01 janeiro 2026

Palavra de poeta

Poeta sem voz
Thelma Miguel  

por que fui nascer poeta?
as palavras me engasgam
prendem na garganta
falta o ar
não embelezam meu dia
não hoje
não neste dia

a vida de poeta
me embaralha nas letras
fico perdida nas emoções
nas curvas da vida

porque o poeta
sente forte o que vê
às vezes enlouquece
quando as palavras perdidas
pelo corpo
engessam a alma

o poeta se desespera
quando o silêncio
vence o grito
e ele não consegue
pôr no papel
aquilo que em sua alma
sangra

o poeta enlouquece
quando uma página branca
atravessa o seu dia
os rabiscos ficam vazios
sem nexo
ele risca
rabisca em vão
e não consegue
que sua alma se esparrame

tempos sombrios
para o poeta que se delicia com a beleza
com a suavidade da alma
hoje um martelo crava
em seu peito uma estaca
e ele não consegue respirar
de dor

as palavras perderam o caminho da boca
ficam embrulhadas no meio do estômago
não sai uma só palavra
só restou um vazio
oco
no meio dos lábios


[Ilustração: Sandra Bierman]

"Da rede tudo se ouve e se imagina" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/minha-opiniao_29.html 

Enio Lins opina

Ano repleto de lições inéditas, 2025 se despede
Enio Lins  

2025 FOI UM ANO HISTÓRICO, no Brasil, pelo no coroamento do primeiro julgamento e primeiras condenações por tentativa de golpe de Estado. A tremenda relevância desse inédito acontecimento é reforçada pelo fato de terem sido processados, julgados e condenadas figuras carimbadas que se acreditavam inalcançáveis pelas normas constitucionais – e tinham suas razões para isso, pois jamais golpistas de alto status (civis e militares) foram sequer admoestados em cinco séculos de Brasil.


OUTRO MARCO INÉDITO foi o correto enfrentamento à pressão do governo dos Estados Unidos, alcançando o mais expressivo êxito diplomático numa contenda internacional relevante desde a conquista do Acre, em 1903. Não se pode desconhecer a importância do acordo fechado entre Vargas e Roosevelt para a entrada do Brasil na II Guerra ao lado dos Aliados (EUA, Reino Unido, URSS) contra o Eixo (Alemanha, Itália, Japão), refletido então em avanços como criação da Companhia Siderúrgica Nacional. Mas queda-de-braço entre Casa Branca e o Palácio do Catete, nos anos 40, foi travada nos bastidores, baseada na astúcia, apesar de ameaças veladas. Mas, em 2025, a carga da cavalaria de Trump foi brutal, com aplicação de taxas escorchantes contra as exportações brasileiras e disparos da famigerada Lei Magnitsky contra um mini stro do STF. Para a surpresa de quase todo globo, obstáculos eliminados! Lógico que as contradições entre Brasil e Estados Unidos não estão eliminadas, mas o sucesso diplomático, turbinado pela articulação pessoal – imprevisível – entre Lula e Trump, é uma tremenda conquista para a Democracia, para o comércio entre as Américas, e para o prestígio internacional do Brasil.

ÊXITOS NA ECONOMIA: destaca o diariodocomercio.com.br/: “A mediana do relatório Focus para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em 2025 permaneceu em 2,26%. Um mês antes, era de 2,16%. Considerando apenas as 65 projeções atualizadas nos últimos cinco dias úteis, mais sensíveis a novidades, a estimativa intermediária também permaneceu em 2,27%”. Apesar do mau humor dos oligarcas do mercado, e da voracidade da taxa básica de juros imposta por um BC dependente dos banqueiros (a maior em 20 anos, na astronômica faixa dos 15%), o ano finda cravando a menor taxa de desemprego e o menor nível de pobreza extrema dos últimos 12 anos. Foram gerados mais de 1,8 milhão de novos empregos com carteira assinada, e a taxa de desemprego no trimestre encerrado em outubro foi de 5,4%, recorde, a menor desde 2012. No penúltim o dia do ano, o jornal Valor Econômico publicou que "o Ibovespa acumulou valorização de 1,29% no mês. No balanço anual, a alta atingiu 33,95%, marcando o maior avanço nominal desde 2016, quando o índice havia subido 38,93%". Esses avanços, porém, não podem ser traduzidos como “felizes para sempre”: o sistema financeiro, insaciável, segue enxergando os investimentos sociais como imperdoável diminuição de seus lucros, e tal visão contamina, indubitavelmente, parte das camadas médias (mas isso não é novidade).

PARA O BEM DA DEMOCRACIA, mixou em 2025 a estratégia das facções mais perigosas do bolsonarismo, que tinham como foco uma anistia ampla e incontida beneficiando o mito presidiário. Apesar da vergonhosa “dosimetria” ter sido aprovada pelo Congresso, seus efeitos não atendem aos interesses dessas gangues, o que obrigou ao comandante supremo da OCRIM a jair atropelando alguns de seus cúmplices mais importantes (como Micheque, e Tarcísio, ambos ansiando a candidatura presidencial) e indicar o filho Zero-um para a principal disputa de 2026.

2025, APESAR DAS VITÓRIAS, repassa para 2026, pelo menos três grandes perigos: 1) expressiva força eleitoral da delinquência bolsonarista; 2) perspectiva de eleição de um Congresso Nacional pior que o péssimo hoje em atividade; 3) debilidade política-eleitoral das forças democráticas (centro, centro-esquerda e esquerda). A solução, como bem disse aquela peça publicitária, é entrar com os dois pés no Ano Novo. Com força, digo eu, pois a extrema-direita já anuncia que vem com as quatro patas nos peitos da Democracia.

[Qual a sua opinião?]

Luciana Santos: “PCdoB mais organizado para intervir nos próximos anos” https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/palavra-de-luciana.html

Arte é vida

 

Silvio Zanchett

Leia: "Fresta", poema de Cida Pedrosa https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/10/palavra-de-poeta_1.html