30 maio 2026

Streaming brasileiro

Tela Brasil é ferramenta de soberania cultural, diz Lula
Plataforma começa a operar neste sábado com mais de 500 obras do audiovisual brasileiro, disponibilizadas gratuitamente para todo o público
Priscila Lobregatte/Vermelho       

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva lançou, neste sábado (30), o Tela Brasil, streaming público e gratuito que vai disponibilizar filmes e obras audiovisuais nacionais. A plataforma “vai contribuir para a elevação da compreensão de um país chamado Brasil”, disse o presidente. Para ele, trata-se de uma ferramenta de soberania cultural.

A cerimônia de lançamento aconteceu no Rio de Janeiro, na Cidade das Artes, e contou, ainda, com a presença de autoridades, entre as quais a ministra da Cultura, Margareth Menezes.
O Tela Brasil tem o objetivo de democratizar o acesso da população à cultura brasileira, a partir da ampliação do alcance da produção nacional, assim como fez o MEC Livros, que já conta com 25 mil livros oferecidos gratuitamente para leitura on line.

No evento, Lula ressaltou que a Tela Brasil visa a oferecer conteúdos que superam a qualidade de boa parte dos conteúdos estrangeiros comerciais comumente veiculados nas tevês abertas e a cabo, ajudando, inclusive, na formação cultural dos jovens brasileiros.

Ele chamou atenção para a alta “quantidade de enlatados de má qualidade que a gente é obrigado a assistir toda noite, porque não tem outra coisa para a gente ver”, completando que esse tipo de conteúdo impede que “a juventude brasileira tenha acesso à plenitude da cultura brasileira”.

Lula também salientou que “o mais importante é a gente conhecer o nosso país por dentro, conhecer a nossa cultura, a razão das coisas que fizeram a gente chegar onde nós chegamos”.

A ministra Margareth Menezes, por sua vez, argumentou que no campo audiovisual, “nós temos um gargalo ainda muito grande na questão da distribuição. Como fazer o povo ter acesso a tudo o que se produz, às coisas que são importantes, que referenciam o nosso país?”.

Além disso, destacou que “o povo que se conhece, o povo que se vê, ele se fortalece, porque nossas histórias são lindas. Temos os povos originários, os povos africanos, os povos europeus, as pessoas que construíram esse país, as histórias que nunca foram contadas.”

Tela Brasil

O Tela Brasil já está disponível a partir deste sábado, inicialmente pelo site telabrasil.cultura.gov.br, com login realizado via cadastro no Gov.br. As versões para Android e IOS estarão disponíveis em até 30 dias após o lançamento oficial.

A plataforma estreia com 555 obras audiovisuais brasileiras: 267 curtas-metragens, 139 longas-metragens, 85 médias-metragens ou telefilmes e 64 obras seriadas, reunindo produções realizadas entre 1910 e 2025. Desse total, mais de 300 obras já contam com audiodescrição, legendagem descritiva e tradução em Libras.

Entre os conteúdos disponíveis estão 19 obras que representaram o Brasil na disputa pelo Oscar, além de produções voltadas à infância e à juventude, musicais, registros históricos e títulos reconhecidos em festivais nacionais e internacionais.

Segundo o governo, o acervo oferece ao público um amplo panorama da história, da pluralidade e da riqueza do audiovisual nacional.

Entre os destaques estão clássicos que marcaram a história do cinema brasileiro, como Deus e o Diabo na Terra do Sol, Terra em Transe, Barravento e O Pátio, de Glauber Rocha; A Hora da Estrela, de Suzana Amaral; Xica da Silva, de Cacá Diegues; Central do Brasil, de Walter Salles; Cidade de Deus, de Fernando Meirelles e Kátia Lund; Carandiru, de Hector Babenco; Olga, de Jayme Monjardim; O Quatrilho, de Fábio Barreto; O Que É Isso, Companheiro?, de Bruno Barreto; e Cinema, Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes.

A seleção reúne ainda documentários de referência, como Jango e Os Anos JK, de Silvio Tendler; produções de Lúcia Murat, como Quase Dois Irmãos e Doces Poderes; além de títulos reconhecidos internacionalmente, como O Menino e o Mundo, Lixo Extraordinário e Ilha das Flores, eleito pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) o melhor curta-metragem brasileiro da história.

A ferramenta nasceu da parceria entre o MinC e a Universidade Federal de Alagoas, responsável pelo desenvolvimento técnico da plataforma por meio do Núcleo de Excelência em Tecnologias Sociais (NEES/UFAL).

Além da oferta gratuita de conteúdo audiovisual, a Tela Brasil foi concebida para operar sem publicidade, sem cobrança de assinatura e sem rastreamento comportamental para fins comerciais. O tratamento de dados segue as diretrizes da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), utilizando exclusivamente as informações necessárias para a prestação do serviço público.

Em breve, acordo entre o MinC e a Empresa Brasil de Comunicação (EBC) permitirá a integração gradual do acervo da TV Brasil à plataforma Tela Brasil. Ao todo, mais de 150 títulos da emissora pública serão disponibilizados, somando cerca de 3 mil horas de conteúdo audiovisual brasileiro.

Clique e acesse aqui o telabrasil.cultura.gov.br.

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O Agente Secreto tratou o Recife como se fosse Paris https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/o-filme-e-cidade.html

Palavra de poeta

Retrato breve do adolescente
Carlos Pena Filho    

Aos dez anos, tinha apenas
um catecismo discreto
e os olhos presos nas alvas
e nudas formas do teto.
Às vezes, em dias claros,
em tardes de sol concreto
retirava os olhos mudos
das alvas formas do teto,
sonhava tempo e navios,
mas seu sonho predileto
estava nos negros olhos
que habitavam seu afeto
e que ele há tanto buscava
longe das formas do teto.

Um dia, a chuva imprevista
que às vezes cai no verão
dormiu sobre o seu telhado
molhou-lhe a imaginação,
tempo em que foi visitado
seu humilde coração
por Isa, Rosa e uma vaga
Maria da Conceição
e aquele mais do que nunca
herói do sonhar em vão
foi dormir com todas elas
nas curvas da própria mão.

Num dia de aniversário
usou (a primeira vez)
solenes calças compridas,
gravata alegre. Era o mês
em que nos campos mais frios
e em outros campos, talvez,
inauguravam-se as rosas
imitando a quem as fez,
e aquele mais do que nunca
latino por sua têz,
apascentou em silêncio
as coisas que nunca fez.

Depois, a moça morena
que em sua rua morava,
embora sendo tão pouco
para quem tanto aguardava,
mostrou-lhe: o esperar é vão,
E veio o beijo roubado
na penumbra do portão.
Enfim, na noite mais forte
que houvera em todo o verão
ambos foram dormir juntos
aquém das curvas da mão.

Aos dezoito olhou p’ra trás:
perdera-se todo o afeto.
Olhou para a frente e viu
o nada por objeto.
Olhou p’ra cima e sorriu
das alvas formas do teto.

[Ilustração: Ernst Kirchner]

Leia também: O cigarro que não fumo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/o-cigarro-que-nao-fumo.html  

Dica de leitura

O governo Trump classificou, desde o ano passado, mais de uma dúzia de facções latino-americanas como organizações terroristas, parte de sua investida de ingerência na região a pretexto de atingir grupos criminosos que representariam ameaça aos Estados Unidos. Na prática, são ações da Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos, atualizada por Trump para reforçar o conceito de seu quintal para a América Latina. Leia aqui https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/05/editorial-do-vermelho_0731946270.html

Fotografia

Luciano Siqueira

Celso Pinto de Melo opina

A farmácia do mundo: como a Índia construiu poder industrial a partir da química
Além da experiência indiana, o artigo procura oferecer elementos para uma reflexão mais ampla sobre desenvolvimento industrial no séc. XXI
Celso Pinto de Melo/Jornal GGN   

O preço do remédio e o preço da dependência

Este é o primeiro de dois artigos que examinam, em perspectiva comparada, a experiência internacional da indústria farmacêutica e suas implicações estratégicas para o Brasil.

No texto introdutório que antecede esta série [2], publicado em meu Substack sob o título ‘O remédio e a fábrica: o elo invisível do poder industrial‘, argumentei que medicamentos não são apenas produtos de saúde, mas também a expressão visível de uma infraestrutura produtiva, científica e tecnológica muito mais ampla. Este primeiro artigo aprofunda essa discussão examinando o caso da Índia, talvez o exemplo mais bem-sucedido de construção deliberada dessa infraestrutura no mundo em desenvolvimento.

No início dos anos 2000, o tratamento anual contra o HIV/AIDS podia ultrapassar US$ 10 mil por paciente. Em poucos anos, esse valor caiu para algumas centenas de dólares. A mudança não foi resultado de uma ruptura científica súbita, mas de uma transformação produtiva e política: a entrada de fabricantes indianos no mercado global de medicamentos genéricos. Empresas como a Cipla passaram a produzir versões equivalentes de fármacos existentes a custos drasticamente inferiores, alterando não apenas o preço, mas o próprio acesso a tratamentos em países de baixa e média renda [1].

O episódio tornou visível um fato mais profundo: a Índia havia se tornado, silenciosamente, um dos principais polos farmacêuticos do mundo. Hoje, responde por cerca de um quinto do volume global de medicamentos genéricos, com presença consolidada em mercados regulados e forte capacidade exportadora [2].

A pergunta que se impõe não é apenas como isso foi possível, mas também o que essa trajetória revela sobre a organização do poder industrial contemporâneo.

A decisão fundadora

O ponto de inflexão remonta a 1970, quando a Índia reformou profundamente a sua legislação de propriedade intelectual. A nova lei aboliu as patentes de produto para medicamentos, mantendo apenas as de processo. Essa decisão abriu espaço para que empresas locais reproduzissem moléculas existentes por rotas alternativas de síntese, inaugurando um ciclo de aprendizado tecnológico centrado na engenharia química [3].

Longe de ser uma simples flexibilização regulatória, tratava-se de uma política industrial explícita. Ao permitir a engenharia reversa, o Estado indiano criou as condições para que empresas domésticas desenvolvessem competências em química fina e em processos produtivos. O objetivo não era competir imediatamente na fronteira da inovação, e sim construir capacidade interna.

Esse movimento deve ser compreendido à luz do contexto histórico. Como observa Chaudhuri [3], muitos países hoje desenvolvidos se utilizaram de estratégias semelhantes em fases anteriores de industrialização. A diferença, no caso indiano, foi a escala e a persistência dessa política.

Aprender produzindo

A abertura regulatória só produziu resultados porque foi acompanhada por um processo sistemático de aprendizado produtivo. Empresas indianas passaram a dominar não apenas a formulação de medicamentos, mas também as etapas intermediárias e, progressivamente, a produção de insumos farmacêuticos ativos (IFAs). Esse domínio exigiu o desenvolvimento de competências em síntese química, engenharia de processos e controle de qualidade [4].

Ao longo das décadas de 1970 e 1980, consolidou-se uma base industrial capaz de produzir em escala crescente. Esse processo foi reforçado por investimentos públicos em pesquisa aplicada e pela formação de uma massa crítica de engenheiros e químicos. Instituições científicas e empresas passaram a operar em relativa proximidade, ainda que sem a formalização de sistemas de inovação nos moldes contemporâneos.

O resultado foi a construção de uma capacidade produtiva que não dependia da inovação original de moléculas, mas do domínio do “como produzir”. Esse ponto é central: a Índia construiu sua indústria farmacêutica a partir do processo, não do produto.

Escala, qualidade e inserção internacional

A partir dos anos 1990, essa base produtiva foi progressivamente integrada ao mercado global. Empresas indianas investiram em certificações internacionais, adaptaram-se a padrões regulatórios exigentes e passaram a exportar para mercados como os Estados Unidos e a União Europeia. O país deixou de ser apenas um produtor para consumo interno e tornou-se um ator relevante nas cadeias globais de valor farmacêutico [5].

Esse movimento ocorreu em paralelo à consolidação de grandes empresas nacionais, como Dr. Reddy’s Laboratories e Sun Pharma, que ampliaram sua presença internacional. A escala produtiva, combinada a custos relativamente baixos e a uma capacidade tecnológica crescente, permitiu à Índia ocupar nichos estratégicos no mercado global.

A inserção internacional não foi, portanto, um ponto de partida, e sim o resultado de um processo acumulativo de aprendizado e expansão.

O confronto com as regras globais

A criação do acordo TRIPS Agreement, no âmbito da World Trade Organization, impôs novos limites à autonomia nacional. A partir de 1995, a Índia passou a ser pressionada a reintroduzir patentes de produto. Essa adaptação se tornou inevitável, mas ocorreu de forma gradual e estratégica [6].

Durante o período de transição, o país consolidou ainda mais sua base industrial. Quando reformou sua legislação em 2005, já dispunha de empresas competitivas e era uma presença global. Além disso, introduziu salvaguardas legais, como a restrição ao “evergreening” – prática pela qual empresas estendem artificialmente a vigência de patentes por meio de modificações incrementais sem ganho terapêutico relevante –, preservando espaço para a produção de genéricos.

Esse movimento revela um aspecto central da trajetória indiana: a capacidade de utilizar o tempo como recurso estratégico. A abertura inicial permitiu o aprendizado; a adaptação posterior consolidou a posição adquirida.

A Índia não foi um caso isolado. Em diferentes momentos históricos, países como Coreia do Sul, Taiwan e, posteriormente, China utilizaram períodos relativamente prolongados de aprendizado produtivo antes de aderirem plenamente a regimes mais rígidos de propriedade intelectual. Em maior ou menor grau, esses países recorreram à engenharia reversa, à adaptação tecnológica e à coordenação estatal como instrumentos de catching up industrial.

A Coreia do Sul, por exemplo, flexibilizou durante décadas a proteção patentária em setores estratégicos enquanto consolidava conglomerados industriais nacionais. A China, mesmo após sua entrada na Organização Mundial do Comércio em 2001, continuou utilizando mecanismos de transferência tecnológica, joint ventures e política industrial ativa para acelerar sua acumulação de capacidades produtivas.

O contraste brasileiro é significativo. Durante o processo de abertura econômica e reorganização institucional dos anos 1990 – particularmente ao longo da administração Fernando Henrique Cardoso – o Brasil aderiu relativamente cedo ao novo regime internacional de propriedade intelectual estabelecido pelo acordo TRIPS. A Lei de Propriedade Industrial de 1996 internalizou rapidamente grande parte dessas exigências, incluindo mecanismos como o chamado “pipeline patent”, que permitia o reconhecimento local de patentes previamente registradas no exterior.

Essa adesão ocorreu antes que o país houvesse consolidado uma base robusta de química fina, IFAs e empresas farmacêuticas capazes de competir internacionalmente em maior escala. Enquanto países asiáticos utilizaram o tempo para construir capacidade produtiva antes do endurecimento regulatório pleno, o Brasil passou a operar sob regras típicas de economias tecnologicamente centrais sem possuir estrutura industrial equivalente.

O debate permanece atual. Em 2026, entidades científicas, industriais e ligadas à saúde pública manifestaram preocupação com a Emenda nº 4 ao PL 2.210/2022, argumentando que mecanismos de extensão patentária poderiam ampliar custos para o SUS, retardar a entrada de genéricos e reduzir o espaço para inovação incremental por empresas nacionais. O episódio evidencia que a discussão sobre propriedade intelectual continua inseparável da questão do desenvolvimento produtivo.

A cadeia farmacêutica e o lugar do poder

A trajetória indiana só pode ser plenamente compreendida quando se observa a estrutura da cadeia farmacêutica global. A produção de medicamentos envolve múltiplas etapas, desde a síntese de intermediários químicos até a formulação final e a distribuição. Cada uma delas apresenta níveis distintos de complexidade tecnológica e de captura de valor.

A Fig. 1 ilustra essa cadeia e evidencia um ponto crucial: as etapas associadas à produção de insumos estratégicos e ao desenvolvimento tecnológico concentram maior valor agregado.   

O valor não se distribui de forma homogênea ao longo da cadeia: as etapas iniciais – intensivas em conhecimento químico e controle de processo – concentram maior poder tecnológico e capacidade de captura de renda. Já as etapas finais, embora essenciais, tendem a operar com menor margem e maior competição. A trajetória indiana consistiu precisamente em avançar “para trás” na cadeia, internalizando essas etapas críticas. Ao dominá-las, a Índia deslocou sua posição na cadeia, deixando de atuar apenas como formuladora para tornar-se produtora integrada.

Da produção à exportação: a virada internacional

A consolidação produtiva foi acompanhada por uma mudança igualmente relevante na inserção externa. Ao longo das últimas três décadas, a indústria farmacêutica passou a ocupar posição crescente na pauta exportadora indiana, não apenas em volume, mas também em capilaridade geográfica e diversificação de mercados.

Como mostra a Fig. 2, essa expansão não foi episódica, mas contínua: as exportações cresceram de forma sustentada, com avanço progressivo em mercados mais exigentes do ponto de vista regulatório, o que indica não apenas ganho de escala, mas também de qualidade e confiabilidade industrial.  

Esse movimento reforça a natureza estratégica da trajetória indiana: a indústria não apenas substituiu as importações, mas também se projetou internacionalmente.

Essa figura também revela a diversificação geográfica das exportações, com presença simultânea em países desenvolvidos e em mercados de renda média e baixa – uma combinação que amplia a resiliência e reduz as vulnerabilidades externas.

O contraste brasileiro

O contraste com o Brasil é revelador. O país dispõe de um sistema de saúde abrangente, instituições científicas relevantes e empresas farmacêuticas consolidadas. Ainda assim, permanece fortemente dependente da importação de IFAs e intermediários químicos [7].

A Fig. 3 mostra a concentração dessas importações, evidenciando a dependência de poucos países fornecedores.  


Como a figura revela, uma parcela significativa dos IFAs utilizados no Brasil provém de um número reduzido de países, especialmente na Ásia, o que cria vulnerabilidades tanto econômicas quanto geopolíticas. Choques externos – sanitários, logísticos ou políticos – podem, assim, comprometer diretamente o abastecimento interno. 

Já a comparação estrutural apresentada na Fig. 4 evidencia diferenças fundamentais entre as trajetórias indiana e brasileira, particularmente no que se refere ao domínio da base produtiva e à inserção internacional.   

Essa figura sintetiza dois modelos distintos: de um lado, a Índia, que internalizou etapas críticas da cadeia e construiu capacidade exportadora; de outro, o Brasil, cuja atuação permanece concentrada nas etapas finais, com elevada dependência de insumos importados. Trata-se menos de uma diferença de recursos e mais de estratégia industrial ao longo do tempo.

Essa diferença decorre menos da presença de ativos isolados e mais da forma como cada país organizou sua trajetória produtiva ao longo do tempo. Enquanto a Índia priorizou o domínio do processo e a construção de escala, o Brasil consolidou-se principalmente na etapa final da cadeia, na qual a dependência externa permanece elevada.

O processo como estratégia: a lição central

A Índia não se tornou a farmácia do mundo por acaso. Tornou-se porque decidiu, por décadas, dominar aquilo que a maioria dos países terceirizou: o processo produtivo.

O Brasil seguiu outro caminho, marcado por uma abertura regulatória relativamente precoce e pela ausência de uma estratégia prolongada de acumulação produtiva em setores farmacêuticos críticos.

Compreender essa trajetória não significa replicá-la mecanicamente. Significa reconhecer que, na economia contemporânea, o poder industrial não reside apenas na descoberta, mas na capacidade de produzir, escalar e integrar cadeias produtivas.

Em outras palavras: a Índia compreendeu que o verdadeiro poder não estava apenas no medicamento, mas no elo invisível que conecta ciência, química, engenharia, produção e escala industrial.

Foi esse elo invisível que a Índia aprendeu a dominar. Mas compreender a trajetória indiana é apenas metade da questão. A questão que permanece aberta é saber se o Brasil será capaz de construir algo semelhante: o país já dispõe de universidades, institutos públicos, empresas farmacêuticas, sistema de saúde e capacidade científica suficientes para iniciar um caminho semelhante?

No próximo artigo veremos que o principal problema brasileiro talvez não seja a ausência de capacidades, mas a dificuldade de conectá-las em um projeto nacional de longo prazo.

Bibliografia

1.    ‘t Hoen, E.F.M., The Global Politics of Pharmaceutical Monopoly Power. 2Diemen: AMB Publishers, 2009. ISBN: 9789070143025.
2.    Indian Brand Equity Foundation, Indian Pharmaceuticals Industry Report. New Delhi: IBEF, 2023.  https://www.ibef.org/industry/pharmaceutical-india.aspx.
3.    Chaudhuri, S., The WTO and India’s Pharmaceuticals Industry: Patent Protection, TRIPS, and Developing Countries. 2005: Oxford University Press. ISBN: 9780195665034.
4.    Kale, D., From imitation to innovation: the evolution of R&D capabilities in the Indian pharmaceutical industry. Technology Analysis & Strategic Management, 2010. 22(5): p. 589–609. https://doi.org/10.1080/09537320903498477.
5.    Kaplan, W. e R. Laing, Local production of pharmaceuticals: industrial policy and access to medicines. 2005, World Bank. https://documents.worldbank.org.
6.    Correa, C.M., Intellectual Property Rights, the WTO and Developing Countries: The TRIPS Agreement and Policy Options. 2000: Zed Books. ISBN: 9781856495847.
7.    Gadelha, C.A.G., L.S. Costa e J. Maldonado, O Complexo Econômico-Industrial da Saúde e a necessidade de um enfoque dinâmico na economia da saúde. Ciência & Saúde Coletiva, 2012. 17(10): p. 2537–2547. https://doi.org/10.1590/S1413-81232012001000004.
8.    World Health Organization, Global Report on Access to Medicines. 2020, WHO: Geneva. https://www.who.int/publications
9.    United Nations Conference on Trade and Development, Trade and Development Report 2021. 2021, UNCTAD: Geneva. https://unctad.org.
10.  Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), Relatórios sobre insumos farmacêuticos e cadeias produtivas. 2023, Governo do Brasil: Brasília. https://www.gov.br/anvisa.
11.  Pharmaceuticals Export Promotion Council of India, Annual Report 2022-2023. 2023, Government of India: Hyderabad. https://pharmexcil.com.
12.  Government of India, Export Data Portal. 2023, Ministry of Commerce and Industry: New Delhi. https://commerce.gov.in.
13.  Iqvia, The Global Use of Medicines 2023. 2023, IQVIA Institute: Durham.
https://www.iqvia.com.
14.  Organisation for Economic, Cooperation and Development, Pharmaceutical Market Trends and Global Value Chains. 2023, OECD: Paris. https://www.oecd.org.


[1] Professor Titular Aposentado da UFPE, Pesquisador 1A do CNPq e membro da Academia Brasileira de Ciências.

Luciana Santos: Tecnologia e inovação na prevenção de desastres climáticos https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/05/luciana-santos-opina.html

Postei nas redes

Pesquisa da revista The Economist indica que há 90% de chance de Trump perder a Câmara em novembro. Pesquisas no Brasil revelam tendência de derrota de Flávio Bolsonaro. Dias atrás protagonizaram um brevíssimo "encontro de derrotados". Que assim seja.

Angu de caroço https://lucianosiqueira.blogspot.com/

Uma crônica de Abraham Sicsu

Soy Latino-Americano: a arte e a identidade
Abraham B. Sicsu 

Deixo claro, não sou entendido em arte e nem posso me arvorar de conhecedor de suas escolas ou concepções. Apenas gosto de apreciar e sempre que é possível vou ver exposições e admirar o belo.

Estando em São Paulo, sempre reservo uma tarde para ver o que acontece no Itaú Cultural, na Casa Japonesa, no Instituto Coreano, no Moreira Sales e, evidentemente, no MASP, com seu novo edifício.

Nele, encontro dois andares de um artista peruano. Santiago Yahuarcani, indígena do povo Uitolo que vive na região amazônica. Sua obra me impressiona. Ver o mundo na ótica dos habitantes originais da região, o sentir as perseguições que atingiram sua própria família. Sua pintura traz os mitos, a sobrevivência na região, o ciclo da borracha e sua opressão, o respeito pela natureza e seus seres enigmáticos.

Obras grandes e de um colorido que cativa. Os felinos e as matas. Tudo usando materiais do local. As pinturas feitas sobre llamchamas, telas feitas de cascas de árvores trançadas, dando um caráter ambiental muito peculiar.

A exposição se chama “O princípio do conhecimento”, interessante notar que é uma das obras em que folhas de coca passam a ter formas humanas como mãos e boca, onde saem folhas de tabaco. Os mitos presentes, o Deus Buinaima, aquele que traz a sabedoria para o povo Uitolo.

Enfim, o respeito pela natureza, pelos rios, pela floresta e pelos seres humanos, numa coexistência de harmonia. Fiquei maravilhado.

No Rio não posso deixar de ir ao MAR, ao MAM, ao CCBB e ao Paço Imperial. Sempre me trazem boas surpresas. Neste ano, o Museu de Arte Moderna apresentou algo que me fez ter orgulho de nossa brasilidade. A exposição de Rubem Valentim.

Na minha ignorância intelectual, desconhecia sua obra e seu legado. Algo imperdoável.

Rubem Valentim, na arte brasileira do século XX, revelou nossa cultura para o mundo. É considerado um mestre do concretismo.  Nasceu em Salvador no ano da Semana de Arte Moderna, 1922, e integrou o Movimento de Renovação das Artes Plásticas na Bahia junto, por exemplo, de Mário Cravo Júnior. Sua obra incorpora todo o sincretismo religioso afro brasileiro através do uso de símbolos e emblemas associados aos Orixás. As religiões de base africanas, usando figuras geométricas, são a base do seu legado artístico. Ao longo de quase cinco décadas trouxe obras em que o indígena e o negro, além de símbolos orientais, vão marcando a evolução  de sua concepção de mundo, do representar de quem somos.

A exposição percorre seu caminho de vida, em cinco ambientes que nos mostram o seu pensar. Partindo de sua origem Salvador, passando pelo Rio, Roma e Brasília, até chegar a São Paulo, onde falece em 1991.

Fiquei impressionado com a evolução das cores. Partindo de tons fortes e representativos dos Orixás, como o vermelho ou amarelo, vai aperfeiçoando, abandonando telas, centrando em entalhes de madeira, entre outras evoluções, até chegar ao branco deslumbrante de seu “Templo de Oxalá”. Nele tudo se incorpora e não é necessário mais cores, mas sim luz, luz que ressalta formas, luz que traz ao centro seus símbolos, suas imagens representativas do mundo sincrético que o orientou. Fiquei deslumbrado.

Ainda no Rio, fui ao Paço Imperial, ver uma exposição de Marcelo Silveira, artista pernambucano, que bem conheço e admiro. A exposição se chama “O que sustenta”.

Marcelo que expõe em espaços aberto, Marcelo das grandes obras, do valorizar das nossas madeiras, do juntar de memórias em quadros sistemáticos, optou por uma concepção diferente.

Um porão em que madeiras retorcidas livres para o mexer ao vento, tem sob sua estrutura novelos de linho,  com um som ao longe dizendo que está “Tudo Certo”.  Será?

E explicação oficial é rebuscada e não saberia aqui fazê-la. Mas, vale dar a minha interpretação.

O ambiente do porão, quase uma antiga senzala, com uma estrutura de madeira solta acima do solo, deu-me a impressão das nossas cidades, do sufocamento das metrópoles, da falta de ar em ambiente fechado que impossibilita movê-la. Os novelos de linho amontoados ao chão como gente que se aglomera na busca de um raio de luz, num centro em que não há privacidade. Lembrem que estava no centro do Rio. 

Não sei se foi delírio ou loucura, sei lá, mas dei significado para mim e gostei. Uma visão das metrópoles em nossa latinidade.

A mente viaja, o sentimento surge, a latinidade se reforça.

“Soy loco por ti, América “...
Loco por ti de amores”

[Ilustração: Santiago Yahuarcani]

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Banksy deixou de ser um mistério no mundo das artes de rua? https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/enio-lins-opina_24.html

Arte é vida

 

Gilberto Salvador

As voltas que o mundo dá https://lucianosiqueira.blogspot.com/ 



Futebol: nuances

As histórias se repetem: Palmeiras e Flamengo na disputa do título
Na seleção também há repetição: Neymar novamente machucado, A recente ausência dos gramados pode atrapalhar a recuperação do santista
Tostão/Folha de S. Paulo   

De vez em quando alguém me pergunta por que eu não estou presente em eventos relacionados ao Cruzeiro, à CBF, à Fifa e a outras organizações. Além de gostar de meu canto e de tentar separar o público do privado, preciso, como colunista, manter uma distância para ter total liberdade e independência para criticar e elogiar.

As histórias se repetem no Brasileirão. Palmeiras e Flamengo, novamente, vão disputar o título. Na derrota do Flamengo para o Palmeiras, por 3 x 0, o primeiro gol aconteceu logo após a expulsão de Carrascal. O Flamengo, perdendo o jogo, teria de tentar o gol, ainda mais em casa, empurrado pela torcida. Nessas situações, é frequente a equipe com um jogador a menos sofrer mais gols por deixar muitos espaços na defesa. Mesmo assim, o técnico Leonardo Jardim foi duramente criticado. Por muito pouco, os treinadores se transformam de heróis em vilões pelas redes sociais e pelos gênios das estratégias.

Por que o Bahia, com frequência, não consegue marcar vários gols sem sofrer tantos? Contra o Coritiba fez 2 e sofreu 3. Seria por causa de deficiências táticas? Penso que o elenco é modesto para o time atacar e defender bem. Deveria se inspirar no modelo do equilibrado Arsenal, campeão inglês, em vez de seguir o do ousado Manchester City, clube do grupo do qual o Bahia faz parte.

Na seleção, as histórias também se repetem. Neymar está novamente machucado, com problema na panturrilha, o que reforça a opinião de que ele não deveria ter sido convocado. Ele se apresenta nesta quarta (27) junto com os outros jogadores e, mesmo se estiver em condições de treinar, os últimos dez dias de ausência dos gramados podem atrapalhar sua recuperação técnica e física. Existe também a possibilidade de Neymar continuar fora dos treinamentos ou mesmo de ser cortado.

Na época da apresentação da seleção para a Copa de 1970, eu tinha ficado seis meses sem participar de qualquer atividade física por causa da cirurgia após o descolamento da retina. Dias antes, fui aos EUA para fazer uma revisão e fui liberado pelo médico para treinar, porém separado do grupo. Carlos Alberto Parreira, que era na época auxiliar da preparação física, foi meu instrutor por cerca de 45 dias.

Na época, a moda no Brasil e no mundo era o teste de Cooper, que media quantos metros um atleta corria em 12 minutos. Logo que passei a treinar com o grupo, fiz o teste e fiquei na última colocação. A imprensa foi atrás do técnico, João Saldanha, para saber das minhas condições físicas. Ele disse: "Tostão foi o último no teste, mas já está escalado". Parecia até que eu era um supercraque, imprescindível. Não sei se Saldanha gostava mais das minhas características técnicas ou da minha pessoa, pois batíamos bons papos sobre futebol, política e outros assuntos.

Eu ainda não entendi por que Saldanha foi convidado para ser técnico da seleção, pois era um ativo participante do Partido Comunista Brasileiro no tempo da nefasta ditadura. Dizem que antes de ser demitido houve uma reunião em Brasília entre os dirigentes da CBD e o ditador Médici. Havia um sussurro entre os jogadores de que Saldanha sairia. Ficamos tristes, chateados, mas, como dizia o próprio Saldanha, "vida que segue". Entrou Zagallo e o Brasil foi campeão.

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Roda vida, roda pião https://lucianosiqueira.blogspot.com/ 

Sylvio: "patéticos"

Ao ver nos jornais a foto dos irmãos Bolsonaro junto com Paulo Figueiredo, ladeando Trump, não  sei porque lembrei-me de um filme que me fazia rir muito na minha infância: Os três Patetas.

Sylvio Belém 

Retratos da vida https://lucianosiqueira.blogspot.com/ 

29 maio 2026

Palavra de poeta

Desalento

Vinícius de Moraes     


Sim, vai e diz
Diz assim
Que eu chorei
Que eu morri
De arrependimento
Que o meu desalento
Já não tem mais fim
Vai e diz
Diz assim
Como sou
Infeliz
No meu descaminho
Diz que estou sozinho
E sem saber de mim

Diz que eu estive por pouco
Diz a ela que estou louco
Pra perdoar
Que seja lá como for
Por amor
Por favor
É pra ela voltar

Sim, vai e diz
Diz assim
Que eu rodei
Que eu bebi
Que eu caí
Que eu não sei
Que eu só sei
Que cansei, enfim
Dos meus desencontros
Corre e diz a ela
Que eu entrego os pontos

[Ilustração: Simon Taylor]

Leia também: O homem só https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/minhaopiniao_64.html 

Celso Pinto de Melo opina

O enterro de Brutus
O país inteiro parecia saber que havia algo apodrecido naquele edifício moral erguido em nome da pátria, da família e da honestidade.
Ceso Pinto de Melo/Jornal GGN      

Amigos, compatriotas, cidadãos de bem, emprestem-me seus ouvidos.

Venho enterrar Brutus, não elogiá-lo.

O mal que os homens fazem sobrevive frequentemente a eles; o bem, muitas vezes, é enterrado com seus ossos. Que assim seja com Brutus. 

Pois Brutus era um homem honrado.

E homens honrados merecem cerimônia digna, palavras graves, semblantes compungidos e editoriais respeitosos. Merecem o silêncio prudente dos antigos aliados, a cautela dos antigos admiradores e até mesmo a tristeza protocolar daqueles que ontem juravam jamais ter percebido sinais de decomposição moral no corpo agora exposto diante da praça pública

Porque Brutus era um homem honrado. 

Durante anos, disseram-nos que tudo não passava de exagero. De perseguição. De narrativa. Má vontade dos inimigos. Disseram-nos que os depósitos eram coincidências, que os assessores eram leais, que as movimentações eram atípicas apenas para olhos maliciosos. Garantiram-nos que imóveis apareciam e multiplicavam-se como um fruto natural do empreendedorismo patriótico.

E Brutus era um homem honrado.

Houve quem estranhasse a extraordinária capacidade financeira daquele círculo familiar. Quem perguntasse, ainda timidamente, como salários modestos produziam patrimônios tão vigorosos. Houve quem observasse a curiosa circulação de dinheiro vivo, essa relíquia econômica preservada com tanto carinho em plena era digital. 

Mas homens honrados certamente possuem hábitos financeiros incompreendidos pelas pessoas comuns.

Também surgiram amizades inconvenientes, vizinhanças desconfortáveis, fotografias embaraçosas, homenagens oficiais concedidas a personagens que pareciam frequentar em demasiado as páginas policiais. Nada conclusivo, asseguravam-nos. Nada definitivo. Apenas coincidências tropicais sob o calor excessivo da política brasileira.

E Brutus era um homem honrado. 

A cada nova revelação, porém, tornava-se necessário ampliar um pouco mais o esforço coletivo de fingimento. Jornalistas precisavam olhar para o lado. Aliados precisavam subitamente perder a memória. Patriotas inflamados precisavam explicar que rachaduras morais eram, na verdade, demonstrações de autenticidade popular. Afinal, homens simples movimentam dinheiro de maneira simples.

E Brutus era um homem honrado.

Talvez o mais extraordinário nessa longa cerimônia não tenha sido o segredo, mas justamente o fato de jamais ter sido segredo algum. O país inteiro parecia saber – ainda que discretamente, ainda que entre dentes – que havia algo profundamente apodrecido naquele edifício moral erguido em nome da pátria, da família e da honestidade. 

Mas ninguém desejava ser o primeiro a notar o odor.

Porque Brutus era um homem honrado.

Havia sempre uma nova desculpa. Uma nova cortina de fumaça. Um novo inimigo interno. Um novo escândalo capaz de deslocar a atenção pública. Enquanto isso, a honorabilidade permanecia cuidadosamente embalsamada diante das câmeras, envolta em bandeiras, versículos bíblicos e discursos contra a corrupção. 

Nem faltaram aspirantes a Mecenas dispostos a financiar futuras hagiografias audiovisuais da dinastia, numa curiosa tentativa de substituir julgamento histórico por direção de arte.

Mas homens honrados sempre atraem patrocinadores igualmente desinteressados.

Poucas coisas são mais resistentes no Brasil do que um cadáver político sustentado por conveniência. 

E Brutus era um homem honrado.

Até que chega o momento em que até mesmo os carregadores do caixão começam discretamente a soltar as alças.

Então surgem os vazamentos definitivos, os antigos aliados silenciosos, os abandonos cautelosos, os editoriais tardios e as súbitas descobertas morais de quem passou anos contemplando o abismo com admirável serenidade institucional. 

Subitamente, todos parecem perplexos.

Perplexos com aquilo que sempre souberam.

Porque Brutus era um homem honrado. 

O funeral de que falamos aqui não é o de um corpo, mas o de uma reputação política que durante muito tempo se pretendeu intocável. O que talvez esteja sendo sepultado diante de nós é algo mais profundo: a velha encenação nacional segundo a qual determinados personagens seriam moralmente inalcançáveis apenas porque vestem a fantasia correta, frequentam os altares adequados e gritam os slogans esperados.

Toda farsa política depende menos da mentira em si do que do pacto coletivo de fingir acreditar nela.

E Brutus era um homem honrado. 

Talvez, por isso, o funeral produza tamanho desconforto. Não porque o segredo tenha finalmente vindo à luz, mas porque a luz tornou impossível continuar a fingir escuridão.

Mesmo agora, haverá quem peça cautela. Recomende prudência. Quem explique que não convém exagerar. Afinal, dizem, a política é dura, os tempos são polarizados, e as acusações podem ser injustas.

Certamente. 

Mas, ainda assim, resta a pergunta que ecoa sobre este enterro: quantas evidências são necessárias para que um segredo de Polichinelo deixe de ser tratado como mera suspeita?

Talvez nunca saibamos.

Pois Brutus era um homem honrado. 

Toda República produz seus Brutus. Mudam apenas os uniformes, os slogans e os idiomas do Império.

Em Roma, chamavam-no Brutus.

Nos trópicos, às vezes atende por Flavius.

Honrado, naturalmente.

Celso Pinto de Melo – Professor Titular Aposentado da UFPE, Pesquisador 1A do CNPq e membro da Academia Brasileira de Ciências.

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