Powerpoint da Globonews reabre as feridas de manipulação da mídia
Inédito pedido de desculpas acende as
luzes nos porões das Organizações Globo
Luís Costa
Pinto/Liberta
No dia 5 de janeiro de 2023, antes mesmo que a primeira semana do terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva se encerrasse com a vitória sobre o golpe de Estado dado e vencido em 8 de janeiro daquele ano, a primeira-dama Rosângela da Silva surgiu nas telas da Globo – da GloboNews, em reportagem depois reproduzida no Jornal Nacional – conduzindo a jornalista Natuza Nery pelos corredores, salas e salões do Palácio da Alvorada. Bem produzida num tailleur branco, Janja passeava pela área interna do Palácio revelando o descuido e os maus tratos do casal Bolsonaro, Jair e Michele, com a residência oficial dos presidentes da República.
O Alvorada é uma joia da arquitetura modernista. Seus vãos, os espaços vazios sustentados em beijos de concreto dados pelas colunas icônicas na laje do patamar inferior, são obras-primas que Oscar Niemeyer e Joaquim Cardozo (calculista sem o qual não existiria o genial arquiteto) legaram à humanidade.
Pérfidos, desumanos e toscos, Jair Bolsonaro e Michele conspurcaram aquele espaço de poder no trágico período em que o ocuparam. O descuido do clã Bolsonaro com o Palácio da Alvorada era notícia, sem dúvidas. O país vivia a lua-de-mel com o presidente que retornava ao centro das decisões nacionais, depois de tê-lo ocupado por oito anos, entre 2003 e 2010, e ter deixado o Alvorada para a sucessora surfando em índices de aprovação jamais vistos ou reproduzidos. Lambiam os patamares 90% de ótimo e bom.
A gênese do erro
Denunciar de forma exclusiva pelo microfone da Globo, nas telas do JN e da GloboNews, a incúria do ex-presidente e da ex-primeira-dama com o patrimônio arquitetônico nacional foi a janela de oportunidade usada por Rosângela Silva e pela equipe da Secretaria de Comunicação da Presidência da República à época (comandada pelo ex-ministro Paulo Pimenta) para tentar quebrar a tensão e a desconfiança mútua, sempre presentes entre a Rede Globo, as direções de seus veículos e o Partido dos Trabalhadores de forma genérica – o presidente Lula, em particular.
Foi um erro. E aquele erro, fruto do deslumbramento pueril de quem acabava de ascender a um lugar de poder jamais imaginado, marca até hoje a relação do governo atual com o conjunto da mídia (inclusive a autoproclamada “mídia digital independente”) e com as Organizações Globo, em especial. Então ministro da Secom, o deputado Paulo Pimenta se viu duramente cobrado por aquela entrevista.
Jornalistas independentes, veículos e personalidades jornalísticas, que haviam assumido as trincheiras e a linha de frente do combate ao golpe sem crime de responsabilidade perpetrado na deposição de Dilma Roussef e na resistência à escalada de boçalidade e de incivilidades que conduziram a nação à Era Trágica do bolsonarismo, até mesmo petistas com histórico mais robusto de militância partidária protestaram contra a ingenuidade – para dizer o mínimo – da entrevista exclusiva iniciática dada à Globo.
Depois do deslumbramento da primeira-dama e da ingenuidade da Secom como um todo, sobreveio a arrogância atávica de petistas como Pimenta, que haviam cumprido uma dura trajetória de lutas políticas até poder sentir a glória de sentar o traseiro numa cadeira ministerial no terceiro mandato de Lula: respondeu às reclamações dando azo aos maus bofes e dizendo que ninguém governava uma primeira-dama, “muito menos a Janja”, e que seria assim porque eles é que tinham vencido as batalhas tensas da campanha eleitoral; e eles é que estavam no comando da estratégia vitoriosa. Erro atrás de erro.
Trio de ouro
Em 2003, logo quando assumiu o governo sucedendo a Fernando Henrique Cardoso e no bojo de uma caminhada de redenção democrática em que grupos políticos divergentes (mas não ferrenhamente inimigos) se sucediam no poder, o presidente Lula colocou no comando de sua articulação com a mídia três dos mais respeitados e valorosos jornalistas brasileiros – Ricardo Kotscho, secretário de imprensa; André Singer, porta-voz; e Eugênio Bucci, presidente da extinta Radiobrás (hoje EBC).
Dialogando horizontalmente com todos eles, mas posto acima do trio de ouro do jornalismo no organograma vertical do Palácio do Planalto, estava o então ministro-chefe da Secom, o ex-deputado Luiz Gushiken. “É para dar certo, mas dará muito errado”, perpetrou Kotscho, com a antevisão das águias experientes, ao escutar uma saudação elogiosa à composição da equipe de comunicação do Planalto, ainda na primeira semana do primeiro mandato de Lula. “Dará muito errado porque os donos das empresas têm ranço com o PT e com o Lula, e porque os petistas não sabem se relacionar com jornalistas… Acham que todo mundo é igual, que ninguém tem independência intelectual e que todo mundo é porta-voz de patrão”, completou um dos mais perspicazes e bem aparelhados repórteres da imprensa brasileira ainda em atividade.
Nas últimas semanas, esse histórico de confrontos, conflitos e deslindar de recalques sintetizou-se no já clássico e mal afamado “PowerPoint do Master”, levado ao ar no programa “Estúdio i”, da GloboNews, na tarde da sexta-feira (20/3). Nele, fez-se uma associação descabida e até mesmo criminosa – crime de lesa-informação – entre o presidente Lula e o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e as fraudes financeiras e os crimes contra o Sistema Financeiro Nacional cometidos pelo Banco Master, pelo seu ex-controlador, Daniel Vorcaro, e pelos sócios dele.
Foram colocadas fotografias de Lula e de Galípolo ao lado da efígie do ex-banqueiro Vorcaro e se deixou de colocar na peça pictórica ficcional da Globo a foto do ex-presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, ligado às Organizações Globo pelos laços fúcsia do Nubank e gestor omisso da autoridade monetária nacional quando o Master produziu sua cadeia de ilegalidades e fraudes em série. Também não havia foto do cunhado e sócio de Vorcaro, além de gestor do núcleo de manipulação de informações e de encomenda de coças em jornalistas, Fabiano Zettel. O pastor Zettel, da igreja evangélica Lagoinha, atravessa o samba de todas as fraudes investigadas pelo BC, pela Polícia Federal e pelo Ministério Público. Entretanto, não estava na arte derrogatória da Globo.
O rápido revés do jornalismo da GloboNews
O PowerPoint nefasto, levado ao ar num set onde estavam a apresentadora Andreia Sadi, editora do Estúdio i, e os jornalistas Valdo Cruz e Arthur Dapieve, não foi contestado nem rechaçado pelos profissionais no ar. Foi normalizado. Virou um escândalo instantâneo.
Emparedada por uma forte onda de protestos desencadeados nas redes sociais – quase 90% dos comentários no ecossistema da internet brasileira eram de repúdio ao crime de lesa-informação perpetrado pela Globo –, a emissora recuou e produziu um pedido de desculpas inédito no mesmo programa, “Estúdio i”, na 2ª feira 23/3. Além das desculpas, ocorreram três demissões na área de produção e de edição da GloboNews. Mal feito, catastroficamente planejado, sem um mínimo de checagem factual, a ilustração esquemática televisiva foi produto de uma cadeia de irresponsabilidades só possível quando, numa empresa jornalística, subordinados acham que não têm de velar pela verdade, porque esposam e acompanham as opiniões de seus chefes.
O pedido de desculpas foi inédito pela velocidade com a qual se deu. Afinal, a Rede Globo demorou 50 anos para admitir que apoiou a ditadura militar iniciada em 1964 e que aquilo havia sido um erro histórico. Levou 30 anos para admitir, mais de uma vez, que houve manipulação na edição do último debate presidencial de 1989, entre Lula e Fernando Collor, e que o relato televisivo do embate levado ao ar no Jornal Nacional, no dia seguinte, favorecia Collor e influenciou o resultado eleitoral. No caso do “ppt do Master”, o reconhecimento do erro chegou com menos de 72 horas e ainda se promoveu a retirada do vídeo do ar. Foi um avanço. Mas, não nos permite esquecer o gap de verdades que há nesse relacionamento.
O comando do Partido dos Trabalhadores e o núcleo de governo mais próximo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sabia, desde a sagração da dura vitória eleitoral de 2022, que não havia margem para que ingenuidades fossem cometidas na relação deles com a mídia em geral – e com a Globo, em particular – nesse terceiro mandato.
O histórico de traições de confiança, de falsos equilíbrios de cobertura, de ranhetices recalcitrantes promovidas ao longo dos governos anteriores do próprio Lula e de Dilma Rousseff, não tinha espaço para deslumbramentos encantados e pueris de qualquer um que se imaginasse capaz de conter a natureza pérfida do comando das Organizações Globo no exercício do poder. Por arrogância, por arrivismo político, muitos auxiliares do presidente e mesmo a primeira-dama, Janja, ignoraram os avisos de prudência nos contatos com a Globo e de recomendável desconfiança ao serem postos a escutar cantos de sereias de improváveis mudanças de comportamento.
A dureza da reação do PT, da esquerda em geral, do governo e do lado iluminado da Força jornalística, que atuam na cena política contemporânea, e a rapidez do pedido de desculpas das Organizações Globo, além da inédita admissão de fragilidade da casca de “profissionalismo” da emissora, trazem um legado mais útil e simbólico à conjuntura política brasileira do que os quase 40 anos de relação conflituosa da empresa da família Marinho com amplo espectro da sociedade brasileira. As luzes foram acesas nos porões da Globo, enfim.

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