27 fevereiro 2026

Minha opinião

Minha amiga Agatha
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65      

Amigos e amigas que adotei por conta própria, unilateralmente. Muitos já se foram, outros tantos permanecem vivos e ativos. Sempre possível reencontrá-los na estante de nossa biblioteca.

Agatha Christie da parte da turma mais antiga. Desde a minha adolescência. Depois, nos ensaios de amadurecimento de indivíduo adulto, ganhou mais importância ainda pela narrativa impar, pelo dom de me fazer refletir sobre a vida e as pessoas.

Críticos literários ensaiam análises diversas sobre a sua obra. Alguns a consideram elegante, simétrica e lógica. Pode ser.

A mim sempre impressionou o ponto de partida – a ocorrência de um crime – e as possibilidades quanto a quem o praticou. Muito parecido com o que aprendi em reuniões clínicas durante o curso médico, particularmente no exercício do diagnóstico diferencial. Afinal, qual a enfermidade que abatia o paciente portador de sinais clínicos comuns a várias?

Em muitas das suas obras os diversos personagens se mantinham sob a mesma mira, todos suspeitos e sob a fina observação da natureza humana pelo detetive Hercule Poirot ou pela Miss Marple. Ao final, através da compreensão de sentimentos e motivações próprios dos humanos, a descoberta de quem praticara o crime.

E um aviso de certo modo dramático e inquietante: mesmo a mais simplória das personalidades pode impelir o indivíduo a cometer um crime. Qualquer um. Inclusive o amigo ou a amiga com que se toma um café um Martini em fim de tarde.

Tudo parece relativizado, a despeito da dramaticidade de suas tramas.

Quase como uma afirmação ingênua da ética na sociedade desigual e fria, impulsionada pelo ideal do lucro máximo, Agatha invariavelmente conduz a narrativa a um clímax em que a justiça afinal triunfa.

De toda forma, amiga Agatha, tudo é possível sobre o chão do nosso planeta.

Leia também: O mundo cabe numa Organização de Base https://lucianosiqueira.blogspot.com/2023/05/minha-opiniao_18.html

Postei nas redes

Transloucado tarifaço de Trump abre mais espaço para a expansão das relações comerciais da China nos cinco continentes. 

China: Autossuficiência tecnológica e mercado interno https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/china-em-ascensao.html   

Quem bloqueou quem?

Detalhe irrelevante
Luciano Siqueira  
instagram.com/renatosq.escritor   

Matéria de certo destaque do Globo, que me aparece na tela do computador, convida o leitor a descobrir se alguém o bloqueou no WhatsApp. E completa: truque nas configurações da conversa dá a dica.

Há alguns poucos anos atrás esta certamente não era uma questão relevante. Nem havia a comunicação digital como hoje a conhecemos e, portanto, o cancelamento do interlocutor se dava de modo explícito, ao vivo e a cores. 

Ora, se é assim que as relações entre as pessoas acontecem, por que alguém esconderia que por alguma razão teria me bloqueado no WhatsApp? Muito mais fácil seria deixar explícito. 

É o que fiz nas pouquíssimas vezes em que me vi na necessidade de interromper fluxo de mensagens que não apenas não me interessavam, em absoluto, como sugeriam certos indícios de algo errado ou mesmo simples má intenção. 

Gente desconhecida, completo. 

De outra parte, se alguém me bloqueia é porque deve ter tido razões para tanto e já não faz sentido que eu insista em manter o contato. 

Jamais forcei a barra para ter a atenção de alguém que, por razões diversas, preferisse me ignorar. 

Melhor empatar o jogo. A rejeição mútua encerra o assunto e não há a menor necessidade de aprender truques contidos no aplicativo. 

E a vida segue.

Leia também: “Vivos, lúcidos e ativos" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/04/minha-opiniao_18.html

Thiago Modenesi opina

Quadrinhos para refletir, formar senso crítico e novos leitores
Histórias em quadrinhos deixam de ser mero entretenimento e se afirmam como ferramenta essencial para formar novos leitores, ampliar o senso crítico e fortalecer o hábito da leitura.
Thiago Modenesi/Vermelho   

Tive a felicidade de ser apresentado a vários bons livros na minha infância e adolescência, isso se deu quase simultaneamente a minha descoberta das histórias em quadrinhos. 

Li A Droga da Obediência, Meninos sem Pátria, clássicos de Machado de Assis e Aluísio Azevedo, Vito Grandam, de Ziraldo, do qual também degustei O Menino Maluquinho e vários outros. Tudo isso mais ou menos nos mesmos anos em que conheci O Lobo Solitário, na sua primeira versão, publicado em formato americano pela Editora Cedibra, American Flagg, de Howard Chaykin, O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller, que completou 40 anos de publicado em 2026, os quadrinhos nacionais de Laerte, Angeli e Glauco que brilhavam nas páginas da Chiclete com Banana e os nostálgicos formatinhos, publicados pela Editora Abril, trazendo quadrinhos da Marvel e DC, os álbuns europeus que chegavam por aqui importados pela Meribérica do Brasil, uma subsidiária da editora portuguesa Meribérica/Líber, e outros milhares que aprec io até o presente.

Durante décadas, as histórias em quadrinhos foram vistas com certo preconceito, rotuladas como um mero passatempo infantil ou um gênero menor dentro da literatura. No entanto, essa visão não poderia estar mais distante da realidade atual, e também já foi bastante superada academicamente. Hoje, as HQs não apenas conquistaram seu espaço como a Nona Arte, mas também se consolidaram como uma ferramenta ainda poderosa e essencial para a formação de novas gerações de leitores.

Dezenas de pequenas e grandes editoras inundam a internet e lojas especializadas com quadrinhos para todos os gostos, infelizmente não o fazem como antigamente em bancas de jornal, porque essas se tornaram cada vez mais escassas, mas nunca tivemos um cardápio tão vasto e variado como o que vemos a partir dos anos 2000 em nosso país.

O universo dos quadrinhos passou por uma transformação significativa. Longe de se limitarem a super-heróis e tramas simplórias, os romances gráficos contemporâneos (também chamadas de graphic novels, alguns acreditam que O Contrato com Deus, de Will Eisner, pode ter sido o marco zero desse formato e alcunha) abordam temas profundos e complexos, como memória, identidade, luto e política. Obras como Maus, de Art Spiegelman (que venceu o Prêmio Pulitzer), Persépolis, de Marjane Satrapi, Watchmen, de Alan Moore e Daytripper, de Fábio Moon e Gabriel Bá, são provas cabais de que os quadrinhos podem alcançar o mesmo nível de sofisticação e relevância dos melhores romances da literatura tradicional.

Essa diversidade temática é o primeiro grande atrativo para cativar novos leitores. Para uma criança ou um adolescente, a barreira de entrada para um livro denso ainda pode ser grande. A combinação sinérgica entre texto e imagem auxilia na compreensão da narrativa, enriquece o vocabulário e desenvolve o letramento visual, uma habilidade cada vez mais necessária em um mundo dominado por telas e estímulos rápidos. Ao ler uma HQ, o jovem leitor não está apenas decodificando palavras, mas interpretando cores, traços e enquadramentos, exercitando a leitura em múltiplas camadas.

Além disso, ao crescerem e descobrirem que as HQs também falam com os adultos, esses leitores mantêm o contato com o hábito da leitura. Eles percebem que o formato não é algo a ser deixado de lado com a maturidade, mas sim um meio que amadureceu junto com eles. Essa continuidade é vital: um leitor que se sente representado e desafiado pelas histórias que consome dificilmente abandona os livros.

Portanto, incentivar a leitura de histórias em quadrinhos é, acima de tudo, incentivar o prazer de ler. Seja pela fantasia descompromissada que diverte ou pela narrativa profunda que faz refletir (e por vezes ganha prêmios), os quadrinhos formam leitores mais críticos, criativos e preparados para o mundo. E, no final das contas, o que importa não é o formato, mas a magia da história que ele carrega e a sua capacidade de formar, entre crianças e adultos, uma sociedade de leitores.

Parece algo óbvio, mas no momento em que se lê pouco, e o nosso país ainda está entre os que leem muito pouco, e as redes sociais e internet tomam praticamente todas as atenções de crianças, jovens, adultos e idosos, a defesa da leitura e da busca por novos leitores é uma necessidade basilar para termos cidadãos com mais e melhores condições de interpretar e transformar a realidade.

Mergulhar fundo para avançar na superfície https://lucianosiqueira.blogspot.com/2024/11/meu-artigo-no-portal-da-fundacao.html

Humor de resistência

 

Aroeira

"Por onde anda Marcianita?" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/10/minha-opiniao_22.html 

26 fevereiro 2026

Palavra de poeta

Soneto para Greta Garbo
(em louvor da decadência bem comportada)
Carlos Pena Filho 

Entre silêncio e sombra se devora
e em longínquas lembranças se consome
tão longe que esqueceu o próprio nome
e talvez já não sabe por que chora

Perdido o encanto de esperar agora
o antigo deslumbrar que já não cabe
transforma-se em silêncio por que sabe
que o silêncio se oculta e se evapora

Esquiva e só como convém a um dia
despregado do tempo, esconde a tua face
que já foi sol e agora é cinza fria

Mas vê nascer da sombra outra alegria
como se o olhar magoado contemplasse
o mundo em que viveu, mas que não via.

Veja: Chico Pinheiro entrevista Cida Pedrosa https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/10/chico-pinheiro-entrevista-cida-pedrosa.html 

Celso Pinto de Melo opina

A crise brasileira e a reconstrução da Escola
Em meio a seu fracasso educacional, país debate, há muito, “projetos pedagógicos”. Não é disso que se trata. A transformação do ensino não pode partir dele mesmo, mas de uma opção radical pela igualdade. Há caminhos para tanto
Celso Pinto de Melo/Outras Palavras   

“A equidade na educação não é apenas uma questão de justiça social;
é condição para a coesão democrática”
Andreas Schleicher [1]


Este artigo integra uma série de quatro textos dedicados a discutir os impasses estruturais da educação brasileira e as condições políticas para uma reforma educacional de longo prazo. Neste primeiro texto da série, como a escola pública deve ser entendida como infraestrutura democrática e pacto de cidadania.

Educação além da política setorial

Há momentos históricos em que sociedades percebem que a escola pública não pode continuar a ser tratada como um mero serviço administrativo do Estado. Em contextos de reconstrução nacional, transições econômicas profundas ou risco de fragmentação social – como ocorreu na Finlândia e no Japão no pós-guerra, ou na Coreia do Sul após o conflito coreano – a educação passa a ser vista como infraestrutura estratégica de coesão social, mobilidade e pertencimento cívico, e não apenas como política setorial [1, 2]. 

Quando a desigualdade social é profunda, o direito formal à educação torna-se insuficiente. Crianças entram pela mesma porta da escola, mas saem para mundos radicalmente distintos. Nessas condições, a escola deixa de ser um espaço de encontro e passa a operar como um mecanismo silencioso de triagem social. Não é apenas a mobilidade que se rompe, mas sim a própria ideia de comunidade política compartilhada.

Quando a desigualdade se torna problema de sistema

Foi diante desse dilema que alguns países, ao longo da segunda metade do século XX, decidiram enfrentar a desigualdade educacional não como fatalidade histórica, mas como falha de arquitetura institucional. A pergunta que se colocaram não foi simplesmente “como melhorar a educação”, mas algo mais incômodo: que tipo de desigualdade o sistema escolar está autorizado a produzir e legitimar?

A experiência da Finlândia é emblemática. Até meados do século passado, o país mantinha um sistema educacional dual, seletivo e socialmente estratificado. A reforma iniciada no final dos anos 1960 não resultou de entusiasmo pedagógico abstrato, mas de uma decisão política clara: não é aceitável que o destino educacional – e, por extensão, social – seja definido cedo demais. A resposta foi a construção de uma escola comum, longa e exigente, sustentada por investimento deliberado na formação, na autonomia e no prestígio social dos professores. A equidade não apareceu como correção posterior, mas como princípio de projeto [2].

Equidade como princípio de projeto

A Coreia do Sul seguiu um caminho distinto, marcado pela urgência da reconstrução nacional, pela escassez de recursos e por uma intensa pressão social pela escolarização. Ainda assim, enfrentou o mesmo problema estrutural: a desigualdade entre as escolas. A política de equalização do ensino médio, com regulação da seleção e redistribuição de oportunidades, expressou a mesma intuição fundamental: não basta expandir o acesso se o sistema continua a produzir hierarquias educacionais rígidas e socialmente previsíveis [3, 4].

Esses casos estão longe de serem modelos perfeitos. Enfrentaram resistências, produziram efeitos colaterais e exigiram correções de rumo. Ainda assim, compartilham um traço decisivo: trataram a desigualdade educacional como um problema sistêmico, e não como uma falha individual dos estudantes ou déficit moral das famílias.

O mito da neutralidade escolar

Como mostraram Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron, sistemas escolares aparentemente neutros tendem a converter desigualdades sociais prévias em desigualdades escolares “legítimas”, apresentadas como resultado de mérito individual [5]. As grandes reformas educacionais do século XX podem ser lidas como tentativas – sempre imperfeitas, mas politicamente conscientes – de interromper esse mecanismo de reprodução da desigualdade.

Vale notar também o que essas reformas não fizeram. Elas não começaram por tecnologia, nem por avaliações punitivas, nem por slogans de eficiência. Começaram por decisões de alto nível que redesenharam o sistema educacional em torno de alguns eixos recorrentes: mais tempo de escola comum, professores como eixo da qualidade, financiamento redistributivo, governança estável e avaliação voltada à melhoria, não à exclusão [1, 6]. 

Os bloqueios estruturais do caso brasileiro

No Brasil, esses dilemas assumem contornos particularmente complexos. Um obstáculo central para qualquer reforma educacional orientada à equidade reside na condição material, profissional e simbólica do magistério. Até hoje, não houve um projeto nacional consistente que articule formação inicial, formação continuada, carreira, remuneração, reconhecimento social e condições de trabalho como partes de uma mesma arquitetura institucional. Sem enfrentar esse nó estrutural, toda promessa de equidade tende a se dissolver na retórica.

A desigualdade educacional brasileira também é profundamente territorial. As condições de funcionamento das escolas – bibliotecas, laboratórios, conectividade, saneamento – variam drasticamente entre regiões, redes e contextos urbanos e rurais. Falar em equidade sem enfrentar essas assimetrias materiais é ignorar que o direito à aprendizagem começa pelo direito a uma escola minimamente equipada.

Há ainda uma contradição estrutural difícil de contornar: enquanto as classes de maior renda recorrem majoritariamente ao ensino privado de melhor qualidade, a escola pública tende a ser percebida como alternativa residual. Essa segregação educacional fragiliza a legitimidade política da escola pública e esvazia sua função como espaço comum de formação cidadã. Experiências internacionais indicam que reformas orientadas à equidade exigem, em algum grau, o fortalecimento da escola pública como referência compartilhada – inclusive pelas classes médias.

Tecnologia, risco e soberania cognitiva

A esses desafios soma-se um novo elemento. A escola deixou de ser o principal ambiente de circulação do saber. Crianças e jovens vivem imersos em plataformas digitais, algoritmos e sistemas de recomendação. Silenciosamente, a inteligência artificial já participa da formação de expectativas, da atenção, da linguagem e das visões de mundo.

Isso cria um risco e uma oportunidade.

O risco é imaginar que as plataformas e a inteligência artificial irão substituir uma política educacional que nunca foi feita. Sem um projeto explícito de equidade, a tecnologia tende a amplificar desigualdades já existentes, agora com aparência de modernização.

A oportunidade é reconhecer que a cidadania do século XXI inclui uma dimensão nova: soberania cognitiva – a capacidade de compreender, verificar, argumentar e decidir em ambientes informacionais complexos, sem subordinação à desinformação, à opacidade algorítmica ou à dependência tecnológica.

Equidade como escolha política

Nada disso será resolvido por decretos rápidos ou por soluções mágicas. As reformas educacionais que mudaram países levaram décadas. Mas deixaram uma lição clara: a equidade educacional não é subproduto do crescimento econômico; é uma escolha política de longo prazo, que redefine a integração nacional e o próprio sentido de cidadania.

Este texto abre uma série de reflexões sobre educação como pacto nacional. Nos próximos artigos, serão discutidos os desafios específicos do caso brasileiro e os contornos de uma agenda de possível transformação educacional compatível com a diversidade do país e com os desafios do século XXI.

Bibliografia


1.  OECD, Equity in Education: Breaking Down Barriers to Social Mobility. 2018, Paris: OECD Publishing.

2.  Sahlberg, P., Finnish Lessons 3.0: What Can the World Learn from Educational Change in Finland? 2021, New York: Teachers College Press.

3.  Korea Educational Development, I., Analyzing the Effects of the High School Equalization Policy (Lottery and Allocation System). 2004, Korea Educational Development Institute: Seoul.

4.  Kim, S. e J.-H. Lee, The Secondary School Equalization Policy in South Korea. KDI Journal of Economic Policy, 2002. 24(2): p. 1–30.

5.  Bourdieu, P. e J.-C. Passeron, La reproduction: éléments pour une théorie du système d’enseignement. 1970, Paris: Éditions de Minuit.

6.  OECD, Equity and Quality in Education: Supporting Disadvantaged Students and Schools. 2012, Paris: OECD Publishing.

Foto: Sebastião Salgado

Leia também: As corporações querem professores-robôs https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/10/ensino-ad-precarizacao.html

Postei nas redes

"...o que se relata neste livro tornou-se verdadeiro a partir do momento em que foi escrito", diz Mia Couto a propósito do seu romance "A cegueira do rio".

Aqui se trata da realidade e da fantasia www.lucianosiqueira.blogspot.com 

Minha opinião

Mais atenção à realidade concreta!
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65     

Já registrei noutra oportunidade o conceito emitido por Tostão (Eduardo Gonçalves de Andrade), médico e colunista esportivo da Folha de S. Paulo, destacado integrante da seleção brasileira campeã mundial em 1970:

— “O grande jogador tem a capacidade de inventar o momento. E tem a antevisão do lance: quando recebe a bola, ele já sabe tudo o que vai acontecer dali pra frente. Chega sempre primeiro que o outro”.

Tudo a ver com o que dizia Nilton Santos, outra legenda do nosso futebol, que se tornara excelente marcador de Pelé, desde que, em final de carreira, deixara a lateral esquerda e se convertera em quarto zagueiro:

— "Eu me antecipo. Dou combate antes do 'negão' pegar a bola, pois se ele a domina não há quem o impeça de fazer uma jogada genial."

É como devem proceder dirigentes partidários em relação às eleições gerais deste ano – não apenas em nível nacional, mas igualmente em plano estadual.

É preciso se antecipar ao desenrolar dos acontecimentos.

Mas o voluntarismo e a superficialidade na abordagem do ambiente pré-eleitoral frequentemente é o que predomina.

Então, no caso específico do PCdoB, uma Comissão Política (instância de controle e de decisão do Comitê Estadual, quando não em reunião plenária), realiza bom debate a propósito das tendências conjunturais no mundo e no Brasil, mas carente de uma abordagem precisa do ambiente econômico e social local..

É o distanciamento da realidade concreta e uma boa dose de subjetivismo e improvisação na compreensão da vida real.

A montagem da chapa majoritária, por exemplo. Que interesses de classe representam candidaturas ao governo estadual, idem os postulantes ao Senado, por exemplo. Como é possível influenciá-los com proposições mais avançadas? Como tais candidaturas dialogam com o projeto nacional que dá conteúdo à frente ampla liderada por Lula?

Desse modo, ainda lembrando Tostão e Nilton Santos, os fatos comandam as atitudes, sem que as direções estaduais exercitem a capacidade de a eles se anteciparem.

E se intervém na peleja eleitoral a reboque dos acontecimentos, comprometendo em boa parte o poder de fogo de corrente política potencialmente capaz de “ler” a evolução dos acontecimentos e, assim, potencializar iniciativas e superar em boa medida suas limitações orgânicas e materiais.

Tudo a ver como o distanciamento da realidade viva na qual se desenrola a cena política, que hoje acomete partidos de esquerda no Brasil, mais afeitos a proclamações gerais do que à inserção real na vida e na luta das massas trabalhadores e demais camadas populares.

Nesse contexto, vale a consigna “menos proclamações gerais, mais apego à realidade dos fatos”.

*Texto da minha coluna semanal no portal ‘Vermelho’

Leia também: O mundo cabe numa Organização de Base https://lucianosiqueira.blogspot.com/2023/05/minha-opiniao_18.html

Humor de resistência

 

Nando Motta

O poder oculto do orçamento secreto https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/estado-disfuncional.html

Futebol

A paixão e o lucro
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65 

Segue sendo “o esporte das multidões”, como sempre se disse desde o século passado. Apaixonante. Mas cada vez mais um ramo da economia. Vale dizer: um grande negócio – aqui e mundo afora.

A beleza do esporte em si e o respeito aos seres humanos que o praticam ficam a segundo plano; o lucro é fundamental.

Daí alguns fenômenos, por assim dizer.

O início atípico do Campeonato Brasileiro deste, m ano, por exemplo. Iniciou-se já em janeiro, tendo em conta a realização da Copa do Mundo em junho. Mais: a instabilidade financeira dos clubes, sob as condições das novas SAFs e do Fair Play Financeiro.

Tudo a ver com o desempenho sofrível dos grandes clubes favoritos ao título nacional, a exemplo de Flamengo, Palmeiras, Cruzeiro e alguns outros, decorrente do calendário comprimido e de uma pré-temporada curtíssima.

Nesse contexto, fala-se em “crise técnica” para explicar a instabilidade de equipes bem montadas, mas de desempenho sofrível.

De toda forma, lícito é esperar uma melhora substancial desse cenário após a Copa do Mundo.

Leia também: Como o mercado subverte a essência do futebol https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/06/thiago-modenesi-opina_24.html 

Postei nas redes

Folha noticia que "cúpula" do Congresso pode votar pena menor a Bolsonaro se pressão por CPI do Master esfriar. É lama com lama sem escrúpulos! 

O poder oculto do orçamento secreto https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/estado-disfuncional.html 

EUA: imbróglio finaneiro

Por tarifas, Trump admite que EUA estão quebrados
Para utilizar seção 122 da lei de 1974, Trump tem de admitir que os EUA estão quase quebrados, com graves problemas de pagamentos.
Aepet   

 

Para introduzir uma tarifa global de 15% (ou 10%, como começou nesta terça-feira, a despeito do aviso na rede social) após a derrota do tarifaço na Suprema Corte, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, teve de admitir que os EUA estão quase quebrados, à beira de uma catástrofe econômica.

Esse reconhecimento é base da seção 122 da Lei de Comércio de 1974 (19 U.S.C. 2132) para permitir a imposição de tarifas que “protejam” a economia estadunidense.

Nas palavras do próprio Trump, no ato em que anuncia a taxação de importações, “por vezes, os Estados Unidos enfrentam problemas fundamentais de pagamentos internacionais, como grandes e graves déficits na balança de pagamentos, uma depreciação iminente e significativa da sua moeda nos mercados cambiais ou um desequilíbrio na balança de pagamentos internacional. Esses problemas podem, entre outras coisas, comprometer a capacidade dos Estados Unidos de financiar seus gastos, corroer a confiança dos investidores na economia e perturbar os mercados financeiros”.

E segue: “Medidas especiais de importação para restringir as importações, como sobretaxas e quotas, são ferramentas essenciais para proteger a economia e a segurança nacional dos Estados Unidos e, em certas circunstâncias, são necessárias para lidar com problemas fundamentais de pagamentos internacionais.”

“Dada a gravidade dos problemas fundamentais de pagamentos internacionais e a importância das restrições à importação como ferramentas econômicas, de segurança nacional e de política externa, a legislação federal (…), autoriza o presidente a tomar medidas por meio de sobretaxas e outras restrições especiais à importação para lidar com problemas fundamentais de pagamentos internacionais.”

Segundo Trump, seus consultores “determinaram que uma sobretaxa de importação na forma de direitos ad valorem é necessária para lidar com os grandes e graves déficits da balança de pagamentos dos Estados Unidos”. E admite que nada mudou em 2025, a despeito do tarifaço: “O grande, persistente e grave déficit comercial anual de bens dos Estados Unidos cresceu mais de 40% somente nos últimos 5 anos, atingindo US$ 1,2 trilhão em 2024. Em 2025, o déficit comercial de bens dos Estados Unidos permaneceu em aproximadamente US$ 1,2 trilhão.”

IA acrescenta nada à economia dos EUA

Investimentos em inteligência artificial (IA) tiveram “basicamente zero” impacto no PIB dos EUA em 2025, segundo afirmou Jan Hatzius, economista-chefe do banco de investimentos Goldman Sachs, em entrevista que concedeu para a TV online do Atlantic Council em 8 de janeiro e que o Washington Post resgatou nesta segunda-feira.

O motivo é que, apesar dos grandes investimentos anunciados pelas companhias de tecnologia estadunidenses, a maior parte dos semicondutores e equipamentos vem de fora, contribuindo para o PIB de Taiwan, da Coreia do Sul e outros, mas com efeito próximo a zero na economia dos EUA. Hatzius salienta que isso não significa que a IA não é importante para o mercado e para a tecnologia.

Para 2026, o economista-chefe do Goldman Sachs prevê que o impacto de investimentos de companhias como Meta, Amazon, Google e OpenAI (estimado pelo mercado em US$ 700 bilhões) em data centers também deve ficar próximo a zero, talvez levemente positivo. (Fonte: Monitor Mercantil)

A Vitória de Zohran Mamdani em Nova York https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/11/thiago-modenesi-opina.html

Palavra de poeta

Poética
Vinícius de Moraes   

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
– Meu tempo é quando.

[Ilustração: Amedeo Modigliani]

Leia também "Elogio da aprendizagem", poema de Berthold Brecht https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/palavra-de-poeta_28.html

25 fevereiro 2026

Postei nas redes

Trump faz discurso no parlamento com dados falsos. Engana a quem?

Um combate necessário https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/editorial-do-vermelho_26.html?m=1

Marcha para o interior

Deslocamento geoeconômico e populacional
O Brasil vive uma silenciosa marcha para o interior, impulsionada pela desindustrialização das metrópoles e pela expansão do modelo primário‑exportador, redefinindo população, trabalho e território
Marcio Pochmann/A Terra é Redonda         

Desde o final do século XX, o Brasil vem mudando de forma relevante o seu padrão histórico de ocupação do território. Após décadas em que a produção, a população e a ocupação se concentravam nas grandes metrópoles litorâneas, observa-se uma crescente desconcentração relativa.

O interior do país e as cidades médias crescem mais rapidamente do que as capitais e as regiões metropolitanas tradicionais. Esse deslocamento não é apenas demográfico, pois se apresenta como expressão direta da transformação estrutural do capitalismo contemporâneo que impõe novos desafios para a governança do território, planejamento, políticas públicas e produção de estatísticas e a geociências oficiais.

A nova geoeconomia do país resulta de um duplo movimento que acontece simultaneamente. De um lado, o processo de desindustrialização foi mais intenso nas áreas metropolitanas litorâneas, uma vez que somente as regiões metropolitanas de São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre responderam por quase quatro quintos da desindustrialização do país.

De outro lado, a especialização da estrutura produtiva mais voltada a produção primário-exportadora avanço para a sua interiorização. Tanto assim que pode estar apontando para uma espécie de marcha para o Oeste brasileiro, considerando a evolução do movimento redistributivo da população, produção e ocupações no espaço nacional.

Com isso, os antigos centros industriais localizados nas regiões litorâneas perdem parcela da densidade produtiva e empregos no setor manufatureiro. Em sequência, novas áreas de parte do interior do país ganham dinamismo econômico impulsionado pela especialização produtiva, sobretudo pelo protagonismo do setor primário-exportador.

Mudanças na dinâmica populacional e nos fluxos migratórios

Dados censitários e estimativas populacionais indicam que, entre 2000 e 2022, por exemplo, que os municípios não metropolitanos tiveram crescimento médio superior ao das capitais e regiões metropolitanas. Naquele mesmo período, as capitais expandiram, em média, 0,8% ao ano, as regiões metropolitanas sem capitais em 1,0%, os municípios do interior em 1,3% e as cidades médias (100 a 500 mil habitantes) em 1,6%.

Essas informações sinalizam uma mudança do eixo dinâmico do dinamismo populacional, com destaque para as cidades médias no interior das regiões Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste. Uma mudança de padrão vinculado ao novo perfil migratório, uma vez que atualmente predominam migrações urbano–urbano, muitas vezes de curta distância.

As regiões metropolitanas do país como São Paulo e Rio de Janeiro têm registrado saldos migratórios internos negativos, ao mesmo tempo em que os polos regionais do interior absorvem parcelas crescentes da população. Em termos práticos, há perda líquida nos espaços metropolitanos mais caros e densos e ganho em periferias metropolitanas, cidades médias e interior que resulta do movimento coerente com a dispersão urbana e a busca por custos menores e melhor qualidade de vida.

No estado de São Paulo, por exemplo, a capital paulistana ampliou o saldo líquido migratório negativo médio anual de cerca de 32 mil pessoas/ano (2000–2010) para cerca de 76 mil pessoas/ano (2010–2022). O interior do estado paulista, por sua vez, continuou ganhando população, ainda que com a desaceleração (de cerca de 80 mil/ano para 50 mil/ano nos mesmos intervalos).

Além disso, convém ressaltar que o perfil dos migrantes contemporâneo também tem mudado significativamente. Com o arrefecimento do êxodo rural, o migrante atual tende a ser mais urbano, em geral mais qualificado e mais apto a se mover entre cidades, sobretudo de porte médio, em uma sociedade de serviços já plenamente urbana e integrada por redes de serviços e conectividade digital.

Um contraste direto e inegável com o período entre as décadas de 1960 e de 1980, quando se consolidou a urbanização concentrada nas capitais e metrópoles litorâneas. Durante a industrialização, por exemplo, dezenas de milhões de brasileiros migraram direta ou indiretamente do campo para grandes cidades, enquanto o interior perdia população.

Estrutura produtiva transformada pela desindustrialização

A reorganização econômica geográfica do país reflete o conjunto das transformações na estrutura produtiva em curso desde 1990. A partir da abertura comercial acelerada e pouco planejada, acompanhada de privatizações e desnacionalizações, o Brasil passou a conviver com a desindustrialização, especialmente em segmentos de maior intensidade tecnológica e com forte marca metropolitana em grande parte das regiões litorâneas.

A participação da indústria de transformação no PIB caiu de forma expressiva em relação ao auge da sociedade industrial na passagem dos anos de 1970 para 1980. Os principais indícios da desindustrialização prematura aconteceram nas grandes regiões geográficas do Sudeste, Sul e Nordeste, enquanto outras regiões exibiram trajetória distinta, o que reforçou o fenômeno do deslocamento econômico, demográfico e ocupacional na dimensão espacial.

Com o esfriamento da centralidade produtiva nas regiões litorâneas outrora as mais dinâmicas, o interior do país passou a deter certo protagonismo vinculado à expansão da produção de commodities e da infraestrutura comprometida com a viabilização do ciclo exportador. Consolidou-se, assim, uma nova fronteira econômica que se estende do Mato Grosso passando por Goiás, Tocantins, Maranhão e Piauí, alcançando o Pará, articulando soja, carne e mineração.

Essa interiorização não ocorre como uma simples repetição do ciclo industrial e urbano ocorrido mais centrado nas regiões litorâneas. Atualmente, o processo de interiorização tem sido movido pela retomado do modelo econômico primário-exportador que se se organiza em torno de cadeias intensivas em recursos naturais, logística e serviços associados à demanda externa, com pouca mobilização integrativa interna.

Neste início do século XXI, o movimento da desconcentração econômica segue mais intenso em algumas regiões litorâneas, sem compensar, contudo, o impacto nacional derivado do enfraquecimento da capacidade das capitais em reter população. No período 2002–2023, por exemplo, as grandes regiões geográficas como Norte e Nordeste registraram o crescimento anual médio de renda per capita mais elevado do que Sul e Sudeste.

Somente a região Centro-Oeste conseguiu elevar a sua posição relativa. O salto da terceira, em 2002, para a primeira posição nacional na renda per capita, em 2023, o que permitiu ultrapassar o Sul e Sudeste, revelou o peso do modelo primário-exportador e seus encadeamentos com agroindústria, serviços e construção na região Centro-Oeste.

Repercussões na distribuição ocupacional no território nacional

No primeiro terço do século XXI ocorreu no Brasil uma importante reorganização da ocupação em todo o território nacional. Nas metrópoles pertencentes às regiões litorâneas, a perda de densidade manufatureira foi acompanhada pela conversão de parte do emprego industrial de maior valor agregado em serviços, muitas vezes de baixa produtividade e maior precarização e informalidade.

No ano de 1985, por exemplo, cerca de dois terços dos empregos existentes no setor industrial estavam concentrados no conjunto das capitais e regiões metropolitanas e somente um terço em todo o interior do país. Quatro décadas depois, quase 55% do total dos empregos industriais se localizam no interior do país.

Em paralelo, o processo de interiorização da população, produção e ocupações acontece combinado com a abertura de novas fronteiras econômicas. Em grande medida são as responsáveis pela mobilização de ocupações associadas ao ciclo das commodities e suas repercussões na agroindústria, logística, construção, serviços públicos descentralizados e serviços privados que acompanham a nova renda regional.

Ao mesmo tempo, a interiorização recente tendeu a se apoiar, em grande medida, nas atividades econômicas menos complexas e mais dependentes das decisões provenientes do exterior. Assim, a expansão econômica no território e o crescimento nos serviços e infraestrutura transcorrem sem que, necessariamente, alcancem a mesma densidade tecnológica e produtiva que antigamente a indústria de transformação gerava nos antigos polos litorâneos.

Isso, talvez, ajude a entender parte das razões da estagnação da produtividade no Brasil desde os anos de 1980. Mesmo que o processo de interiorização em curso contribua para adicionar um novo componente geopolítico-logístico para a mobilidade populacional e ocupacional, a perda de participação do Brasil no Produto Interno Bruto mundial não foi interrompida.

Acresce, ademais, que o avanço da demanda externa por commodities com respostas positivas em regiões não litorâneas tem sido acompanhado por importantes investimentos internos e externos. A experiência atual das rotas de integração sul-americana busca viabilizar os novos corredores de transporte (ferrovias, hidrovias e rotas multimodais) que reforçam ainda mais a conexão entre interior produtivo do país e os mercados globais desde a nova saída exportadora pelos portos do Oceano Pacífico.

Com o encurtamento de distâncias logísticas entre a produção nacional e os locais de consumo externo, a garantia da maior competitividade nacional própria do modelo primário-exportador. Nesse contexto global que o Brasil redefine a sua posição na Divisão Internacional do Trabalho, tendo o ingresso de investimentos estrangeiros em energia e infraestrutura papel complementar.

Assim como a Inglaterra teve centralidade no comércio externo brasileiro durante o século XIX, os Estados Unidos exerceu função equivalente no século XX, ao passo que a China ocupa essa mesma posição atual. No ano de 2025, por exemplo, a China respondeu por 28,7% do total das exportações brasileiras e por 43% do superávitcomercial do Brasil. De todas as commodities exportadas, 74,1% foram para os chineses que responderam por 79% das vendas externas de soja, 67% do minério de ferro e 45% do petróleo.

O avanço do Brasil no século XXI caracteriza-se por uma nova configuração territorial de sua população, estrutura produtiva e distribuição ocupacional. As metrópoles litorâneas mais servicializadas e menos industriais, enquanto parte do interior do país mais dinâmico por cadeias exportadoras e serviços associados.

Em função disso, a mobilidade populacional tem sido marcada pelo processo de interiorização, sobretudo a dispersão urbana com fortalecimento de cidades médias. Isso redefine as prioridades do planejamento territorial, oferta de serviços públicos, regulação urbana, logística e da própria forma de produzir e interpretar estatísticas e a geociências sobre o trabalho, a renda e a população brasileira.

*Marcio Pochmannprofessor titular de economia na Unicamp, é o atual presidente do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Autor, entre outros livros, de Novos horizontes do Brasil na quarta transformação estrutural (Editora da Unicamp). [https://amzn.to/46jSkQk]

O Brasil não precisa ser colônia global https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/autonomia-tecnologica.html

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Luciano Siqueira 


Futebol

Anarquia criativa e racional no futebol
O Flamengo é um dos que estão precisando de um pouco de anarquia. Futebol tem vivido muitos casos de racismo, homofobia e agressões
Tostão/Folha de S. Paulo   

Dos quatro grandes de São Paulo, o Santos é o único desclassificado no Paulistão. O Novorizontino venceu por 2 x 1 e vai enfrentar o Corinthians. Gabigol, como acontece há muitos anos, atuou muito parado, esperando a bola no pé para finalizar. Ele joga muito na frente, entre os zagueiros, e bastante longe de Neymar, muito recuado.

Neymar, desde quando saiu do Barcelona para o PSG, passou a atuar muito atrás, recebendo a bola na própria intermediária, longe do gol. Tenta arrancar, driblar e fica pelo meio do caminho. Falo isso há mil anos. As seguidas contusões dificultam ainda mais sua chegada ao gol. Se Neymar for para a Copa, o que é pouco provável, deveria jogar mais à frente, formando dupla com o centroavante, como faz Memphis ao lado de Yuri Alberto no Corinthians.

Cruzeiro e Corinthians se enfrentam nesta quarta (25) pelo Brasileirão. Yuri Alberto faz muita falta. O Cruzeiro, aos poucos, tem melhorado, jogando com uma linha de quatro meio-campistas, dois pelo centro (Lucas Silva e Lucas Romero) e dois pelos lados (Gerson pela esquerda e Cristian pela direita). Em alguns momentos, o Cruzeiro vai precisar de um ou dois pontas rápidos e dribladores que também voltem para marcar.

As declarações anteriores de Crespo de que o São Paulo iria lutar pelos 45 pontos no Brasileirão para não ser rebaixado foram o gatilho que fez o time jogar bem e vencer tantas partidas seguidas. Dias atrás, alguém disse que o meio-campo do São Paulo, formado por Bobadilha, Marcos Antônio e Danielzinho, sem posições fixas, é uma anarquia que tem dado certo. Diria que é uma anarquia criativa e racional. Às vezes, falta a times bastante organizados e disciplinados uma pitada de anarquia e inventividade.

Faltaria um pouco de anarquia neste início de temporada ao Flamengo, que tem sido muito previsível? Na quinta-feira (26), no Maracanã, o time precisa reverter a desvantagem de um gol contra o Lanús, na decisão da Recopa Sul-americana.

O Vasco, fora da semifinal do Cariocão, demitiu Fernando Diniz. Ele, que foi no Brasil o primeiro treinador a fazer a saída de bola com troca de passes desde o goleiro, tem tido ótimos e maus momentos na carreira, como é habitual entre os treinadores. A diferença é que Fernando Diniz, por ser um pouco diferente nas suas ações e conceitos, é exageradamente elogiado nas vitórias e excessivamente criticado nas derrotas. Se o Vasco contratasse Ancelotti ou Guardiola, os resultados também não seriam bons, pois o elenco é fraco.

Na partida entre Bragantino e São Paulo, o zagueiro Gustavo Marques, do Bragantino, teve uma atitude machista contra a árbitra Daiane Muniz. O jogador foi merecidamente expulso e depois do jogo pediu desculpas, após ser criticado pela mulher e pela mãe. O clube também puniu o atleta. Antes de ser expulso, durante toda a partida, havia uma grande pressão dos jogadores contra a árbitra, que atuou muito bem segundo todas as opiniões.

As críticas, vaias e aplausos são bem-vindas e fazem parte do espetáculo desde que o futebol existe. O absurdo e o inaceitável são as ofensas aos profissionais, o racismo, a homofobia, as agressões, as invasões de dependências dos clubes, a torcida única nos estádios, a violência e os tumultos que ocorrem durante as partidas.

Leia: "Espetacularização, velocidade e o negócio da desinformação" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/01/dinamica-das-plataformas-digitais.html