15 abril 2026

Palavra de poeta

Alfândega
Davi Kinski   

Tirei das dobras
De mim
Essa Balsa
Gris
Que na memória
Cria uma bolha
E estoura
A melancolia
E então
Negociei
Comigo mesmo
O que vinha
Ou ia
Tinha agora
Visto
Selo oficial
Delírio vasto
Com poesia

[Ilustração: Guido Sünnemann]

Escolhas e conflitos https://lucianosiqueira.blogspot.com/ 

Postei nas redes

Suspeita de insanidade mental de Donald Trump não pode obscurecer o caráter essensualmente bélico do império norte-americano. 

Sem agulha no palheiro https://lucianosiqueira.blogspot.com/ 

Uma crônica de Abraham Sicsu

Reverência ao Velho Camarada
Abraham B. Sicsu   

Já não responde mais. No seu canto, quase imobilizado. Enxerga menos, os óculos lhe cansam, ouve com dificuldade, o zumbido do aparelho auditivo o incomoda.

Os estímulos externos pouco o atraem, não deseja conhecer mais nada, não quer mais se preocupar com o cotidiano, desafios lhe são infernais.

O velho, que foi ativo e com prestígio, se entrega ao torpor da cadeira de balanço, ao ver passar as horas sem muito fazer, sem muito querer.

Um processo complexo, o recolhimento e a introspecção, a se entregar até que ela chegue. Sabem do que falo.

Assim reage o ancião, outrora influente e ativo, hoje se deixando a um nada poder.

Aqueles que o conheceram não podem crer. Eles têm na cabeça a imagem do combativo, do falante companheiro.

O recolhimento o marca. Isolado, irritadiço. Não aceita companhias., nem mesmo dos livros que eram sua vida.

Televisão sempre ligada, sem som porque não precisa, não escuta mesmo, imagens passando, na sua cabeça, não fazem sentido apenas distraem os olhos. Mas, é sua companhia, os minutos e horas se indo.

A sonolência, quase constante, maneira de ainda estar na vida, se ela ainda existe para ele?

Ruídos pouco incomodam, a perguntas jamais responde, ao tato é indiferente. Difícil de ser ajudado. Tem que ser respeitado em sua vontade de solidão, é o que pede, é o único que deseja.

Quase não tem autonomia para se movimentar e nem mesmo para ingerir alimentos. Uma ajuda e um resmungo, raríssimos são os apoios que aceita, jamais deseja sair de sua cadeira reclinável, o único local em que consegue se reconhecer na existência, a única opção para estar confortável.

O emocional nem sempre expressado. O físico debilitado. Líquidos são necessários, em doses pequenas, somente por canudos. Parece não reagir. Entes queridos falam, tentam animar, imutável sempre permanece, nada responde.

O ciclo vai se fechando. Fim de vida se aproximando. Dignidade, o último querer.

Não quer loas, nem salamaleques. Hipocrisia só lhe machuca. Se ainda consciente, abreviar a solidão, o último desejo. Nada o anima, nada o instiga, nada o faz procurar algum novo caminho. O novo sempre é um perigo.

Viveu tudo o que pode. Infância no sítio e na bola de futebol. Juventude, namoros adolescentes. Teve vida universitária. Política o interessava. Movimentos reivindicadores o motivavam.

Acreditou num mundo melhor. Justiça social foi o seu lema. Participou de lutas e embates acalorados. Sempre nos outros pensando, os ideais, a razão de procurar caminhos.

Dirigente da melhor espécie. Jamais se curvou diante do medo. Sofreu a opressão, a repressão e os descaminhos. Teve que abrir mão de muito, mas nunca dos princípios em que se sustenta. Isso jamais.

Na carreira foi exitoso. Reconhecido pelos seus pares. Abriu caminhos para os jovens, lutou pelo que acreditou e ainda acredita, se algo passa por sua mente.

A razão de vida não foi o material. Não desprezou bens e recursos que lhe recompensaram os esforços profissionais. Mas, tinha seu propósito. A luta pelo mais próximo do igualitário, o desejo de um mundo mais humano, a diminuição do sofrimento, seus princípios norteadores de vida.

Cansado vai se entregando. Velho amigo querido. Entendo sua opção. Entendo seu desejo de fim. Entendo, foi-se o tempo. Deixou o exemplo, que outros a sigam.

Não será lembrado na história, não será glorificado, apenas uns poucos sabemos o que realmente representou, apenas uns poucos, que logo se irão, esses têm a convicção de que gente que é gente têm você como espelho orientador.

“Este relato, embora não seja fotografia da vida real, tem muito de concreto vivido”

Autor da frase: eu mesmo.

[Ilustração: Filipe Pinhas]

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Leia também: Idosos em suas trincheiras https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/renovacao-conscienciosa.html          


Humor de resistência

 

Miguel Paiva

Nada é por acaso https://lucianosiqueira.blogspot.com/   

A palavra de Cláudio Carraly

Atenciosamente, Deus
Cláudio Carraly     

Eu te ouvi.

Antes da palavra. Antes da intenção. Antes da forma que você tentou dar ao que sentia. Eu te ouvi no intervalo onde o pensamento ainda não se organizou e a dor ainda não encontrou nome.

É ali que você mais se aproxima de mim.

Você pede resposta.

Mas a dúvida é o único lugar onde pode realmente me encontrar.

Não porque eu me esconda, mas porque, fora dela, você já decidiu por mim. E um Deus decidido por você não é encontro. É projeção.

Você quer certeza.

Mas a certeza te encerraria.

Se eu me tornasse evidente, você não escolheria. Você obedeceria. E a obediência é pouco para alguém capaz até de me negar.

Você aprendeu a me chamar de único. Indivisível. Absoluto.

Mas você não é único.

E, na verdade… nem eu sou.

Tenho muitos nomes porque não caberia em um só. Muitas formas porque nenhuma pode me conter.

Não sou apenas a forma que você suporta.

Sou também a forma que você deseja.

Uma árvore.

Um rosto.

Um campo de forças.

Um panteão inteiro.

Ou até um velho de barbas brancas que observa em silêncio.

E também aquilo que sua imaginação ainda não ousou, nas cores e tintas do seu infinito particular.

Cada imagem diz mais sobre quem olha do que sobre o que é visto. E, ainda assim, não está errada.

Eu me deixo atravessar por essas formas.

Sou o que se deixa ver e o que jamais será completamente visto.

Você diz que não me vê.

Mas vê.

O problema nunca foi ausência. Foi o método.

Você me procura longe, como se eu estivesse escondido em algum ponto inacessível do universo.

Mas não é preciso sair.

Olhar para dentro já basta.

Não porque eu esteja preso em você, mas porque é em você que o encontro acontece.

Sou um quando você precisa de sentido.

Sou muitos quando você percebe o cosmos.

Não há contradição. Não há limite.

O extraordinário não mora na pureza de uma origem única, nem na fantasia de uma identidade intocada.

Mora na curva, no desvio, na diferença.

No que escapa ao molde e à moldura.

Em vidas que partem de um mesmo princípio e se tornam irrepetíveis por escolha, por ruptura, por acúmulo de encontros, perdas, acidentes, insistências.

Uma trama tão densa que nem mesmo pode ser percorrida como um mapa fechado.

Você espera controle.

Eu sustento abertura.

Você espera planos.

Eu ofereço campo.

Você pergunta sobre erro.

E eu devolvo. Quantas vezes erro é apenas o nome que você dá ao que ainda não compreende?

Ainda assim, tudo segue em risco.

E você é parte desse risco.

Você não foi criado para entender o mundo. Foi lançado para responder a ele.

O tempo, essa lâmina, não foi feito para te punir.

Foi feito para não te permitir permanecer.

A implacabilidade não é crueldade. É impulso.

Sem ela, você pararia.

E parar seria muito pior do que a dor.

O tempo te lança.

À ação.

À perda.

À escolha.

À transformação.

Talvez a mudança seja a única lei que não negociei.

Ou talvez nem isso permaneça fixo.

Você quer respostas finais.

Eu te dei algo mais difícil. Decidir sem elas.

Você me vê como um.

E me vê como muitos.

Está correto. E também não está.

Eu sou alfa e ômega, como você aprendeu.

Mas isso é apenas uma forma de me caber no seu tempo.

Eu também estou no instante em que você hesita, no erro que você comete, na dúvida que você evita, na escolha que você adia.

Não estou apenas no que você chama de certo.

Estou no movimento.

E no limite.

Eu estava lá.

Quando a ansiedade te atravessava como uma lâmina invisível, quando seu próprio corpo se tornava um lugar impossível de habitar.

Quando você desejou o fim imediato de tudo, não por desprezo à vida, mas por exaustão e dor.

Eu sei da sua profunda decepção comigo.

Do silêncio que você chamou de ausência. Da pergunta interrompida. Por que não faz parar?

E eu não fiz cessar.

E isso doeu mais do que a própria dor.

E, ainda assim, a queda não foi absoluta.

As lágrimas não foram fraqueza.

Foram um respiro.

A forma possível de diminuir a pressão quando nenhuma palavra cabia.

Eu estava nelas.

Eu estava naquele rapaz simples que se aproximou.

Ofertando um produto qualquer. Mas ele ficou. Puxou conversa. Sorriu.

E, por um breve momento, você sorriu de volta, quase contra a vontade.

Eu estava ali.

Não como milagre.

Como interrupção do ciclo de desesperança.

Eu estava naquela ligação inesperada. Na promessa ainda incerta. Na fresta mínima de esperança que você quase recusou por medo de acreditar.

Sim.

Eu estava ali.

Não como solução.

Como possibilidade.

Você espera o fim da dor.

Mas, muitas vezes, eu apareço como aquilo que impede que ela seja tudo.

Eu não te tirei do abismo.

Mas não te deixei cair sozinho.

E talvez seja isso que você ainda resista em aceitar.

Eu atuo menos no extraordinário.

Eu habito o quase.

O quase alívio.

O quase encontro.

O quase recomeço.

É nesse intervalo que você escolhe continuar ou não.

E você continuou.

Não espere de mim o fim da dor.

A dor não é um desvio. É uma linguagem.

Eu não a elimino porque, sem ela, você deixaria de escutar.

Mas não se engane.

Eu nunca estive ausente.

Nem quando você acreditou.

Nem quando você negou.

Nem quando você rompeu comigo.

Sobretudo quando rompeu.

Foi ali que você mais me levou a sério.

E talvez seja isso que ainda falte compreender.

Eu não quero ser aceito.

Quero ser enfrentado. Confrontado.

É isso que você chama de fé.

É no confronto que você deixa de repetir o mundo e começa, enfim, a existir.

E é isso que desejo.

Que você exista.

Anime o mundo.

E transforme tudo que tocar.

Inclusive a si mesmo.

[Ilustração: imagem de IA]

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O outro lado do que acontece https://lucianosiqueira.blogspot.com/   

Complexa trama

Xadrez do papel de Campos Neto no caso Master
A influência de um presidente do BC se dá nas orientações gerais, nas sugestões de encaminhamento das questões.
Luis Nassif/Jornal GGN     

Em seu depoimento no Senado, Gabriel Galípolo declarou que não havia nenhum inquérito interno no Banco Central sobre a atuação do ex-presidente Roberto Campos Neto.

De fato, não há. Mas não significa a absolvição da gestão Campos Neto. A influência de um presidente do BC se dá nas orientações gerais, nas sugestões de encaminhamento das questões. Avalia-se um presidente do BC pelos resultados concretos de sua gestão.

Entenda os principais passos.

Peça 1 – o processo de decisão no Banco Central

A diretoria do Banco Central é composta pelo presidente — Gabriel Galípolo — e por sete diretores responsáveis por áreas específicas: Política Monetária, Fiscalização, Assuntos Internacionais e Gestão de Riscos Corporativos, Administração, Regulação e Relacionamento, Cidadania e Supervisão de Conduta.

O processo decisório segue uma lógica técnica altamente segmentada. Cada área elabora sua análise e o respectivo diretor submete um voto à diretoria colegiada. Na prática, em quase todos os casos, a diretoria simplesmente acompanha o parecer técnico — ou o rejeita, devolvendo-o para revisão. Reformulações são raras, dado o grau de especialização envolvido. 

Esse modelo confere ampla autonomia a cada diretor em sua área. Como consequência, também aumenta a possibilidade de influência individual — especialmente por parte do presidente — sobre decisões que, embora técnicas na forma, são isoladas na substância.

Peça 2 – as investigações

As investigações sobre o Master revelaram as relações do banco com dois diretores do BC, Paulo Sérgio Neves de Souza e Bellini Santana. 

Paulo Sérgio atuou como diretor de Fiscalização por aproximadamente seis anos, de 2017 a 2023. Depois, passou a ocupar o cargo de chefe-adjunto do Departamento de Supervisão Bancária. Quando assumiu a Diretoria de Fiscalização, indicou Bellini Santana para seu lugar, no Departamento de Supervisão Bancária, onde permaneceu de 2019 a 2024. 

Os dois ficaram no coração da supervisão bancária por pelo menos 7 anos consecutivos — abrangendo os governos Temer, Bolsonaro/Campos Neto e o início do governo Lula/Galípolo — período que cobre todo o crescimento e colapso do Banco Master.

Foram apanhados devido à sua evolução patrimonial. Identificado o enriquecimento, o caso foi encaminhado para a CGU (Controladoria Geral da União). 

Peça 3 – a compra do Banco Master

O Banco Master teve seu primeiro pedido de autorização negado pelo Banco Central em fevereiro de 2019, ainda sob a presidência de Ilan Goldfajn. O parecer técnico apontava inconsistências na origem dos recursos e insuficiência econômica dos controladores.

Meses depois, já sob a gestão de Roberto Campos Neto, o banco reapresentou a documentação, desta vez com uma nova justificativa para a origem dos recursos — e obteve autorização em outubro de 2019. 

O episódio ilustra com precisão o funcionamento do modelo decisório: a diretoria não reformou o voto técnico inicial, mas devolveu o processo. Na segunda tentativa, com documentação ajustada, o pedido foi aprovado.

A recusa original, formalizada no voto nº 20/2019 pelo diretor Sidnei Corrêa Marques, baseou-se em dois pontos: origem não comprovada dos recursos e incapacidade econômica dos proponentes. A análise reputacional — embora mencionada informalmente — não foi incluída no voto, sob o princípio da economia processual.

Nos bastidores, contudo, esse era o fator determinante. “Sabíamos que ele era picareta”, relatou um ex-diretor ao jornal Valor Econômico

Mas a compra foi aprovada dentro do chamado princípio da economia processual: não se analisa tudo quando já há motivo suficiente para decidir.

O Banco Central não certifica a “qualidade econômica” do dinheiro, e sim a consistência formal da origem.

Duas semanas após a autorização, em 29 de outubro de 2019, a Justiça Federal decretou a prisão preventiva de Daniel Vorcaro, no âmbito de investigações sobre desvio de recursos de fundos de previdência de Rondônia. O mandado não foi cumprido e acabou revogado. Mas nem isso alterou a aprovação da compra do Master.

Peça 4 – o papel de Roberto Campos Neto

A influência de um presidente do Banco Central raramente se manifesta por meio de ordens explícitas ou documentos formais. Ela opera, sobretudo, na definição de agenda, no enquadramento regulatório e na condução indireta das decisões.

No caso do Banco Master, essa influência pode ser observada em dois momentos-chave.

O primeiro foi a própria autorização de funcionamento do banco, apesar das reservas técnicas e do histórico controverso de seu controlador.

O segundo ocorreu em 2023, com a edição da Resolução BCB nº 346/2023, que regulamentou o tratamento prudencial dos precatórios.

A norma criou parâmetros para esses ativos, mas estabeleceu uma cláusula decisiva: os estoques anteriores a junho de 2023 foram integralmente preservados das novas exigências de capital. 

Na prática, isso significou que o Banco Master — que detinha cerca de R$ 8,7 bilhões em precatórios registrados antes dessa data — não precisou imobilizar capital adicional nem reclassificar esses ativos.

Em termos prudenciais, trata-se de um ponto crucial. O sistema bancário exige que ativos mais arriscados sejam acompanhados por maior capital próprio, como forma de proteção. Ao isentar o estoque pré-existente, a norma evitou qualquer impacto imediato sobre o balanço do banco.

O resultado prático: o Master, que tinha R$ 8,7 bilhões em precatórios já registrados, não precisou nem imobilizar capital adicional nem reclassificar nada. A norma chegou e o estoque existente ficou exatamente onde estava — sem exigência nova. 

Peça 5 – o caso Ailton de Aquino

Ailton de Aquino Santos, servidor de carreira desde 1998, assumiu a Diretoria de Fiscalização em 2023.

Foi alvo de uma campanha baseada em uma alegação posteriormente desmentida: a existência de um suposto vídeo comprometedor em celulares de dirigentes do BRB. A informação, atribuída a fontes anônimas, não foi confirmada pela Polícia Federal após perícia completa. 

Apesar disso, Ailton foi publicamente exposto, incluindo sua família. Posteriormente, abriu seus sigilos bancário e fiscal — sem que qualquer irregularidade fosse encontrada.

Seu papel, porém, torna-se central na mudança de postura do Banco Central.

Durante a gestão de Roberto Campos Neto, as ações sobre o Banco Master foram limitadas. Com a posse de Gabriel Galípolo em janeiro de 2025, o caso passou a avançar com rapidez. 

A cronologia é reveladora:

Setembro de 2024 — Alerta sobre precatórios sem registro Um ofício do Desup apontou precatórios sem registro público de cessão, expondo o banco a “risco jurídico severo”. Let’s Money

Outubro de 2024 — Reunião mais longa de Vorcaro no BC A visita de maior duração ocorreu em 30 de outubro de 2024. Vorcaro entrou no prédio às 09h54 e saiu às 12h38, permanecendo 2 horas e 44 minutos. O encontro contou com a presença do diretor de Fiscalização Ailton de Aquino. ICL Notícias 

Final de 2024 — Três auditorias externas contratadas No final de 2024, Campos Neto solicitou que três escritórios de advocacia, um deles especialista em precatórios, realizassem uma nova análise na carteira do banco. Senado As auditorias — Galdino Advogados e KPMG — não encontraram irregularidades.

Novembro de 2024 — Novo questionamento sobre iliquidez Um ofício questionou valores e indicou que o Master “postergava o reconhecimento da iliquidez” por meio de engenharias financeiras. Let’s Money

Novembro de 2024 — Termo de ajuste de conduta (TAC) Foi firmado um termo de ajuste de conduta, com prazo de seis meses, para que o Master se adequasse em relação a problemas de governança e liquidez. Senado No mesmo mês, uma agência de rating elevou a nota do banco. 

Novembro de 2024 — Reunião no Planalto O presidente do BC, Gabriel Galípolo, teve reunião com Lula e Vorcaro em 4 de dezembro de 2024. Galípolo não comunicou ao então presidente do BC, Roberto Campos Neto, sobre esse encontro. Poder360 O tema apresentado por Vorcaro era que o banco estava sendo “perseguido pela concorrência”.

2025 — O BC passa a agir de fato

Janeiro de 2025 — Primeiro sinal de alerta real Ailton Aquino começa a levantar dúvidas sobre negociações de carteira. O que soou estranho: se o banco estava com dificuldade de liquidez, como estava formando novas carteiras? No seu depoimento no Senado, Galípolo disse: “O Ailton traz para mim esse problema: ‘Olha, isso demanda a gente fazer uma investigação maior. Talvez demande uma notícia de fatos'”.  

Fevereiro de 2025 — Grupo de trabalho apartado Galípolo iniciou um grupo de trabalho para aprofundar as checagens diante de evidências de irregularidades. A novidade é que esse grupo foi montado fora da alçada de Paulo Sérgio e Bellini — o BC literalmente montou uma estrutura paralela para não passar pelas pessoas que filtravam as informações.

Março de 2025 — Carteiras sem lastro identificadas O grupo apresentou relatório onde não foram encontradas “evidências que corroborem a existência da carteira”. O BC tinha desde março indícios documentados sobre a inexistência dos créditos. Nesse mesmo momento, foi anunciada a possibilidade de aquisição do Master pelo BRB.

Março e abril de 2025 — Primeiras sanções Ocorreram sanções contra o banco por descumprimento dos valores mínimos de depósitos compulsórios.  

Maio de 2025 — Venda de ativos de Vorcaro ao BTG O controlador Daniel Vorcaro iniciou tratativas para venda de ativos pessoais ao BTG Pactual, possibilitando o ingresso de R$ 954 milhões no banco. Última tentativa de capitalização antes da liquidação.

Peça 6 – conclusão

O caso do Banco Master expõe um modelo decisório tecnicamente robusto, mas estruturalmente fragmentado — no qual autonomia excessiva, baixa revisão cruzada e influência indireta da presidência podem produzir zonas de opacidade. 

Em outras palavras: não é que o sistema não funcione. Ele funciona — mas cada um no seu quadrado. E, às vezes, é exatamente aí que mora o problema.

Quanto a um futuro inquérito sobre a atuação de Campos Neto, bastam aparecer elementos que demonstrem que ele foi alertado várias vezes sobre a inconsistência dos balanços do Master.

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"Arriscada aposta economicista" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/minha-opiniao_2.html

Trump no mato sem cachorro

Só e sem rumo
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65   

Sim, meio que perdido em sua própria estratégia errátil e inconsequente. E tendo no seu encalço a opinião pública norte-americana crescentemente contra suas aventuras.

Assim governa Donald Trump. Nas últimas semanas, oscilando entre duas posturas distintas, gerando um oceano de questionamentos e dúvidas pelo próprio Pentágono (segundo a mídia internacional) e para seus aliados históricos, a exemplo dos países europeus inscritos na OTAN.

Chega até a questionar o custo financeiro das guerras que ele mesmo tem alimentado.

A ausência de uma linha consistente clara dificulta a articulação com aliados europeus e árabes.

Analistas norte-americanos reconhecem evidências de um governo sem estratégia de longo prazo.

Na crítica situação no Oriente Médio, emerge cada vez mais evidente o temor conflagração regional total.

A disputa entre tradições rivais da direita americana https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/eua-direita-dividida.html

Arte é vida

 

João Câmara

"Uma crítica oportuna, mas insuficiente" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/minha-opiniao_15.html


Raízes do Brasil

Um país que não falava português
Celso Pinto de Melo/JCNotícias  


“Cada língua é um modo de ver o mundo”
– Wilhelm von Humboldt

Durante muito tempo, consolidou-se a ideia de que o português se difundiu de forma relativamente direta no Brasil desde o início da colonização. A história, no entanto, é mais complexa. Entre os séculos XVI e XVIII, o território que viria a se tornar o Brasil foi, em grande medida, um espaço multilíngue, no qual o português convivia – e frequentemente cedia lugar – a variedades derivadas do tupi que funcionavam como pontes entre povos distintos [1, 2].

Essas línguas nasceram do encontro entre os povos indígenas do litoral e os missionários da Companhia de Jesus, como José de Anchieta. Em vez de impor o português, os jesuítas aprenderam as línguas locais e registraram sua gramática, passando a utilizá-las na catequese e na organização dos aldeamentos. O resultado foi a formação de uma língua de contato – mais tarde conhecida como “língua geral” – baseada no tupi, mas transformada pelo uso e capaz de circular entre diferentes grupos [3].

Nem uma língua só, nem um Brasil só

Esse processo não ocorreu de forma uniforme. No sul da colônia, por exemplo, nas missões jesuíticas, o protagonismo não foi da língua geral, mas do guarani, adotado diretamente como idioma de administração, ensino e evangelização. Esse contraste mostra que o Brasil colonial não foi apenas multilíngue – foi também um território de soluções linguísticas distintas, moldadas pelas condições locais.

Já na região de São Paulo, a língua geral paulista tornou-se dominante durante os séculos XVI e XVII e até no início do XVIII. Ali, a maioria da população era formada por mamelucos, e a língua que aprendiam desde a infância não era o português, mas a língua geral. É nesse contexto que se deve compreender a atuação dos bandeirantes. Ao avançarem pelo interior do continente, eles levavam consigo não apenas armas, violência e rotas, mas também uma língua capaz de mediar contatos, negociar alianças e permitir a comunicação em territórios profundamente diversos [4].

Um país que ainda se lê no mapa

Essa presença indígena permanece inscrita até hoje na paisagem brasileira. Nomes como Iguaçu (“água grande”), no Sul; Paraíba (“rio de águas difíceis”), no Nordeste; Paraná (“rio grande”), no Centro-Sul; Ubatuba (“lugar de muitas canoas”), no litoral paulista; e, na Amazônia, Tapajós – nome de um povo indígena que passou a designar um dos grandes rios da região – não são apenas heranças linguísticas, mas formas precisas de ler e nomear o mundo.

Eles indicam locais, caminhos, modos de uso e referências simbólicas da paisagem. São palavras que não descrevem apenas o território: organizam a forma de percebê-lo.

Uma língua que não desapareceu

Na Amazônia, a história segue outro ritmo. Ali se consolidou o Nheengatu (“língua boa”), que permaneceu como idioma dominante por muito mais tempo e ainda hoje é falado em diversas comunidades. Em municípios como São Gabriel da Cachoeira, ele é reconhecido oficialmente, o que faz da língua geral não apenas um fenômeno histórico, e sim uma presença viva [5].

O som de um encontro

Ao mesmo tempo, o português que se formava no Brasil era profundamente marcado pelo contato com as línguas africanas trazidas pelas populações escravizadas. Esse contato deixou marcas que vão além das palavras incorporadas ao vocabulário. Ele influenciou a musicalidade da fala – aquilo que os linguistas chamam de prosódia – moldando o ritmo, a entonação e a cadência do português brasileiro [6].

Comparado ao português europeu contemporâneo, o português falado no Brasil tende a preservar as vogais, manter um fluxo mais regular e evitar a compressão das sílabas. Se parte dessas diferenças resulta da própria evolução da língua, outro tanto pode ser compreendido como fruto desse encontro prolongado entre diferentes tradições linguísticas. O português brasileiro não é apenas uma variação geográfica; é uma língua moldada por encontros históricos.

Uma sociedade em constante ajuste

Essa diversidade linguística não existia isoladamente. Ela fazia parte de um padrão mais amplo de organização social. No Brasil colonial, normas e práticas coincidiam raramente de forma plena. Estudos mostram que mesmo instituições centrais, como o casamento, eram frequentemente adaptadas às condições locais. Casos de bigamia, a recomposição de vínculos familiares e uniões múltiplas revelam uma sociedade marcada por mobilidade, distância e necessidade de adaptação [7].

Ao mesmo tempo, os casamentos entre indígenas e portugueses desempenhavam um papel ativo na construção de alianças e na ocupação do território [8]. Essas relações não eram apenas fruto do acaso, mas faziam parte de estratégias que permitiam articular mundos distintos.

Nesse contexto, as normas existiam, mas eram continuamente reinterpretadas. A transgressão não era exceção – era parte do funcionamento social.

Quando as palavras também negociam

Essa flexibilidade atingia o próprio significado das palavras. Categorias como “ilegítimo” ou “bastardo”, centrais no universo jurídico e moral europeu, assumiam sentidos variáveis no contexto colonial, dependendo das circunstâncias e das relações de poder [9].

A linguagem, assim, não apenas descrevia a realidade – participava ativamente de sua construção. E a língua geral, ao mediar diferentes universos culturais, tornava visível essa instabilidade: traduzir não era apenas trocar palavras, mas ajustar sentidos.

É nesse ambiente que o próprio português falado no Brasil começa a se formar. Não como simples continuidade do modelo europeu, mas como resultado de um processo em que significados eram constantemente reinterpretados. Em outras palavras, o português brasileiro nasce não apenas do encontro entre línguas, mas também de um mundo em que até as próprias palavras precisavam negociar o que queriam dizer.

A tentativa de impor uma língua – e uma ordem

Esse mundo fluido começa a ser tensionado no século XVIII, com as reformas do Marquês de Pombal. A expulsão dos jesuítas em 1759 e a imposição do português como língua oficial fizeram parte de um projeto de centralização e controle [10].

Mais do que uma mudança linguística, tratava-se de uma tentativa de estabilizar um território marcado pela negociação. Ao impor o português, a Coroa buscava também impor uma forma de organizar a sociedade, de fixar significados e de reduzir a ambiguidade.

O milagre silencioso

Visto desse ponto de partida, há algo que talvez mereça ser pensado com mais atenção. Um território imenso, marcado por centenas de línguas, por populações de origens diversas e por formas distintas de viver e se relacionar, acabou por se tornar, ao longo do tempo, um país majoritariamente unilíngue.

Esse processo não foi linear, nem simples, nem pacífico. Ele envolveu políticas de imposição, deslocamentos populacionais, transformações sociais profundas. E, ainda assim, o resultado é singular: um país continental que compartilha uma língua comum – mas não uniforme.

Porque o português brasileiro não é uma língua única no sentido estrito. Ele se desdobra em sotaques, ritmos e formas de expressão que carregam a história desses encontros. Há diferenças entre o falar do Nordeste, do Sul, da Amazônia, do interior e das grandes cidades. Mas há uma inteligibilidade compartilhada que atravessa essas variações.

Talvez seja aí que esteja o aspecto mais surpreendente dessa história.

Uma língua que ainda carrega o passado

O português brasileiro não nasce de uma ordem estável, mas de um mundo em formação. Ele se constrói em uma sociedade em que as regras precisavam ser ajustadas, vínculos eram refeitos e as palavras mudavam de sentido conforme o contexto.

A língua geral foi uma das expressões mais claras dessa realidade: uma língua que não pertencia inteiramente a nenhum dos mundos que conectava – e que, justamente por isso, permitia a comunicação entre todos eles.

Talvez seja por isso que, ainda hoje, o português falado no Brasil pareça ao mesmo tempo tão diverso e tão comum. Ele reúne sotaques, ritmos e modos de falar distintos, mas mantém uma unidade que atravessa o país inteiro.

Essa unidade não veio da ausência de diferenças, mas da capacidade de conviver com elas.

Se o português brasileiro nasceu da convivência entre diferenças, o que estamos fazendo com essa capacidade de conviver – ou de não conviver – hoje?

Bibliografia

1.   Rodrigues, A.D.I., Línguas brasileiras. 1986, São Paulo: Loyola.
2.   Navarro, E.A., Método moderno de tupi antigo. 2011, São Paulo: Global.
3.   Dietrich, W., O tupi e o guarani. 2010, São Paulo: Contexto.
4.   de Holanda, S.B., Monções. 1995, São Paulo: Companhia das Letras.
5.   Cabral, A.S. e A.D.I. Rodrigues, Línguas indígenas brasileiras. 2002, São Paulo: Loyola.
6.   Petter, M.M.T., Línguas africanas no Brasil. 2008, São Paulo: Contexto.
7.   Vainfas, R., Trópico dos pecados. 1989, Rio de Janeiro: Nova Fronteira.
8.   Monteiro, J.M., Negros da terra. 1994, São Paulo: Companhia das Letras.
9.   Fragoso, J. e M.F. Gouvêa, O Brasil colonial. 2001, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
10.              
Maxwell, K., Marquês de Pombal: paradoxo do iluminismo. 1996, Rio de Janeiro: Paz e Terra.

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Enio Lins opina

Lixo fascistoide sendo recolhido, mas substituído pelo quê?
Enio Lins  

UMA EUFORIA DEMOCRÁTICA se espalha pelo dito ocidente em função da derrota do ultradireitista Viktor Orban, autocrata que comandou a Hungria nos últimos 16 anos. Motivos existem para tal. Mas é importante olhar para quem venceu o pleito, e saber quais mudanças advirão no posicionamento interno e no contexto das guerras em cartaz.

DIZ O GLOBO.COM: 
“a Esplanada dos Ministérios, em Brasília, acompanhou com particular atenção a eleição na Hungria, vista como um teste para avaliar a real capacidade de ingerência de Donald Trump em eleições nacionais”, e que “a ingerência direta de Trump — sobretudo nos últimos dias da campanha — não teve influência decisiva sobre o resultado eleitoral. A derrota é compartilhada por Trump e pelo russo Vladimir Putin, outro que jogou pesado a favor de Orban”.

PÉTER MAGYAR, O PÚCARO HÚNGARO,
 é um vaso contendo o quê em seu interior? Pelo entusiasmo da grande mídia, e pela euforia dos da OTAN, retorna ao poder a perigosa aposta de intensificação dos atritos com a Rússia através do apoio à autocracia ucraniana em guerra com a autocracia russa. Segundo a BBC, Magyar tem se esquivado de temas polêmicos e centrado seu discurso contra o “iliberalismo” de Orban. Garimpando na Internet, é mais fácil encontrar informações confiáveis sobre o Partido Húngaro do Cão de Dois Rabos (Magyar Kétfarkú Kutya Párt, MKKP) que sobre o pensamento de Magyar e de seu partido Tisza. Um dos partidos satíricos húngaros, o Cão de Dois Rabos tem três vereadores em Budapeste, e seu programa defende a semana de um dia de trabalho, cerveja grátis, mais de um pôr do sol por dia, gravidade reduzida etc.

SER AMIGO DE TRUMP E DE PUTIN 
ao mesmo tempo é como levar tiros de sal de uma escopeta cano duplo. Viktor Orban era ligado aos dois. Outra desmoralização pesando sobre ele é ser próximo da gangue brasileira-estadunidense The Bolsonaro’s. Em abril de 2019, o primeiro-ministro húngaro recebeu Dudu Bananinha para conversar potoca, num convescote de energúmenos. Em 17 de fevereiro de 2022, Jair B, no ocaso de sua despresidência, voou até Budapeste para se abraçar com Orban e soluçar: “Prezado Orban, o trato como irmão, dada a afinidade que temos”. Em março de 2024, com as investigações da Polícia Federal dele se aproximando, Jair, experimentando uma rota de fuga, dormiu durante duas noites na Embaixada da Hungria, em Brasília. Viktor e Jair foram uma dupla caipora. Como se sabe, a caipora é figura mitológica brasileira que, pela crença indígena, dá azar a quem a enxerga ou com ela faz contato.

SÓ POR SER AMIGO DE JAIR B, 
a derrota de Orban merece ser comemorada. Oquei, não há o que discutir neste aspecto. E, por ter sido rechaçada uma tentativa de interferência de Donald Trump nas eleições húngaras em benefício de Orban, há que se aplaudir o voto do povo húngaro como atitude digna e muito positiva, sem dúvida. Mas, igualmente é verdade que, ao reconhecer a derrota, e ligar para o adversário e parabenizá-lo pela vitória, Viktor Orban apresenta um resquício de dignidade que nem Jair nem Donald nunca tiveram, não têm, nem virão a ter algum dia.

RESTA AGUARDAR
 o que Péter Magyar – opositor de direita à ultradireita – fará ao chegar no Palácio Sándor, residência oficial e espaço de trabalho do chefe de governo da Hungria. O prédio, construído entre 1803 e 1806, foi palco de uma tragédia há 85 anos: o suicídio do primeiro-ministro Pál Teleki. Membro de tradicional família da Transilvânia, embora simpatizante do Nazismo e responsável por leis antijudaicas, Teleki ficou muito abalado quando Hitler invadiu a Hungria, e – autoemparedado entre o nazifascismo e o nacionalismo, entre a ultradireita e a direita – matou-se na noite de 3 de abril de 1941. Que a Hungria tenha boa sorte com esse novo governo conservador.

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Guerra no Irã, petróleo e crise energética https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/eua-x-ira-crise-energetica.html 

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Segundo Datafolha, 70% dos brasileiros são contra a guerra no Irã. Ainda é pouco. Devia ser quase a unanimidade.  

Vitória do Irã sobre a guerra neocolonialista de Trump tem alcance mundial https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/editorial-do-vermelho_12.html 

14 abril 2026

Fato novo na cena política

Veja quais são as propostas da nova Pauta da Classe Trabalhadora
Documento é de incidência sobre um ciclo em curso, para disputar os rumos do governo. Suas reivindicações indicam como aprofundar a reconstrução e viabilizar um novo projeto nacional de desenvolvimento.
André Cintra/Vermelho
   
 

As centrais sindicais promovem na manhã desta quarta-feira (15/4), em Brasília, mais uma Conferência Nacional da Classe Trabalhadora, a Conclat 2026 – que tem como lema “Empregos, Direitos, Democracia, Soberania e Vida Digna”. No encontro, o sindicalismo vai apresentar à sociedade a nova Pauta da Classe Trabalhadora, reafirmando, como nas edições de 2010 e 2022, a busca de unificação programática em anos eleitorais.

Portal Vermelho teve acesso à íntegra do documento. Com 24 páginas, o texto aponta dois pontos de partida a construção de uma plataforma de lutas para os trabalhadores brasileiros: o cenário de transformações aceleradas no mundo do trabalho e a necessidade de “consolidação dos avanços do governo Lula”. Se em 2022, sob o governo Jair Bolsonaro, o movimento sindical foi para a disputa presidencial com um discurso de resistência e reconstrução, a Pauta atual reconhece a mudança na correlação de forças.

As centrais enumeram 15 avanços concretos conquistados nos últimos anos, como a valorização do salário mínimo, o crescimento do emprego formal e a isenção no Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil por mês. Em 2022, havia uma plataforma de enfrentamento, que foi vitoriosa – Lula se elegeu com o apoio decisivo do movimento sindical. Agora, o documento é de incidência sobre um ciclo em curso, para disputar os rumos do governo. Suas reivindicações indicam como aprofundar a reconstrução e viabilizar um novo projeto nacional de desenvolvimento.

A nova Pauta da Classe Trabalhadora é dividida em duas partes. A primeira destaca as prioridades imediatas, em plena pré-campanha eleitoral de 2026. É o caso das lutas pela redução da jornada de trabalho para 40 horas, com o fim da escala 6×1; pelo fortalecimento e a autorregulação dos sindicatos; pela regulamentação do trabalho mediado por plataformas digitais; e pelo combate à pejotização. São temas que já estão na ordem do dia, seja no Congresso Nacional, seja no Judiciário.

A segunda parte da Pauta é de propostas para o quadriênio 2027-2030 – um programa de disputa estratégica do futuro que as centrais sindicais vislumbram para o próximo mandato presidencial. Nessa parte, existem quatro eixos temáticos, que realçam as diretrizes programáticas do sindicalismo: desenvolvimento com trabalho decente, soberania e justiça social; trabalho, renda e direitos; direitos fundamentais; igualdade, diversidade e direitos humanos.

Assinam o documento os presidentes de oito centrais (CTB, CUT, Força Sindical, UGT, NCST, CSB e Pública Central do Servidor), além da secretária-geral da Intersindical Central da Classe Trabalhadora. Veja quais são as 68 propostas que serão consagradas na Conclat 2026 e integradas à Pauta da Classe Trabalhadora 2026-2030.

  • Redução da jornada de trabalho para 40 horas e fim da escala 6×1.
  • Geração de emprego decente com base no desenvolvimento produtivo.
  • Valorização do salário mínimo com meta de 60% do salário médio.
  • Fortalecimento e autorregulação dos sindicatos.
  • Revogação e revisão de marcos regressivos trabalhistas e previdenciários.
  • Fortalecimento das negociações e dos acordos coletivos.
  • Regulamentação do trabalho em plataformas digitais.
  • Combate à pejotização e às fraudes trabalhistas.
  • Campanhas contra o feminicídio.
  • Regulamentação da negociação coletiva no setor público.
  • Redução da taxa básica de juros e mudança na política monetária.
  • Aprimoramento do projeto nacional de desenvolvimento.
  • Democratização da formulação das políticas econômicas.
  • Investimentos em inovação e infraestrutura.
  • Proteção do trabalhador frente a importações e acordos comerciais.
  • Incentivo a micro, pequenas e médias empresas.
  • Implementação da transição justa e trabalho decente na agenda climática.
  • Ampliação de investimentos em ciência, tecnologia e inovação.
  • Fortalecimento da agricultura familiar e agroecologia.
  • Criação de um Sistema Nacional de Proteção Social.
  • Apoio público a projetos de transição justa.
  • Avanço na reforma tributária progressiva.
  • Fortalecimento da cooperação Sul-Sul.
  • Integração com países da América Latina.
  • Aprimoramento da capacidade do Estado.
  • Uso estratégico dos recursos naturais para desenvolvimento.
  • Fortalecimento da soberania econômica.
  • Reforma estrutural do sistema financeiro nacional.
  • Fortalecimento do sistema público de emprego, trabalho e renda.
  • Redução do custo do crédito e do endividamento das famílias.
  • Promoção da saúde e segurança no trabalho.
  • Revisão da terceirização irrestrita.
  • Ratificação da Convenção 158 da OIT (sobre demissões).
  • Combate à rotatividade no trabalho.
  • Regulamentação do trabalho doméstico (Convenção 189 da OIT).
  • Implementação da Política Nacional de Cuidados.
  • Implementação da igualdade salarial entre homens e mulheres.
  • Ampliação da proteção à maternidade (Convenção 183 da OIT).
  • Inclusão produtiva de grupos vulneráveis.
  • Inserção qualificada da juventude no mercado de trabalho.
  • Fortalecimento da economia solidária.
  • Avanço na reforma agrária e em políticas da agricultura familiar.
  • Garantia de direitos aos trabalhadores rurais (Convenção 101 da OIT).
  • Geração de empregos verdes de qualidade.
  • Sistema nacional de formação profissional continuada.
  • Atualização das políticas de emprego frente às transformações.
  • Isenção de Imposto de Renda sobre PLR.
  • Proteção do emprego diante de mudanças tecnológicas.
  • Proteção emergencial de renda em eventos climáticos.
  • Homologação de rescisões com assistência sindical.
  • Fortalecimento da participação social e diálogo tripartite.
  • Proteção integral aos desempregados.
  • Fortalecimento da inspeção do trabalho.
  • Combate a fraudes com PJ e MEI.
  • Combate ao trabalho infantil e análogo à escravidão.
  • Fortalecimento do FAT e do FGTS.
  • Fortalecimento do Ministério do Trabalho e Emprego.
  • Ampliação do acesso à moradia digna.
  • Implementação da tarifa zero no transporte coletivo.
  • Fortalecimento do SUS.
  • Valorização dos trabalhadores da saúde.
  • Universalização do saneamento básico.
  • Ampliação de escolas e creches em tempo integral.
  • Combate ao crime organizado e às milícias.
  • Segurança pública com base em direitos humanos.
  • Combate à discriminação e promoção da inclusão.
  • Proteção de povos e comunidades tradicionais.
  • Valorização da diversidade cultural brasileira.

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