05 setembro 2026

Lula indispensável

Eleições de 2026 – o Brasil à beira do precipício outra vez
Votar em Lula, conquistar votos para ele, é questão de salvação nacional!
Paulo Nogueira Batista Jr./Vermelho      

Este economista que vos escreve não escapa da polarização política generalizada que marca o Brasil dos últimos tempos. Do centro para direita, é provável que poucas pessoas me leiam com o coração aberto. Assim, devo supor queo leitor ou leitora que me lê agora é de esquerda ou centro-esquerda. Hoje quero conversar com vocês direta e confidencialmente sobre a emergência nacional que enfrentamos nas eleições de outubro. Portanto, se houver algum bolsonarista  extraviado por esta página, peço a ele a gentileza de se retirar imediatamente.

E prossigo. Creio que podemos dividir a esquerda brasileira atual em três grandes blocos. Um primeiro é a esquerda lulista, totalmente fiel ao presidente da República. Não faz críticas a ele e rejeita liminarmente quem as faça, pela direita e mesmo pela esquerda. Tem ódio visceral ao “fogo amigo”, que considera inoportuno, quase uma traição.

O segundo bloco é à esquerda radical, geralmente marxista ou quase marxista. Revoltada com o Lula 3, declara enfaticamente que ficará neutra em 2026. Os mais extremados chamam o presidente de “pelego”, “neoliberal” e “traidor”.

O terceiro é a esquerda crítica, que também está desiludida com o Lula 3. Vinha fazendo críticas ao governo, e não renega essas críticas, mas vai votar pela reeleição do presidente.

Faço parte do terceiro. E queria me dirigir hoje sobretudo ao segundo bloco.

Amigos da esquerda radical, faço um apelo: não se deve perder de vista que a eleição de 2026 representa um risco existencial para o Brasil, particularmente por sua dimensão internacional. Não é a primeira vez que estamos à beira de um precipício, verdade. Estávamos assim em 2018 e, de novo, em 2022. Em 2018, Jair Bolsonaro foi eleito, o que levou a tremendo retrocesso no País em inúmeras áreas. Em 2022, Lula derrotou Bolsonaro por margem apertada, o que nos permitiu interromper a destruição e reiniciar a reconstrução do Brasil.

Temos, portanto, experiência com precipícios. Mas desta vez há um agravante: o Imperialismo dos Estados Unidos entrou em nova fase, de muita agressividade, em especial para com a América Latina, que é apresentada oficialmente como área de influência e até mesmo quintal estado-unidense. O que aconteceu com a Venezuela em 2026 é um alerta gigantesco para toda a região. O sequestro do presidente venezuelano e a posterior transformação do país vizinho em protetorado dos Estados Unidos é algo inédito na história da América do Sul nos tempos pós-coloniais. E abriu as portas para uma verdadeira pilhagem dos recursos petrolíferos da Venezuela.

Nesse ambiente, eleger um candidato entreguista é um risco enorme. Permitiria ao Império submeter o Brasil, maior país da América Latina, à sua influência e controle sem disparar um único tiro. Flávio Bolsonaro combina exatamente com os planos dos Estados Unidos. Trata-se de um candidato a vassalo, condição que ele revela sem nenhuma vergonha.

Relembro um episódio recente e verdadeiramente estarrecedor. Veio a público uma carta de Marco Rubio, o ministro das relações exteriores de Trump (aquele  que parece ter sido escalado para ser uma espécie de vice-rei da América Latina), em que ele agradece a Flávio Bolsonaro – veja bem, leitor ou leitora – por ter oferecido em carta, caso eleito, a criação de um grupo de transição com o governo dos Estados Unidos! Não é boato. Cito a carta de Rubio diretamente: “We note your optimism regarding the upcoming October elections and your generous offer to place a transition team at our disposal should you be elected.” (Tomamos nota do seu otimismo em relação às próximas eleições de outubro e da sua generosa oferta de colocar uma equipe de transição à nossa disposição caso seja eleito.)

É uma oferta inacreditável. Grupos de transição podem se constituir como ponte entre dois governos nacionais para facilitar a transição do governo que está saindo para o governo eleito. Não me consta que haja precedente para a oferta de Flávio Bolsonaro. Perto disso, Roberto Campos (o avô), o grande defensor do alinhamento aos Estados Unidos em outros tempos, faz figura de fervoroso patriota. Já podemos reimaginar Roberto Campos (que ficou conhecido em sua época com “Bob Fields”) hierático, perfilado sem pestanejar perante a bandeira e o hino nacionais.

Em contraste, Lula oferece um nacionalismo discreto, equilibrado. Verdade que esse nacionalismo é mais retórico do que prático. Mas o fato é que ele oferece alguma contestação, ainda que cautelosa, ao projeto imperial dos Estados Unidos. Justiça seja feita a Lula. Embora infestado de neoliberais e conservadores, o seu terceiro governo enfrentou bem algumas questões desafiadoras. Dou apenas um exemplo marcante: a postura do presidente brasileiro perante o genocídio praticado por Israel contra os palestinos. Lula poderia ter silenciado, mas botou a boca no trombone, provocando reações duras da parte de Israel e do lobby sionista. As suas repetidas críticas ao governo Netanyahu repercutiram mundialmente.

Já Flávio Bolsonaro, a exemplo do seu pai, é um sionista desbragado. Fez diversos gestos e pronunciamentos de adesão a Israel. Anunciou, orgulhoso, o primeiro nome do seu ministério: ninguém menos que Cláudio Lottenberg, o presidente da principal organização sionista no Brasil – a CONIB, Confederação Israelita do Brasil. Só esse apoio vergonhoso a Israel e ao sionismo, já seria suficiente para não votar nunca nessa figura deplorável – e para não facilitar a sua eventual eleição optando pelo voto nulo.

Preciso dizer algo mais? Em caso afirmativo, um derradeiro argumento, também acachapante. Quem é o principal eleitor de Flávio Bolsonaro? Ninguém menos que o pai, que vem a ser o pior presidente da história do Brasil – e olha que a concorrência é grande! Jair Bolsonaro destronou, sem cerimônia, Fernando Collor, aquele que ocupava até então a posição de pior presidente da história. O estrago realizado no governo Bolsonaro, o pesado legado que deixou para o seu sucessor, não deve ser esquecido. Se Jair Bolsonaro, recomenda o voto em alguém, é exatamente neste alguém que não se deve votar em nenhuma hipótese

I rest my case, como dizem os advogados anglo-americanos quando concluem a sua argumentação. Já não é necessário, acredito, acrescentar mais nada contra essa candidatura.

Para os correligionários do terceiro bloco, que chamei de esquerda crítica, digo apenas o seguinte: não faremos, eu sei, como fizemos na eleição de 2022, pelo menos não na mesma medida, o trabalho de formiguinha de conquistar alguns votos para Lula. Falta-nos a convicção decorrente da esperança que a volta de Lula então suscitava. Mesmo assim, meu apelo é:  tentem ganhar nem que seja um voto, um único e mísero voto para ele. Assim, você trará pelo menos dois votos para nos afastar do precipício à beira do qual estamos.

Finalmente, um pedido aos lulistas do bloco 1: que a lealdade de vocês a Lula se traduza em luta corpo-a-corpo, renhida, junto aos indecisos para ganhar votos para a reeleição. Afinal, de que serve uma lealdade que não se traduz em esforços práticos?

Votar em Lula, conquistar votos para ele, é questão de salvação nacional!

Três destaques sob turbilhão midiático https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/minha-opiniao_0988080239.html

Postei nas redes

Está no insuspeito Estadão: Operador diz que repasses para fundo de aliado de Eduardo Bolsonaro saíram de recursos de Vorcaro. Antônio Carlos Freixo Júnior, empresário da Entre Investimentos, contou detalhes sobre pagamentos ordenados por dono do Master após acerto com Flávio Bolsonaro. 


Crimes financeiros do clã Bolsonaro no caso “Dark Horse” https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/poco-de-lama.html 

04 setembro 2026

Palavra de poeta

SONETO DE ANIVERSÁRIO

Vinícius de Moraes     


Passem-se dias, horas, meses, anos

Amadureçam as ilusões da vida

Prossiga ela sempre dividida

Entre compensações e desenganos.

 

Faça-se a carne mais envilecida

Diminuam os bens, cresçam os danos

Vença o ideal de andar caminhos planos

Melhor que levar tudo de vencida.

 

Queira-se antes ventura que aventura

À medida que a têmpora embranquece

E fica tenra a fibra que era dura.

 

E eu te direi: amiga minha, esquece...

Que grande é este amor meu de criatura

Que vê envelhecer e não envelhece.

 

[Ilustração: Gil Vicente]

Leia também "Retorno", poema de Cida Pedrosa https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/palavra-de-poeta_0433487496.html 

Palavra de Galeano

“A memória guardará o que valer a pena. A memória sabe de mim mais que eu; e ela não perde o que merece ser salvo.” (Eduardo Galeano) 

A morte e a morte do amigo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/minha-palavra.html 

Minha opinião

Até as inofensivas palavras cruzadas!
Luciano Siqueira  

Tem um neurologista da Universidade de Harvard anunciando que pode provar que as palavras cruzadas estão piorando a memória.

Arre égua! Oxente!

Concluindo a oitava década de vida, dou-me ao luxo de rejeitar, ou não, pretensas descobertas científicas.

Nesse caso, rejeito.

A vida inteira vi praticamente em todos os jornais impressos do país as palavras cruzadas de Silvio Alves. E em revistas expostas nas bancas.

Durante um bom tempo cuidei de preencher aqueles quadradinhos, vendo-me desafiado a medir meu domínio das palavras e também a aprender novas.

Minha tia Glória, em Natal, era usuária cotidiana. Quase um vício, benéfico vício.

Recentemente, minha neta Alice reintroduziu a prática entre nós. Aqui e acolá sou chamado a esclarecer o sentido de certas palavras ou a achar alguma que corresponda ao espaço disponível.

Ótimo!

Razões de sobra para sequer ler a matéria que me chega pelos meios digitais e nem ao menos saber o nome do pretensioso cientista. O cara diz ter pesquisado o assunto por 15 anos para tirar a surpreendente e antipática conclusão!

Eu, hein, Rosa! Vou nessa não.

E em gesto de veemente protesto, ainda hoje, se possível, passarei numa banca para comprar uma revista de palavras cruzadas. Por que não?

Leia também: Tédio? Falta-me tempo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/minha-opiniao_0262906581.html 

Postei nas redes

Mesmo não aprovando no Senado agora e postergando a votação para depois das eleições, a proposta de redução da jornada de trabalho de 6x1 para 5x2 segue pesando negativamente para a direita e para candidatura de Flávio Bolsonaro em particular. Ponto para o governo e para Lula.  

Lula defende soberania nacional e pauta fim da escala 6×1 https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/lula-em-entrevista-tv-record.html 

Palavra de Lula

“O povo tem direito de saber a verdade”, diz Lula sobre escândalo do Master
Em vídeo, presidente cobra firmeza e transparência do STF e da PGR nas apurações do Banco Master e defende reformas profundas nos sistemas político e judiciário
Lucas Toht/Vermelho
   

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva cobrou uma investigação “sem blindagem de ninguém” sobre o escândalo do Banco Master e defendeu reformas profundas nos sistemas político e judiciário. 

Em vídeo distribuído à imprensa nesta quinta-feira (3), Lula pediu firmeza e transparência das instituições para assegurar a confiança pública nas apurações.

“O escândalo do Banco Master é o maior roubo da história do Brasil. Roubaram milhões de pessoas de muitos estados e municípios”, disse Lula.

Lula ressalta as conexões de Vorcaro e que foi em seu governo que o banqueiro foi preso. “O banqueiro, líder do esquema, tem relações com muita gente poderosa. E foi no meu governo que ele foi preso e seu banco fechado,” disse o presidente.

O presidente também afirmou haver suspeitas de envolvimento de políticos e agentes públicos. Para Lula, a gravidade do caso exige que o Supremo Tribunal Federal (STF) e a Procuradoria-Geral da República (PGR) assegurem a integridade das investigações, sem viés políticos dos envolvidos ou vazamentos seletivos. 

“Nossa democracia não pode ficar refém de vazamentos seletivos”, declarou. “Diante da gravidade do momento, o povo brasileiro espera que o presidente da Suprema Corte e a Procuradoria-Geral da República liderem um processo que garanta a integridade e a confiança nas investigações.”

Lula defendeu que autoridades públicas coloquem o compromisso com a sociedade acima de interesses individuais. Segundo ele, a firmeza e a transparência são condições para que as instituições sejam respeitadas.

O presidente afirmou: “Diante da gravidade do momento, o povo brasileiro espera que o presidente da Suprema Corte e a Procuradoria-Geral da República liderem um processo que garanta a integridade e a confiança nas investigações”.

Lula defendeu reformas profundas dos sistemas político e judiciário no Brasil. “A democracia precisa de instituições fortes e respeitadas. Fica claro que nossos sistemas político e judiciário precisam de reformas profundas”, disse o presidente.

Ele também não se eximiu da sua responsabilidade de exigir transparência nas investigações: “Como presidente da República, acredito que só agindo com firmeza e transparência vamos garantir que as instituições sejam respeitadas pela sociedade brasileira.”

Ao final, o presidente reiterou que a apuração deve alcançar todos os envolvidos. “É fundamental que se investigue todo mundo, sem blindagem de ninguém, doa a quem doer. O povo brasileiro tem o direito de saber a verdade.”

Veja o pronunciamento do presidente https://www.youtube.com/watch?v=XMcUMoFpKDY

O mundo cabe numa Organização de Base https://lucianosiqueira.blogspot.com/2023/05/minha-opiniao_18.html 

Postei nas redes

O histriônico Augusto Cury (Avante) parece iludido com os 10 e 11% alcançados nas duas últimas pesquisas Quest e DataFolha. O comando de sua campanha anuncia que nenhuma atenção dará ao conflito no STF ou ao escândalo do filme Dark Horse, que envolve seu concorrente Flávio Bolsonaro. Dará prioridade à difusão do seu programa para o país... Qual programa, cara-pálida? 

O golpe por dentro do TSE https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/golpismo.html 

Dica de leitura

Quase um manual
Luciano Siqueira   

O artigo "Kit Antiautoritário: Como varrer a ultradireita", de Bernardo Gutierrez, publicado pelo portal Outras Palavras, aborda estratégias práticas de comunicação e mobilização para combater a expansão do autoritarismo e de movimentos de extrema-direita de caráter neofascista.

Vale a atenção, mas com a ressalva de que nada dispensa o debate aprofundado das ideias.

Por exemplo, o programa de governo de cada candidato à presidência da República, que a grande mídia neoliberal faz de contas de que não tem importância. Mas é exatamente aí que reside a diferenciação essencial de projetos para o País, destacando-se - para desprazer das elites dominantes – as proposições da frente ampla que sustenta a candidatura de Lula, cujo fio condutor é precisamente a defesa da soberania nacional.

O "Kit Antiautoritário” sugere:

Menos discurso, mais histórias

Importa destacar histórias reais, eu se prestam melhor à compreensão da maioria, tanto quanto estejam conectadas com o cotidiano e com as vivências das pessoas, gerando identidade e empatia.

Ideias fortes e apelo emocional

É preciso contrapor à comunicação da extrema-direita (fundada principalmente em emoções intensas, como o medo e o ressentimento e o orgulho) o sentimento da esperança, da solidariedade e da justiça.

Questionar e redefinir os marcos conceituais impostos pelo discurso autoritário fazendo o contraponto com novas pautas e horizontes de debate (a defesa da soberania nacional em íntima articulação com a superação dos entraves atuais do desenvolvimento econômico e o aceno à ampliação das conquistas sociais, acrescento).

Engajar as pessoas

A comunicação digital deve motivar a organização do povo e construir ou reforçar movimentos coletivos reais, capazes de influenciar pessoas, gerar participação ativa e converter essa energia em vitórias nas urnas e na ocupação dos espaços públicos.

Tudo a ver com o texto de uma coluna minha no portal ‘Vermelho’, de meses atrás: O mundo cabe numa Organização de Base https://lucianosiqueira.blogspot.com/2023/05/minha-opiniao_18.html 

Minha opinião

A acintosa propaganda das bets  

Luciano Siqueira   



Verdadeiras caça-níqueis digitais e plataformas de apostas - a que gente de todas as classes tem acesso 24 horas por dia pelo celular – as bets seguem agigantando-se e causando impactos negativos às famílias brasileiras, sobretudo as mais pobres.

A grande mídia neoliberal dominante as aborda de modo absolutamente hipócrita: denuncia os males que causam e ao mesmo tempo faturam fortunas incalculáveis com anúncios publicitários que vendem a prática de apostas como entretenimento inofensivo!

de projetos de lei e medidas que visam impedir ou restringir significativamente a veiculação de publicidade dessas casas digitais de apostas, mas tramitam num parlamento – Câmara e Senado – a passos de tartaruga. Parte considerável dos parlamentares se vê comprometida em razão dos benefícios que recebem, inclusive na forma de financiamento de suas campanhas eleitorais.

Um tema que há de figurar como bandeira permanente das correntes políticas populares e progressistas.

Ilustração produzida por IA

O pensamento crítico na era dos algoritmos https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/bolha-algoritmica.html

Sylvio: com a mão na botija

O deputado Nicolas Ferreira criticou todas pessoas que tiveram contato com Vorcaro, acusando-as de receber vantagens e propinas. Agora, flagrado em áudio em conversas com o banqueiro corrupto, apressa-se em dizer que apenas se desculpou de críticas e pediu ajuda para um amigo. Dá para acreditar?

Sylvio Belém   

"Somos todos Lula em torno de um cafezinho" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/convite-vamos-nessa.html

Sistema elétrico em crise

Os fios expostos do sistema elétrico brasileiro
Privatização da energia tem consequência pouco examinada: postes, fios e cabos das cidades estão cada vez mais carregados, poluídos e perigosos. Como isso se relaciona à ausência de regulação? Por que, em países como a França, a estatização total foi a saída?
Roberto Pereira D'Araújo/Outras Palavras    

O segmento de distribuição de energia elétrica no Brasil, o principal elo de arrecadação financeira e de expansão da oferta de energia, enfrenta uma série de problemas que ameaça sua sustentabilidade econômica a longo prazo. Este entrave decorre da regulação obsoleta, resultado de uma fragmentação de responsabilidades que gera a ausência de planejamento urbano e a adoção de uma rigidez contratual repleta de conflitos regulatórios.

A abertura do mercado livre para todos os consumidores, incluindo a baixa tensão e residências, trará riscos adicionais ao equilíbrio financeiro das distribuidoras de energia. Os consumidores se iludem de que, comprando no mercado livre através de comercializadores, eles podem receber quilowatts-hora de uma usina que cobra mais barato e, assim, eles ficam livres do preço da energia contratada pelas distribuidoras.

Antes de analisar os problemas físicos das redes desordenadas que qualquer cidadão pode ver nas ruas, é preciso esclarecer que correntes elétricas não têm “crachá de origem”. Ou seja, a energia consumida pelo consumidor que “migrou” para o mercado livre não é originada de uma fonte específica, mas sim de um conjunto de geração decidido pelo Operador Nacional do Sistema. Portanto, essa “vantagem” é totalmente financeira e já causou, e ainda causa vários problemas no sistema físico do setor. Muitas judicializações acontecem quando os comercializadores não conseguem as vantagens.

Embora o serviço de entrega continue sob a responsabilidade das distribuidoras, a perda de mercado de comercialização e o repasse de custos fixos podem gerar forte instabilidade. Além disso, resultado de uma permanente e histórica alta tarifária, causou a expansão da microgeração distribuída que é também motivo de conflitos e redução de receitas.

A vulnerabilidade das distribuidoras possui uma dimensão física e espacial crítica nos centros urbanos: A exploração desordenada dos postes, a ineficiência no manejo de interferência com árvores. Ausências na regulação de receitas relativas ao compartilhamento de infraestrutura com o setor de telecomunicações. O artigo analisa esses gargalos à luz da conjuntura recente e mostra alternativas a partir de alguns exemplos da realidade de outros países. 

Desordem de Postes e Conflito Vegetal

As estruturas de sustentação da rede, os postes de distribuição, estão sob risco operacional. A proliferação descontrolada de cabos de telecomunicações, com o crescimento de pequenos provedores de internet, resultou em uma sobrecarga dessas estruturas. Várias empresas utilizam os postes de forma irregular e sem conformidade com as normas de segurança. Isso obriga as distribuidoras a usar equipes que removem toneladas de fios clandestinos. Essa ocupação caótica cria obstáculos para a manutenção da própria rede, facilita o furto de cabos, potencializa o risco de curtos-circuitos que podem causar mortes, podem causar perdas por aquecimento, compromete os índices de qualidade regulatórios e, evidentemente, reduz a receita das distribuidoras. 

A gestão da rede elétrica e a vegetação urbana transformou-se em um dos principais fatores de interrupção do fornecimento em eventos climáticos extremos. A invasão de linhas de distribuição nas copas de árvores, cujo manejo sofre com uma ausência de coordenação de competências entre concessionárias de energia e prefeituras, eleva as despesas das empresas com podas emergenciais e reparos pós-tempestades. Redes aéreas não isoladas, expostas à vegetação, mostram uma fragilidade do setor diante das mudanças climáticas. As quedas das árvores sobre a rede ocorrem frequentemente durante a ocorrência de vendavais. Quanto mais encorpadas, com raízes enforcadas e com grande altura, mais prováveis as quedas. As prefeituras e órgãos ambientais adotam regras que proíbem o rebaixamento da altura das árvores porque “essa prática mutila a planta, compromete sua saúde e gera riscos graves à segurança pública e ao meio ambiente urbano”. No mínimo é uma regulação desatualizada e conflitante, pois pode acabar com a vida da árvore no caso de ventos fortes justamente por causa da altura.

Sob a ótica das distribuidoras, prejuízos financeiros são apenas parcialmente reconhecidos nos processos de revisão tarifária da ANEEL. Galhos que encostam na fiação costumam ser podados pelas distribuidoras de energia, mas elas só podem agir em locais públicos se houver autorização do poder municipal evidenciando a fragmentação de responsabilidades.

O Impasse Regulatório do Compartilhamento de Infraestrutura

Os postes seriam um ativo estratégico capaz de gerar receitas adicionais supostamente dirigidos para modicidade tarifária por meio do aluguel de pontos de fixação. Mais uma vez, decorrente da fragmentação de responsabilidades, o Brasil vivencia um histórico impasse regulatório entre a ANEEL e a ANATEL. Embora a prorrogação das concessões de energia preveja a obrigação de ceder a gestão a uma pessoa jurídica neutra, a figura do “posteiro”, as agências divergem profundamente sobre a obrigatoriedade e as regras de custos dessa transferência. Até agora nenhuma cidade adotou essa mudança.

É interessante analisar os conflitos que não deveriam existir sob uma visão do aspecto coletivo do tema. A visão da Anatel defende que o termo “ceder a gestão” impõem uma obrigação mandatória. A visão da Aneel sustenta que a regra apenas indica uma possibilidade voluntária. Para a agência de energia, a cessão do espaço físico não deveria obrigar as elétricas a renunciarem à exploração comercial direta desses ativos. Esse conflito causou até uma intervenção arbitral da Advocacia-Geral da União que emitiu parecer favorável à tese das telecomunicações. O parecer vinculante emitido pela AGU está em análise pelo Congresso para regulamentação de uma lei de 2019, portanto, ainda não há mudanças.

A ausência de uma base de dados unificada de contratos de compartilhamento criou uma assimetria de informações. Como o preço do ponto de fixação historicamente não cobria os custos reais de fiscalização e limpeza da fiação excedente, o aluguel dos postes transformou uma oportunidade de receita subsidiária em um sorvedouro de recursos operacionais. A incapacidade do regulador em fixar um preço de equilíbrio associado a sanções severas de corte de cabos clandestinos permitiu uma espécie de “favelização” aérea das cidades brasileiras. 

O Que Poderia Ter Sido Feito

Uma abordagem preventiva teria reduzido esse cenário de degradação estrutural. No campo do ordenamento físico, as prefeituras e o regulador deveriam ter condicionado a concessão de licenças de expansão urbana e de telecomunicações à instalação de algumas redes subterrâneas ou, no mínimo, de redes aéreas com cabos compactos protegidos e isolados nas zonas de alta densidade arbórea. O que se observa é que essas questões não são compreendidas como parte do ordenamento do espaço púbico e são deixadas à mercê dos conflitos das distribuidoras e usuários dos postes.

No âmbito contratual, já que a visão de coletivismo está ausente do setor elétrico, a regulação prevê o modelo de licitação de blocos de infraestrutura neutra para terceiros há pelo menos duas décadas. Ao repassar a responsabilidade da limpeza, organização e cobrança dos cabos de telecomunicações para um “posteiro”, mantêm-se a fragmentação de responsabilidades e abre-se a possibilidade de mais aumentos tarifários.

Algumas comparações internacionais

A experiência de jurisdições desenvolvidas aponta caminhos eficientes para blindar a infraestrutura de distribuição contra esses riscos específicos. Apenas para exemplificar, aqui estão 3 casos. Entretanto, é preciso enfatizar que são muito mais trajetórias perdidas do que políticas que o Brasil poderia adotar num tempo razoável.

No Reino Unido, o modelo implementado pela Office of Gas and Electricity Markets atrela a receita das distribuidoras a metas severas de resiliência climática. Isso impulsionou investimentos em técnicas avançadas de sensoriamento remoto para monitoramento preditivo de vegetação, além do soterramento das redes de baixa tensão. Além disso, o compartilhamento de infraestrutura de postes e dutos com o setor de telecomunicações ocorre sob rígidos manuais de engenharia unificados, onde a operadora de rede elétrica possui autoridade sumária para barrar ou remover qualquer instalação que ameace a integridade mecânica das estruturas, com custos integralmente repassados às teles. 

Nos Estados Unidos, diante da severidade de incêndios florestais e furacões, a regulação baseada em desempenho. Estados como Califórnia e Nova York financiam planos agressivos de “endurecimento da rede”. Os investimentos na substituição de postes de madeira por estruturas de aço, combinados com a criação de valas subterrâneas compartilhadas para energia e fibra óptica, são integralmente reconhecidos na base de ativos remunerados. A governança do uso dos postes é estritamente contratualizada sob o conceito de “Pole Attachment Regulation” da FCC e de reguladores estaduais, garantindo que o aluguel cubra não apenas os custos de espaço, mas também um fundo de reserva para engenharia de segurança estrutural. 

Na França, A Électricité de France (EDF) possui uma influência gigantesca, pois ela é a dona da principal distribuidora do país. Embora o mercado tenha sido aberto à concorrência, o grupo EDF mantém uma posição dominante em toda a cadeia de energia. A estatização total (100%) da EDF, tornou o controle público ainda mais direto sobre o setor elétrico. A Enedis, que cuida de 95% da rede de distribuição francesa, é uma subsidiária integral do Grupo EDF. Para evitar que a EDF beneficie a si mesma em relação aos concorrentes, a União Europeia exigiu a separação das atividades. A EDF atua na geração e venda e a Enedis opera os fios de distribuição de forma neutra. Ela deve dar o mesmo tratamento e cobrar as mesmas tarifas se o cliente comprar energia da EDF ou de uma concorrente.

Considerações Finais

Os exemplos acima são apenas citações de outras soluções para um problema que é comum em diversos países. Não se está propondo nenhuma adoção dessas políticas, pois a situação brasileira está muito aquém das soluções internacionais. A crise das distribuidoras no Brasil vai muito além do fluxo de caixa e da inserção de fontes renováveis; ela reside na falência da gestão física do território urbano. A superação desse cenário exige uma urgente compreensão de que os conflitos surgem da ausência de um amplo planejamento urbano onde a questão das redes são apenas uma parte do problema. Uma visão coletivista poderia fazer surgir uma harmonização regulatória que procure pacificar a governança dos postes de energia. Essa visão ainda está longe de se tornar realidade. Somente através do investimento em modernização, blindagem de redes contra intempéries vegetais, ação coordenada sobre a arborização e aproveitamento econômico eficiente das receitas de telecomunicações, será possível restaurar o equilíbrio econômico-financeiro dos contratos e garantir a segurança física e energética das cidades brasileiras. 

José Bertotti: Transformação ecológica conecta estratégias de desenvolvimento de Brasil e China https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/jose-bertotti-opina.html

Fragmentos

Ariano
Luciano Siqueira

Acompanho Ênio Lins e Tuca ao gabinete de Ariano Suassuna, para uma entrevista à revista Princípios. Recebidos com o carinho de sempre, o mestre nos surpreende ao dizer que aquela entrevista seria “histórica, porque há vinte anos atrás não a daria, pois não me agradava aparecer junto com vocês... até que eu li essa matéria (mostra recorte do Diário de Pernambuco com foto minha e uma entrevista sobre o programa do PCdoB) e vi que esse é o pessoal!” O que o atraiu na matéria, e respalda a grande simpatia que diz nutrir em relação ao PCdoB é a idéia de um socialismo brasileiro, adequado às peculiaridades históricas, sociais e culturais do nossos povo e do nosso País. (Anotação minha em19/10/98). 

O selo do PCdoB na frente pró-Lula https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/o-pcdob-e-lula.html 

Postei nas redes

Por que a grande mídia neoliberal não analisa programas de governo que os candidatos à Presidência da República registraram no TSE? Certamente porque teriam que  reconhecer a enorme diferenciação entre Lula e a penca de candidatos da direita. 

Três destaques sob turbilhão midiático https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/minha-opiniao_0988080239.html

Palavra de poeta

Saudade
Rogaciano Leite   

Mandar, em pensamento, além, pelo infinito,
A pluma de um desejo, a voz de um sonho aflito
Do amor que naufragou nas cerrações do pranto.
Recompor, um a um, no cérebro vazio,
Uns momentos de sol… um céu azul de estio…
Uns beijos, uma jura, uma promessa, um canto!

Sufocar dentro d’alma o pássaro das ânsias
Que deseja espalmar nas siderais distâncias
A plumagem do afeto a gotejar lamentos…
Dirigir para além, como visões dispersas,
Emoções, madrigais, palpitações, conversas
Que falaram de amor — ao diapasão dos ventos!

Sentir em redemoinho as folhas secas, lívidas
Da derradeira fronde… inolvidáveis dívidas
Que o peito contraiu quando alguém disse ADEUS!
Guardar no solo ardente da alma descampada
As sombras do rochedo… a cicatriz magoada
Que a dor deixa no olhar dos tristes Prometeus!

[Ilustração: Carl Vilhelm Holsoe]

Leia também: Tédio? Falta-me tempo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/minha-opiniao_0262906581.html 

03 setembro 2026

Poço de lama

Delação de empresário expõe crimes financeiros do clã Bolsonaro no caso “Dark Horse”
Por meio de acordo fechado com a PGR, Freixo Jr. entrega extratos de repasses a fundo nos EUA, determinados por Vorcaro após Flávio pedir dinheiro para “Dark Horse”
Priscila Lobregatte/Vermelho  

O empresário do mercado financeiro Antônio Carlos Freixo Júnior, proprietário da Entre Investimentos, assinou acordo de delação premiada com a Procuradoria-Geral da República (PGR) e entregou informações sobre movimentações atípicas de dinheiro envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro e o filme “Dark Horse”, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. Foi para Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, que o senador Flávio Bolsonaro, hoje candidato a presidente, pediu recursos supostamente para viabilizar as filmagens.

Conforme apurado, Freixo Júnior teria entregado extratos de pagamentos, determinados por Vorcaro, feitos ao fundo Havengate, nos Estados Unidos, administrado por um advogado ligado ex-deputado do PL-SP. Os valores seriam para financiar a cinebiografia. A informação foi revelada pela jornalista Malu Gaspar, de O Globo.

O delator disse não saber o destino final do dinheiro. Segundo o jornal O Estado de S.Paulo, no entanto, “ele apresentou os comprovantes e detalhou ter montado uma operação que poderia ser caracterizada como de evasão de divisas para repassar os recursos”. Além dos detalhes sobre o caso, na delação o empresário também se comprometeu a pagar cerca de R$ 2 bilhões em multa.

O jornal informa, ainda, que o acordo de colaboração teria sido enviado há 15 dias ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que ainda não o homologou. O magistrado, próximo aos Bolsonaro, é relator dos processos que apuram o financiamento do filme e as fraudes do Banco Master.

Os investigadores suspeitam que o dinheiro pode não ter sido usado para o filme, mas, sim, para pagar despesas de Eduardo nos EUA, enquanto o então deputado atuava, junto ao governo de Donald Trump, para chantagear o Brasil e, assim, evitar o julgamento de seu pai por tentativa de golpe. Dentre os desdobramentos da intervenção dos EUA estão os aumentos das tarifas aplicadas sobre produtos brasileiros exportados ao país, além de pressões contra o Pix e sanções a autoridades.

Só piora

A situação de Flávio Bolsonaro em relação a Vorcaro só piora. Também nesta semana, o repórter Breno Pires, da revista piauí, revelou que além dos R$ 61 milhões repassados a pedido de Flávio (que solicitou R$ 134 milhões), ao menos mais duas parcelas podem ter sido pagas, totalizando R$ 72 milhões.

Para tentar se livrar do caso, Flávio tem adotado uma postura marcada por mentiras e explicações não convincentes.

Quando sua relação com o banqueiro veio à tona por meio de reportagem do Intercept Brasil, Flávio negou ter pedido dinheiro ao banqueiro, preso pelo que é considerado o maior caso de fraude bancária do País.

Depois, tentou sustentar que seria um pedido privado para financiar um filme privado, além de dizer que o último pagamento feito por Vorcaro teria sido em maio de 2025. No entanto, a piauí mostrou — conforme mensagens e documentos do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) — que as parcelas desconhecidas até então podem ter sido pagas em setembro e outubro do ano passado. (Com agências)

Três destaques sob turbilhão midiático https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/minha-opiniao_0988080239.html

Minha opinião

Três destaques sob turbilhão midiático*
Luciano Siqueira    

1 - Reação tática perigosa, porém desordenada - é o que faz o bolsonarismo remanescente na esfera partidária e nas instâncias de poder real. O candidato Flávio Bolsonaro (PL) persiste em segundo lugar, perdendo apenas para o presidente Lula em praticamente todas as pesquisas dos institutos mais confiáveis, mas segue confuso, precário e frequentemente desastroso em seu desempenho, amargando uma espécie de semi-isolamento nas hostes de direita e de extrema direita. 

Pesa substancialmente na fragilidade da campanha do dito filho Zero Um a ausência de apoio das grandes legendas do centrão, que optaram pela omissão quanto à disputa pela presidência da República, concentrando esforços na eleição de senadores e deputados federais. 

Que proposta tem para o país? A resposta de Flávio Bolsonaro é sempre superficial, dúbia e inconsequente. 

A elite dominante — simplificadamente identificada pela alcunha de "Faria Lima" — não conseguiu produzir a almejada candidatura essencialmente de direita e aparentemente de "terceira via"; e não se vê representada pelo candidato do PL.

No mato sem cachorro, vale conferir qualquer latido. Daí a sequência de jantares e almoços arranjados às pressas com o histriônico Augusto Cury (Avante), desde que surpreendentemente pontuou 11%.

2 - A jogada do ministro André Mendonça, o tal terrivelmente evangélico, que desrespeitou todas as normas processuais e trouxe à luz supostas denúncias de envolvimento do ministro Alexandre de Moraes com interesses do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, tem o evidente propósito de jogar estrume no ventilador do pleito presidencial. 

Algo outrora muito comum em pelejas de futebol de várzea, marcados por paixões e rivalidades: o time está perdendo?, façamos confusão para mudar o clima da peleja e talvez mudar o jogo. 

A manobra tática do ministro André Mendonça é plenamente assimilada pelo complexo midiático neoliberal dominante, pródigo em notícias contraditórias e análises tão superficiais quanto tendenciosas. 

3 - Há possibilidades reais de vitória do presidente Lula, conforme confirmam tendências persistentes nas pesquisas. E o candidato efetivamente dá o tom e o conteúdo da campanha, cujo fio condutor é a defesa da soberania nacional, a que se agregam conquistas sociais alcançadas e o quanto se pode ainda avançar. A superação da escala 6 x 1, prestes a se confirmar no Senado, ajudará bastante na demarcação de campos perante o eleitorado.

Aí está o foco da campanha, prioridade no discurso de candidatos e candidatas do PCdoB e de grupos de esquerda mais consequentes; e também dos postulantes aos governos estaduais sintonizados com a reeleição de Lula.

*Texto da minha coluna semanal no portal 'Vermelho'

O golpe por dentro do TSE https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/golpismo.html 

Editorial do 'Vermelho'

André Mendonça incorreu em parcialidade para favorecer Flávio Bolsonaro
Ministro desrespeita princípio básico da magistratura, atua para prejudicar campanha de Lula e municia extrema direita para debilitar STF
Editorial do 'Vermelho'
     

Num país polarizado pelas eleições presidenciais e sob ataque de um conluio firmado entre a extrema direita bolsonarista e uma potência estrangeira, os Estados Unidos, mais do que nunca é decisivo o papel das instituições da República, notadamente o Supremo Tribunal Federal (STF), atuando para que se cumpra a Constituição Federal.

O ministro André Mendonça, relator de processos de alta incidência sobre a disputa presidencial, rompeu com a baliza da isonomia e afrontou o princípio da imparcialidade, enfraquecendo o STF justamente quando o povo brasileiro mais precisa da Corte Suprema enquanto guardiã do regime democrático.

Vejamos:

André Mendonça relata o caso do maior crime contra o sistema bancário-financeiro do país, o do Banco Master. Flávio Bolsonaro desponta entre os personagens da teia de influência e corrupção do ex-banqueiro criminoso, Daniel Vorcaro. De viva voz, em áudio divulgado, ele implora e é agraciado pelo “grande irmão” com milhões e milhões, supostamente para financiar um filme em louvor ao pai, golpista, que se encontra preso.

O ministro trancou a sete chaves o conteúdo desse inquérito e travou o seu andamento.  Em contraste, levantou, em julho, o sigilo sobre as investigações que envolvem o ex-líder do governo Lula, senador Jaques Wagner (PT-BA). Em junho, veio a público o teor da investigação sobre o deputado Hugo Motta, que se tornou aliado do presidente.

A conduta de dois pesos e duas medidas se agrava nas investigações sobre Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente. O ministro autorizou, em julho, a abertura de investigação para apurar suspeitas de tráfico de influência de Fábio Luís. Mendonça é ainda relator no STF da investigação relacionada aos descontos indevidos em benefícios de aposentados e pensionistas do INSS, no âmbito da Operação Sem Desconto. O vazamento seletivo de dados de inquéritos da Polícia Federal (PF) nesses casos tem sido escandaloso.

A questão aqui não é que esse e aquele estão sendo investigados. Todo cidadão ou cidadã, como tem destacado o próprio presidente Lula, se errou tem de enfrentar a Justiça e provar a inocência. Se for culpado, será penalizado na forma da lei.

O que salta aos olhos é que nos casos que impactam a campanha à reeleição do presidente as investigações são tocadas com rapidez. O conteúdo se torna público, vez que o ministro levanta o sigilo ou vem à tona por vazamentos contínuos e seletivos. O mesmo não acontece com o caso do filme Dark Horse, no qual Flávio Bolsonaro é uma espécie de réu confesso.

Ficou evidenciado que o ministro desrespeita o princípio da imparcialidade, base da magistratura, ao atuar para prejudicar a campanha do presidente Lula à reeleição e favorecer a candidatura da extrema direita de Flávio Bolsonaro.

Ao violar a imparcialidade do Poder Judiciário, Mendonça violou a própria estabilidade das instituições democráticas, em plena reta de chegada do processo eleitoral. É nítida a diferença de ritmo entre ações que se ligam a Flávio Bolsonaro e a Lula.

Diante da gravidade da situação, na quarta-feira (2) deputados do PT, do PCdoB, do PSOL e da Rede protocolaram perante o presidente do STF, ministro Edson Fachin, uma petição, assinada por 17 parlamentares, para que o Plenário estabeleça critérios uniformes de publicidade dos procedimentos relacionados ao caso Banco Master, determine a abertura dos inquéritos relativos ao financiamento de Dark Horse e comunique a Procuradoria-Geral da República para que examine a eventual suspeição de André Mendonça.

De acordo com a deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ), a petição exige isonomia. “É preciso investigar a atitude do ministro também do Supremo, que não permite a investigação de Flávio Bolsonaro e atua parcialmente a favor da eleição dele. Isso também não é a atitude de um ministro do Supremo”, destacou. Para a deputada, os encontros de Mendonça com Vorcaro e os indícios de tratamento desigual colocam o ministro sob suspeição e retiram dele as condições de continuar como relator do caso.

Em 1º de setembro, Mendonça deu um tiro de bazuca contra a própria instituição que jurou defender, o STF. Ele decidiu retirar o sigilo dos autos que continham o relatório da PF sobre mensagens e contatos atribuídos a Vorcaro com o também ministro Alexandre de Moraes, além de referências ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, e ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues.

Em 24 de agosto, Mendonça havia determinado à PF que, no prazo de 72 horas, identificasse as pessoas mencionadas em determinados materiais apreendidos no celular de Vorcaro e reunisse a íntegra das mensagens e interações existentes com esses interlocutores, incluindo autoridades submetidas à competência do plenário do STF.

O relatório foi entregue em 27 de agosto e possui 218 páginas. Segundo a manifestação apresentada por Paulo Gonet, 188 dessas páginas eram dedicadas a Alexandre de Moraes.

Para a Procuradoria-Geral da República (PGR), ao desencadear essa ação Mendonça, “já sabia que entre elas havia pessoas detentoras de foro por prerrogativa de função.”  O Regimento Interno do STF, em seu artigo 5º, inciso I, estabelece que compete ao Plenário processar e julgar originariamente, nos crimes comuns, entre outras autoridades, os ministros do STF e o procurador-geral da República.

Ao contrário do que dissemina a mídia monopolista, a quebra casuística do rito, das regras da devido do processo legal, não se trata apenas “de forma”, de algo sem nenhuma importância: o rito é pisoteado para direcionar, mirar seletivamente alguém. Daí a parcialidade.

As mensagens divulgadas, ainda sem qualquer escrutínio do contraditório, são graves. Todavia, a grande mídia já lavrou o veredito de condenação. Na verdade, além da cabeça de Alexandre de Moraes ambicionam anular o papel do STF em seu enfrentamento ao golpismo da extrema direita e à ofensiva dos Estados Unidos contra o Brasil.

A Constituição Federal estabelece, no Artigo 5º, que todos são iguais perante a lei. Tanto Alexandre de Moraes quanto André Mendonça ou qualquer outro integrante do STF – ninguém, enfim – está acima da lei. Qualquer um pode ser investigado, desde que se respeite, como também assegura a Constituição, o devido processo legal, o contraditório e a ampla defesa.

Mendonça viola o regimento do STF e Constituição. E deve ser escrutinado sob o encontro de duas horas com Vorcaro, mantido oculto por ele. O ministro faz um movimento sincronizado com a grande mídia que, em uníssono, ataca o STF, na prática, em dueto com a máquina de guerra digital bolsonarista.

Fica evidente que a sua parcialidade alimenta os ataques da direita e da extrema direita ao STF, não por suas deficiência e limitações, mas pelo seu papel como um dos esteios da democracia, que se destacou no enfrentamento ao golpismo bolsonarista e na pandemia da Covid-19, a tragédia decorrente da irresponsabilidade de Jair Bolsonaro.

O problema se torna ainda mais grave por se dar no contexto em que o Brasil chega à eleição de 2026 sob forte pressão econômica e diplomática do governo dos Estados Unidos, liderado por Donald Trump, que tem declarado publicamente que atua por mudança no quadro político latino-americano, no qual o Brasil tem papel central.

Falando em nome da liderança da Federação Brasil da Esperança (PT-PCdoB-PV), a deputada Jandira Feghali explicitou a suspeita de uma ação articulada de Mendoça com a escalada de ingerência dos Estados Unidos na disputa presidencial brasileira.

O STF está emparedado e não interessa à democracia brasileira, sobretudo nessa hora crucial, o definhamento de sua autoridade. Ao mesmo tempo, pela gravidade do conjunto dos fatos, a instituição precisa, com brevidade, estancar a crise, dando respostas efetivas às questões em tela, com absoluto respeito à Constituição e sem se curvar a pressão da extrema direita e às chantagens da mídia monopolista.

Dos nomes que emergiram no caso do Master, apenas um é candidato a presidente da República: Flávio Bolsonaro. O STF tem o dever de oferecer ao eleitorado brasileiro toda transparência acerca da investigação sobre ele, que deve ter, no mínimo, a mesma celeridade das demais.

O impeachment fraudulento da ex-presidente Dilma Rousseff, em 2016 e o governo da extrema direita resultaram numa fratura na ordem constitucional e democrática. Criou-se uma disfuncionalidade que demanda reformas estruturais do Estado e em suas instituições, entre elas, como tem destacado o PCdoB e outros partidos progressistas, a reforma política e do Judiciário, com objetivo de ampliar a democracia, proporcionar mais direitos ao povo, fortalecer a soberania nacional e combater mazelas históricas – entre elas a corrupção – e assegurar efetivo zelo pelo patrimônio público. Somente a vitória do presidente Lula, com a derrota da extrema direita, poderá descortinar esse futuro.

O golpe por dentro do TSE https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/golpismo.html 

Golpismo

André Mendonça e o golpe por dentro do STF
Sem precisar quebrar vidraças, a guerra híbrida avança pelas próprias instituições, corrói a confiança pública e abre caminho para uma nova tentativa de ruptura às vésperas das eleições. Se Cunha iniciou o golpe de 2016, Mendonça pode ter iniciado o próximo golpe de 2027
Luciana Bauer e Reynaldo Aragon/Portal Grabois   

O golpe por dentro do Supremo

Às vésperas da eleição presidencial, André Mendonça transforma elementos de uma investigação ainda sem conclusão judicial em combustível para uma guerra interna no STF, rompendo – de forma brutal e sem arcabouço constitucional que o embase – o equilíbrio institucional da Corte. Uma frente de desestabilização que converge com os interesses da extrema direita brasileira e com a ofensiva dos Estados Unidos contra a soberania política e digital do Brasil.

Quando o Estado é colocado contra o próprio Estado

A pouco mais de um mês da eleição presidencial, o golpe mudou de lugar. Em 8 de janeiro de 2023, foi preciso quebrar vidraças, arrombar portas e invadir o Supremo Tribunal Federal. Agora, a desestabilização avança por dentro da própria institucionalidade. André Mendonça, ministro do STF, vice-presidente do Tribunal Superior Eleitoral e um dos magistrados responsáveis pela condução do processo eleitoral, retirou o sigilo de material ainda submetido à apuração, expôs uma investigação que alcança integrantes das mais altas estruturas do Estado e lançou o Supremo numa guerra interna cujas consequências ultrapassam qualquer disputa pessoal com Alexandre de Moraes.

É preciso dizer desde o início o que está e o que não está em discussão. Não existe, até aqui, conclusão judicial que permita condenar Moraes pelas informações que emergiram do caso Banco Master. Se houver crime, que seja investigado, provado e punido. O problema é precisamente outro. Antes que a Justiça produzisse uma verdade processual, a suspeita foi lançada ao espaço público como fato político. Em poucas horas, Moraes, Paulo Gonet, Andrei Rodrigues, servidores do Banco Central e Gabriel Galípolo passaram a habitar a mesma atmosfera de suspeição de forma centrípeta e possivelmente coordenada com a imprensa e vazadores que desde a Lava Jato operam impunes. A extrema direita imediatamente transformou essa matéria bruta em arma eleitoral. O STF deixou de aparecer como instituição capaz de processar uma crise e passou a aparecer como parte da própria crise.

É aqui que o acontecimento revela sua verdadeira dimensão. Um golpe no século XXI não precisa começar com tanques diante do Congresso. Pode começar quando os mecanismos do Estado são utilizados de maneira a destruir a confiança no próprio Estado, quando o procedimento antecede a prova, quando o vazamento produz sentença social antes do contraditório e quando uma instituição é empurrada para a guerra contra si mesma. O que André Mendonça abriu não é apenas uma crise no Supremo. É uma fissura no centro do sistema de contenção democrática brasileiro no momento exato em que esse sistema será colocado à prova pelas eleições de 2026. Mendonça hoje foi mais eficaz que as turbas ensandecidas a depredar o Supremo no dia do Golpe.

Se Cunha iniciou o golpe de 2016, Mendonça pode ter iniciado o próximo golpe de 2027 dando tons de messianismo constitucional ao que podemos taxar de conduta totalmente inconstitucional para com seus pares.

O Supremo é julgado por um plenário e não pela imprensa. Mendonça não opera mais dentro das quatro linhas do estado de direito.

O ministro terrivelmente lavajatista Mendonça não apenas recebeu informações produzidas pela Polícia Federal. Ele movimentou a máquina. Determinou que a PF elaborasse, em 72 horas, um relatório específico sobre referências a Alexandre de Moraes, Paulo Gonet e Andrei Rodrigues, separou esse material em uma nova frente processual, abriu vista à Procuradoria-Geral da República e, antes mesmo de uma manifestação conclusiva do Ministério Público, retirou o sigilo e empurrou o caso para o centro da arena pública. Depois, pediu que o assunto fosse levado a uma sessão presencial do Plenário. A sucessão dos atos importa porque revela algo maior do que uma divergência jurídica: uma investigação ainda em formação foi convertida, por decisão institucional, em acontecimento político nacional.

É nesse ponto que o método se torna tão grave quanto o conteúdo. A direção da Polícia Federal reagiu duramente e passou a questionar se o relator havia ultrapassado a função de supervisionar a investigação para assumir um papel ativo na produção de uma linha investigativa própria. Ministros do Supremo falaram em ruptura das regras internas e em um ambiente de vale-tudo. A PGR foi colocada numa posição ainda mais delicada, porque aparece ao mesmo tempo como instituição responsável por controlar juridicamente a investigação e como uma das estruturas atingidas pelas referências reveladas. O resultado é um curto-circuito institucional: quem investiga passa a ser questionado, quem fiscaliza passa a integrar a crise e quem deveria arbitrar o conflito passa a lutar pela própria legitimidade.

Guerra híbrida entre a prova e a percepção

guerra híbrida opera exatamente nessa zona cinzenta. Ela não precisa fabricar documentos falsos quando pode explorar documentos verdadeiros fora de seu tempo processual. Fora da lógica constitucional e dos direitos e garantias fundamentais. Não precisa inventar uma acusação quando pode retirar um fragmento de contexto, lançá-lo na circulação pública e deixar que o ecossistema político produza a condenação. O tempo jurídico exige prova. O tempo informacional exige impacto. Quando esses dois tempos entram em choque, vence primeiro quem controla a percepção.

Por isso, o ato mais poderoso não foi a descoberta de uma mensagem, mas a transformação da investigação em espetáculo antes que a própria investigação pudesse dizer o que aquelas mensagens significavam. A partir desse instante, a Justiça deixou de conduzir sozinha o processo. A opinião pública, as redes, as campanhas eleitorais e os interesses políticos passaram a disputar o sentido do material em tempo real. E quando o sentido é capturado antes da prova, o processo continua aberto nos autos, mas a sentença política já começou a ser executada nas ruas.

As portas de um novo golpe, com STF com tudo, estão abertas: um novo golpe com o Supremo fragilizado e vilipendiado, como estamos vendo por um dos seus próprios ministros, seré matéria fácil para ser tragado pelo próximo golpista de plantão em eleições.

É aqui que a crise deixa de ser apenas jurídica e revela sua natureza histórica. A guerra híbrida não precisa destruir o Estado de uma vez. Sua forma mais eficiente é fazê-lo perder progressivamente a capacidade de reconhecer quem o ataca, enquanto suas próprias instituições são empurradas umas contra as outras. O conflito passa a utilizar a legalidade, a informação, a economia, a tecnologia e a disputa eleitoral como partes de uma mesma correlação de forças. Tudo continua aparentemente funcionando. Os tribunais julgam, a polícia investiga, a imprensa publica, as plataformas distribuem, os candidatos discursam. Mas, por baixo dessa normalidade, a autoridade que sustenta o conjunto começa a ser corroída.

A contradição é brutal. O STF, que depois de 8 de janeiro se tornou uma das principais barreiras institucionais contra a extrema direita golpista, passa agora a produzir diante do país a imagem de uma Corte dividida, desconfiada de si mesma e incapaz de estabelecer sequer um terreno comum para processar a própria crise. A Polícia Federal contesta o procedimento de um ministro do Supremo. A Procuradoria-Geral da República é chamada a fiscalizar uma investigação na qual seu próprio chefe aparece mencionado. O Banco Central entra no circuito da suspeição. Em vez de uma instituição proteger a estabilidade da outra, forma-se uma cadeia de atritos capaz de consumir a legitimidade de todas.

Essa é uma das formas mais perigosas da guerra política contemporânea porque transforma a força do Estado em matéria-prima de sua própria vulnerabilidade. Não é preciso fechar o Supremo se for possível esvaziar sua autoridade. Não é preciso dissolver a Justiça Eleitoral se for possível fazer milhões de pessoas duvidarem de sua neutralidade antes da votação. Não é necessário impedir formalmente o funcionamento da democracia quando se consegue destruir a confiança coletiva sem a qual suas instituições se tornam apenas edifícios, cargos e ritos.

Para um país do Sul Global, essa dinâmica tem um peso ainda maior. Estados submetidos historicamente à dependência econômica, tecnológica e informacional não enfrentam apenas disputas domésticas. Suas crises internas são atravessadas por interesses externos capazes de explorar cada fissura. É nesse ponto que o conflito brasileiro deixa de ser apenas uma guerra entre ministros e passa a revelar uma disputa pela capacidade do próprio Brasil de decidir seu destino. O golpe híbrido começa exatamente assim: não quando a Constituição desaparece, mas quando as forças que deveriam sustentá-la passam a corroer umas às outras.

Disputa eleitoral de 2026

A essa altura, a crise já não pertence apenas ao Supremo. Ela entra diretamente na disputa eleitoral e encontra uma estrutura de interesses muito maior do que a briga entre ministros. Mendonça é vice-presidente do TSE e atua na propaganda das eleições de 2026. O primeiro turno está a pouco mais de um mês. No mesmo momento em que o STF se fragmenta, a extrema direita transforma o material do caso Master em arma de campanha, desloca o centro do debate e converte suspeitas ainda não julgadas em certezas políticas prontas para circular nas redes. O que a Justiça ainda precisa investigar, a máquina eleitoral já aprendeu a explorar.

É também nesse ponto que a crise brasileira encontra Washington. O governo dos Estados Unidos já transformou decisões do STF sobre plataformas digitais em questão estratégica, aplicou sanções contra Alexandre de Moraes, utilizou tarifas e instrumentos comerciais como pressão sobre o Brasil e tratou a regulação das Big Techs como conflito de interesse nacional norte-americano. Moraes tornou-se alvo não apenas da extrema direita brasileira, mas de uma estrutura de coerção externa que enxerga nas decisões brasileiras sobre plataformas, dados e soberania digital um obstáculo aos interesses econômicos e políticos dos Estados Unidos.
 

Não há prova de que André Mendonça receba ordens de Washington. E afirmar isso sem evidência destruiria a força do argumento. O que existe é algo mais concreto e, do ponto de vista do realismo político, suficiente para exigir atenção: uma convergência objetiva de interesses. A extrema direita precisa enfraquecer o STF para reconstruir sua capacidade de ação. As Big Techs precisam reduzir a capacidade regulatória do Estado brasileiro. Washington pressiona as instituições que impõem limites às empresas norte-americanas e à sua projeção política. E, no centro dessa correlação de forças, uma crise interna aberta pelo próprio Supremo atinge exatamente a instituição que vinha funcionando como uma das últimas barreiras contra esses interesses.

É assim que a guerra híbrida amadurece. Ela não exige que todos os atores estejam reunidos na mesma sala. Basta que forças distintas descubram que podem avançar na mesma direção. O capital transnacional quer liberdade para operar. A extrema direita quer recuperar poder. Washington quer disciplinar um Brasil que regula plataformas, fortalece o BRICS e reivindica autonomia estratégica. As redes digitais precisam apenas converter cada fissura em espetáculo, cada dúvida em indignação e cada indignação em comportamento político. O tabuleiro se move sem que seja necessário um comando único.

Para um país periférico, esse é o ponto em que a disputa interna deixa de ser doméstica. O Brasil não enfrenta somente uma eleição. Enfrenta a tentativa permanente de decidir se continuará sendo um Estado capaz de impor regras ao capital, às plataformas e às potências estrangeiras ou se voltará à condição histórica que o sistema internacional reservou ao Sul Global: mercado, território, fonte de dados e espaço político administrado de fora para dentro. Quando a instituição que deveria conter essa pressão começa a se romper internamente, o problema deixa de ser apenas jurídico. Torna-se uma questão de soberania.
 

O risco não está em investigar, mas em destruir as regras

É preciso chegar ao fim sem cair na armadilha mais fácil: transformar Alexandre de Moraes em símbolo intocável. Não é disso que se trata. Se houver crime, que se investigue. Se houver prova, que se puna. A defesa da democracia não pode depender da blindagem de pessoas. Ela depende da preservação de regras, procedimentos, instituições e da capacidade coletiva de distinguir investigação de condenação, indício de prova, informação de sentença.

É exatamente essa fronteira que está sendo destruída. A suspeita começou em Moraes, alcançou Gonet, Andrei Rodrigues, servidores do Banco Central e Galípolo, e já produz o ambiente necessário para atingir o próprio governo. Esse é o mecanismo. Não é necessário provar que todo o Estado está corrompido. Basta produzir a percepção de que nenhuma instituição merece confiança. Quando tudo parece contaminado, qualquer ruptura pode ser apresentada como limpeza.

O Brasil conhece esse caminho. Em 2016, a ruptura foi construída por dentro das instituições, legitimada por procedimentos formalmente existentes e alimentada por uma máquina política e midiática que transformou exceção em normalidade. Em 8 de janeiro de 2023, a extrema direita tentou converter a deslegitimação acumulada em força física. Em 2026, o método pode estar atingindo um estágio mais sofisticado: utilizar as próprias contradições do Estado para enfraquecer sua capacidade de resistir.

É isso que precisa ser denunciado agora, antes que a fumaça esconda o incêndio. Golpes não começam no momento em que a Constituição é rasgada. Começam quando a sociedade é preparada para acreditar que ela já não serve, que seus tribunais não merecem confiança, que suas instituições são inimigas e que somente uma força externa ao pacto democrático pode restaurar a ordem.

Desta vez, talvez não precisem invadir o Supremo.

Basta fazê-lo desabar por dentro.

A Lava Jato mais uma vez, ao nunca ser corretamente enfrentada pelos três poderes, ganhou.


Luciana Bauer é jurista, pesquisadora e escritora. Pós-doutora em Direito pela Universidade do Vale do Itajaí (Univali), em regime de dupla titulação com a Pace University (Estados Unidos). Doutora em Direito (SJD) pela Widener University Delaware Law School (EUA). Mestre em Ciência Jurídica pela Univali, em dupla titulação com o LL.M. da Widener University Delaware Law School. Graduada em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Atuou por mais de duas décadas como Juíza Federal do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4).

Reynaldo Aragon é jornalista especializado em geopolítica da informação e da tecnologia, com foco nas relações entre tecnologia, cognição e comportamento. É pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos em Comunicação, Cognição e Computação (NEECCC – INCT DSI) e integra o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Disputas e Soberania Informacional (INCT DSI), onde investiga os impactos da tecnopolítica sobre os processos cognitivos e as dinâmicas sociais no Sul Global.

Leia também: Guerra híbrida midiática https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/dica-de-leitura_0865126294.html