Os fortes fazem o que querem: Trump, Venezuela e o retorno do Diálogo Meliano*
Celso Pinto de Melo [1]
O recente ataque militar dos Estados Unidos à Venezuela, culminando no sequestro do presidente Nicolás Maduro, não é um desvio episódico nem um excesso retórico de política externa. Trata-se de um ato deliberado de força, que redefine os termos da relação entre Washington e Caracas e explicita uma lógica de poder que dispensa mediações, normas e até mesmo o verniz diplomático. O que se encena não é um conflito ideológico clássico nem uma controvérsia diplomática convencional, mas um diálogo radicalmente assimétrico, no qual a linguagem da força substitui qualquer pretensão de negociação entre iguais. A reatualização da Doutrina Monroe [2] fornece o enquadramento estrutural dessa assimetria, convertendo soberania e autonomia em concessões condicionais.
No célebre Diálogo dos Melianos, Atenas dirige-se à pequena ilha de Melos não para negociar, mas para comunicar uma realidade: a submissão é racional; a resistência, irracional. Não há apelo à justiça ou ao direito, apenas à correlação de forças. A moral, ensina Tucídides, só existe entre iguais.
Essa lógica reaparece de forma quase literal na maneira como os Estados Unidos passaram a tratar a Venezuela. O discurso público não se organiza em torno de mediação multilateral ou de soluções pactuadas, mas da imposição de custos crescentes: sanções financeiras, bloqueios comerciais, isolamento diplomático e controle indireto sobre fluxos energéticos. O objetivo não é convencer nem negociar, mas forçar a aceitação de um novo equilíbrio de poder.
Diferentemente da Atenas clássica, o poder contemporâneo raramente se exerce por ocupação territorial direta. Ele opera por instrumentos sistêmicos, menos visíveis, porém estruturalmente mais eficazes: controle do sistema financeiro internacional, restrição de acesso a tecnologias críticas e estrangulamento de fontes de receita externa. No caso venezuelano, o petróleo tornou-se o eixo central dessa estratégia, como analisam autores do campo da economia política internacional e do chamado novo imperialismo [3].
Reduzir esse padrão de ação a uma idiossincrasia pessoal de Donald Trump seria um erro analítico. Ele se insere em uma reinterpretação explícita da Doutrina Monroe, que volta a afirmar o Hemisfério Ocidental como zona prioritária da influência norte-americana [4]. A América Latina reaparece, assim, como “quintal estratégico”, tratada não como conjunto de Estados soberanos, mas como espaço subordinado em um tabuleiro global marcado pela competição com a China.
Tal como no Diálogo Meliano, o discurso que sustenta essa política rejeita qualquer pretensão moral universal. Valores como democracia e direitos humanos surgem de forma seletiva, como retórica instrumental, acionada conforme a conveniência estratégica. O realismo invocado naturaliza a força e apresenta a “realidade” como destino inevitável, interditando o debate político e desqualificando qualquer forma de dissenso.
O esvaziamento deliberado dos espaços multilaterais faz parte dessa engrenagem. Organismos regionais são contornados, as iniciativas de mediação são descartadas e o diálogo é substituído por ultimatos. O tratamento imposto à Venezuela funciona, assim, como mensagem disciplinadora para o restante da região: um aviso sobre os custos de desafiar a hierarquia estabelecida.
Ainda assim, a lição mais profunda do Diálogo Meliano não é a da eternidade do poder, mas a de sua contingência histórica. Tucídides não escreve para glorificar Atenas; ele expõe a lógica de um imperialismo que, ao negar limites e mediações, transforma a dominação em instabilidade permanente. O poder exercido exclusivamente pela coerção pode impor silêncio, mas dificilmente constrói ordem duradoura.
Em momentos históricos marcados por assimetrias extremas, a força tende a se apresentar como destino. Ao final de 1941, quando o III Reich parecia militarmente imbatível, o fatalismo dominava a Europa ocupada. Poucos líderes mundiais ainda resistiam, afirmando que aquele poder seria derrotado. Winston Churchill, ao assumir a defesa da liberdade europeia, não prometia vitórias rápidas, mas rejeitava a ideia de que a força momentânea pudesse se converter em destino histórico [5]. Como sabemos hoje, a história não se encerrou ali.
Guardadas todas as proporções históricas, é nesse registro – o da recusa ao fatalismo e da afirmação da soberania como valor político – que se insere, hoje, a figura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Por sua trajetória pessoal e respeitabilidade internacional acumulada ao longo de décadas, Lula reúne condições singulares para exercer um papel de liderança regional não hegemônica, capaz de articular parcerias baseadas no respeito mútuo, na mediação política e na defesa da autonomia das nações latino-americanas diante da reativação da lógica tutelar hemisférica.
Não se trata de atribuir ao Brasil um papel de confronto direto com os Estados Unidos, mas de reconhecer a possibilidade – rara na história recente da região – de um contrapeso diplomático capaz de ampliar margens de decisão e reduzir a naturalização da submissão como destino.
Essa lembrança é essencial porque impede a naturalização da força como ordem permanente do mundo. O poder que parecia absoluto revelou-se contingente.
Nos tempos sombrios da ditadura militar brasileira, a canção “Cartomante” (1976), imortalizada na voz de Elis Regina, ao refletir o clima de medo e opressão, trazia uma mensagem de esperança e resistência: “cai o rei de copas, cai o rei de espadas” [6]. Até as cartas mais altas estão sujeitas à queda. Impérios também.
Relido à luz do presente, o Diálogo Meliano não deve servir para legitimar a submissão, mas para alertar contra o fatalismo travestido de realismo. A arrogância do poder contém sempre um elemento de miopia histórica. A força pode impor silêncio por um tempo, mas escreve raramente o último capítulo. É essa consciência – a de que nenhum poder é eterno – que impede que o realismo se transforme em resignação.
REFERÊNCIAS
1. Tucídides, História da Guerra do Peloponeso. Vol. Livro V. Brasília: Editora UnB.
2. Trump, D.J., National Security Strategy of the United States of America. 2025, The White House: Washington, D.C.
3. Harvey, D., The New Imperialism. 2003, Oxford: Oxford University Press.
4. Smith, P.H., Talons of the Eagle: Latin America, the United States, and the World. 2012, Oxford: Oxford University Press.
5. Churchill, W.S., War Speeches 1940–1942. 1943, London: Cassell.
6. Lins, I. and V. Martins, Cartomante. 1976.
[1] Professor Titular Aposentado da UFPE, Pesquisador 1A do CNPq e membro da Academia Brasileira de Ciências.
*“Os fortes fazem o que podem, e os fracos sofrem o que devem.” Tucídides, História da Guerra do Peloponeso, Livro V.”[1]
O mundo gira. Saiba mais https://lucianosiqueira.blogspot.com/

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