega o neoliberalismo. Daniel Vorcaro adquiriu em 2017, no governo Temer, uma instituição financeira precária, que, quatro anos depois, já “vitaminada”, viria a ser o Banco Master.

Jair Bolsonaro, em 2019, entronizou Roberto Campos Neto na presidência do BC, da nata dos executivos de bancos, expoente do rentismo. Em 2021, o capital financeiro se apossa, formalmente, da “joia da coroa”. O BC passa a ser autônomo, leia-se, sob a tutela da oligarquia financeira.

É, sobretudo, sob a gestão de Campos Neto (2019-2024) que Daniel Vorcaro fermenta os negócios e negociatas do Master, apesar dos alertas de setores do próprio mercado financeiro, embora parte dele também se locuplete com os títulos podres do Master. Neste período, também foi criada uma miríade de empresas da esfera das finanças que, sem a fiscalização adequada, conforme revelou a Operação Carbono Oculto, permitiu o uso de parte delas pelo crime organizado.

Expoentes da direita no Congresso Nacional atuam como tropa de elite em prol desse esquema fraudulento. Entre os serviços prestados, barrou-se a instalação de uma CPI que investigaria as ações do Banco Master, deu-se cobertura à operação de união entre o BRB e o Master, tentou-se aprovar um projeto de lei que aumentaria de R$ 250 mil para um R$ 1 milhão a proteção do FGC.

E quando, agora em 2025, o BC, sob a presidência de Gabriel Galípolo, se opôs ao fechamento do negócio BRB-Master, a direita fez andar um projeto de lei que dá ao Congresso Nacional o poder de destituir os diretores do BC. Na esfera dos governos estaduais, de direita, além do já citado caso do governo do DF, o governo do Rio de Janeiro, através do RioPrevidência, aportou R$ 2,6 bilhões no referido banco, apesar de todas as recomendações em contrário.

Portanto, é fato inconteste que a direita neoliberal está no epicentro deste que o maior crime financeiro dos últimos tempos, mesmo que as relações e influências do conglomerado Master sejam, por óbvio, uma teia extensa.

O estouro desse rombo acontece quando a liderança do presidente do Luiz Inácio Lula da Silva se adentra ao ano novo, revigorada enquanto o consórcio da direita e da extrema direita se debate em divisões e desgastes.

Para tentar alterar esse cenário, a grande mídia monopolista ressuscita os surrados expedientes da Lava Jato e, valendo-se do caso Master, deturpa e manipula os fatos, com o objetivo de jogar gasolina na instabilidade institucional e agravar o conflito entre os três poderes. Busca turvar as águas, embaralhar a realidade, para tentar turbinar a direita e buscar impedir a reeleição do presidente Lula.

A extrema direita e a grande mídia, neste momento, se confluem no ataque ao Supremo Tribunal Federal, que vem desempenhando decisivo papel em defesa do regime democrático. O alvo é, exatamente, o ministro-relator Alexandre de Moraes, cujo trabalho resultou na inédita condenação por tentativa de golpe de Estado do ex-presidente da República, Jair Bolsonaro, de generais e outros militares de alta patente.

Acusam Moraes, sem provas, de ter atuado junto ao BC para defender interesses do Banco Master. Tanto o presidente do BC quanto o ministro, em notas oficiais, já repeliram as acusações. A Procuradoria Geral da República (PGR), por não ter encontrado ilicitude, negou abertura de investigações contra o ministro.

O bolsonarismo e seus aliados prometem protocolar em fevereiro um novo pedido de impeachment contra Moraes. O tal pedido é, todo ele, embasado tão-somente nas especulações da mídia. O ataque ao STF se intensifica nas redes sociais. Isso se dá quando, em fevereiro, a direita buscará derrubar o veto do presidente Lula ao projeto de lei que premia com penas menores Bolsonaro e os demais golpistas.

O episódio Master está longe do fim. Novas investigações da esfera do BC ainda estão em andamento, podendo se acrescer mais crimes. Neste 30 de dezembro, a Polícia Federal, em ação conjunta com o STF, tomou depoimentos de Daniel Vorcaro, do ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa e do diretor de Fiscalização do BC, Ailton Aquino. Vorcaro e Paulo Henrique Costa foram acareados em razão de contradições entre seus depoimentos.

Ao campo democrático, patriótico e popular se impõe a tarefa de rechaçar os ataques ao STF pelo seu papel em defesa da democracia e de exigir que o BC prossiga com as investigações sobre as falcatruas do Master e cumpra integralmente seu papel de fiscalizar e regular o sistema financeiro.

[Se comentar, identifique-se]

Banco ligado ao Master tem R$ 160 milhões em patrocínio na Globo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/ligacoes-suspeitas.html 

Palavra de poeta

Poeta sem voz
Thelma Miguel  

por que fui nascer poeta?
as palavras me engasgam
prendem na garganta
falta o ar
não embelezam meu dia
não hoje
não neste dia

a vida de poeta
me embaralha nas letras
fico perdida nas emoções
nas curvas da vida

porque o poeta
sente forte o que vê
às vezes enlouquece
quando as palavras perdidas
pelo corpo
engessam a alma

o poeta se desespera
quando o silêncio
vence o grito
e ele não consegue
pôr no papel
aquilo que em sua alma
sangra

o poeta enlouquece
quando uma página branca
atravessa o seu dia
os rabiscos ficam vazios
sem nexo
ele risca
rabisca em vão
e não consegue
que sua alma se esparrame

tempos sombrios
para o poeta que se delicia com a beleza
com a suavidade da alma
hoje um martelo crava
em seu peito uma estaca
e ele não consegue respirar
de dor

as palavras perderam o caminho da boca
ficam embrulhadas no meio do estômago
não sai uma só palavra
só restou um vazio
oco
no meio dos lábios


[Ilustração: Sandra Bierman]

"Da rede tudo se ouve e se imagina" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/minha-opiniao_29.html 

Enio Lins opina

Ano repleto de lições inéditas, 2025 se despede
Enio Lins  

2025 FOI UM ANO HISTÓRICO, no Brasil, pelo no coroamento do primeiro julgamento e primeiras condenações por tentativa de golpe de Estado. A tremenda relevância desse inédito acontecimento é reforçada pelo fato de terem sido processados, julgados e condenadas figuras carimbadas que se acreditavam inalcançáveis pelas normas constitucionais – e tinham suas razões para isso, pois jamais golpistas de alto status (civis e militares) foram sequer admoestados em cinco séculos de Brasil.


OUTRO MARCO INÉDITO foi o correto enfrentamento à pressão do governo dos Estados Unidos, alcançando o mais expressivo êxito diplomático numa contenda internacional relevante desde a conquista do Acre, em 1903. Não se pode desconhecer a importância do acordo fechado entre Vargas e Roosevelt para a entrada do Brasil na II Guerra ao lado dos Aliados (EUA, Reino Unido, URSS) contra o Eixo (Alemanha, Itália, Japão), refletido então em avanços como criação da Companhia Siderúrgica Nacional. Mas queda-de-braço entre Casa Branca e o Palácio do Catete, nos anos 40, foi travada nos bastidores, baseada na astúcia, apesar de ameaças veladas. Mas, em 2025, a carga da cavalaria de Trump foi brutal, com aplicação de taxas escorchantes contra as exportações brasileiras e disparos da famigerada Lei Magnitsky contra um mini stro do STF. Para a surpresa de quase todo globo, obstáculos eliminados! Lógico que as contradições entre Brasil e Estados Unidos não estão eliminadas, mas o sucesso diplomático, turbinado pela articulação pessoal – imprevisível – entre Lula e Trump, é uma tremenda conquista para a Democracia, para o comércio entre as Américas, e para o prestígio internacional do Brasil.

ÊXITOS NA ECONOMIA: destaca o diariodocomercio.com.br/: “A mediana do relatório Focus para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em 2025 permaneceu em 2,26%. Um mês antes, era de 2,16%. Considerando apenas as 65 projeções atualizadas nos últimos cinco dias úteis, mais sensíveis a novidades, a estimativa intermediária também permaneceu em 2,27%”. Apesar do mau humor dos oligarcas do mercado, e da voracidade da taxa básica de juros imposta por um BC dependente dos banqueiros (a maior em 20 anos, na astronômica faixa dos 15%), o ano finda cravando a menor taxa de desemprego e o menor nível de pobreza extrema dos últimos 12 anos. Foram gerados mais de 1,8 milhão de novos empregos com carteira assinada, e a taxa de desemprego no trimestre encerrado em outubro foi de 5,4%, recorde, a menor desde 2012. No penúltim o dia do ano, o jornal Valor Econômico publicou que "o Ibovespa acumulou valorização de 1,29% no mês. No balanço anual, a alta atingiu 33,95%, marcando o maior avanço nominal desde 2016, quando o índice havia subido 38,93%". Esses avanços, porém, não podem ser traduzidos como “felizes para sempre”: o sistema financeiro, insaciável, segue enxergando os investimentos sociais como imperdoável diminuição de seus lucros, e tal visão contamina, indubitavelmente, parte das camadas médias (mas isso não é novidade).

PARA O BEM DA DEMOCRACIA, mixou em 2025 a estratégia das facções mais perigosas do bolsonarismo, que tinham como foco uma anistia ampla e incontida beneficiando o mito presidiário. Apesar da vergonhosa “dosimetria” ter sido aprovada pelo Congresso, seus efeitos não atendem aos interesses dessas gangues, o que obrigou ao comandante supremo da OCRIM a jair atropelando alguns de seus cúmplices mais importantes (como Micheque, e Tarcísio, ambos ansiando a candidatura presidencial) e indicar o filho Zero-um para a principal disputa de 2026.

2025, APESAR DAS VITÓRIAS, repassa para 2026, pelo menos três grandes perigos: 1) expressiva força eleitoral da delinquência bolsonarista; 2) perspectiva de eleição de um Congresso Nacional pior que o péssimo hoje em atividade; 3) debilidade política-eleitoral das forças democráticas (centro, centro-esquerda e esquerda). A solução, como bem disse aquela peça publicitária, é entrar com os dois pés no Ano Novo. Com força, digo eu, pois a extrema-direita já anuncia que vem com as quatro patas nos peitos da Democracia.

[Qual a sua opinião?]

Luciana Santos: “PCdoB mais organizado para intervir nos próximos anos” https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/palavra-de-luciana.html