31 março 2026

Minha opinião

Chapa Lula-Alckmin reafirma frente ampla
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65     

Lula anunciou hoje, em reunião ministerial, a manutenção de Geraldo Alckmin na chapa que concorre à reeleição. Bom sinal. Não parecia haver razão para uma mudança.

É a reafirmação de que a Frente Ampla permanece como o pilar central de sustentação do atual projeto de governo.

Alckmin foi um adversário histórico da e possibilitou o posto de vice ao lado de Lula. No exercício do governo, mostrou sensato, equilibrado e produtivo. Ajudou no diálogo com segmentos econômicos que dão sustentação ao centro-direita. Ampliou possibilidades de gestão.

Neste instante, enquanto a extrema direita ainda não superou contradições e disputas, agora acentuadas com o lançamento de Ronaldo Caiado pelo PSD, a ampla coalizão que governa sinaliza para a opinião publica maturidade e equilíbrio. Isto é fundamental inclusive para o relacionamento com a Câmara dos Deputados e o Senado marcados por forte presença oposicionista.

Leia: Alianças híbridas https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/minha-opiniao_30.html 

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Colunista do Estadão diz que Caiado, embora com intenção de voto menor no primeiro turno (cerca de 3,6%), possui a menor rejeição entre os principais candidatos, o que o torna um "agregador de votos de centro-direita". Análise superficial e precipitada de quem torce contra Lula. 

Terceira via carece de chão https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/minha-opiniao_19.html 

Máfia digital milionária

O gabinete das bets
Engrenagem mistura propaganda política, dinheiro de origem questionável e plataformas que lucram com tudo isso
Leandro Demori/Liberta      

Há algo de profundamente errado e perigosamente naturalizado no ecossistema digital brasileiro. Não se trata mais apenas de desinformação, nem de militância disfarçada de entretenimento. O que está em curso é mais sofisticado e vem turbinado por uma máfia bilionária, que não mede dinheiro para chegar aonde quer: uma engrenagem que mistura propaganda política, dinheiro de origem questionável e plataformas que lucram com tudo isso como se fossem meras espectadoras.

Perfis de fofoca com dezenas de milhões de seguidores abandonaram, sem qualquer constrangimento, o conteúdo que os tornou populares (o novo jet-ski da Ana Castela, o pet da Cláudia Leitte, o carrão do sertanejo do momento) para operar como canais de influência política. Não é uma guinada editorial espontânea, como mostrei no ICL Notícias esta semana. É um método financiado por uma bet de um conhecido “rei do tigrinho”, um esquema que atinge todos os dias dezenas de milhões de pessoas com propaganda anti-governo. Vem deste ecossistema, tenho certeza, parte relevante da corrosão da imagem do governo Lula.

A engrenagem funciona assim: páginas como a Alfinetei (25 milhões de seguidores, mais do que o padre Fábio de Melo) publicam ataques sistemáticos ao governo federal e promovem figuras da direita e da extrema direita, como Tarcísio de Freitas, Jair Bolsonaro e Nikolas Ferreira. Fazem isso enquanto exibem, sem pudor, a logomarca de casas de apostas. Entre elas, a 7games.bet, ligada a Fernando Oliveira de Lima, vulgo Fernandin OIG, “empresário” associado à expansão predatória do jogo do “Tigrinho” no Brasil e próximo de Ciro Nogueira. Foi Fernandinho que levou o senador para Mônaco. No jatinho do tigreiro, os amigos foram ver um GP de F1.

Esse mesmo perfil e outros como ele já haviam sido apontados por atuarem em campanhas coordenadas, envolvendo o Banco Master, de Daniel Vorcaro, em ataques ao Banco Central do Brasil. Estava, como se diz, “no bolso do Vorcaro”, detonando a imagem do BC a pagamento. Agora, repetem o padrão: conteúdo político disfarçado de entretenimento, impulsionado por dinheiro publicitário de origem opaca. Enquanto corroem a imagem do governo e do BC, essas mesmas contas aplaudem Tarcísio de Freitas. Entre um pet e um carrão de luxo, elas encontram espaços para posts sobre a inauguração do Rodoanel em São Paulo.

E aqui entra o ponto central e talvez mais grave de todos: nada disso existiria sem as plataformas. O Instagram sabe quem são esses perfis. Sabe quem paga pelos anúncios, pois são perfis “verificados”. Sabe quais conteúdos são impulsionados e consegue “ver” o logotipo da bet nos posts. Sabe, inclusive, quando se trata de propaganda política – tanto que bloqueia campanhas de veículos jornalísticos sob esse pretexto, inclusive os documentários do ICL, alegando (falsamente) que se tratam de campanha política.

Mas, quando o dinheiro vem travestido de publicidade de apostas, quando o conteúdo político é embalado como fofoca, quando o ataque é lucrativo para os tech bros, a plataforma não apenas permite, ela monetiza e se associa ao crime. Cada curtida, cada comentário indignado, cada compartilhamento amplifica não só a mensagem, mas o faturamento das empresas. As plataformas recebem sua parte. São intermediárias financeiras dessa engrenagem.

Quando uma rede social aceita dinheiro para impulsionar conteúdo político disfarçado, financiado por agentes com interesses diretos no debate público, ela deixa de ser uma infraestrutura neutra e passa a ser um agente econômico do processo. Sócia, ainda que indireta, do resultado.

E o resultado está aí: distorção do debate público, manipulação de percepção, artificialização de popularidade política e muito, muito dinheiro. No ICL N1, mostramos uma tabela de preços. Cada posts pode chegar a custar 40 ou 50 mil reais. São milhares de posts por ano que tornaram perfis de fofoca uma espécie de cabos eleitorais do submundo. É o gabinete das bets. Casas de aposta viram financiadoras de discurso e plataformas de redes sociais viram o caixa registrador de tudo isso.

Há uma pergunta que precisa ser feita com clareza, sem rodeios: por que o Instagram bloqueia a promoção de documentários jornalísticos, mas permite (e lucra com) campanhas políticas disfarçadas, pagas por empresas envolvidas em controvérsias ou até mesmo em crimes?

Alguma esperança poderia residir no TSE. O tribunal eleitoral poderia, por exemplo, derrubar as contas. Será? Acontece que no fundo do poço tem um alçapão, mais precisamente um episódio exposto na CPI das Bets que adiciona uma camada surreal ao debate público. Fernandin OIG admitiu ter dado carona em seu jatinho (o mesmo que levou Ciro Nogueira) ao ministro do STF Kassio Nunes Marques para uma viagem à Grécia, onde ambos participariam de uma festa do cantor Gusttavo Lima.

Segundo OIG, trata-se de uma “amizade antiga, nascida no Piauí”. O episódio – revelado sob indagação do senador Alessandro Vieira na CPI das Bets – levanta claros questionamentos óbvios sobre a proximidade entre figuras com interesses econômicos relevantes e membros da mais alta Corte do país, mas não acaba aí: Nunes Marques assume a presidência do TSE (que poderia acabar com o gabinete das bets) em junho deste ano.

Pois é.
Dá pra rir ou chorar.
Escolha aí.
Talvez nem faça diferença.

Powerpoint da Globonews reabre as feridas de manipulação da mídia https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/globo-na-lama-2.html 

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Minas gerais concentra 11% dos votos de todo o país. É o segundo colégio eleitoral após São Paulo. Toda habilidade é necessária para construir uma alternativa eleitoral que beneficie a reeleição do presidente Lula. 

Alianças de quem com quem? https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/fator-de-instabilidade.html 

Solidariedade a Cuba

Rússia fura bloqueio e leva petróleo a Cuba
Solidariedade internacional ignora Trump e alivia crise energética na ilha por 10 dias
Davi Molinari/Vermelho   

A chegada do petroleiro russo Anatoly Kolodkin ao porto de Matanzas, neste domingo (29), marca um ponto de inflexão na pressão econômica exercida pelos Estados Unidos contra a ilha caribenha. Carregada com aproximadamente 730 mil barris de petróleo bruto, a embarcação russa atracou em porto cubano após recuo do governo de Donald Trump, que declarou publicamente “não ver problemas” no envio de combustível para fins humanitários. 

O movimento ocorre em um cenário de severa crise energética em Cuba, agravada pela interrupção dos suprimentos venezuelanos e pelo endurecimento das sanções de Washington desde janeiro de 2026. A carga russa é estimada como suficiente para suprir a demanda de diesel por cerca de dez dias, garantindo o funcionamento de hospitais e do transporte público. 

O recuo de Washington e a Ordem Executiva 

Em 29 de janeiro, a Casa Branca estabeleceu uma Ordem Executiva de emergência nacional, autorizando tarifas retaliatórias contra países que fornecessem petróleo a Cuba. No entanto, diante do agravamento das condições de vida na ilha e de uma conjuntura internacional de crescente contestação às políticas de sanções unilaterais, Trump foi obrigado a recuar também nesta frente. 

Embora a Ordem Executiva permaneça vigente no que tange a barreiras comerciais de longo prazo, o presidente estadunidense modificou verbalmente a diretriz para permitir este envio específico, priorizando necessidades básicas e serviços essenciais. A Guarda Costeira dos EUA, que monitora a região com navios patrulha (cutters), não interferiu na trajetória do Anatoly Kolodkin.

Uma Rede Global de Solidariedade 

O aporte russo não é uma ação isolada, mas parte de uma união internacional que busca mitigar o impacto do bloqueio sobre a população cubana. O governo chinês de Xi Jinping oficializou a doação de 60 mil toneladas de arroz, das quais 15.600 toneladas já desembarcaram em Havana em março. O pacote inclui ainda uma assistência financeira de US$ 80 milhões destinada à recuperação econômica. 

O coordenador residente da ONU em Cuba, Francisco Pichón, apresentou um plano de emergência de US$ 94,1 milhões. O projeto foca na importação de combustível com rastreabilidade total para manter serviços de saúde e saneamento em oito províncias, beneficiando cerca de 2 milhões de pessoas. 

A caravana Nuestra América — uma iniciativa de ONGs, centrais sindicais, entidades de direitos humanos e partidos políticos —, com apoio de ativistas de mais de 30 países, entregou em março 20 toneladas de ajuda humanitária. 

O destaque do carregamento foi a doação de 73 painéis solares e geradores, avaliados em US$ 500 mil, voltados para a autonomia energética de centros médicos. A secretária de Relações Internacionais do PCdoB, Ana Prestes, que também participou da missão, descreveu a situação da ilha provocada pelo bloqueio norte-americano como “guerra sem bombas”.

Solidariedade Internacional 

O Kremlin, por meio do seu Ministério dos Transportes, reiterou que os suprimentos enviados a Cuba possuem caráter humanitário e condenou as tentativas de “sufocamento” econômico da ilha. Em Cuba, o presidente Miguel Díaz-Canel tem enfatizado a resiliência do país diante de um hiato de três meses sem importações regulares de combustível. 

A convergência de esforços entre potências como Rússia e China, aliada a mecanismos multilaterais da ONU e a movimentos de solidariedade da sociedade organizada, demonstra que o isolamento pretendido pela política externa de Washington enfrenta limites práticos e éticos diante da iminência de um colapso humanitário na região.

"O erro de cálculo do século: aventura de Trump no Irã" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/inconsequencia-norte-americana.html

Dica de leitura


O livro "Arraes", de Tereza Rozowykwiat, publicado em 2006 pela Editora Iluminuras, é a das sensível e circunstanciada do ex-governador de Pernambuco Miguel Arraes.

O texto aborda a trajetória de Arraes desde suas origens no Ceará até sua ascensão em Pernambuco. Relata os acontecimentos de 1º de abril de 1964, destacando a postura altiva do então governador ao se recusar a renunciar ao cargo com o Palácio das Princesas sob cerco militar; o retorno ao Brasil com a Lei da Anistia em 1979, o movimento que o reelegeu governador por duas oportunidades 1986 e 1994.

Uma leitura sempre necessária e oportuna.

O mundo gira. Saiba mais https://lucianosiqueira.blogspot.com/

Palavra de poeta

Assim vejo a vida
Cora Coralina   

A vida tem duas faces:
Positiva e negativa
O passado foi duro
mas deixou o seu legado

Saber viver é a grande sabedoria
Que eu possa dignificar
Minha condição de mulher,
Aceitar suas limitações
E me fazer pedra de segurança
dos valores que vão desmoronando.

Nasci em tempos rudes
Aceitei contradições
lutas e pedras
como lições de vida
e delas me sirvo
Aprendi a viver.

[Ilustração Chris Cisneiros]

Leia também: "Bolas de vidro", poema de Cida Pedrosa  "https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/palavra-de-poeta_63.html 

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Ronaldo Caiado é confirmado pré-candidato pelo PSD e diz que primeiro ato na Presidência será anistia a Bolsonaro. Desde quando isso é "terceira via"? 

Terceira via carece de chão https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/minha-opiniao_19.html 

Misoginia & negócios digitais

Machosfera e ódio às mulheres como modelo de negócio
Influenciadores do ódio faturam milhões e prometem vida endinheirada aos seguidores
Nina Lemos/Liberta   

Quem quer ser um milionário? “Aprenda a fazer seu primeiro milhão”. Esse tipo de promessa é atraente desde que o capitalismo é capitalismo e já seduziu muita gente para golpes e promessas vazias.

Mas, agora, o buraco está mais embaixo. Silvio Santos, que perguntava “Quem quer dinheiro?”, parece até inocente.

Alguns homens, principalmente os jovens, têm um novo plano de riqueza: seguir os passos de  influenciadores da chamada “machosfera” (ambiente virtual que reúne red pills e outras variedades de misóginos) e, assim, alcançar dinheiro, fama e, por consequência, mulheres. Para esses influenciadores, é assim que funciona, já que “mulheres só querem saber de dinheiro”.

Para quem os segue, eles vendem a possibilidade de alcançar uma vida  parecida com a deles: cheias de luxo, carros esportivos, mulheres bonitas, propriedades em Miami e Dubai.

Não é novidade para quem se debruça sobre o tema que odiar as mulheres é hoje um negócio lucrativo. Os influenciadores do ódio faturam milhões. O que muitas vezes passa batido é que eles prometem a mesma vida endinheirada para seus seguidores. Uma fórmula que pode parecer irresistível para muitos homens insatisfeitos.

Se você quer sentir o quanto o dinheiro é farto e importante na cena red pill, vale assistir ao documentário Por Dentro da Machosfera, disponível no Netflix. Ali, fica claro como a promessa de uma vida de riqueza e ostentação pode ser uma porta de entrada para meninos nesse mundo perigoso (principalmente para as mulheres, vítimas).

Com esses influenciadores, jovens aprendem que odiar mulheres é um negócio lucrativo. Tudo funciona por exemplos e modelos, sabemos.

Se você tiver estômago para ouvir os principais podcasts red pills do Brasil, como o Red Cast, vai ver que boa parte da conversa ali é sobre relógios caros, carros importados, apartamentos de 200 metros quadrados e outros bens de luxo que eles dizem, com orgulho, possuir. O resto do tempo é usado para exaltar homens como Donald Trump, subjugar mulheres e falar “assuntos de homem”. Se eles estão ricos e falam disso com tanta naturalidade, seus seguidores acham que também podem ficar.

O ódio a mulheres é um modelo de negócios. Como resultado, temos essa tragédia que vemos todos os dias. Um dia, um grupo de um colégio progressista de São Paulo troca mensagens com a lista das meninas “mais estupráveis”. No outro, um policial é acusado de feminicídio e, nas mensagens que trocava com a mulher, a polícia encontra recados onde o homem, o tenente-coronel Geraldo Neto, se denominava um “macho alfa” e dizia que a mulher precisava se comportar como uma “mulher beta”, um discurso totalmente alinhado com o dos red pills.

É claro que a cultura difundida pela machosfera não é a única culpada pelo momento trágico que vivemos. Mas faz parte do caldo. Vamos lembrar também que homens com perfil red pill, como Trump, foram eleitos e governam os países mais poderosos do mundo. O presidente dos EUA é um exemplo clássico de um homem da machosfera. Vende a imagem do “self made man”, do que desafia o “sistema” (seja lá o que seja isso) e é abertamente misógino.  O ódio a mulheres, veja só, ajuda a ganhar dinheiro e eleições.

E a raiva das mulheres?

E nós mulheres? Como ficamos? A gente fica com raiva, claro, já que somos vítimas dessa guerra. Só que a nossa raiva não é lucrativa. Pelo contrário. Mulheres com raiva são vistas como “mal comidas”, mal amadas e por aí vai. A única raiva que somos autorizadas a sentir é a raiva de nós mesmas, aquela que nos leva a nos submetermos a regimes de fome e a ficarmos caladas por acharmos que “não somos capazes”.

Quando nossa raiva é do mundo e do atual estado péssimo das coisas, ela não é bem vista.

Mesmo sendo vítimas da guerra atual (em 2025, 1568 mulheres morreram assassinadas por feminicídio no Brasil, o maior número em dez anos, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública), temos que mostrar a nossa indignação com suavidade. Se não, estamos “afastando os homens da conversa” (ou seja, continuamos sendo obrigadas a agradá-los). A gente é vítima do ódio (literalmente, muitas de nós morrem), mas, quando manifestamos nossa revolta, não somos bem vistas.

A nossa raiva não monetiza. Como jornalista, já ouvi mais de uma vez que nós, que cobrimos pautas “femininas”, estávamos “sempre com muita raiva” ou “sempre gritando”. A raiva feminina, pelo que entendi em muitos anos, afasta anunciantes e público. Será mesmo? Ou será que essa é mais uma desculpa para nos manter obedientes?

Conselho para as mulheres: continuem com raiva. Como diria uma antiga música punk: a raiva é uma energia.

[Foto: Marcelo Camargo/Liberta]

Violência contra as mulheres é estrutural https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/violencia-sexista_19.htm

Globo na lama

A operação Salva-Andréia Sadi da Globo
Não é mais possível encontrar o vídeo original. Na Globonews anunciam que foi editado para tirar o PowerPoint.
Luís Nassif/Jornal GGN  

A Globo montou uma enorme operação salvamento de sua âncora, Andréia Sadi, no episódio do Powerpoint.

Anunciou a demissão de duas produtoras de arte e mudanças no modelo de edição, passando a submeter o controle da arte aos âncoras.

É uma tentativa canhestra de salvar a responsável, Andréia Sadi, como se tivesse sido surpreendida pelo Powerpoint.

Não é mais possível encontrar o vídeo original. Na Globonews anunciam que foi editado para tirar o PowerPoint.

Mas vamos a uma descrição precisa de como foi o vídeo original, segundo o jornalista Moisés Mendes:

“Andréia anunciou que iria apresentar num telão “personagens que de uma forma ou de outra apareceram nessa teia do Caso Master e com ligações com o banqueiro Daniel Vorcaro”

Lula, com o retrato no alto da teia, foi a primeira ‘aranha’ citada por causa, segundo a jornalista, da reunião de dezembro de 2024 com Vorcaro, que teve como testemunhas Gabriel Galípolo (antes de assumir o Banco Central) e os ministros Rui Costa, da Casa Civil, e Alexandre Silveira, de Minas e Energia.

Andréia vai olhando os retratos no quadro e citando, na sequência, Hugo Motta, Davi Alcolumbre, Alexandre de Moraes, a mulher de Moraes (que não aparecia), Ciro Nogueira, Antonio Rueda, Nikolas Ferreira, João Doria, Ricardo Lewandowski.

O cientista político Traumann pergunta: por que o Galípolo? Andréia pede que o colega espere um pouco, porque ela vai falar do PT da Bahia (há uma estrela do PT no quadro), ”só pra fechar” o raciocínio, e fala do senador baiano Jaques Wagner.

Depois de fechar, explica então que Galípolo está no powerpoint porque participou da reunião de Lula com Vorcaro. E ficou por isso mesmo. O título do painel que imita uma colagem é “Conexões de Daniel Vorcaro”. O Galípolo tinha conexões. Lula já estaria conectado.

Valdo disse que aquilo era “só um aperitivo”, porque mais gente iria aparecer, como se tentasse explicar por que outros não apareciam. Perguntou: “Dias Toffoli apareceu na arte?” Estava vendo que não.

Dapieve observou que a arte “não significa envolvimento, mas conhecimento”. Não ajudou muito. E ressaltou que o mais envolvido seria mesmo Dias Toffoli. 

Andréia falou de dois diretores do Banco Central, sem dar seus nomes (são Beline Santana e Paulo Sérgio Neves de Souza) e disse que ambos “jogaram o Banco Central no meio dessa crise”. Os diretores afastados dos cargos por Galípolo não apareciam no quadro.

O constrangimento se espraiou. Valdo disse que os diretores estão sob investigação. Mas ninguém lembrou que o chefe deles era Roberto Campos Netto e que os dois trabalhavam para Vorcaro dentro do BC, em salas ao lado do gabinete de Campos Neto.

Traumann observou que ACM Neto recebeu dinheiro de Vorcaro. Mas ninguém falou de Bolsonaro e de Tarcísio, que também receberam doações de campanha, ou do governador Ibaneis Rocha, que armou a tramoia da compra do Master pelo Banco de Brasília.

A conversa durou 14 minutos, mas era tão sem força, tão sem convicção, que Andréia a interrompeu de repente e pediu o intervalo, como se tentasse puxar ar e evitar a perda de controle da situação”.

Ou seja, não só sabia do conteúdo, como o endossou durante toda a reportagem.

Não é o primeiro sinal de manipulação da jornalista. Quando Lula estava em São Bernardo, preparando-se para ser preso, ela anunciou que Lula resistiria. Era o sinal para que a Polícia Federal invadisse o local, com consequências imprevisíveis.

Imediatamente o advogado Marco Aurélio ligou para ela e pediu para retificar a informação. Não foi atendido. Aí ligou para Natuza Nery que imediatamente deu a informação, impedindo a tragédia.

Leia também: Powerpoint da Globonews reabre as feridas de manipulação da mídia https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/globo-na-lama-2.html 

Globo na lama 2

Powerpoint da Globonews reabre as feridas de manipulação da mídia
Inédito pedido de desculpas acende as luzes nos porões das Organizações Globo
Luís Costa Pinto/Liberta 

No dia 5 de janeiro de 2023, antes mesmo que a primeira semana do terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva se encerrasse com a vitória sobre o golpe de Estado dado e vencido em 8 de janeiro daquele ano, a primeira-dama Rosângela da Silva surgiu nas telas da Globo – da GloboNews, em reportagem depois reproduzida no Jornal Nacional – conduzindo a jornalista Natuza Nery pelos corredores, salas e salões do Palácio da Alvorada. Bem produzida num tailleur branco, Janja passeava pela área interna do Palácio revelando o descuido e os maus tratos do casal Bolsonaro, Jair e Michele, com a residência oficial dos presidentes da República.

O Alvorada é uma joia da arquitetura modernista. Seus vãos, os espaços vazios sustentados em beijos de concreto dados pelas colunas icônicas na laje do patamar inferior, são obras-primas que Oscar Niemeyer e Joaquim Cardozo (calculista sem o qual não existiria o genial arquiteto) legaram à humanidade.

Pérfidos, desumanos e toscos, Jair Bolsonaro e Michele conspurcaram aquele espaço de poder no trágico período em que o ocuparam. O descuido do clã Bolsonaro com o Palácio da Alvorada era notícia, sem dúvidas. O país vivia a lua-de-mel com o presidente que retornava ao centro das decisões nacionais, depois de tê-lo ocupado por oito anos, entre 2003 e 2010, e ter deixado o Alvorada para a sucessora surfando em índices de aprovação jamais vistos ou reproduzidos. Lambiam os patamares 90% de ótimo e bom.

A gênese do erro

Denunciar de forma exclusiva pelo microfone da Globo, nas telas do JN e da GloboNews, a incúria do ex-presidente e da ex-primeira-dama com o patrimônio arquitetônico nacional foi a janela de oportunidade usada por Rosângela Silva e pela equipe da Secretaria de Comunicação da Presidência da República à época (comandada pelo ex-ministro Paulo Pimenta) para tentar quebrar a tensão e a desconfiança mútua, sempre presentes entre a Rede Globo, as direções de seus veículos e o Partido dos Trabalhadores de forma genérica – o presidente Lula, em particular.

Foi um erro. E aquele erro, fruto do deslumbramento pueril de quem acabava de ascender a um lugar de poder jamais imaginado, marca até hoje a relação do governo atual com o conjunto da mídia (inclusive a autoproclamada “mídia digital independente”) e com as Organizações Globo, em especial. Então ministro da Secom, o deputado Paulo Pimenta se viu duramente cobrado por aquela entrevista.

Jornalistas independentes, veículos e personalidades jornalísticas, que haviam assumido as trincheiras e a linha de frente do combate ao golpe sem crime de responsabilidade perpetrado na deposição de Dilma Roussef e na resistência à escalada de boçalidade e de incivilidades que conduziram a nação à Era Trágica do bolsonarismo, até mesmo petistas com histórico mais robusto de militância partidária protestaram contra a ingenuidade – para dizer o mínimo – da entrevista exclusiva iniciática dada à Globo.

Depois do deslumbramento da primeira-dama e da ingenuidade da Secom como um todo, sobreveio a arrogância atávica de petistas como Pimenta, que haviam cumprido uma dura trajetória de lutas políticas até poder sentir a glória de sentar o traseiro numa cadeira ministerial no terceiro mandato de Lula: respondeu às reclamações dando azo aos maus bofes e dizendo que ninguém governava uma primeira-dama, “muito menos a Janja”, e que seria assim porque eles é que tinham vencido as batalhas tensas da campanha eleitoral; e eles é que estavam no comando da estratégia vitoriosa. Erro atrás de erro.

Trio de ouro

Em 2003, logo quando assumiu o governo sucedendo a Fernando Henrique Cardoso e no bojo de uma caminhada de redenção democrática em que grupos políticos divergentes (mas não ferrenhamente inimigos) se sucediam no poder, o presidente Lula colocou no comando de sua articulação com a mídia três dos mais respeitados e valorosos jornalistas brasileiros – Ricardo Kotscho, secretário de imprensa; André Singer, porta-voz; e Eugênio Bucci, presidente da extinta Radiobrás (hoje EBC).

Dialogando horizontalmente com todos eles, mas posto acima do trio de ouro do jornalismo no organograma vertical do Palácio do Planalto, estava o então ministro-chefe da Secom, o ex-deputado Luiz Gushiken. “É para dar certo, mas dará muito errado”, perpetrou Kotscho, com a antevisão das águias experientes, ao escutar uma saudação elogiosa à composição da equipe de comunicação do Planalto, ainda na primeira semana do primeiro mandato de Lula. “Dará muito errado porque os donos das empresas têm ranço com o PT e com o Lula, e porque os petistas não sabem se relacionar com jornalistas… Acham que todo mundo é igual, que ninguém tem independência intelectual e que todo mundo é porta-voz de patrão”, completou um dos mais perspicazes e bem aparelhados repórteres da imprensa brasileira ainda em atividade.

Nas últimas semanas, esse histórico de confrontos, conflitos e deslindar de recalques sintetizou-se no já clássico e mal afamado “PowerPoint do Master”, levado ao ar no programa “Estúdio i”, da GloboNews, na tarde da sexta-feira (20/3). Nele, fez-se uma associação descabida e até mesmo criminosa – crime de lesa-informação – entre o presidente Lula e o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e as fraudes financeiras e os crimes contra o Sistema Financeiro Nacional cometidos pelo Banco Master, pelo seu ex-controlador, Daniel Vorcaro, e pelos sócios dele.

Foram colocadas fotografias de Lula e de Galípolo ao lado da efígie do ex-banqueiro Vorcaro e se deixou de colocar na peça pictórica ficcional da Globo a foto do ex-presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, ligado às Organizações Globo pelos laços fúcsia do Nubank e gestor omisso da autoridade monetária nacional quando o Master produziu sua cadeia de ilegalidades e fraudes em série. Também não havia foto do cunhado e sócio de Vorcaro, além de gestor do núcleo de manipulação de informações e de encomenda de coças em jornalistas, Fabiano Zettel. O pastor Zettel, da igreja evangélica Lagoinha, atravessa o samba de todas as fraudes investigadas pelo BC, pela Polícia Federal e pelo Ministério Público. Entretanto, não estava na arte derrogatória da Globo.

O rápido revés do jornalismo da GloboNews

O PowerPoint nefasto, levado ao ar num set onde estavam a apresentadora Andreia Sadi, editora do Estúdio i, e os jornalistas Valdo Cruz e Arthur Dapieve, não foi contestado nem rechaçado pelos profissionais no ar. Foi normalizado. Virou um escândalo instantâneo.

Emparedada por uma forte onda de protestos desencadeados nas redes sociais – quase 90% dos comentários no ecossistema da internet brasileira eram de repúdio ao crime de lesa-informação perpetrado pela Globo –, a emissora recuou e produziu um pedido de desculpas inédito no mesmo programa, “Estúdio i”, na 2ª feira 23/3. Além das desculpas, ocorreram três demissões na área de produção e de edição da GloboNews. Mal feito, catastroficamente planejado, sem um mínimo de checagem factual, a ilustração esquemática televisiva foi produto de uma cadeia de irresponsabilidades só possível quando, numa empresa jornalística, subordinados acham que não têm de velar pela verdade, porque esposam e acompanham as opiniões de seus chefes.

O pedido de desculpas foi inédito pela velocidade com a qual se deu. Afinal, a Rede Globo demorou 50 anos para admitir que apoiou a ditadura militar iniciada em 1964 e que aquilo havia sido um erro histórico. Levou 30 anos para admitir, mais de uma vez, que houve manipulação na edição do último debate presidencial de 1989, entre Lula e Fernando Collor, e que o relato televisivo do embate levado ao ar no Jornal Nacional, no dia seguinte, favorecia Collor e influenciou o resultado eleitoral. No caso do “ppt do Master”, o reconhecimento do erro chegou com menos de 72 horas e ainda se promoveu a retirada do vídeo do ar. Foi um avanço. Mas, não nos permite esquecer o gap de verdades que há nesse relacionamento.

O comando do Partido dos Trabalhadores e o núcleo de governo mais próximo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sabia, desde a sagração da dura vitória eleitoral de 2022, que não havia margem para que ingenuidades fossem cometidas na relação deles com a mídia em geral – e com a Globo, em particular – nesse terceiro mandato.

O histórico de traições de confiança, de falsos equilíbrios de cobertura, de ranhetices recalcitrantes promovidas ao longo dos governos anteriores do próprio Lula e de Dilma Rousseff, não tinha espaço para deslumbramentos encantados e pueris de qualquer um que se imaginasse capaz de conter a natureza pérfida do comando das Organizações Globo no exercício do poder. Por arrogância, por arrivismo político, muitos auxiliares do presidente e mesmo a primeira-dama, Janja, ignoraram os avisos de prudência nos contatos com a Globo e de recomendável desconfiança ao serem postos a escutar cantos de sereias de improváveis mudanças de comportamento.

A dureza da reação do PT, da esquerda em geral, do governo e do lado iluminado da Força jornalística, que atuam na cena política contemporânea, e a rapidez do pedido de desculpas das Organizações Globo, além da inédita admissão de fragilidade da casca de “profissionalismo” da emissora, trazem um legado mais útil e simbólico à conjuntura política brasileira do que os quase 40 anos de relação conflituosa da empresa da família Marinho com amplo espectro da sociedade brasileira. As luzes foram acesas nos porões da Globo, enfim.

A operação Salva-Andréia Sadi da Globo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/globo-na-lama.html

Capital financeiro

John Maynard Keynes e os mistérios do dinheiro
A incerteza radical e o comportamento financeiro moldam decisões de investimento além dos modelos matemáticos
Manfred Back & Luiz Gonzaga Belluzzo*
 

Em um seminário realizado sobre o livro Teoria geral, do juro, do emprego e da renda na Universidade de Campinas, um dos escribas desse artigo teve contato com a grande economista inglesa Joan Robinson, professora em Cambridge.

Conseguiu através dela o contato de John Maynard Keynes, que topou fazer uma entrevista por e-mail. Nesse artigo, vamos destacar alguns pontos dessa entrevista histórica, sobre um dos capítulos fundamentais da Teoria geral, o capítulo XII – “O estado da expectativa a longo prazo”.

Nesse capítulo John Maynard Keynes nos brinda com a psicologia, incerteza, estado de confiança, limitação da matemática e importância da liquidez e o mercado financeiro.

Lord Keynes, ao sair em 1944, da reunião de Bretton Woods foi visionário, ao declarar: I am not a Keynesian (Eu não sou keynesiano), quando percebeu que os ditos keynesianos estavam transformando sua teoria em dogma, ficando marcado como o economista do estímulo de déficit. Essa banalidade não considera que John Maynard Keynes rompeu com as simplificações da ortodoxia.

1.

Nós: Prezado Lord, hoje vemos o predomínio da escola de expectativas racionais, onde as expectativas são formalizadas estatisticamente e matematicamente. Você, que é um grande matemático e estatístico, como vê essa crença de reproduzir dados do passado para prever o futuro?

John Maynard Keynes: “É, portanto, razoável que nos deixemos guiar, em grande parte, pelos fatos que merecem nossa confiança, mesmo se sua relevância para os resultados esperados for menos decisiva do que a de outros fatos a respeito dos quais o nosso conhecimento é vago e limitado. Por essa razão, os fatos atuais desempenham um papel que, em certo sentido, podemos julgar desproporcional na formação de nossas expectativas a longo prazo, sendo que o nosso método habitual consiste em considerar a situação atual e depois projetá-la no futuro, modificando-a apenas na medida em que tenhamos razões mais ou menos definidas para esperarmos uma mudança”.

John Maynard Keynes: posso me alongar nessa questão? Nós:com certeza!

John Maynard Keynes: “O estado da expectativa a longo prazo, que serve de base para as nossas decisões, não depende, portanto, exclusivamente do prognóstico mais provável que possamos formular. Depende, também, da confiança com a qual fazemos este prognóstico – na medida em que ponderamos a probabilidade de o nosso melhor prognóstico revelar-se inteiramente falso”.

Nós: o que deve ser observado com profundidade?

John Maynard Keynes: “Nossas conclusões devem fundamentar-se, principalmente, na observação prática dos mercados e da psicologia dos negócios”.

Nós: por quê? Mesmo com computadores, banco de dados?

John Maynard Keynes: “O fato de maior importância é a extrema precariedade da base do conhecimento sobre o qual temos que fazer os nossos cálculos das rendas esperadas. O nosso conhecimento dos fatores que regularão a renda de um investimento alguns anos mais tarde é, em geral, muito limitado e, com frequência, desprezível. Se falarmos com franqueza, temos de admitir que as bases do nosso conhecimento para calcular a renda provável dentro de dez anos de uma estrada de ferro, uma mina de cobre, uma fábrica de tecidos, a aceitação de um produto farmacêutico, um navio transatlântico ou um imóvel no centro comercial de Londres pouco significam e, às vezes, a nada levam”.

2.

Nós: sentimos uma tentativa contemporânea de parte dos economistas de quererem reinventar a roda. A moda é caracterizar tudo como financeirização,e na formação binária da corrente majoritária nos cursos de economia, essa coisa de lado real x lado monetário. E um total desconhecimento da importância do mercado financeiro como elemento constituinte do sistema. Estamos corretos?

John Maynard Keynes: “Mas a bolsa de valores reavalia, todos os dias, os investimentos e estas reavaliações proporcionam a oportunidade frequente a cada indivíduo (embora isto não ocorra para a comunidade como um todo) de rever suas aplicações. É como se um agricultor, tendo examinado seu barômetro após o café da manhã, pudesse decidir retirar seu capital da atividade agrícola entre as dez e as onze da manhã, para reconsiderar se deveria investi-lo mais tarde, durante a semana”.

Nós: Lord, no seu entendimento avaliações diárias a respeito da liquidez, podem interferir e mudar as expectativas de investimento?

Keynes: “Todavia, as reavaliações diárias da bolsa de valores, embora se destinem, principalmente, a facilitar a transferência de investimentos já realizados entre indivíduos, exercem, inevitavelmente, uma influência decisiva sobre o montante do investimento corrente. Isso porque não há sentido em criar uma empresa nova a um custo maior quando se pode adquirir uma empresa similar existente por um preço menor, ao passo que há indução a aplicar recursos em um novo projeto que possa parecer exigir uma soma exorbitante, desde que esse empreendimento possa ser liquidado na bolsa de valores com lucro imediato”.

Nós: Lord, ao longo do capítulo XII, nos indica que devemos ter humildade para fazer previsão futuro e que a incerteza não é exata, como creem muitos economistas?

John Maynard Keynes: “Os resultados reais de um investimento, no decorrer de vários anos, raras vezes coincidem com as previsões originais. Também não podemos racionalizar a nossa atitude argumentando que para um homem em estado de ignorância, os erros em qualquer sentido são igualmente prováveis e que, portanto, subsiste uma esperança estatística baseada em probabilidades iguais. Isso porque podemos facilmente demonstrar que a hipótese de probabilidades aritmeticamente iguais, baseada em um estado de ignorância, conduz a absurdos… o mercado estará sujeito a ondas de sentimentos otimistas ou pessimistas, que são pouco razoáveis e ainda assim legítimos na ausência de uma base sólida para cálculos satisfatórios”.

*Luiz Gonzaga Belluzzoeconomista, é Professor Emérito da Unicamp. Autor entre outros livros, de O tempo de Keynes nos tempos do capitalismo (Contracorrente). [https://amzn.to/45ZBh4D]

*Manfred Back é graduado em economia pela PUC –SP e mestre em administração pública pela FGV-SP.

Leia também: "Quem controla a tecnologia controla o jogo" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/ciencia-tecnologia-desenvolvimento.html 

Postei nas redes

Folha de S. Paulo admite que "moderação alardeada por Flávio esbarra em projeto bolsonarista e no seu passado político".  Enfim, descobriu a pólvora! 

Benéfica polarização https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/enio-lins-opina_19.html 

Minha opinião

Alianças híbridas

Luciano Siqueira

instagram.com/lucianosiqueira65     

No Brasil, as alianças “híbridas” – composições para a presidência da República destoantes nos estados, em alianças para os governos locais – são um fenômeno recorrente. O mapa que se vai criando para o pleito deste ano o confirma.

As dinâmicas regionais obedecem a interesses locais, forças oligárquicas e rivalidades históricas que, muitas vezes, ignoram as diretrizes nacionais dos partidos, estes em sua grande maioria não programáticos, e sim legendas que abrigam um somatório de interesses individuais ou de grupos relativamente autônomos.

O eleitorado parece habituado a essa discrepância. Vota em Lula para presidente, por exemplo, e num candidato a governador do campo oposto; assim como para o Senado, Câmara e Assembleias Legislativas segundo critério individual e não partidário.

Escrevi aqui e em outros veículos sobre isso muitas vezes. É um fenômeno que reflete a complexidade das diferenças regionais no país, o nível de consciência política da maioria da população e um sistema eleitoral que tudo ou quase tudo permite.

Nesse cenário, o voto em lista para as Casas legislativas, e não uni nominal, como hoje ocorre, seria um passo adiante. O eleitor seria instado a optar por deter minado programa partidário e os eleitos teriam que guardar fidelidade a esse programa. Mas só numa correlação de forças majoritariamente progressista, que hoje não existe, poderá mudar o sistema. Há muita estrada a percorrer.

Duas pedras no jogo de Raquel https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/minha-opiniao-joao-x-raquel.html   

Palavra de poeta

o bolero e o mar
Cida Pedrosa
  

a água dissolve o sol
e meu ouvido rapta ravel

não sou inefável
nem quero a certeza do mar

nesta tarde de barcaças
quero apenas tua boca
a tocar a minha razão

[Ilustração: Lasar Segall]

Leia também “Segunda-feira”, poema de Primo Levi https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/10/palavra-de-poeta_48.html 

Sylvio: sem interferência externa!

A foto de um conselheiro de Trump com Flávio Bolsonaro e sua indicação como futuro presidente do Brasil, além de uma piada é uma grande tentativa de interferência na nossa politica. É melhor que os americanos se preocupem com suas eleições legislativas deste ano, cujas pesquisas são bem desfavoráveis ao Partido Republicano. Cuidem de  seu quintal e fiquem fora do nosso!

Sylvio Belém 

[Ilustração: Cláudio/FSP] 

Qual futebol?

Ai de ti, futebol brasileiro

Luciano Siqueira

instagram.com/lucianosiqueira65    

Faz tempo só vejo futebol pela TV. Não me entusiasma ir aos estádios, inclusive pelo risco que a violência das torcidas organizadas impõe ao simples torcedor. Vejo na TV quando posso.

Não são poucas as vezes que abandono o jogo antes de terminar. Ontem fui até o fim para um teste de paciência. Athletico Paranaense, apenas mediano, sapecou 4 x 1 no Botafogo cheio de craques e sem técncio, nem tática, nem entusiasmo.

Um jogo parecido com muitos outros em solo brasileiro. Nosso futebol vive um paradoxo: enquanto exporta talentos precocemente para a Europa, amarga o esvaziamento da sua identidade criativa em solo nacional. O ex-craque campeão do mundo Tostão tem abordado isso com frequência em sua coluna na Folha de S. Paulo. Aquele futebol bonito, que emocionava pelo drible e surpreendia pela improvisação criativa hoje se faz esquemático ao excesso, apoiado no vigor físico.

​Uma deformidade técnica que tem a ver a desigualdade financeira entre os clubes de todas as divisões, a partir mesmo da Série A, e com uma espécie de pressão pela formação de atletas segundo o padrão europeu.

Será possível um retorno às nossas origens com desenho moderno? Não sei se viverei para ver.

Futebol entre a tática e o talento https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/futebol-taticamente-avancado.html 

Postei nas redes

Segundo The Economist, o Brasil tem uma arma secreta contra choques petrolíferos: os biocombustíveis. Dá para reconhecer o mérito da política energética do governo Lula? 

PIB em janeiro tem maior avanço mensal em um ano https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/boa-noticia_16.html 

29 março 2026

Mercado global vulnerável

O risco invisível do crédito privado global
Por que os maiores bancos do mundo estão apostando contra um mercado que eles mesmos criaram — e o que isso significa para o Brasil
Luís Nassif/Jornal GGN   

Peça 1 . A falsa estabilidade

Quando os mercados parecem calmos demais, aparece a dúvida:  o que está escondido?

O Goldman Sachs tem uma resposta. Em análises internas circuladas nos últimos meses, os estrategistas da instituição cunharam a expressão estabilidade instável. O conceito é simples e aterrorizante ao mesmo tempo. Os mercados não estão tranquilos porque os fundamentos são sólidos. Estão tranquilos porque os agentes econômicos acreditam, coletivamente, que alguém vai intervir antes que a situação se deteriore.

Essa crença tem até nome próprio no jargão de Wall Street: TACO — sigla em inglês para Trump Always Chickens Out, ou seja, “Trump sempre recua”. A ideia é que, diante de qualquer turbulência severa, o poder político vai piscar primeiro. Os mercados, portanto, funcionam numa espécie de aposta permanente de resgate. Não é confiança. É expectativa de socorro.

Essa distinção importa mais do que parece. Um sistema baseado em confiança tem ancoragem nos fundamentos — nos fluxos de caixa, nas garantias, na capacidade de pagamento. Um sistema baseado na expectativa de resgate é, estruturalmente, uma bolha psicológica. Ela não precisa de gatilho econômico para estourar. Basta que a crença vacile.

E há sinais de que ela está começando a vacilar.

Peça 2 . O mercado que cresceu nas sombras

Desde a crise de 2008, os bancos tradicionais sofreram restrições regulatórias significativas. As regras de capital impostas por Basileia III tornaram certos tipos de empréstimo menos rentáveis para as instituições com balanços regulados. O resultado foi previsível: o mercado migrou para onde a regulação não alcança.

Entraram em cena os fundos de crédito privado — estruturas geridas por gestoras como KKR, Apollo, Blackstone, Ares e Blue Owl. Esses fundos captam recursos de investidores institucionais, como fundos de pensão e seguradoras, e emprestam diretamente para empresas, fora do sistema bancário tradicional, sem os mesmos requisitos de transparência ou liquidez.

O resultado: um mercado de aproximadamente 1,8 trilhão de dólares — e crescendo. Um número que, para ter dimensão, representa mais do que o PIB do Brasil.

Diferente dos mercados de ações ou títulos públicos, onde preços são formados continuamente por compradores e vendedores, o crédito privado é marcado pelos próprios gestores. Não há cotação de mercado. Não há liquidez imediata. Não há formação de preços independente. O valor dos ativos é, em larga medida, o que o fundo decide que é. 

Lloyd Blankfein, ex-CEO do Goldman Sachs, foi direto: “Estamos na fase final do ciclo.” O ciclo, no caso, é o ciclo clássico do crédito — crédito barato, expansão agressiva, relaxamento de critérios, entrada do varejo, opacidade crescente, evento gatilho, reprecificação violenta.

Peça 3. O efeito barata

O Goldman Sachs usa uma metáfora que merece atenção.

Quando você vê uma barata, raramente é apenas uma. É o sinal visível de uma colônia invisível.

No contexto do crédito privado, os problemas que têm aparecido na superfície — e há vários — são provavelmente a ponta do iceberg de um problema muito maior, espalhado por uma cadeia de crédito opaca, ilíquida e mal precificada.

Os sinais são concretos e consistentes entre si.

A gestora Blue Owl, um dos maiores players do setor, suspendeu resgates de investidores. Decisões assim têm um precedente histórico claro: lembram os fundos imobiliários na crise de 2008, quando as portas começaram a fechar antes que o público percebesse a extensão dos danos.

O JPMorgan iniciou um processo de reavaliação de garantias nos empréstimos vinculados a fundos de crédito privado — o que no jargão financeiro se chama “marcar para baixo o colateral”. Quando um banco passa a reavaliar o valor das garantias que recebeu, é porque começou a perder confiança na solidez do que está por trás delas.

A exposição bancária ao setor não é marginal: estima-se em 300 bilhões de dólares a dívida dos bancos com empresas de crédito privado. Os bancos não estão do lado de fora olhando para o risco. Estão dentro dele.

Peça 4 . Quando as elites apostam contra si mesmas

Aqui reside talvez o sinal mais revelador de todos.

Goldman Sachs, JPMorgan e Bank of America criaram, nos últimos meses, instrumentos financeiros que permitem apostar contra o crédito privado. Derivativos que ganham valor à medida que o setor se deteriora.

Esse movimento tem um precedente histórico preciso: 2007, quando os mesmos bancos criaram contratos de default — os famosos CDS — para se proteger da exposição a hipotecas subprime. Naquela época, havia quem argumentasse que era apenas uma operação técnica de hedge, de gestão de risco ordinária. Mais tarde ficou claro que era algo mais: as instituições estavam se protegendo de uma crise que elas próprias haviam ajudado a criar.

O sistema financeiro está, em suma, apostando contra si mesmo.

Criar o instrumento, vender para clientes, e depois se proteger comprando o seguro contra a queda — é um padrão que a história financeira já registrou. E as consequências, quando o ciclo fecha, recaem sobre os elos mais fracos da cadeia: os investidores de varejo que entraram por último, os fundos de pensão que buscavam retornos mais altos, as empresas que dependiam do refinanciamento contínuo.

Peça 5. O gatilho que ninguém está discutindo

Há um elemento do risco que permanece sistematicamente sub-analisado nos grandes veículos financeiros: a concentração do crédito privado em empresas de software.

Uma parcela significativa dos empréstimos nesse mercado foi direcionada para companhias de tecnologia e, especificamente, para empresas de software — muitas delas com modelos de receita recorrente, avaliações altas e fluxos de caixa que justificavam o endividamento sob as condições vigentes.

O problema é que o cenário mudou. A disseminação acelerada da inteligência artificial está pressionando os modelos de negócios de dezenas de empresas de software que, até pouco tempo atrás, pareciam blindadas. Funcionalidades que antes exigiam uma assinatura cara estão sendo substituídas por ferramentas de IA. Ciclos de venda estão encolhendo. Margens estão sendo comprimidas.

Quando o choque tecnológico encontra alavancagem financeira, o resultado é potencialmente explosivo. Empresas que tomaram empréstimos com base em projeções de crescimento que já não se sustentam podem começar a ter dificuldades para refinanciar. E esse estresse se propaga para os fundos que carregam esses ativos — que, como vimos, os precificam eles mesmos, longe do escrutínio do mercado.

Enquanto o noticiário se debruça sobre a possibilidade de conflito com o Irã e seus reflexos no petróleo, o sinal mais relevante está sendo ignorado. O petróleo é o ruído. O crédito privado é o sinal.

Peça 6. A diferença com 2008

Em 2008, o risco estava concentrado nos bancos. Isso significava que os instrumentos de intervenção — injeção de capital, garantias de depósito, operações de liquidez do banco central — eram conhecidos e, embora politicamente dolorosos, tecnicamente viáveis. Os reguladores sabiam onde estava o problema.

Hoje, o risco está disperso por uma constelação de fundos privados, veículos estruturados e instrumentos derivativos que não são regulados da mesma forma, não estão sujeitos às mesmas obrigações de reporte e não têm acesso direto às janelas de liquidez dos bancos centrais. Quando a crise chegar — se chegar — os instrumentos de contenção serão muito menos precisos.

Há, ainda, uma diferença de transparência. Títulos hipotecários subprime eram opacos, mas havia um mercado secundário com formação de preços. No crédito privado, a opacidade é estrutural. Não há mercado secundário robusto. A reprecificação, quando acontecer, será descontínua e violenta — não um deslizamento gradual, mas um salto de penhasco.

Peça 7. O Brasil no espelho

O leitor brasileiro pode ser tentado a considerar tudo isso como problema alheio. Seria um erro.

O Brasil construiu, nos últimos anos, na gestão Roberto Campos Neto, sua própria versão do mercado de crédito privado — com especificidades locais, mas com dinâmicas que ecoam o padrão global com impressionante fidelidade.

Os FIDCs — Fundos de Investimento em Direitos Creditórios — são o equivalente doméstico mais visível. Estruturas que compram recebíveis de empresas, empacotam como títulos e distribuem para investidores. O mercado cresceu aceleradamente, atraiu investidores de varejo via plataformas digitais e acumulou, em vários casos, exposição a devedores de qualidade questionável.

O caso Banco Master concentrou, em 2024 e 2025, a atenção do mercado e dos reguladores. A instituição operou durante anos como um motor de captação agressiva, oferecendo retornos acima da média por meio de instrumentos como CDBs e LCIs distribuídos em plataformas populares — e usando esses recursos para financiar operações de crédito estruturado de risco elevado. Quando o Banco Central passou a examinar a situação com mais atenção, os problemas de liquidez vieram à tona. O episódio serviu como alerta — mas não necessariamente como lição aprendida.

A dinâmica é a mesma: captação de varejo, alocação em ativos ilíquidos, opacidade na precificação, expectativa de que “alguém vai resolver”. O TACO tem tradução brasileira. Chama-se FGC — Fundo Garantidor de Créditos. A crença de que o seguro cobrirá os danos alimenta, silenciosamente, a tomada de risco além do razoável.

A securitização brasileira está longe da escala americana. Mas os padrões comportamentais são os mesmos, e os amortecedores regulatórios — embora o Banco Central seja uma instituição séria — não foram desenhados para conter uma crise de crédito estruturado de largo espectro.

Peça 8. O que vem a seguir

Ninguém sabe quando o ciclo fecha. Essa é a característica das crises de crédito: elas são invisíveis até que se tornem inevitáveis, e inevitáveis até que se tornem óbvias.

O que se pode observar são as condições. E as condições atuais — mercado de crédito privado de 1,8 trilhão de dólares, opaco, ilíquido, com exposição concentrada em ativos tecnológicos sob pressão, com os maiores bancos criando instrumentos para se proteger da queda, com os primeiros sinais de estresse já visíveis — constituem o perfil clássico do que os economistas chamam de risco sistêmico latente.

O ex-CEO do Goldman Sachs disse que estamos na fase final do ciclo. A questão não é se a fase final termina. É quando, e com que velocidade, e quem está posicionado do lado errado quando isso acontecer.

O sistema financeiro global não está mais baseado em confiança. Está baseado na expectativa de resgate. E essa diferença é tudo.

"Uma crítica oportuna, mas insuficiente" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/minha-opiniao_15.html